  
  
  
  Novembro de 1661. Numa manh de sol, os repiques dos sinos, o soar dos carrilhes e os disparos do canho da Bastilha inundam Paris em delrio. A Rainha Maria 
Teresa deu  luz um menino. "Um delfim! Viva o delfim!", gritam todos em festa. Jorra o vinho das fontes, nas ruas distribuem-se iguarias,  noite h queima de fogos 
de artifcio. "O povo se deleita com o espetculo", comenta o prprio Lus XTV.
  O perodo  de paz e de reconstruo nacional. Por um momento so esquecidas as diferenas e injustias. No foi o Prncipe de Conde, um dos nobres revoltosos, 
perdoado? A Igreja abenoa o herdeiro. A Frana  um pas rico e em expanso. A Coroa, sob o zelo administrativo de Colbert, investe no mercantilismo de alm-mar, 
na Companhia das ndias Ocidentais. O Rei-Sol, vaidoso de seu poder e tambm amante do espetculo, despende somas fabulosas no aformoseamento de Versalhes, um monumento 
a seu luxo e grandeza.
  A margem da corte, Anglica procura um meio de voltar a ser uma grande dama, caminhar entre os prncipes do reino. Aconselhada pelo irmo jesuta, resolve se casar 
outra vez. Est disposta a tudo para frequentar os jardins de Versalhes e ser vista pelo rei. Quem ir impedi-la?
  
  
  "Voc despertou em mim uma chama viva", suspira o prncipe apaixonado. "Seja minha amante!"
  Anglica comeou a sonhar com um novo amor, quem sabe um casamento. Havia mudado de vida, era agora uma prspera burguesa, morando com conforto e fazendo planos 
ambiciosos.
  Depois do suplcio no Ptio dos Milagres, entre os mendigos, as misrias do passado pareciam esquecidas. Ela s pensava em reencontrar um nome e tornar a ser uma 
grande dama, ser apresentada  corte em Versalhes, abalar o corao dos prncipes.
  Sua vida, contudo, seria palco de uma nova tragdia e de um escndalo, que ameaariam destruir-lhe as esperanas. Ao mesmo tempo, chegavam-lhe aos ouvidos estranhas 
revelaes sobre a morte do marido, o Conde Joffrey de Peyrac.
  Estaria a doce Marquesa dos Anjos condenada ao eterno padecer,  incerteza e a derrota?
  De posse de um trunfo inesperado, Anglica planejaria contra seus inimigos uma vingana fulminante. Um a um, ela os desgraaria - mesmo que fosse preciso manchar 
os degraus do trono de Lus XIV!
  
  Ttulo: A vingana de Anglica
  Autor: Anne e Serge Golon
  Ttulo original: 
  Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1989
  Publicao original: 
Gnero: Romance Histrico
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida
  
  
  A vingana de Anglica
  Anne e Serge Golon
  
  Inverno de 1662. Enquanto o frio e a fome assolavam Paris, Anglica prosperava. Depois do audacioso banquete das floristas com que se impusera como scia ao mestre 
Bourjus na rtisserie do Galo Atrevido, a astuta Marquesa dos Anjos acalentava outro plano ambicioso; lanar, com a ajuda de Davi Chaillou, sobrinho do taberneiro, 
o hbito de uma bebida at ento desconhecida na Frana - o chocolate. Do sombrio passado de mendicncia ela resgatara, alm dos filhos Florimond e Cantor, a jovem 
Rosina e os meninos Flipot e Linot, conservando ainda a indispensvel proteo do Grande Cosre, rei de todos os marginais da cidade. Mas cada vez que olhava as 
guas do Sena ou o burburinho do Pont Neuf vinham-lhe  memria imagens familiares: como a do Grande Mateus, com suas curas milagrosas; ou do policial Desgrez e 
seu temvel co Sorbonne - alm do galante desconhecido, do romntico encontro no barco de feno... Apesar de tudo, no Galo Atrevido, que se especializara em banquetes 
de confrarias, a freguesia aumentava. O requintado servio que Anglica institura, ajudada pela antiga criada Brbara, adquiria renome junto a uma clientela mais 
distinta...
  
  A TABERNA DA MSCARA VERMELHA
  
  CAPITULO I
  
  Celebridade da Taberna da Mscara Vermelha
  
  -Minha filha, que Deus me condene se eu tornar a pr os ps em uma bodega onde se engana desta maneira o mais fino dos paladares de Paris!
  Brbara, ouvindo-essa declarao solene, correu para a cozinha. O fregus queixava-se! Era a primeira vez que ele vinha sentar-se sozinho, silencioso e coberto 
de cetins e de fitas, na rtisserie do Galo Atrevido.
  Preparado ele mesmo como um belo prato, comia com expresso religiosa e pagava o dobro da conta apresentada.
  Sua declarao, estrondosa corno uma trovoada num cu sem nuvens, merecia que se lhe prestasse ateno.
  Anglica apresentou-se imediatamente a ele. O gentil-homem examinou-a da cabea aos ps. Parecia de muito mau humor. Mas a beleza e, talvez, a invulgar distino 
da jovem surpreenderam-no.
  Aps uma hesitao, ele continuou:
  -        Minha filha, devo preveni-la de que no porei mais os ps em seu estabelecimento se, uma s vez ainda, me enganarem desta forma.
  Anglica esforou-se por assumir o ar mais humilde e perguntou o que no estava indo bem.
  A essa pergunta, o cliente ergueu-se na maior agitao. Ele estava carmesim, e ela teve vontade de dar-lhe uma palmada nas costas, indagando de si mesma se porventura 
um osso no lhe tinha ficado atravessado na garganta.
  Afinal, o outro recuperou a voz:
  -        Minha bela, voc pode adivinhar, pelo meu aspecto, que eu tenho em minha casa muitos criados para no precisar vir jantar num albergue. Tambm no entrei 
aqui, pela primeira vez, seno por acaso, atrado pelo cheiro divino que flutuava  sua porta. Para minha grande surpresa, comi uma dessas omeletes como eu mesmo, 
escute-me, eu, conselheiro no Parlamento, eu no seiprepararl Anglica, depois de rpida olhadela  mesa, pde convencer-se, diante da garrafa de borgonha quase 
cheia, que a embriaguez no estava presente na esquisitice daquele discurso. Assim, ela reprimiu sua vontade de rir, e disse em tom inocente:
  -        Maitre, ns no somos seno modestos negociantes, e ainda temos de aprender tudo. Eu ignorava, confesso-o, que os conselheiros do Parlamento fossem to 
difceis...
  Todo entregue ao seu tema, o cliente continuava a expor sua queixa. A omelete que lhe haiam servido naquele dia em nada lembrava aquela de que ele guardara uma 
divina recordao.
  -        No entanto, os ovos so frescos... - aventurou Anglica.
Mas o conselheiro do Parlamento interrompeu-a com um gesto dramtico:
  -        S faltava que o no fossem! No  essa a questo. Eu quero saber quem preparou a omelete do outro dia. Porque no  possvel crer que possam fazer-me 
comer esta, sob o rtulo da primeira.
  Aps refletir, Anglica recordou que ela prpria havia preparado a famosa omelete.
  -        Estou contente de saber que ela o agradou - disse Anglica -, mas confesso que foi um pouco por acaso que ela lhe foi servi
da de improviso. Em geral  necessrio fazerem-me a encomenda com antecedncia, a fim de que eu possa reunir todos os ingredientes que a compem.
  Um claro de cobia brilhou nos pequenos olhos porcinos da personagem. Com voz suplicante, ele pediu a Anglica que lhe desse a receita, e ela teve de defender 
o segredo com a mesma tenacidade com que defenderia sua virtude.
  Sendo uma criatura prtica e tendo rapidamente julgado o indivduo, ela decidiu que ele era dessas pessoas que  preciso conduzir a cacete, em consequncia do 
qu, ele se tornaria uma inesgotvel fonte de lucros para o Galo Atrevido.
  Gravemente, ela ps as mos nos quadris para representar seu papel de albergueira afvel mas astuta, e disse-lhe que ele no devia ignorar que, por tradio secular, 
os mestres-cucas no transmitiam suas receitas mais notveis seno em troca de metal sonante e de peso legal.
  Malgrado sua condio social elevada, o gordo senhor soltou duas ou trs pragas, depois, com um suspiro, conveio que a coisa era leal- Estava entendido, ele pagaria 
bom preo, mas com a condio de que a nova obra-prima fosse idntica  primeira. Ele traria, para a arbitragem, um grupo dos mais finos entendidos do palcio e 
do Parlamento.
  Anglica saiu-se muito bem na prova e foi calorosamente felicitada pela elegante assistncia. Depois, a receita escrita foi entregue contra pesada bolsa do Conselheiro 
du Bernay, que a leu com voz to emocionada como se se tratasse de uma carta de amor:
  -        "Ponha em uma dzia de ovos batidos um pouco de cebolinha verde, uma ou duas cristas de galo grelhadas, trs ou quatro ramos de pimpinela, duas ou trs 
folhas de borragens, outras tantas de buglossa, cinco ou seis folhas de azeda redonda, um ou dois ramos de tomilho, duas ou trs folhas de alface tenra, um pouco 
de manjerona, de hissopo e de agrio. Cozer o todo em fogo vivo,
numa frigideira em que se tenha posto uma parte de azeite e uma parte de manteiga de Vanves, tendo-se o cuidado de no deixar pegar no fundo. Regar com creme fresco".
  Depois dessa leitura houve um silncio respeitoso, e o conselheiro disse gravemente a Anglica:
  -        Senhorita, reconheo que eu mesmo, por uma quantia mais importante do que a que lhe paguei, nunca teria podido resolver-me a transmitir tal segredo, digno 
somente dos deuses. Quero ver nisso o desejo que voc teve de nos ser amvel. Meus amigos e
eu saberemos recompensar-lhe frequentando amide este agradvel lugar.
  Foi assim que Anglica obteve a refinada clientela dos "gulosos". Ela teve l o Conde de Broussin, Bussy-Rabutin, o Marqus de Flandry. Para esses senhores, os 
prazeres da mesa sobrepunham-se a todos os outros, inclusive os do amor. E as carruagens e as cadeirinhas comearam a parar sob a tabuleta do Galo Atrevido, tal 
como ela sonhara.
  Burgueses, homens de letras, mdicos vieram tambm.
  Eles tinham o hbito de discorrer at perder o flego sobre as propriedades medicinais dos alimentos que lhes eram apresentados.
  -        Eis um lombo de cabrito montsguisado que lhes recomendo, senhores - dizia o Dr. Lambert-Martin a seus amigos. - Pretendemos que as agitaes deste animal, 
sua ligeireza e sua alegria purificam as carnes de todas as superfluidades... E, depois deste
guisado, que nos dar, minha bela?
  - Chifres-de-veado fritos - respondia Anglica. - Dizem que  excelente para manter no lugar os de certos maridos.
  Em 1663, Anglica aproveitou os lazeres forados da Quaresma para realizar trs projetos que afagava.
  Em primeiro lugar, ela se mudou. Jamais gostara daquele quarteiro estreito e agitado,  sombra do Grande Chtelet. Encontrou no belo bairro do Marais uma casa 
de dois pavimentos e trs cmodos, que lhe pareceu um palcio.
  Era na Rue des Francs-Bourgeois, no longe da esquina da Rue Vieille-du-Temple. Sob Henrique IV, um financista havia comeado a construir ali uma bela manso de 
tijolos e pedras de cantaria. Mas, arruinado pelas guerras ou por suas fraudes, ele fora forado a deixar inacabada a construo. Somente o prtico, ladeado por 
dois aposentos que precediam o grande ptio interno, tinha sido terminado. Uma velhinha, que era proprietria do imvel, no se sabia bem por qu, habitava de um 
lado da abbada. Alugou o outro lado a Anglica, por preo mdico.
  No rs-do-cho, duas janelas, solidamente gradeadas, alumiavam um corredor que conduzia  minscula cozinha e a um quarto bastante vasto, em que Anglica se acomodou. 
O belo quarto do pavimento superior foi reservado s crianas, que ali se instalaram em companhia de sua governanta, Brbara, que deixara o servio de mestre Bourjus 
para entrar ao da "Sr,a. Morens". Era assim que Anglica decidira fazer-se chamar. Um dia, talvez, poderia ela juntar a este nome a partcula nobiliria. Dessa maneira, 
os meninos usariam o nome de seu pai: De Morens. E mais tarde ela procuraria reivindicar para eles os ttulos, se no o patrimnio.
  Ela no perdia a esperana.  dinheiro tudo pode. Ela j no estava "em sua casa"?
  Brbara tinha deixado sem pesar a rtisserie. No gostava daquela profisso e s sentia prazer com "seus pequenos". Havia algum tempo que ela se ocupava exclusivamente 
deles. Para substitu-la Anglica tinha admitido duas cozinheiras e uma ajudante. Com Rosina, que se tornara uma amvel e esperta criada, Flipot como aprendiz de 
cozinheiro e Linot, que estava particularmente encarregado de distrair os fregueses e de vender folhados, pastis e bar-quilhos, o pessoal do Galo Atrevido havia-se 
notabilizado.
  Na Rue des Francs-Bourgeois, Brbara e as crianas estariam tranquilas.
  Na tarde em que ali chegou, Anglica, em sua excitao, no cessava de subir de um pavimento ao outro. No havia muitos mveis: um leito em cada quarto, uma caminha 
de criana, duas mesas, trs cadeiras, almofadas de pelcia para sentar. Mas o fogo danava na lareira, e o grande quarto recendia frituras.  com as frituras que 
se batiza uma morada.
  O co Patou abanava a cauda, e'a pequena criada Javotte sorria a Florimond, que em troca lhe retribua.
  Pois Anglica tinha ido buscar em Neuilly os antigos companheiros de misria de Florimond e de Cantor. Ao instalar-se na Rue des Francs-Bourgeois, ela pensara 
na necessidade de ter um co de guarda. O bairro do Marais era isolado e perigoso de noite, com seus grandes terrenos baldios, suas plantaes isolando as casas 
umas das outras. A proteo de Traseiro de Pau fora granjeada por Anglica, mas, na sombra, os ladres podiam errar o alvo. Assim, vieram-lhe  lembrana a mocinha 
a quem seus dois filhos deviam, sem qualquer dvida, a vida e o animal que abrigara a angstia de Florimond-
  A ama no a reconheceu, porque Anglica usava mscara e tinha vindo em carruagem de aluguel. Pela soma que lhe props, a boa mulher foi toda sorrisos e deixou 
partir sem pesar a garota, que era sua sobrinha, e o co. Anglica perguntava a si mesma qual seria a reao de Florimond, mas os dois recm-vindos no pareceram 
ter seno boas recordaes. Finalmente, era ela, Anglica, quem, olhando Javotte e Patou, sentia o corao fendido ao recordar Florimond no canil, e jurava novamente 
que seus filhos nunca mais sentiriam fome nem frio.
  Naquela tarde ela fizera loucuras. Havia comprado brinquedos. No desses moinhos ou dessas cabeas de cavalo enfiadas em um pau, que podiam ser adquiridos por 
alguns soldos no Pont Neuf. Mas brinquedos da galeria do palcio, que se dizia serem fabricados em Nuremberg: um pequeno coche de madeira dourada com quatro bonecas, 
trs cezinhos de vidro, um apito de marfim, e, para Cantor, um ovo de madeira pintado, que continha vrios outros.
  Contemplando sua pequena famlia, Anglica disse a Brbara:
  -        Um dia, Brbara, esses dois jovens iro  Academia de Montparnasse, e ns os apresentaremos  corte.
  E Brbara respondeu, juntando, as mos:
  -        Eu o creio, senhora.
  Nesse momento, o campainheiro dos mortos passou pela rua.
  "Escutem, criaturas que dormem, Roguem a Deus pelos defuntos!" Anglica, furiosa, correu  janela e despejou-lhe um jarro d'gua  cabea.
  A segunda iniciativa de Anglica foi trocar a tabuleta da rtisse-rie do Galo Atrevido, a qual, em virtude de seu xito, passou a chamar-se Taberna da Mscara 
Vermelha. A jovem tinha grandes ambies, pois, alm de uma placa de ferro forjada, disposta salientemente sobre a rua, e que representaria, sem dvida, uma mscara 
de carnaval, ela desejava uma tabuleta pintada, que se fixaria em cima da porta.
  Um dia, voltando do mercado, ela parou de repente diante da loja de um comerciante de armas. Vira que a tabuleta representava um velho militar de barba branca 
a beber vinho em seu capacete, enquanto seu pique, apoiado perto dele, brilhava em todo o seu ao.
  -        Mas este  o velho Guilherme! - exclamou Anglica.
Precipitou-se para o interior da loja, onde o dono lhe disse que a obra-prima existente sobre sua porta era trabalho de um pintor chamado Gontran Sanc, que morava 
no Faubourg Saint-Marcel.
  Anglica, com o corao batendo, correu ao endereo indicado. No terceiro andar de uma casa de modesta aparncia, uma jovem, pequena, sorridente e rosada, veio 
abrir.
  No estdio, Anglica descobriu Gontran diante do seu cavalete, no meio de suas telas e de suas cores: azul-celeste, vermelho-escuro, azul-cinza, verde-da-hungria... 
Fumava cachimbo e pintava um anjinho nu, cujo modelo era uma bela menina de alguns meses, deitada sobre um tapete de veludo azul.
  A visitante, que estava mascarada, falou, para comear, da tabuleta da loja de armas. Depois, tirando a mscara e rindo, ela se fez reconhecer. Pareceu-lhe que 
Gontran estava sinceramente feliz de rev-la. Ele se parecia cada vez mais com o pai, tinha o mesmo modo, para escutar, de pr as mos sobre os joelhos, como um 
vendedor de cavalos. Comunicou a Anglica que conseguira passar a mestre e que havia casado com a filha de seu antigo patro Van Ossel.
  -        Mas voc fez um casamento desigual! - exclamou Anglica com assombro, aproveitando a ausncia da pequena holandesa, que estava na cozinha.
  -        E voc? Se bem compreendi, voc  a gerente de uma taberna, e d de beber a muitas pessoas que esto bem abaixo da minha condio.
  Depois de um instante de silncio,/ele continuou, no sem malcia:
  -        E voc se apressou em ver-me, sem hesitao, sem falsa vergonha! Ter-se-ia apressado da mesma maneira para anunciar sua presente situao a Raimundo, 
que acaba de ser nomeado confessor da rainha-me? A nossa irm Maria Ins, donzela de honor da rainha e que se prostituiu no Louvre, segundo a regra daquele enxame 
de belezas? Ou mesmo ao pequeno Alberto, que  pajem do Marqus de Rochant?
  Anglica reconheceu que se havia afastado mais daquela parte de sua famlia. Perguntou o que era feito de Dionsio.
  - Est no exrcito. Nosso pai est contente. Afinal, um Sanc a servio do rei! Joo Maria, o caula, est no colgio. Pode ser que Raimundo lhe arranje um benefcio 
eclesistico, pois est nas melhores relaes cm o confessor do rei, que detm a folha de nomeaes. Acabaremos tendo um bispo na famlia.
  - Voc no acha que ns somos uma famlia encantadora? - perguntou Anglica, meneando a cabea. - Existem Sancs de alto a baixo da escala.
  - Hortnsia navega entre duas guas, com seu marido procurador. Eles tm muitas relaes, mas vivem em dificuldades. Com a histria do resgate dos cargos, h bem 
quatro anos que o Estado no lhes paga um soldo.
  - Voc os tem visto?
  - Tenho. Assim como a Raimundo e aos outros. Ningum se sente orgulhoso de me encontrar. Mas cada um est contente de ter seu retrato.
  Anglica teve uma breve hesitao.
  - E... quando se encontram... falam de mim?
  - Nunca! - disse duramente o pintor. - Voc  uma recordao muito cruel para ns, uma catstrofe, uma derrocada que nos esmagou o corao, por pouco que ns o 
tenhamos. Felizmente poucas pessoas souberam que voc er.a nossa irm... voc, a mulher do feiticeiro que queimaram na Place de Greve!
  No entanto, enquanto falava, ele lhe tomara a mo na sua, manchada de tinta e tornada spera pelos cidos. Afastou-lhe os dedos, tocou aquela palma mida que conservava 
o trao das bolhas, das queimaduras do forno, e pousou nela a face, num gesto de afeio carinhosa. Gesto que ele fazia, s vezes, na infncia...
  A garganta de Anglica doa tanto que ela pensou que fosse chorar. Mas havia muito tempo que ela no chorava! Suas ltimas lgrimas, ela as tinha vertido muito 
antes da morte de Joffrey. Perdera de todo o hbito.
  Retirou sua mo, e disse quase secamente, olhando, em seu redor, as telas encostadas na parede:
  - Voc faz coisas muito belas, Gontran.
  - Sim. E no entanto os grandes senhores tratam-me por "voc" e os burgueses olham-me com arrogncia, porque essas belas coisas, eu as fao com as minhas mos. 
Querero que eu trabalhe com os ps? E em que o manejo da espada representa uma obra menos manual e menos desprezvel que o manejo do pincel?
  Ele sacudiu a cabea, e um sorriso iluminou-lhe a fisionomia. O casamento tornara-o mais jovial e mais tagarela.
  -        Irmzinha, eu tenho confiana. Um dia, ns iremos ambos  corte, iremos a Versalhes. O rei procura artistas em grande nmero. Pintarei os tetos dos apartamentos, 
o retrato de prncipes e de princesas, e o rei me dir: "O senhor faz coisas muito belas".
E a voc ele dir: "A senhora  a mais bela mulher de Versalhes".
  Soltaram juntos uma gargalhada.
  
  CAPITULO II
  
  Anglica decide "lanar" o chocolate - O mordomo Audiger faz-lhe a corte
  
  O terceiro projeto de Anglica consistia em lanar entre a sociedade parisiense a extica bebida a que chamavam "chocolate". A ideia no lhe saa da'cabea, apesar 
da decepo que lhe havia causado seu primeiro contato com aquela estranha mistura.
  Davi mostrara-lhe a famosa carta-patente de seu pai.
  A carta pareceu  jovem apresentar todos os indcios de autenticidade e de legalidade. Continha at a assinatura do Rei Lus XIV, concedendo ao Sr. Chaillou o 
privilgio exclusivo de fabricar e vender chocolate na Frana, e especificando que a dita carta era vlida por vinte e nove anos.
  "Esse jovem est absolutamente inconsciente do valor do tesouro de que  herdeiro", pensou Anglica. "E preciso fazer alguma coisa com esse papel."
  Perguntou a Davi se ele tivera ocasio de fabricar chocolate com seu pai. E de que utenslios se servia.
  O aprendiz de cozinheiro, que estava muito feliz de prender assim a ateno de sua Dulcinia, explicou-lhe, com ar importante, que o chocolate vinha do Mxico 
e fora introduzido na corte da Espanha, no ano de 1500, pelo clebre navegador Fernando Corts. Da Espanha, o chocolate passara para Flandres. Depois, no incio 
do sculo, Florena e Itlia haviam-se apaixonado pela nova bebida, os prncipes alemes tambm,-e, agora, era bebido at na Polnia.
  - Foi meu pai quem me revelou essas histrias, desde a minha infncia - explicou Davi, um pouco confuso de sua erudio.
  Os olhos atentos de Anglica, pousados sobre ele, faziam-no enrubescer e empalidecer alternadamente. Ela lhe pediu com certa dureza que continuasse suas explicaes.
  Ele confiou-lhe que um pequeno material de chocolataria, fabricado por seu falecido pai, se achava ainda em sua casa natal de Toulouse, sob a guarda de parentes 
afastados. A fabricao do chocolate era ao mesmo tempo simples e complicada.
  O pai de Davi, de incio, fazia vir as favas da Espanha, depois diretamente da Martinica, de onde um mercador, chamado Costa, as enviava.
  Era preciso deixar fermentar os gros. A operao devia ser realizada na primavera, quando a temperatura no era elevada.
  Depois da fermentao, devia-se fazer secar os gros, mas sem exagero, de modo a no os quebrar durante a decorticao. Em seguida, era necessrio sec-los ainda 
uma vez, a fim de torn-los frgeis ao pilo, mas no muito, para que eles guardassem todo o seu aroma.
  Afinal, pilavam-se. Era nessa operao que consistia o grande segredo do xito do chocolate. Devia ser realizada de joelhos, e o gral devia ser metade de madeira, 
metade de chapa de ferro, e ligeiramente aquecido. Esse utenslio chamava-se metatl, nome que lhe deram os astecas, ou homens vermelhos da Amrica.
  - Eu vi uma vez, no Pont Neuf, um desses homens vermelhos - disse Anglica. - Poderamos talvez reencontr-lo. O chocolate seria, sem dvida, melhor ainda se fosse 
ele quem o pilasse.
  - Meu pai no era vermelho, e seu chocolate era famoso - disse Chaillou, insensvel  ironia. - Pode, pois, ser feito sem ndios. Para o cozimento, so necessrias 
grandes panelas de ferro. Mas, antes,  preciso joeirar as cascas, bem como as peles e as sementes, e, sobretudo, moer bem fino. Depois ajuntar acar em boa proporo, 
assim como especiarias e outros ingredientes.
  - Em definitivo - concluiu Anglica -, supondo-se que possamos mandar vir o material de chocolataria de seu pai e favas, voc saberia fabricar essa bebida?
  Davi pareceu perplexo. Depois, diante da expresso de Anglica, ele disse que sim, e foi recompensado com um sorriso radiante e um amistoso tapinha na face.
  A partir desse momento, Anglica buscou em todas as ocasies informar-se sobre o que j se sabia na Frana sobre essa bebida no-alcolica.
  Um velho boticrio seu amigo, mestre Lzaro, a quem ela comprava certas especiarias e ervas raras, disse-lhe que o chocolate era
considerado soberano contra os flatos do bao. Esta ltima propriedade acabava de ser trazida  luz pelos trabalhos, ainda inditos do clebre mdico Renato Moreau, 
o qual a tinha observado no Marechal de Gramont, um dos raros apreciadores do chocolate na corte.        .    
  Anglica tomou nota, cuidadosamente, dessas informaes e do nome do doutor.
  O velho boticrio, abanando a cabea, viu-a afastar-se. Ele estava inquieto. Havia conhecido tantas mulheres que procuravam novos meios para abortar! Isso lhe 
trouxe subitamente uma recordao atroz. Soltando um grito, mestre Lzaro deixou precipitadamente o alambique, onde destilava um xarope, e correu para a rua, no 
encalo da jovem. Conseguiu alcan-la, pois ela parou ao ouvir bater atrs de si os chinelos do velho.
  Depois de tomar flego, ele lanou um olhar suspeitoso em volta e cochichou-lhe ao ouvido:
  - Minha filha, apesar das informaes favorveis que eu pude recolher sobre essa bebida, parece-me que devo preveni-la contra os inconvenientes de seu uso. Tive 
uma informao terrvel sobre ela.
  - Diga depressa, mestre.
  - No to alto, minha filha! Pense que voc me pe numa situao penosa, pois quase tra o segredo-profissional, ao qual ns, os boticrios, estamos todos sujeitos, 
como os mdicos. Enfim,  para o seu bem! Voc no ignora que, a 18 de novembro de 1662, nossa jovem rainha deu  luz uma filha que morreu com a idade de apenas 
um ms. Pois bem, essa criana era um pequeno monstro negro e felpudo como o Diabo, e que no sabiam onde esconder. Os mdicos disseram que essa infelicidade era 
devida s inmeras xcaras de chocolate que Sua Majestade no cessava de absorver. Veja, minha filha! Desconfie dessa bebida.
  - Tomo nota, senhor, tomo nota - afirmou Anglica, a quem a histria de mestre Lzaro no assustou de maneira alguma.
  Malgrado esse incio pouco encorajante, ela continuava com a mesma confiana no chocolate.
  Voltou a ver a an da rainha e, dessa vez, pde provar o produto quando ainda no estava saturado de pimenta e engrossado com muito acar. Achou-o saboroso. Dona 
Teresita, ciosa de seu segredo, assegurou-lhe que bem poucas pessoas, mesmo vindas do estrangeiro, eram capazes de preparar o chocolate. Mas o esperto Barcarola 
lhe disse que havia ouvido falar de um moo burgus que tinha ido  Itlia para estudar cozinha e que passava por preparar excelentemente essa bebida.
  Esse jovem burgus, Audiger, era atualmente mordomo do Conde de Soissons, e estava prestes a obter a liberdade de fabricar o chocolate na Frana.
  "Ah! Nada disso!", pensou Anglica. "Sou eu que tenho a patente exclusiva da fabricao."
  Decidiu colher informaes mais completas sobre o mordomo Audiger. De qualquer modo, isso provava que a ideia do chocolate andava no ar e que era preciso apressar-se 
em realiz-la, se no queria ser passada para trs pelos concorrentes mais hbeis ou que se beneficiavam de protees mais poderosas.
  Alguns dias depois, numa tarde em que, ajudada por Linot, ela estava ocupada em arrumar as flores nos vasos de estanho colocados sobre a mesa, um belo jovem, ricamente 
vestido, desceu os degraus da entrada e dirigiu-se a ela.
  - Chamo-me Audiger, e sou mordomo do Conde de Soissons - disse ele. - Disseram-me que voc est pensando em fabricar chocolate, mas que no tem patente. Pois bem, 
eu tenho essa patente. Eis por que venho avis-la amigavelmente de que  intil prosseguir nessa ideia. Se o fizer, ser vencida.
  - Fico-lhe muito obrigada por sua ateno, senhor - respondeu ela. - Mas, se est certo de ganhar, no compreendo por que vem procurar-me, pois se arrisca, ao 
contrrio, a trair-se mostrando-me parte de suas armas e, talvez, a fragilidade de seus projetos.
  O rapaz sobressaltou-se, embaraado. Observou mais atentamente sua interlocutora, e um sorriso distendeu-lhe os lbios, sublinhados por um fino bigode castanho.
  - Meu Deus, como voc  bela, minha amiga!
  - Se voc abre fogo dessa maneira, eu pergunto a mim mesma que espcie de batalha veio travar aqui - disse Anglica, no podendo deixar de tambm sorrir.
  Audiger atirou seu capote e seu chapu sobre uma mesa e sentou-se diante de Anglica. Alguns momentos depois, eles se tinham tornado quase amigos.
  Audiger tinha uns trinta anos. Sua leve gordura no lhe prejudicava o belo talhe. Como todos os oficiais-de-boca a servio de um grande senhor, ele usava espada, 
e andava to bem vestido quanto seu amo.
  Contou que seus pais eram pequenos-burgueses de provncia, assaz abastados, o que lhe permitia fazer alguns estudos. Ele tinha comprado um cargo de oficial-de-boca 
no exrcito e, depois de algumas campanhas, houvera por bem passar no mestrado de cozinheiro. Em seguida, a fim de completar seus conhecimentos, fora passar dois 
anos na Itlia, para estudar as especialidades de limo-nadeiro e confeiteiro, os gelados e sorvetes, os bombons e pastilhas, bem como o chocolate.
  - Foi depois da minha volta da Itlia, em 1660, que eu tive a boa fortuna de agradar a Sua Majestade, de maneira que meu futuro se acha doravante assegurado. Eis 
como: quando eu atravessava os campos, nos arredores de Gnova, notei incomparveis ervilhas em vagens. Ora, ns estvamos no ms de janeiro. Tive a ideia de faz-las 
colher e guard-las e, quinze dias depois, estando em Paris, apresentei-as ao rei, por intermdio do Sr. Bontemps, seu primeiro criado de quarto. Sim, minha cara, 
no precisa arregalar os olhos. Vi o rei de perto e ele teve a bondade de conversar comigo. Tanto quanto rcordp, Sua Majestade estava acompanhado de Monsieur, do 
Sr. Conde de Soissons, do Sr. Marechal de Gra-mont, do Marqus de Vardes, do Conde de Noailles e do Sr. Duque de Crqui. A uma s voz, esses prncipes exclamavam, 
depois de ter examinado minhas ervilhas, que jamais tinham visto mais belas. O Sr. Conde de Soissons debulhou algumas diante do rei. O soberano, havendo-me testemunhado 
sua satisfao, mandou-me lev-las ao Sieur Beaudoin, despenseiro real, e dizer-lhe que empregasse uma parte para fazer vrios pratos, um destinado  rainha-me, 
outro  rainha e o terceiro ao senhor cardeal, que ento se achava no Louvre, e que lhe guardasse o resto para ele comer de noite com Monsieur. Ao mesmo tempo, ordenou 
ao Sr. Bontemps que me mandasse dar um presente em dinheiro, mas eu agradeci. Ento Sua Majestade insistiu e disse que me concederia o que eu pedisse. Dois anos 
mais tarde, tendo acumulado alguns haveres, eu lhe pedi autorizao para abrir uma casa de refrescos, que venderia, entre outros produtos, o chocolate.
  - Por que voc ainda no est instalado?
  - Calma, minha bela. Essas coisas tm de amadurecer. Mas, recentemente, o Chanceler Sguier, depois de examinar minha carta-patente real, prometeu-me registr-la 
apondo-lhe o selo real e sua chancela, a fim de torn-la executria imediatamente. Como v, bela amiga, com esta exclusividade de venda, no lhe ser muito fcil 
passar-me a perna, mesmo supondo que obtenha uma patente semelhante  minha.
  Malgrado a simpatia que a jovialidade e a franqueza do visitante lhe inspiravam, a jovem experimentou verdadeira decepo. Esteve a ponto de contradizer com energia 
o seu interlocutor e de abater-lhe um pouco a soberba, revelando-lhe que ela tambm, ou melhor, o jovem Chaillou, estava de posse de uma exclusividade semelhante, 
a qual tinha a vantagem de ter sido registrada anteriormente.
  Mas conteve-se a tempo, no mostrando seus trunfos. Um dos papis podia no ter valor. Ainda precisava informar-se junto s corporaes e ao chefe dos comerciantes.
  Como no entendia grande coisa do assunto, preferiu no contrariar seu "concorrente" e continuou a gracejar:
  - No est sendo galante, messire, em se opor assim ao desejo de uma dama. Anseio por servir chocolate aos parisienses!
  - Pois bem - exclamou ele, jovial -, entrevejo o meio de se arranjar tudo. Case comigo!
  Anglica riu gostosamente. Depois perguntou-lhe se ficaria para tomar seu repasto na taberna.
  Ele aceitou, e ela o serviu com particular cuidado. Era preciso que ele visse que a Mscara Vermelha no era uma rtisserie comum.
  Entrementes, Audiger a devorava com is olhos enquanto ela ia e vinha atravs da sala. Quando ele partiu, parecia subitamente preocupado.
  Anglica esfregou as mos. "Ele comea a compreender que ainda no lanou seu chocolate!", pensou ela. "Mas eu no tenho um momento a perder."
  De noite, ela abeirou mestre Bourjus.
  -        Meu tio, quero pedir sua opinio sobre essa histria de chocolate...
  O rtisseur, que estava em dia de ronda, aprestava-se para apresentar-se ao Chtelet. Ergueu os ombros, sorrindo.
  - Como se voc tivesse necessidade da minha opinio, sonsa, para no fazer seno o que lhe d na telha!
  -  que o assunto  srio, mestre Bourjus. Tenho a inteno de ir amanh ao Departamento das Corporaes para indagar do exato valor da patente que Davi possui...
  - V, v, minha filha. Afinal, que fora humana a impediria de ir, se j o decidiu?
  Mestre Bourjus, o senhor me fala como se reprovasse minha iniciativa.
  Ele soprou o isqueiro com que acabava de acender sua lanterna, depois deu paternalmente umas palmadinhas na face de Anglica.
  -  Voc bem sabe que eu sou um timorato... Sempre tenho medo de que as coisas acabem mal. Mas^ siga o seu caminho, minha pequena, sem se inquietar com os me.iis 
suspiros de velho resmungo. Voc  o sol da minha casa, estudo o que voc faz est bem.
  Enternecida, ela viu-o afastar-se com sua lanterna e sua alabar-da. No tomou a srio os pressentimentos do rotisseur e, por seu lado, preparava-se para triunfar 
sobre Audiger.
  CAPTULO III
  
  Pedido de casamento no moinho de Javel
  
  Na manh seguinte, ela compareceu, com Davi,  chefatura dos comerciantes. Foram recebidos por um homem gordo e suaren-to, com volta mais ou menos sebosa, o qual 
confirmou que a carta-patente concedida ao jovem Chaillou era vlida, desde que fossem pagos novos direitos.
  Anglica objetou:
  - Mas, para a rtisserie, j renovamos a licena de rtisseur e de cozinheiro! Por que seria necessrio pagar ainda para servir-uma bebida no-alcolica?
  - Tem razo, minha filha, pois isso me faz pensar que, alm dos especieiros, a quem a questo concerne, ser preciso tambm indenizar as subcorporaes dos limondeiros. 
Se tudo correr bem para vocs, tero o privilgio de pagar duas patentes suplementares: uma  corporao dos especieiros e outra  dos limondeiros.
  Anglica tinha dificuldade em dissimular sua ira.
  - E isso ser tudo?
  - Oh! no - replicou ele gravemente. - Ainda no falei das correspondentes taxas reais, nem das dos visitadores, nem dos fiscais do peso e da qualidade...
  - Mas como pode pretender fiscalizar esse produto, se nem sequer o conhece?
  - Essa no  a questo. Sendo esse produto uma mercadoria, todas as corporaes de que ele depende devem exercer o controle... e ter sua parte no lucro. Desde 
que o seu chocolate , como diz, uma bebida temperada com especiarias, a senhora deve ter consigo um mestre-especieiro e tambm um mestre-limonadeiro, deve remuner-los 
largamente, aloj-los, pagar o preo do mestrado do novo fundo de comrcio relativo a cada uma das corporaes. E como no tem ar de "repartidora", previno-a desde 
j de que exercemos severa vigilncia.
  -        Isso quer dizer exatamente o qu? - perguntou Anglica, tomando seu ar mais audaciosor com as mos nas cadeiras.
  Mas isso divertiu os graves negociantes, e um deles, mais jovem, achou que devia esclarec-la.
  - Quer dizer que, entrando na corporao, a senhora se compromete, por isso mesmo, a admitir tambm que seu novo produto possa ser posto  venda por todos os seus 
confrades especieiros e limonadeiros, supondo-se que esse estranho produto agrade aos clientes, bem entendido.
  - Se bem o compreendo, devemos fazer todas as despesas, admitir novos mestres com seus ajudantes, fazer propaganda, limpar a casa e, depois, ou nos arruinamos 
ou ento dividiremos o lucro dos nossos esforos e do nosso segredo com aqueles que nada fizeram para ajudar-nos?
  - Que tudo fizeram, pelo contrrio, minha bela, aceitando-a e no se opondo ao seu comrcio.
  -        Em suma,  uma espcie de portagem que reclamam?
O jovem mestre procurou ingenuamente acalm-la:
  - No esquea que as corporaes tm crescentes necessidades de dinheiro. No deve ignorar, sendo a senhora mesma comerciante, que, a cada nova guerra, vitria 
ou nascimento real ou mesmo de um prncipe, nos fazem pagar de novo os nossos privilgios duramente adquiridos. E, alm disso, o rei nos arruina fabricando, em cada 
ocasio, ou mesmo sem ocasio, novos mestrados ou profisses, um pouco do gnero dessa que a senhora apresenta em nome desse Sieur Chaillou...
  - O Sieur Chaillou sou eu - observou o aprendiz. - Ou pelo menos era o meu defunto pai. E eu lhes asseguro que ele teve de pagar bem caro a sua patente!
  - Justamente, rapaz,  a que voc no est em boa avena co-nosco. Para comeo de conversa, voc no  e nunca ser mestre-especieiro, e  nossa corporao em 
nada interessa.
  - Mas, desde que seu pai traz uma descoberta  sua corporao... - comeou Anglica.
  - Demonstre-nos isso comeando por fazer seu pagamento. Depois empenhe-se tambm em beneficiar-nos com a dita descoberta.
  Anglica acreditou que sua cabea ia estalar e soltou profundo suspiro. Despediu-se dizendo que i refletir sobre os mistrios das administraes mercantis e que 
tinha certeza de que, da prxima vez, aqueles senhores ainda encontrariam uma excelente razo para impedi-la de fazer qualquer coisa de novo.
  No caminho de regresso, ela se reprovava por ter faltado com a prudncia deixando perceber seu nervosismo. Mas j tinha compreendido que, mesmo com sorrisos, a 
nada chegaria com aquela gente.
  Era Audiger quem estava com a razo, ao afirmar que, com a autorizao do rei, ele dispensaria o patrocnio das corporaes.
  Mas ele era rico e tinha excelentes pistoles, enquanto Anglica e o pobre Davi se encontravam inteiramente desarmados diante da hostilidade das corporaes.
  Pedir a proteo do rei para aquela primeira patente, concedida havia cinco anos, parecia-lhe to delicado quanto difcil.
  Ela comeou por procurar um meio de se entender com Audiger. Afinal de contas, em lugar de se combaterem, no tinham eles interesse em unir seus esforos e dividir 
a empresa? Assim, Anglica, com sua patente e seu material de chocolataria, poderia encarregar-se de fazer vir as favas de cacau e entreg-las prontas para o consumo, 
isto , at a fabricao do p aucarado e temperado com canela ou baunilha. O mordomo transformaria o p em bebida e em toda sorte de especialidades de confeitaria.
  Durante sua primeira palestra, Anglica pudera perceber que o jovem ainda no tinha pensado seriamente nas fontes de abastecimento. Ele respondia negligentemente 
que isso "no apresentava nenhuma dificuldade", "que sempre haveria tempo de providenciar", que ele as teria como desejasse "por intermdio de amigos".
  Ora, graas  an da rainha, Anglica sabia que a vinda para a Frana de alguns sacos de cacau necessrios  gulodice de Sua Majestade representava verdadeira 
misso diplomtica, necessitava de numerosos intermedirios, de relaes na corte da Espanha ou em Florena...
  No era assim que se poderia encarar um abastecimento em larga escala. Com esse abastecimento somente o pai de Davi parecia at ento haver-se preocupado.
  Audiger voltava frequentemente  Taberna da Mscara Vermelha. A maneira do "gluto" Montmaur, ele se sentava a uma mesa separada e evitava visivelmente os outros 
clientes. Depois das primeiras visitas muito arrojadas e divertidas, ele tinha se tornado subitamente taciturno, e Anglica no podia deixar de sentir-se um tanto 
magoada porque o confrade j famoso no fazia qualquer elogio  sua cozinha. Ele comia, alis, com esforo, e no tirava os olhos de cima da jovem, enquanto ela 
ia e vinha na sala. O olhar obstinado daquele belo rapaz bem vestido e seguro de si mesmo acabou por intimidar Anglica. Ela lamentava seu gracejo do primeiro dia, 
e no sabia como iniciar a proposta que tinha em mente. Audiger percebera, sem dvida, que ela seria mais difcil de afastar do que ele tinha pensado. Em todo caso, 
observava-a com ateno.
  Ele levava mesmo um pouco longe essa espcie de vigilncia, pois diversas vezes, durante passeios dominicais que toda a famlia fazia ao campo, surgia de repente 
Audiger a cavalo e, fingindo surpresa, convidava-se cordialmente a participar do lanche sobre a grama. Como por acaso, ele tinha nas bolsas da sela um pastelo de 
lebre e uma garrafa de champanha.
  Ou ento encontravam-no ora na galeota que levava a Chaillot pelo rio, ora na diligncia de Saint-Cloud, onde suas fitas, suas plumas e suas vestes de fino tecido 
faziam curiosa figura.
  Era vero. Aos domingos, desde a alvorada, todos os grandes caminhos em torno de Paris, num raio de mais de uma lgua, ficavam cobertos de excursionistas em carruagem, 
a cavalo e a p, os quais corriam a tomar ar e gozar do cu azul, uns em suas casas de campo, outros nas aldeias dos arredores.
  Depois de ouvir missa em uma pequena igreja, iam danar debaixo do olmeiro com os camponeses, e provavam os vinhos brancos de Sceaux, os vinhos claretes de Vanves, 
de Issy e de Suresnes.
  O Poeta Pobre, menos amargo por uma vez, celebrou a eterna necessidade de evaso dos parisienses:
  "Que festa quando faz bom tempo!
  Paris transborda como a gua,
  A terra fica coberta
  De pessoas sentadas sobre a erva verde".
  Mestre Bourjus e seu pequeno mundo acompanhavam o movimento.
  - Para Chaillot! Para Chaillot! Vamos, um soldo cada um - gritavam os barqueiros. A embarcao passava diante do Cours-la-Reine e diante do Convento dos Bonshommes. 
Mais tarde, desembarcava-se para ir ao Bois de Boulogne fazer uma colao.
  s vezes os barcos iam at Saint-Cloud. Corria-se ento at Versalhes para ver o rei comer. Mas Anglica recusava aquele passeio. Ela havia prometido a si mesma 
que no iria a Versalhes seno para ser recebida na corte pelo rei. Era um juramento perante si prpria. Valia por dizer que jamais iria a Versalhes... Ficava, ento, 
 margem do Sena, com seus dois filhos embriagados de ar puro. Caa a tarde.
  -        Para Paris! Para Paris! Vamos, um soldo cada um! - gritavam os barqueiros.
  Davi e o namorado de Rosina, o filho de um rtisseur com o qual ela devia casar no outono, tomavam os meninos nos ombros. s portas da cidade, cruzavam com grupos 
de brios.
  No dia seguinte ao de um alegre passeio, Audiger saiu subitamente de sua reserva e disse a Anglica:
  - Quanto mais a observo, mais perplexo fico, bela amiga. Existe em voc qualquer coisa que me inquieta...
  - A propsito do seu chocolate?
  - No... ou talvez sim... indiretamente. Primeiro, imaginei que voc era feita para as coisas do corao... e mesmo do esprito. Depois, percebi que  na realidade 
muito prtica, mesmo material, e que nunca perde a cabea.
  "Assim o espero", pensou ela. Mas contentou-se em sorrir da maneira mais encantadora.
  - Na vida - disse ela -, existem perodos em que somos obrigados a fazer somente uma coisa. Em certas pocas,  o amor que domina, geralmente quando a vida  fcil. 
Em outras,  o labor, um fim a atingir. Assim, no lhe escondo que, para mim, o que mais me importa atualmente  ganhar dinheiro para os meus filhos, cujo... cujo 
pai morreu.
  - No quero ser indiscreto, mas, j que falou de seus filhos, acredita que, em um comrcio to esfalfante quanto aleatrio e, sobretudo, to pouco concilivel 
com uma verdadeira vida de famlia, chegaria a educ-los e torn-los felizes?
  - No tenho alternativa - disse Anglica duramente. - Alm disso, eu no me queixo de mestre Bourjus, e encontrei junto dele uma situao inesperada no que toca 
 minha modesta condio.
  Audiger tossiu fracamente, brincou um momento com as bordas de sua volta e disse com voz hesitante:
  - E... se eu lhe der essa alternativa?
  - Que quer dizer?
  Ela olhou-o e viu nos seus olhos castanhos uma adorao contida. O momento pareceu-lhe bem adequado para levar avante as suas negociaes.
  -        A propsito, voc tem afinal a sua patente?
Audiger suspirou.
  -        Bem vejo que voc est interessada, e no o esconde. Pois bem, para dizer-lhe tudo, ainda no tenho o selo da chancelaria, e no espero t-lo antes do 
ms de outubro, porque, at l, o Presidente Sguier estar em sua casa'de campo. Mas, a partir de outubro, tudo ir muito rapidamente. Com efeito, conversei eu 
mesmo, sobre o meu negcio, com o Conde de Guich, que  genro do Chanceler Sguier. Bem se v que voc no deve alimentar esperana de ser uma bela chocolateira... 
a menos que...
  -        Sim... a menos que... - disse Anglica. - Escute, ento.
E, muito  vontade, ela lhe comunicou suas intenes. Revelou-lhe que tinha uma patente anterior  dele, com a qual poderia dar-lhe "aborrecimentos"..Mas no seria 
melhor entenderem-se? Ela se encarregaria da fabricao do produto, e ele o prepararia. E, para ter participao rrps lucros da chocolataria, a jovem nela trabalharia 
e empregaria capital.
  -        Onde pensa instalar sua chocolataria? - perguntou ela.
  - No Quartier Saint-Honor, perto da Croix-du-Traboir. Mas suas histrias so descabidas!
  - Elas tm pleno cabimento, e voc bem o sabe. O Quartier Saint-Honor  um excelente bairro. O Louvre est prximo, o Palais-Royal tambm. No seria uma loja 
parecida com uma taberna ou uma rtisserie. Vejo belos ladrilhos pretos e brancos, espelhos, paredes forradas de madeira dourada e, atrs, um jardim com latadas, 
como no recinto dos celestinos... latadas para os amorosos.
  O mordomo, que as explicaes da jovem haviam contrariado, desfranziu um pouco a testa diante dessa descrio.
  -        Voc  verdadeiramente encantadora quando se deixa arrastar assim por sua natureza impulsiva, minha amiga. Gosto da sua alegria e do seu ardor, aos quais 
sabe misturar uma justa modstia. Tenho-a observado atentamente. Voc tem a rplica fcil, mas seus costumes so honestos. Isso me agrada. O que me decepciona em 
voc, no o oculto,  o seu esprito demasiado prtico e sua maneira de querer tratar de igual para igual com homens experimentados. A fragilidade das mulheres no 
harmoniza com um tom peremptrio, com maneiras incisivas. Elas devem deixar aos homens o cuidado de debater essas questes em que seus pequenos miolos se perdem 
e se confundem. Anglica rebentou de riso.
  - Eu vejo daqui mestre Bourjus e Davi discutirem essas questes!
  - No se trata deles.
  - Ento? Ainda no compreendeu que eu tenho de me defender com as minhas prprias foras?
  -        Precisamente, falta-lhe um protetor.
Anglica fez ouvidos moucos.
  - Calma, mestre Audiger. Para falar a verdade, voc  um egosta que quer ser o nico a beber o seu chocolate. E, como o que lhe expliquei o embaraa muito, procura 
safar-se fazendo discursos sobre a fragilidade das mulheres. Na realidade, na pequena guerra que estamos travando, a soluo que lhe proponho  excelente.
  - Eu conheo uma cem vezes melhor.
  Sob o olhar firme do rapaz, Anglica no insistiu. Levantou o prato dele, enxugou a mesa e perguntou o que ele desejava como prato do meio. Mas, quando ela se 
afastou rumo  cozinha, ele se ergueu e alcanou-a em dois passos.
  -        Anglica, minha amiga, no seja cruel - suplicou ele. - Convido-a a passear comigo no prximo domingo. Quero falar-lhe seriamente. Poderamos ir ao moinho 
de Javel. Comeramos uma caldeirada de peixe. Em seguida, caminharamos pelos campos. Quer?
  Ele tinha posto a mo na cintura de Anglica. Ela ergueu os olhos, atrada por aquele rosto fresco, principalmente pelos lbios fortemente desenhados sob as duas 
vrgulas escuras do bigode. Lbios que deviam resistir flexivelmente ao beijo, antes de se entreabrirem, que deviam impor-se, exigentes,  carne que eles tocassem.
  Uma vaga de prazer que ela no dominou a sacudiu, e foi com voz tremula que concordou em ir, no domingo seguinte, ao moinho de Javel.
  Anglica estava perturbada, mais do que desejaria, pela perspectiva daquele passeio. Cada vez que pensava nos lbios de Audiger e na mo dele sobre sua cintura, 
um frmito muito doce a percorria. Fazia muito tempo que ela no experimentava semelhante sensao. Refletindo, percebeu que, havia quase dois anos, depois da aventura 
com o capito da ronda, nenhum homem a tinha tocado. Isso era, alis, um modo de falar, pois sua vida se desenrolava numa atmosfera de sensualidade bastante difcil 
de superar. J perdera a conta dos beijos e das carcias que tivera de repelir a bofetadas. Vrias vezes, no ptio, ela fora assaltada por algum bruto avinhado, 
tivera de defender-se a golpes de tamanco, tivera de pedir socorro. Tudo isso, acrescentado  experincia com o capito da ronda e aos rudes amplexos de Calembredaine, 
deixava-lhe uma lembrana amarga de violncia, que havia esfriado seus sentidos.
  Admirava-se de sentir-lhe o despertar com uma subitaneidade e uma doura que ela fora bem incapaz de prever dois ou trs dias antes. Aproveitaria Audiger sua perturbao 
para faz-la prometer que no estorvaria seus negcios?
  "No", dizia para si Anglica. "O prazer  uma coisa, os negcios so outra. Algumas horas de harmonia no podem prejudicar o bom xito dos meus futuros projetos."
  A fim de sufocar os remorsos que experimentava prevendo uma inevitvel derrota, ela se persuadiu de que o interesse dos seus negcios tornava quase indispensvel 
essa derrota. Alm disso, talvez nada se passasse. No tinha Audiger sido sempre perfeitamente correto?        
  Diante do espelho, ela alisava com um dedo seus longos e delgados superclios. Ainda era bela? Diziam-lhe que sim. Mas o calor do fogo no estaria escurecendo 
sua cor?
  "Estou um pouco gorda. Isso no me fica muito mal. Alm disso, os homens desse tipo devem amar as mulheres rechonchudas."
  Teve vergonha de suas mos endurecidas e enegrecidas pelos trabalhos da cozinha, e foi ao Pont Neuf comprar ao Grande Mateus um pote de unguento para branque-las.
  Voltando pelo Palcio da Justia, subiu at a Galeria dos Merceeiros e comprou uma gola de renda em ponto da Normandia, que poria sobre o decote de seu modesto 
vestido de pano azul-esverdeado. Teria, assim, o ar de uma pequena-burguesa e no de uma criada ou de uma comerciante. Completou seus atavios pela aquisio de um 
par de luvas e de um leque. Uma loucura!
  Seus cabelos a preocupavam. Eles tinham se tornado mais crespos e mais louros, mas no cresceram alm de certo ponto. Com pesar, ela evocou a toalha pesada e sedosa 
que outrora sacudia sobre as espduas.
  Na manh do grande dia, ela o; dissimulou sob um bonito leno de cetim azul-escuro que pertence/a  Sra. Bourjus. No decote do corpete pusera um camafeu de co.nalina 
e,  cintura, uma es-moleira bordada de prolas, que era,- igualmente, herana da pobre mulher.
  Anglica esperou sob o prtico. O dia estava lindo. O cu mostrava-se puro entre os telhados.
  Quando o coche de Audiger apareceu, a jovem precipitou-se para ele, com a impacincia de uma aluna interna em dia de sada.
  O mordomo estava positivamente deslumbrante. Usava uma rhin-grave amarela enfeitada com fitas cor de fogo. Seu gibo de veludo amarelo-claro, com pequenos gales 
alaranjados, entreabria-se sobre uma camisa plissada, da mais fina'cambraia. A renda de seus canhes, de seus punhos e de sua gravata semelhava teia de aranha.
  Anglica tocou-a com admirao.
  -        E de ponto da Irlanda - comentou o rapaz. - Esta renda custou-me uma pequena fortuna.
  Um tanto desdenhosamente, ele levantou a modesta gola da companheira.
  -        Um dia voc tambm a usar, minha cara. Parece-me que voc  capaz de se trajar com graa. Vejo-a muito bem em vestido de seda, e mesmo de cetim.
  "E mesmo de brocado de ouro", pensou Anglica, cerrando os dentes.
  Alguns instantes depois, quando a carruagem se ps a margear o Sena, ela reencontrou seu bom humor.
  O moinho de Javel erguia por entre os rebanhos de carneiros da plancie de Grenelle suas grandes asas de morcego, cujo doce tique-taque acompanhava os beijos e 
as juras dos amantes. Ia-se ao moinho de Javel em segredo. Um grande conjunto de aposentos, formando albergue, ali recebia os casais, e o dono era discreto.
  -        Se no soubssemos calar em uma casa como a nossa - dizia ele -, seria uma grande pena! Poramos toda a cidade em desordem.
  Via-se passarem pequenos asnos carregados de sacos bojudos. Flutuava nessas paragens um odor de farinha e de trigo quente, de sopa de peixe e de caranguejo.
  Anglica respirava, com delcia, o ar fresco. Algumas nuvens brancas passavam no cu azul. Anglica sorria-lhes e comparava-as a claras de ovo bem batidas. De 
quando em quando ela olhava os lbios de Audiger e saboreava o leve estremecimento delicioso que a percorria no mesmo instante.
  No iria ele procurar beij-la? Ele parecia um tanto afetado nas suas belas vestes e todo absorvido em compor o cardpio do almoo com o dono do albergue, muito 
honrado com sua visita.
  Na sala, onde reinava uma sombra propcia, outros casais se amesendavam.  medida que se esvaziavam os jarros de vinho bran
co as atitudes tornavam-se mais livres. Adivinhavam-se os gestos ousados que os risos arrulhantes das damas sublinhavam. Anglica bebia para enganar seu nervosismo, 
e suas faces tornavam-se ardentes.        
  Audiger pusera-se a falar de suas .viagens e de suas atividades. Empregava uma nomenclatura precisa, no esquecendo uma data, nem uma roda de eixo partido.
  - Como voc pode perceber, querida, minha situao assenta em bases slidas e que no permitem mais surpresas. Meus pais...
  - Oh! Saiamos daqui - suplicou Anglica, que acabava de pousar sua colher.
  - Mas faz um calor sufocante!
  - L fora, pelo menos, h vento... e alm disso no se v toda essa gente que se beija - acrescentou ela a meia voz.
  Diante do sol ofuscante, Audiger protestou. Ela iria sentir-se mal e estragar a cor da pekr Cobriu-a com seu vasto chapu de plumas brancas e amarelas, e-exclamou, 
como fizera no primeiro dia:
  -        Meu Deus, como voc  bela, minha amiga!
  Mas, alguns passos alm, quando seguiam por um pequeno atalho  margem do Sena, ele reiniciou o relato de sua carreira. Disse que, quando a chocolataria estivesse 
em funcionamento, escreveria um livro muito importante sobre a profisso de oficial-de-boca, no qual se encontrariam todos os ensinamentos necessrios aos pajens 
e cozinheiros desejosos de se aperfeioar em sua arte.
  -        Lendo esse livro, o mordomo aprender a ordem de bem servir uma mesa e de dispor os servios. Da mesma forma, o copeiro nele achar a forma de bem dobrar 
a roupa branca em vrias figuras, bem como a de preparar toda sorte de compotas e frutas cristalizadas e toda espcie de confeitos e outras gulodices muito teis 
a todo mundo. O mordomo ter a revelao de que, chegada a
hora da refeio, ele deve apanhar um guardanapo branco, que dobrar ao comprido e por ao ombro.-Farei notar que o guardanapo  a marca do seu poder e o sinal demonstrativo 
e particular desse poder. Eu sou assim. Posso servir de espada ao lado, com o capote sobre os ombros, o chapu na cabea, mas sempre o guardanapo deve ser colocado 
da maneira a que me referi.
  Anglica teve um risinho zombeteiro.
  -        E quando est amando, em que posio coloca o guardanapo?
Ela se desculpou logo, diante da cara escandalizada e estupefata do rapaz.
  - Perdoe-me. O vinho branco sempre me d ideias absurdas. Mas, tambm, por que me suplicou de joelhos que viesse ao moinho de Javel... para me falar da colocao 
dos guardanapos?
  - No me ridicularize, Anglica. Falo-lhe dos meus projetos, do meu futuro. E isso quadra com as intenes que tive ao solicitar-lhe que viesse sozinha comigo, 
hoje. Lembra-se das palavras que eu lhe disse no primeiro dia em que nos vimos? Era, ento, um simples gracejo: "Case comigo!" Depois eu refleti muito e compreendi 
que voc era verdadeiramente a mulher que...
  - Oh! - exclamou ela. - Estou vendo o depsito de feno. Vamos l, depressa. Estaremos melhor que em pleno sol.
  Ela ps-se a correr, segurando seu grande chapu, e foi jogar-se, esbaforida, sobre o feno tpido. Fazendo boa cara  m fortuna, o jovem alcanou-a, rindo, e 
sentou-se junto dela.
  - Pequena louca! Decididamente voc me desconcerta sempre. Creio estar falando a uma prudente mulher de negcios, e  uma borboleta que voa de flor em flor.
  - Uma vez no  costume. Audiger, seja gentil, tire sua peruca. Produz-me calor com essa grossa cobertura de peles na cabea, e eu gostaria de poder acariciar 
seus verdadeiros cabelos.
  Ele fez um pequeno movimento de recuo. Entretanto, ao fim de um movimento, tirou a peruca e passou os dedos, com alvio, pelos curtos cabelos castanhos.
  -        Agora  a minha vez - disse Anglica, estendendo a mo.
Mas ele a reteve, constrangido.
  -        Anglica!... Que voc tem? Tornou-se positivamente diablica!... E eu que desejava falar-lhe de coisas srias!
  Sua mo estava sobre o punho da jovem, e ela sentia-lhe o calor. Agora que ele estava assim perturbado, inclinado sobre ela, Anglica reencontrou sua emoo. Os 
lbios de Audiger eram verdadeiramente belos, sua pele, esticada e fresca, suas mos, brancas. Seria bastante agradvel que ele se tornasse seu amante. Ela encontraria 
junto dele slidos abraos, sadios, quase conjugais, que a fariam descansar da sua existncia de luta e de trabalho. Depois, deitados calmamente um ao lado do outro, 
falariam do futuro do chocolate.
  -        Escute - murmurou ela -, escute o moinho de Javel. Sua cano protesta. No se fala de coisas srias  sua sombra.  proibido... Escute, olhe, o cu est 
azul. E voc, voc  belo. E eu, eu...
  Ela no ousou terminar, mas olhava-o atrevidamente, com seus olhos verdes cheios de luz. Os lbios entreabertos, um pouco midos, o fogo de suas faces, a precipitada 
palpitao dos seios, que Audiger descobriu na abertura da grande gola de rendas, diziam mais claramente ainda que as palavras: "Eu o desejo".
  Ele teve um movimento para o lado dela, depois endireitou-se precipitadamente, e ficou uni momento de p, de costas voltadas para a jovem.
  -        No - disse ele enfim com voz clara -, no voc! Certamente j me aconteceu agarrar sobre o feno mulheres de soldados ou criadas. Mas a voc, no! Voc 
 a mulher que eu escolhi. Voc ser minha na noite de nossas npcias abenoadas por um sacerdote. Respeitarei aquela que escolher para minha esposa e me de meus 
filhos. E foi a voc que eu escolhi, Anglica, quase no instante em que a vi pela primeira vez. Eu esperava pedir-lhe hoje o seu consentimento. Mas voc me perturbou 
com suas maneiras fantsticas. Quero acreditar que essa no seja a essncia de sua natureza. A reputao que lhe atribuem, de ser uma viva incorruptvel, ser exagerada? 
.
  Anglica sacudiu despreocupadamente a cabea. Mordiscava uma flor, toda entregue a examinar o rapaz por entre os clios. Tentava imaginar-se como esposa legtima 
do mordomo Audiger. Uma boa pequena-burguesa que as grandes damas saudariam com condescendncia, no Cours-la-Reine, quando ela fosse l passear em uma modesta carruagem 
forrada de pano oliva, com um monograma cercado de um cordo, um cocheiro vestido de marrom e um pequeno lacaio...
  Ao envelhecer, Audiger criaria barriga e tornar-se-ia vermelho. E, quando ele contasse, pela centsima vez, a seus filhos ou a seus amigos a histria das ervilhas 
de Sua Majestade, ela teria vontade de mat-lo...
  - Falei a seu respeito com mestre Bourjus - retornou Audiger. - Ele no me ocultou que, se voc tem uma vida exemplar e se  corajosa no trabalho, falta-lhe piedade. 
Raramente ouve missa aos domingos e jamais assiste s vsperas. Ora, a piedade  uma virtude feminina por excelncia.  a armadura de sua alma, fraca por natureza, 
e uma garantia de seu bom comportamento.
  - Que quer voc? No se pode ser ao mesmo tempo piedosa e lcida, crente e lgica.        .. -.
  - Que est dizendo, minha pobre criana? Ter voc sido assaltada pelas heresias? A religio catlica...
  - Oh! Eu lhe peo! - exclamou a jovem, inflamando-se de repente. - No me fale de religio. Os homens corromperam tudo em que tocaram. Do que Deus lhe deu de mais 
sagrado, a religio, eles fizeram uma mistura de guerras, hipocrisia e sangue, que me d vontade de vomitar. Pelo menos, em uma mulher jovem, que tem vontade de 
que a beijem num dia de vero, eu penso que Deus reconhece a obra de sua criao, pois foi Ele quem a fez assim.
  - Anglica, voc perdeu a cabea!  tempo de se arrancar  companhia desses libertinos, cujas conversas voc faz muito mal em escutar. Em realidade, creio que 
lhe falta no somente um pro-tetor, mas um homem que a domestique um pouco e que a coloque no seu lugar de mulher. Entre seu tio e o cretino de seu sobrinho, que 
a adoram, voc acredita que tudo lhe  permitido. Voc tem sido demasiadamente estragada e tem necessidade de ser corrigida...
  - De verdade? - respondeu Anglica, e bocejou, espregui-ando-se.
  Essa discusso tinha acalmado o seu desejo. Ela se deitou confortavelmente no feno, no sem ter levantado sonsamente sua longa saia sobre os finos tornozelos.
  -        Tanto pior para voc - disse ela.
  Cinco minutos depois dormia. Audiger, com o corao aos pulos, contemplou o flexvel corpo abandonado. Individuou-lhe to-, das as maravilhas que sabia de cor, 
como uma litania: uma fronte de anjo, uma boca travessa, um belo busto. Anglica era de estatura mediana, mas to bem-proporcionada que parecia alta. Era a primeira 
vez que ele lhe via os tornozelos; eles deixavam adivinhar as pernas bem torneadas que os prolongavam.
  Audiger, com a testa suada, decidiu afastar-se, fugindo a uma tentao  qual se sentia bem perto de sucumbir.
  Anglica sonhava que ia sobre o mar, em um barco de feno. Uma mo a acariciava e uma voz lhe dizia: "No chore". . Ela despertou e viu que no havia ningum perto 
dela. Mas o sol, descendo para o horizonte, envolvia-a em seu tepor.
  "Por causa desse idiota do Audiger, eis-me reduzida a folgar com o sol", pensou ela com um suspiro.
  Um langor demorava-se em seu corpo. Acariciou os braos penugentos.
  "Suas espduas so duas bolas de marfim, seus seios so feitos na medida exata para caberem no cncavo da mo de um homem..."
  Que teria acontecido quele estranho pssaro negro, o homem do barco de feno? Ele dizia palavras galantes e depois, de repente, zombeteiras. Tinha-lhe dado um 
beijo muito longo. Quem sabe se existia?
  Levantou-se, sacudiu as ervas agarradas ao seu vestido e, juntando-se a Audiger no albergue do moinha, pediu-lhe aborrecida que a levasse de volta a Paris.
  
  CAPTULO IV
  
  Anglica torna-se amante do Poeta Pobre
  
  Naquele crepsculo de outono, Anglica passeava no Pont Neuf. Tinha vindo procurar flores, e aproveitava a ocasio para errar de locanda em locanda.
  Parou diante do estrado do Grande Mateus e teve um sobressalto.
  O Grande Mateus estava ocupado em arrancar um dente a um homem ajoelhado diante dele. O paciente tinha a boca aberta e distendida pela torqus do operador. Mas 
Anglica reconheceu seus cabelos espetados e louros como palha de milho e seu surrado capote negro. Era o homem que ela conhecera no barco de feno.
  A jovem abriu caminho com os cotovelos at a primeira fila.
  Embora fizesse muito frio, o Grande Mateus suava em bica.
  -Ora essa! Como este  duro! Meu Deus, como  duro!
Interrompeu sua tarefa para enxugar a fronte, retirou o instrumento da boca de sua vtima e perguntou-lhe:
  -        Est doendo?
  O outro voltou-se para o pblico e sorriu, sacudindo negativamente a cabea. No havia dvida. Era ele, com sua face plida, sua boca larga, suas visagens de pateta 
fascinado.
  -        Vejam, senhoras e senhores! - exclamou o Grande Mateus.
- No  uma maravilha? Eis um homem que no sente dor, e no entanto ele tem dentes duros, creiam-me! E por que milagre ele no sente dor? Pela graa deste blsamo 
miraculoso, com que lhe untei a gengiva antes da operao. Neste pequeno frasco, senhoras e senhores, est contido o olvido de todos os males. Em minhas mos ningum 
sente dor, graas ao blsamo miraculoso, e posso arrancar os seus dentes sem que o percebam. Vamos, meu amigo, continuemos nosso trabalho.
  O rapaz abriu a boca com presteza. Com pragas e grande esforo, o charlato ps-se a lutar de novo com a mandbula renitente.
  Afinal, com um grito de triunfo, o.Grande Mateus brandiu na ponta da torqus o molar recalcitrante.
  -        E ento? Sentiu alguma coisa, meu amigo?
  O outro se levantou, sempre sorrindo. E fez sinal que no.
  -        Que poderei acrescentar? Aqui est um homem a cujo suplcio acabam de assistir e que se retira bem-disposto. Graas ao blsamo miraculoso, que sou o nico 
a usar entre os mdicos empricos, ningum hesitar mais em desembaraar-se desses tocos malcheirosos que desonram a boca de um honesto cristo. Viro, com um sorriso, 
ao arrancador de dentes. No hesitem mais, senhoras e senhores. Venham! O sofrimento no existe mais! O sofrimento morreu.
  Nesse meio tempo,  cliente j pusera seu chapu cnico e descia do estrado. Anglica seguiu-o. Tinha vontade de abeir-lo, mas perguntava a si prpria se ele 
a reconheceria.
  Ele caminhava agora ao longo do Quai des Morfondus, sob o Palcio da Justia. Alguns passos adiante de si, Anglica via flutuar, no nevoeiro que subia do Sena, 
sua silhueta estranha e magra. Novamente ele parecia no ser real. Andava muito lentamente, parava, depois continuava.
  De repente desapareceu. Anglica soltou um leve grito. Mas compreendeu que o homem simplesmente havia descido os trs ou quatro degraus do cais at a margem. Por 
sua vez, sem refletir, ela se meteu pela escada e quase esbarrou no desconhecido, apoiado  muralha. Dobrado em dois ele gemia surdamente.
  - Que se passa? Que tem voc? - perguntou Anglica. - Est doente?
  - Oh! Eu morro - respondeu ele com voz fraca. - Aquele bruto s faltou arrancar-me a cabea. E estou certamente com o queixo deslocado.
  Cuspiu um filete de sangue.
  - Mas voc dizia que no estava sentindo dor.
  - Eu no dizia nada, estava inteiramente incapaz. Felizmente o Grande Mateus me pagou bem para representar esta pequena comdia!
  Ele gemeu e cuspiu de novo. Ela pensou que ele ia desfalecer.
  -        Que estupidez! Voc no devia aceitar isso - disse ela.
  -        H trs dias que eu no como nada.
  Anglica envolveu com seu brao o magro busto do desconhecido. Ele era mais alto que ela, mas to leve que ela quase se sentia com foras para carregar aquela 
pobre carcaa.
  -        Venha comigo, comer bem esta noite - prometeu ela. - E nada lhe custar. Nem um soldo... nem um dente.
  De volta ao albergue, ela correu  cozinha, procurou o que pudesse convir a uma vtima da fome e de um arrancador de dentes. Havia caldo de carne e uma bela lngua 
de boi com pepinos. Ela trouxe-lhe tudo, bem como um pichei de vinho tinto e um grande pote de mostarda.
  -        Comece com isto. Depois cuidaremos do resto.
O longo nariz do jovem faminto estremeceu.
  -        O sutil aroma das sopas! - murmurou o desconhecido, endireitando-se como se ressuscitasse. - Essncia bendita das divindades culinrias!
  Ela deixou-o, para que ele pudesse saciar-se  vontade. Depois de ter dado suas ordens, verificado se tudo estava pronto para a chegada dos clientes, ela foi para 
a copa, a fim de fazer um molho. Era uma pequena pea, onde ela se fechava quando tinha de preparar um prato delicado.
  Ao cabo de alguns instantes, a porta se abriu e seu convidado passou a cabea pela abertura.
  - Diga-me, minha bela, voc  a pequena mendiga que conhece latim?
  - Sou... e no sou - disse Anglica, que no sabia se estava contrariada ou contente por ele a ter reconhecido. - Sou agora a sobrinha de mestre Bourjus, dono 
desta taberna.
  - Por outras palavras, no est mais sob a jurisdio desconfiada do Sieur Calembredaine?
  - Deus me livre!
  Ele introduziu-se no cmodo, aproximou-se dela com seu passo ligeiro e, segurando-a pela cintura, beijou-a nos lbios.
  - Ei, messire, creio que voc j est perfeitamente reconfortado! - disse Anglica depois de tomar flego.
  - Isso  o que menos importa. H muito tempo que eu a procuro em Paris, Marquesa dos Anjos!
  - Psiu! - fez ela, olhando em volta de si, assustada.
  - No receie nada. No h guardas na sala. No vi nenhum deles e conheo-os todos, pode acreditar-me. Ento, pequena mendiga, pelo que vejo, voc sabe como afrouxelar 
seu ninho. Enjoou dos barcos de feno? Deixa-se uma pequena flor plida, anmica, enlameada, que chora dormindo, e encontra-se uma robusta dona de casa, confortavelmente 
instalada... E no entanto  bem voc. Seus lbios continuam bons, mas tm agora um sabor de cereja, e no mais de lgrimas amargas. Mais um beijo...
  - Estou com pressa - disse Anglica, repelindo as mos que desejavam aprisionar-lhe.as faces. -
  - Dois segundos de felicidade valem dois anos de vida. Depois, eu ainda tenho fome, voc sabe!
  - Quer folhados e compotas?
  '- No; eu quero  a voc. V-la e peg-la  tudo quanto preciso para saciar meu apetite. Quero seus lbios de cereja, suas faces de pssego. Tudo em voc se tornou 
comestvel. No se pode desejar nada melhor para um poeta faminto... Sua carne  tenra. Tenho vontade de mord-la. E voc tem calor!...  maravilhoso! O odor de 
suas axilas me faz morrer de fome canina.
  - Oh! Voc  impossvel! - protestou ela. - Com suas declaraes ora lricas, ora: triviais, torna-me louca.
  -  isso que eu desejo. Vamos, no se faa rogada.
  Com gesto peremptrio, que provava o retorno de suas foras, ele puxou-a para si e, deitando-lhe a cabea no brao, ps-se a beij-la.
  A pancada de uma acha de lenha contra a mesa separou-os brutalmente.
  - Por So Tiago! - rugiu mestre Burjus. - Esse gazeteiro maldito, esse servo de Satans, esse caluniador, na minha casa, na minha copa, empenhado em molestar 
minha filha! Fora daqui, patife, ou o ponho na rua a pontaps.
  - Piedade, messire, piedade para as minhas calas! Elas se acham to usadas, que seu augusto p se arriscaria a proporcionar um es-petculo indecente para as damas.
  - Fora daqui, velhaco, plumitivo, desmancha-prazeres! Voc desonra minha loja com sua roupa esburacada e seu chapu de saltimbanco.
  Mas o outro, fazendo caretas, rindo e conservando as mos sobre o fundilho ameaado, havia corrido at a porta da rua. Fez urria careta e desapareceu.        .. 
.
  Anglica disse, um pouco lassamente:
  - Esse indivduo entrou na copa e eu no pude desembaraar-me.
  - Hum! - resmungou o rtisseur. -- Desta vez voc no tinha o ar to descontente. Calma, beleza, no proteste! No  contra isso que eu me insurjo: um pouco de 
carcias, de vez em quando,  coisa que alegra uma bela jovem. Mas, francamente, Anglica, voc me decepciona. No vm tantas pessoas respeitveis  nossa casa? 
Por que voc foi escolher um jornalista?
  A favorita do rei, Srta. de La Vallire, tinha a boca muito grande. Ela claudicava um pouco. Dizia-se que isso lhe dava uma graa particular e no a impedia de 
danar admiravelmente, mas o fato estava ali: ela coxeava.
  Ela no tinha peito. Comparavam-na a Diana, falava-se do encanto dos seres andrginos, mas o fato estava ali: ela tinha os seios chatos. Sua pele era seca. As 
lgrimas causadas pelas infidelidades reais, as humilhaes da coru, os remorsos haviam-lhe cavado as faces. Finalmente, aps sua segunda gravidez, ela sofrera de 
um incomodo de alcova, do qual somente Lus XIV poderia revelar os pormenores. Mas o Poeta Pobre os conhecia.
  E de todas essas misrias ocultas ou conhecidas, dessas desgraas fsicas, ele fez um panfleto surpreendente, cheio de esprito, mas de uma crueldade tal que at 
os burgueses menos pudibundos evitaram mostr-lo s suas mulheres, que o pediam a seus criados.
  "Se voc  coxa e tem quinze anos,
  Peito magro e muito pouco juzo,
  Se teve pais s Deus sabe como,
  Se j anda na vida e emprenha nas antecmaras,
  Palavra que ter do reino o primeiro dos amantes,
  E La Vallire  disso a prova."
  Assim comeava a cano.
  Achavam-se esses libelos por quase toda Paris, no Palcio Biron, onde estava alojada Lusa de La Vallire, no Louvre e at junto  rainha, que, diante desse retrato 
de sua rival, se ps a rir pela primeira vez depois de muito tempo e esfregou de alegria suas pequenas mos.
  Ofendida, morta de vergonha, a Srta. de La Vallire meteu-se na primeira carruagem que encontrou e fez-se conduzir ao Convento de Chaillot, onde queria tomar o 
vu.
  O rei deu-lhe ordem de regressar e de mostrar-se na corte. F-la procurar pelo Sr. Colbert. Nesse chamado existia menos de ternura indignada que de desafio furioso 
da parte de um soberano de quem seu povo ousava escarnecer, mas que comeava a recear que sua amante no lhe fizesse honra.
  Os mais argustos agentes de polcia foram lanados em perseguio do Poeta Pobre.
  Dessa vez, ningum duvidava de que ele fosse enforcado.
  Anglica terminava, no pequenp quarto da Rue des Frances-Bourgeois, seus preparativos para' deitar-se. Javotte acabava de retirar-se com uma reverncia. As crianas 
dormiam.
  Ouviu-se l fora um rumor de passos. Eram abafados pela fina camada de neve que, muito lentamente, naquela noite de dezembro, tinha comeado a cair.
  Bateram  porta. Anglica enfiou seu chambre e foi abrir o postigo.
  - Quem ?
  - Abra depressa, pequena mendiga, depressa. O co!
  Sem perder tempo ett refletir, Anglica correu os ferrolhos. O gazeteiro deu-lhe um encontro. No mesmo instante surgiu da sombra um vulto branco, saltou e agarrou-o 
pela garganta.
  -        Sorbonne! - gritou Anglica.
  Ela investiu e sua mo encontrou o plo mido do animal.
  -        Deixe-o, Sorbonne. Lass ihm! Lass ihm!
  Falava-lhe em alemo, lembrando-se vagamente de que Desgrez lhe dava ordens nessa lngua.
  Sorbonne rosnava, com os colmilhos solidamente enterrados na gola de sua vtima. Passados alguns segundos, reconheceu a voz de Anglica. Sacudiu a cauda e consentiu 
em largar a presa, continuando a rosnar.
  O homem arquejava.
  - Estou morto!
  - Oh, no! Entre depressa.
  - O co vai ficar diante da porta e advertir o policial. - Entre, digo-lhe!
  Ela mesma o empurrou para dentro, depois ficou sob a abbada, puxando a porta atrs de si. Segurava firmemente Sorbonne pela coleira. A entrada do prtico, ela 
via turbilhonar a neve  luz de uma lanterna. Afinal, distinguiu a "aproximao de um passo leve, o passo que sempre ouvia atrs do co, o passo do policial Francisco 
Desgrez.
  Anglica se adiantou.
  -        Est procurando seu co, Maitre Desgrez?
  Ele parou, depois entrou, por seu turno, para a passagem abobadada. Ela no lhe via o rosto.
  - No - respondeu ele com muita calma. - Procuro um panfletrio.
  - Sorbonne passava. Eu conheci outrora o seu co. Chamei-o e decidi ret-lo.
  - Sem dvida nenhuma, ele ficou encantado, senhora. Refrescava-se aqui fora com esse tempo agradvel?
  - Eu estava fechando a porta. Mas estamos no escuro, Matre Desgrez, e tenho certeza de que no adivinhou quem eu sou.
  - No o adivinho, senhora; eu o sei. H muito tempo eu sei quem habita esta casa e, como nenhuma taberna de Paris me  desconhecida, eu a vi na Mscara Vermelha. 
Faz-se chamar Sra. Morens, tem dois filhos, e o mais velho se chama Florimond.
  - Ningum pode esconder-lhe nada. Mas, j que sabe quem eu sou, por que foi necessrio um acaso para que nos falssemos?
  - Eu no sabia que a minha visita lhe dava prazer, senhora. Da ltima vez em que nos vimos, separamo-nos em pssimas relaes.
  Anglica evocou a noite em que fora perseguida no Faubourg Saint-Germain. Pareceu-lhe que no tinha mais uma gota de saliva na boca.
  Perguntou com voz sem timbre:
  - Que quer dizer?
  - Nevava como esta noite, e a poterna do Temple no era menos escura que sua abbada.
  Anglica dissimilou um suspiro de alvio.
  - Ns no estvamos em ms relaes. Estvamos vencidos, o que no  a mesma coisa, Matre Desgrez.
  - No deve chamar-me matre, senhora, pois vendi meu cargo de advogado, e alm disso fui eliminado da universidade. Entretanto, eu o vendi muito bem e pude comprar 
um cargo de capito de polcia, em virtude do qual me dedico a uma tarefa mais lucrativa e no menos til: a perseguio dos malfeitores e dos mal-intencionados 
desta cidade. Assim, das culminancias do verbo eu tombei s profundezas do silncio.
  - Continua a falar muito bem, Matre Desgrez.
  - Conforme o momento. Reencontro ento o gosto de certos perodos oratrios. E sem dvida por causa disso que estou particularmente encarregado da sorte desses 
incontinentes da palavra, escrita ou no: os poetas, os gazeteiros, os plumitivos de qualquer espcie. Esta noite, eu persigo uma personagem virulenta, chamada Cludio 
Le Petit, e que tambm se intitula Poeta Pobre. Esse indivduo estar, sem dvida, abenoando sua interveno.
  - Por que isso?
  - Porque a senhora nos reteve e ele continuou a correr. 
  -  Desculpe-me de t-lo retido.
  - Eu estou pessoalmente encantado, embora a pequena sala em que me receba carea um pouco de conforto.
  - Perdoe-me. Poder voltar, Desgrez.
  - Eu voltarei, senhora.
  Ele inclinou-se para o co, a fim de colocar-lhe a trela. Os flocos de neve tornavam-se cada vez mais densos. O policial levantou a gola de seu capote, deu um 
passo, depois parou.
  -        Recordo-me de uma coisa - disse ele ainda. - Esse Poeta Pobre escreveu bem cruis maledicncias por ocasio do processo de seu marido. Escute...
  "E-a bela Sra. de Peyrac
  Roga a Deus que no se abra a Bastilha
  E que ele permanea em seu encerramento..."
  - Oh! Cale-se, por piedade! - exclamou Anglica tapando os ouvidos com as mos. - Nunca mais fale dessas coisas. Eu no me lembro mais de nada. No quero mais 
lembrar-me...
  - Ento o passado est morto para a senhora?
  - Sim, o passado est morto!
  -  o melhor que tinha a fazer. Eu no lhe falarei nada disso. At a vista, senhora... e boa noite!
  Anglica, batendo o queixo, correu os ferrolhos. Estava gelada at a medula por essa permanncia no frio, tendo por vestimenta apenas o seu chambre. E ao frio 
juntava-se a emoo de ter visto Desgrez e de ter ouvido suas revelaes.
  Ela entrou em seu quarto e fechou a porta. O homem dos cabelos louros estava sentado sobre a pedra da lareira, os braos unidos em volta dos magros joelhos. Parecia 
um grilo.
  A jovem apoiou-se  porta e disse com voz sumida:
  -  voc o Poeta Pobre? Ele sorriu.
  - Pobre? Certamente. Poeta? Talvez.
  - Foi voc quem escreveu aque... aquelas infmias sobre a Srta. de La Vallire? No pode, ento, deixar que as pessoas se amem tranquilamente? O rei e essa moa 
fizeram tudo o que podiam para manter secretos os seus amores, e eis que voc lana o escndalo, em termos odiosos! O procedimento do rei  condenvel, decerto. 
Mas ele  um homem jovem, fogoso, que casou contra a vontade com uma princesa sem esprito nem beleza. Ele riu zombeteiramente.
  - Como voc o defende, minha linda! Esse francripault amoleceu-lhe o corao?
  - No, mas tenho horror de ver maculado um sentimento respeitvel e real.
  - No h nada respeitvel ou real no mundo.
  Anglica atravessou o quarto e foi apoiar-se do outro lado da chamin. Sentia-se fraca e perturbada. O poeta ergueu os olhos para ela. Ela viu danarem neles as 
pontas vermelhas das labaredas.
  - No sabia quem eu era? - perguntou ele.
  - Ningum me disse, e como poderia eu adivinhar? Sua pena  mpia e licenciosa, e voc...
  - Continue...
  - Voc me pareceu bom e alegre.
  - Eu sou bom para as pequenas mendigas que choram nos barcos de feno, e sou mau para os prncipes.
  Anglica suspirou. Indicou-lhe a porta com o queixo.
  - Agora deve partir.
  - Partir?! - exclamou ele. - Partir quando o co Sorbonne me espera para agarrar minhas calas, e quando o policial do Diabo prepara suas algemas?
  - Eles no esto na rua.
  - Esto. Eles me esperam no escuro.
  - Juro que eles no desconfiam que voc est aqui. -
  - Como sab-lo? Ser que voc no conhece esses dois companheiros, voc que fez parte do bando de Calembredaine?
  Ela fez-lhe sinal para que se calasse.
  - Est vendo? Voc mesma os sente de emboscada l fora na neve. E quer que eu v embora!
  - Quero. V embora!
  - Voc me expulsa?
  - Expulso.
  - No entanto, nenhum mal lhe fiz.
  - Fez, sim.
  Ele olhou-a, demoradamente, depois estendeu a mo para ela.
  -        Ento,  preciso que nos reconciliemos. Venha.
E, como ela permanecesse imvel:
  - Estamos sendo perseguidos pelo co. Que nos restar se nos zangarmos? Ele continuava a estender a mo.
  - Seus olhos tornaram-se duros e frios como esmeraldas. Eles no tm mais aqueles reflexos de regato sob as folhagens, que parecem dizer: "Ame-me, beije-me..."
  -  o regato que diz isso?    ,
  -        So os seus olhos, quando eu no sou seu inimigo. Venha!
Ela cedeu, de repente, e foi aconchegar-se ao jovem. Ele passou logo o brao em volta dos ombros dela.
  - Voc est tremendo. No tem mais seu ar seguro de boa hospedeira. Qualquer coisa lhe fez medo e lhe fez mal. O co? O policial?^
  -  o co.  o policial, e  voc tambm, Sr. Poeta Pobre.
  - O sinistra trindade de Paris!
  - Voc, que est ao corrente de tudo, sabe o que eu fazia antes de estar com Calembredaine?
  Ele fez uma cara de enfado.
  - No. Desde que a reencontrei, pude mais ou menos compreender como voc se elevou e como empalmou seu rtisseur. Mas, antes de Calembredaine, no; a pista pra 
a.
  -  prefervel.
  - O que me preocupa  que eu estou quase certo de que o policial do Diabo conhece o seu passado.
  - Porfiam vocs dois em colher informaes?
  - Trocamo-las frequentemente, ele e eu.
  - No fundo, voci se parecem um com o outro.
  - Um pouco. Mas existe, em todo caso, uma grande diferena entre ns.
  - Qual  a diferena?
  - Eu no posso mat-lo, enquanto ele pode conduzir-me pelo caminho da morte. Se voc no me tivesse aberto a porta esta noite, eu estaria agora no Chtelet. J 
teria ganho mais trs polegadas de altura, graas ao potro de mestre Aubin, e amanh, ao alvorecer, estaria balanando na ponta de uma corda.
  - E por que voc diz que, da sua parte, no pode mat-lo?
  -        Porque eu no sei matar. A viso'do sangue me faz mal.
Ela se ps a rir da sua mmica de horror. A mo nervosa do poeta pousou-lhe sobre o pescoo.
  -        Quando voc ri, parece um-pombinho.
  Ele se reclinou sobre seu rosto. Ela viu naquele sorriso terno e zombeteiro a brecha escura causada pela torqus do Grande Mateus, e isso deu-lhe vontade de chorar 
e de amar aquele homem.
  -        Est bem - murmurou ele -, voc j no sente medo. Tudo
se distancia... Existe somente a neve que cai l fora, e ns, aqui, bem .aquecidos... No me acontece muitas vezes encontrar um alojamento assim. Voc est nua sob 
esse chambre?... Sim, eu o sinto. No se-mexa, minha amiga... No diga mais nada...
  Sua mo deslizou, puxou para trs o chambre para seguir a linha da espdua, desceu mais um pouco. Ele riu, porque ela estremecia.
  -        Aqui esto os botes da primavera. E no entanto  inverno!...
Beijou-lhe os lbios. Depois, estendeu-se diante do fogo e puxou-a docemente para si.
  "Mas escute um pouco, eu lhe peo:
  Estou ouvindo o vendedor de aguardente,
  E creio, seriamente,
  Cara amiga, que  tempo de partir!..."
  O poeta havia posto seu grande chapu e seu capote furado. A aurora estava ali, envolta em neve, e, na brancura da rua silenciosa, o vendedor de aguardente, todo 
agasalhado, tropeava como um urso.
  Anglica chamou-o. Ele serviu aos dois, na entrada, um pequeno copo de lcool.
  Quando o bom homem se afastou, eles sorriram um para o outro.
  -        Aonde vai agora?
  - Revelar um novo escndalo ao povo de Paris. O Sr. de Brien esta noite, encontrou sua mulher com um amante.
  - Esta noite? Como voc pode sab-lo?
  - Eu sei tudo. Adeus, minha bela.
  Ela segurou-o pela aba do capote e disse-lhe:
  - Volte.
  Ele voltou. Chegava de noite, atritava a janela com as unhas, segundo um sinal convencionado. Ela abria sem fazer rudo. E, na tepidez do pequeno quarto, junto 
daquele companheiro alternadamente palrador, satrico e amoroso, ela esquecia o duro labor cotidiano. Ele contava-lhe os escndalos da corte e da cidade. Isso a 
divertia, pois ela conhecia a maior parte das personagens de quem ele falava.
  -        Eu sou rico de todo o medo das pessoas que me temem - dizia ele.
  Mas ele no dava importncia ao dinheiro. Era em vo que ela queria vesti-lo mais decentemente.
  Aps um bom jantar que ele aceitava, sem alis fazer o gesto de abrir sua bolsa, desaparecia por- oito dias e, quando tornava a aparecer, macilento, esfaimado,, 
sorridente, era em vo que ela o interrogava. Entendendo-se to bem com os bandos de ladres de Paris, por que no ia ele, oportunamente, pandegar com os seus amigos? 
Nunca fora visto na Tour de Nesle. No entanto, sendo uma das personagens importantes do Pont Neuf, seu lugar ali estava reservado. E, com todos os segredos que conhecia, 
ele poderia fazer chantagem com inmeras pessoas.
  -         mais divertido faz-las chorar e ranger os dentes - dizia.
No aceitava auxlio seno das mulheres que ele amava. Uma pequena florista, uma prostituta, uma criada, depois de se haverem entregue s suas- carcias, tinham 
o direito de mim-lo um pouco. Elas lhe diziamr"Coma, meu pequeno", e olhavam-no com ternura enquanto ele se alimentava.
  Depois ele se ia. Como a florista, a prostituta ou a criada, Anglica sentia, por vezes, o desejo de ret-lo. Estirada, no calor do leito, junto daquele longo 
corpo cujo amplexo era to vivo e to leve, ela passava um brao em torno do pescoo dele e puxava-o para si.
  Mas j ele abria os olhos, notava a luz do dia por trs dos pequenos vidros encaixilhados de chumbo. E saltava para fora da cama, vestia-se s pressas.
  Na verdade, ele no parava num lugar. Estava possudo de uma mania bem rara na poca e que em todos os tempos  paga bem caro: a mania da liberdade.
  
  CAPTULO V
  
  A pequena guerra das patentes
  
  Ele nem sempre fazia mal em fugir assim. Muito frequentemente, quando Anglica, de janela aberta, acabava de se vestir, uma sombra negra se apresentava por trs 
das grades.
  - Faz suas visitas muito cedo, senhor policial.
  - No venho fazer visita, senhora. Procuro um panfletrio.
  - E pensa encontr-lo nestas paragens? - perguntava Anglica, desenvolta, pondo o manto aos ombros para ir  Taberna da Mscara Vermelha.
  - Quem sabe? - respondia ele.
  Ela saa e Desgrez acompanhava-a pelas ruas nevadas. O co Sor-bonne farejava  frente deles. Isso recordava a Anglica os tempos em que, da mesma forma, eles 
tinham caminhado lado a lado em Paris. Um dia, Desgrez a tinha levado s estufas de Saint-Nicolas, De outra feita, o bandido Calembredaine se tinha erguido diante 
deles.
  Agora, eles se reencontravam, cada qual guardando para si a parte sombria dos ltimos anos. Anglica no tinha vergonha de que ele a visse como criada de uma taberna. 
Ele tinha acompanhado muito de perto o desmoronamento de sua fortuna, para compreender a necessidade em que ela se achava de trabalhar humildemente com suas mos. 
Ela sabia que ele no a desprezava por isso. Ela podia enterrar no fundo de si mesma a lembrana de sua vida com Calembredaine. Os anos tinham passado. Calembredaine 
no reaparecera. Anglica esperava ainda que ele houvesse podido fugir para o campo. Talvez se houvesse ligado aos ladres de estrada... Talvez tivesse cado nas 
mos de um recrutador de soldados.
  De qualquer maneira, seu instinto lhe dizia que ela nunca mais o tornaria a ver. Podia, pois, caminhar pelas ruas de cabea erguida. O homem que ia junto dela, 
com seu passo flexvel, habituado ao silncio, no desconfiava dela. Tambm ele havia mudado. Falava menos e sua alegria tinha cedido lugar a uma ironia que se aprende 
a temer. Por trs das palavras mais simples, bem frequentemente se vislumbrava uma ameaa oculta. Mas Anglica tinha a impresso de que Desgrez jamais lhe faria 
mal.
  Ele parecia tambm menos pobre. Usava belas botas. Muitas vezes trazia peruca.
  Chegando diante da taberna, o policial saudava cerimoniosamente a jovem e prosseguia.
  Anglica admirava, por cima da porta, a bela tabuleta em cores vivas que fora pintada por seu irmo Gontran. O quadro representava uma mulher envolta num manto 
com quadrados de cetim negro. Os olhos verdes brilhavam por trs da mscara vermelha. Em redor dela, o pintor tinha esboado a Rue de la Valle-de-Misre, com as 
silhuetas extravagantes de suas velhas casas erguidas sob o cu estrelado, e a-vermelha claridade de suas rtisseries.
  O vendedor de vinho, matinal, saa do albergue, de jarro na mo.
  -        Ao bom vinho sadio e puro! Venham todas, boas mulheres! Os aros esto rebentando!...
  A vida recomeava ativamente com o toque dos sinos. E, de noite, Anglica arrumava em pilha os belos escudos. Depois de t-los contado, colocava-os em pequenos 
sacos"e encerrava-os no cofre-forte que fizera mestre Bourjus comprar.
  Periodicamente, Audiger voltava a pedi-la em casamento. Anglica, que no esquecia seus projetos sobre o chocolate, recebia-o com um sorriso.
  -        E sua patente?
  - Daqui a alguns dias o assunto estar resolvido! A jovem acabou por dizer-lhe:
  - Sua patente, nunca a ter!
  - Verdadeiramente, senhora pitonisa! E por qu?
  -        Porque se fez apoiar pelo Sr. de Guich, genro do Sr. Sguier. Ora, voc ignora que o lar do Sr. de Guich  um inferno, e que o Sr. Sguier se colocou 
ao lado da filha. Deixando mofar sua patente, o chanceler v nisso um ensejo, entre muitos, de fazer bufar o genro, e essa oportunidade ele no a deixar passar.
  Ela conseguira esses detalhes com o Poeta Pobre. Mas Audiger, irritado, soltava altos gritos. O registro de sua patente estava bem encaminhado. A prova era que 
ele j tinha comeado a construir sua sala na Rue Saint-Honor.
  Visitando os trabalhos, Anglica constatou que o mordomo tinha seguido suas sugestes. Havia espelhos e forros de madeira dourada.
  - Penso que essa novidade atrair as pessoas vidas de singularidades - explicou Audiger, esquecendo totalmente que era  jovem que devia essa ideia. - Quando 
se lana um produto novo,  necessria uma atmosfera nova.
  - E voc j se preocupou de fazer vir o produto em questo?
  - Logo que eu tenha a minha patente, as dificuldades se aplainaro por si mesmas.
  
  CAPITULO VI
  
  Orgia sangrenta na Mscara Vermelha
  
  Anglica pousou a caneta na escrivaninha e releu com satisfao a conta que acabava de fazer.
  Regressara da Mscara Vermelha, onde vira a turbulenta chegada de um bando de jevens senhores, cujas golas de renda em ponto de Gnova e amplos canhes a tinham 
feito augurar a sua solvibilidade. Eles estavam mascarados, o que era uma prova suplementar de sua categoria elevada. Algumas personagens da corte preferiam, com 
efeito, guardar o incgnito para ir esquecer nas tabernas as servides da etiqueta.
  A jovem, como agora acontecia frequentemente, tinha deixado a mestre Bourjus, a Davi e aos aprendizes o cuidado de receber esses clientes importantes. Agora que 
a reputao da casa estava feita e que Davi tinha experincia na confeco de suas especialidades culinrias, Anglica expunha-se menos e consagrava mais tempo s 
compras e  gesto financeira do estabelecimento.
  Expirava o ano de 1664. A situao tinha evolvido gradualmente para um estado de coisas que, se fosse previsto trs anos antes, teria feito ir s gargalhadas toda 
a Rue de la Valle-de-Misre. Sem ter ainda comprado a casa de mestre Bourjus, como planejava secretamente, Anglica se havia tornado uma espcie de patroa. O rtisseur 
continuava proprietrio, mas ela realizava todas as despesas e aumentara proporcionalmente a sua participao nos lucros. Finalmente, era a mestre Bourjus que tocava 
a parte mais fraca. Ele se achava, alis, satisfeito por ter se desembaraado de todos os cuidados e de viver tranquilamente em seu prprio albergue, a formar um 
pequeno peclio para seus dias de velhice. Anglica tinha somente de amontoar todo o dinheiro que quisesse. O que mestre Bourjus desejava era ficar sob sua asa, 
sentir-se cercado de uma afeio clarividente e peremptria. s vezes, falando dela, ele dizia "minha filha" com tanta convico que muitos fregueses da Mscara 
Vermelha estavam persuadidos de seu parentesco. Predisposto  melancolia e sempre convencido de seu fim prximo, ele contava aos que o cercavam que seu testamento, 
sem ferir os interesses de seu prprio sobrinho, beneficiava grandemente Anglica. Alm disso, Davi no podia formalizar-se com as decises tomadas por seu tio relativamente 
a uma mulher que continuava a subjug-lo inteiramente.
  O prprio Davi tornava-se um belo rapaz. Ele sabia disso e no desesperava de um dia tornar sua amante aquela a quem adorava.
  Anglica no deixava de perceber os progressos de Davi na cincia amorosa. Media-os por suas prprias reaes, pois, se o desazo do adolescente outrora a tinha 
fortemente irritado, certos olhares dele, agora, causavam-lhe um prazer indefinido. Continuava a trat-lo de maneira severa, como a um pequeno irmo, mas, nas palavras 
que lhe arremessava, ela reprovava a si mesma certo coquetismo. Os risos e os gracejos que eles trocavam em volta dos espetos no eram sempre destitudos dessa provocao 
que uma mulher e um homem permutam quando so atrados um para o outro.
  Troando intimamente de si prpria, a jovem acabava por perguntar a si mesma se no cederia um dia por distrao, quela paixo tumultuosa e fresca. Porque ela 
pr 'cisava de Davi. Ele era um dos pilares sobre os quais assentava o xito de seus futuros empreendimentos. Por exemplo, quando ela adquirisse duas ou trs lojas 
na feira de Sait-Germain, caberia a Davi assegurar seu lanamento e sua celebridade. O outro pilar era Audiger, responsvel pelas perspectivas do negcio de chocolate 
e de refrigerantes. Com este, tambm, era preciso entender-se. Era preciso reter e no desencorajar aquele amoroso mais grave, mais intensamente enamorado, cuja 
reserva, acentuando-se, no podia significar seno um sentimento cada vez mais profundo. Com este, no seria o caso de acalm-lo com alguma complacncia. Davi, por 
uma noite em que ela lhe concedesse o direito de tocar  vontade o seu "corpo divino", ficaria sem dvida perdidamente escravizado. Quanto ao outro, Audiger, Anglica 
temia um pouco a sua tenacidade de homem feito e que ultrapassou a idade dos caprichos, sem ter jamais sentido paixes. Aquele calmo burgus, domstico sem bai-xezas, 
militar por herana nacional, franco, corajoso e prudente como outros so louros ou morenos, no se deixaria engazopar.
  Anglica sacudiu a areia da folha em que acabava de fazer seus lanamentos. Teve um riso indulgente.
  -        Trs cozinheiros cheios de ternura para comigo, cada qual por motivo diferente! Deve ser a profisso que faz isso... O calor dos fogos derrete-lhes o 
corao como a gordura dos perus.
  Javotte entrou para ajud-la a despir-se e escovar seus cabelos.
  - Que  isso que estou ouvindo na entrada? - perguntou Anglica.
  - No sei. Parece um rato roendo a porta.
  Como se acentuasse o rudo, Anglica foi ao vestbulo e constatou que ele no vinha de baixo da porta, mas do pequeno postigo a meia altura. Ela abriu a janelinha 
e deu um leve grito de horror, pois no mesmo instante uma pequena mo negra se introduziu pelas grades do postigo e estendeu-se tragicamente para ela.
  -        E Piccolo! - exclamou Javotte.
  Anglica puxou todos os ferrolhos, abriu a porta, e o smio precipitou-se em seus-braos.
  -        Que ter havido? Ele nunca veio sozinho at aqui. Dir-se-ia, sim, dir-se-ia que ele" quebrou a corrente.
  Intrigada, levou o animalzinho para o seu quarto e o ps sobre a mesa.
  -        Meu Deus! - exclamou a criada, rindo. - Em que estado ele se acha! O plo est todo peganhento e vermelho. Deve ter cado no vinho.
  Com efeito, aps acariciar o macaquinho, Anglica percebeu que seus dedos estavam visguentos e tintos de rubro. Cheirou-os e, prontamente, sentiu-se empalidecer.
  - No  vinho - disse ela. -  sangue!
  - Ele est ferido?
  - Vou ver.
  Desembaraou-o de seu casaco bordado e de seu calo, ambos igualmente midos de sangue. Entretanto, o animal no apresentava nenhum ferimento, embora tremesse 
convulsivamente.
  -        Que h, Piccolo?... - disse Anglica a meia voz. - Que se passa, meu amiguinho? Explique-me!
  O smio encarava-a com seus olhos vivos e dilatados. De sbito, saltou para trs, agarrou uma pequena-caixa de lacre e comeou a caminhar muito gravemente, agitando 
diante de si a pequena caixa.
  -        Oh! O maroto! - exclamou Javotte, soltando uma gargalhada. - Primeiro nos assusta e depais se pe a imitar Linot com a sua cesta de barquilhos. No  
extraordinrio, senhora?
  Mas o animal, aps ter dado volta  mesa imitando o pequeno vendedor de barquilhos, parecia de novo inquieto. Ele girava, olhava em redor de si, recuava. Seu focinho 
franzia-se numa expresso ao mesmo tempo lastimosa e amedrontada. Erguia a cara para a direita, depois para a esquerda. Parecia que ele se dirigia, suplicando, a 
alguma personagem invisvel. Finalmente, pareceu debater-se, lutar. Largou violentamente a caixa que segurava, crispou as mos sobre o ventre e tombou para trs 
com um grito agudo.
  -        Mas que  isso? Que  isso? - balbuciou Javotte, sobressaltada. - Ele est doente! Ele ficou louco.
  Anglica, que tinha acompanhado com ateno os movimentos do smio, dirigiu-se apressadamente ao guarda-roupa, tirou seu manto e ps a mscara.
  - Creio que aconteceu uma desgraa a Linot - disse ela com voz sem timbre. -  preciso que eu v at l.
  - Irei com a senhora.
  - Se quiser, venha. Voc segurar a lanterna. Antes, leve o mono para Brbara, l em cima, para que ela o limpe, o reaquea e lhe d leite.
  O pressentimento do drama abateu-se sobre Anglica de maneira inelutvel. Malgrado as palavras de conforto que Javotte lhe murmurava, nem por um momento, durante 
o trajeto, ela duvidou de que o macaquinho tivesse assistido a uma cena terrvel. Mas a realidade ultrapassava suas maiores apreenses. Mal ela chegou  entrada 
do Quai des Tanneurs, o impacto de uma blide quase a derrubou. Era Flipot, extremamente apavorado.
  Ela o agarrou pelos ombros e sacudiu-o, para ajud-lo a recuperar a calma.
  - Eu ia busc-la, Marquesa dos Anjos - tartamudeou o garoto. - Eles ma... eles mataram Linot!
  - Eles? Quem?
  - Eles... Aqueles homens, os fregueses.
  - Por que motivo? Que foi que aconteceu?
  O pobre aprendiz engoliu a saliva e disse precipitadamente, como se recitasse uma lio decorada:
  -        Linot estava na rua com sua cesta de folhados. Ele cantava:
"Barquilhos! Barquilhos! Quem chama o barquilheiro?..." Ele cantava como todas as noites. Um dos clientes que estavam na casa, a senhora sabe, um dos senhores mascarados, 
com gola de renda, disse: "Eis uma bonita voz. Deu-me vontade de comer barquilhos.
Chamem o vendedor". Linot veio. Ento o senhor disse: "Por So Dionsio, eis um menino ainda mais sedutor que sua voz". Em seguida ps Linot sobre os joelhos e comeou 
a beij-lo. Vieram outros e queriam beij-lo tambm... Eles estavam bbados como tordos. Linot largou a cesta e comeou a gritar e a dar-lhes pontaps. Um dos senhores 
puxou sua espada e enterrou-a no ventre dele. Outro tambm lhe enfiou a espa~da no ventre. Linot caiu e o sangue esguichava de sua barriga. 
  - Mestre Bourjus no interveio?
  - Interveio, sim, mas eles o castraram.
  - O qu? Que  que voc diz? De quem est falando?
  - De mestre Bourjus.
  - Voc ficou louco!
  - No, no sou eu, so eles que esto loucos. Quando mestre Bourjus ouviu Linot gritar, veio da cozinha e disse: "Senhores! Por favor! Senhores!" Mas eles saltaram-lhe 
em cima. Riam e sovavam-no, dizendo: "Grosso tonel! Grossa barrica!" At eu comecei a divertir-me. Depois, um deles disse: "Estou-o reconhecendo:  o antigo dono 
do Galo Atrevido!..." Outro disse: "Voc no tem ar bastante atrevio para um galo, vou fazer de voc um capo". Pegou uma grande faca de carne, todos se precipitaram 
sobre ele e...
  O garoto terminou seu relato com um gesto enrgico, que no deixava a menor dvida sobre a terrvel mutilao de que fora vtima o pobre rtisseur.
  -        Ele berrava feito um asno! Agora parou de berrar. Talvez esteja morto. Davi tambm quis det-los. Deram-lhe uma espadada na cabea. Ento, quando vimos 
isso, Davi e eu, e os outros aprendizes e as criadas e Susana, todos demos o fora!
  A Rua de la Valle-de-Misre tinha um aspecto inusitado. Sempre animada na poca do carnaval, os numerosos fregueses que enchiam as rtisseries continuavam a cantar 
e bater seus copos. Mas, para o fim da rua, havia uma aglomerao anormal de vultos brancos cobertos de altos gorros. Os rtisseurs vizinhos e seus ajudantes, armados 
de espetos e de manivelas, agitavam-se diante da Taberna da Mscara Vermelha.
  - No sabemos que fazer! - gritou um deles a Anglica. - Esses demnios bloquearam a porta com "bancos. Eles tm uma pistola...
  -  preciso ir chamar a ronda.
  - Davi correu at l, mas...
  O dono do Capo Depenado, que era vizinho da Mscara Vermelha, disse baixando a voz:
  -        Criados detiveram a ronda na Rue de la Triperie. Disseram-lhe que os fregueses que estavam na Mscara Vermelha eram nobres de alta linhagem, pessoas chegadas 
ao rei, e que a ronda se veria atrapalhada se se metesse nessa histria. Davi, mesmo assim, foi at o Chtelet, mas os criados j tinham prevenido os guardas. No 
Chtelet, disseram-lhe que ele se arranjasse com os seus fregueses.
  Da Taberna da Mscara Vermelha um alarido tremendo se elevava: risos enormes, cantos de pessoas avinhadas e gritos to selvagens que os cabelos dos honestos rtisseurs 
se arrepiavam sob seus gorros.
  Mesas e bancos tinham sido amontoados diante das janelas. Nada se podia distinguir do que se passava no interior, mas ouviam-se os rudos de vidro e de loua quebrados 
e, de vez em quando, o estalo seco de uma pistola que devia tomar por alvo as belas garrafas de precioso cristal com que Anglica havia adornado as mesas e o manto 
da chamin.
  Anglica avistou Davi. Ele estava da cor de seu avental, a fronte amarrada com um pano de cozinha manchado por uma estrela de sangue.
  Ele se dirigiu a ela e completou, balbuciando, o relato da pavorosa saturnal. Os nobres se mostraram logo muito exigentes. J tinham bebido em outras tabernas. 
Comearam por despejar uma sopeira cheia, quase fervente, sobre a cabea de um dos aprendizes. Depois foi preciso fazer os maiores esforos do mundo para expuls-los 
da cozinha, onde eles queriam agarrar Susana, presa no entanto pouco atraente. Afinal, houve o drama de Linot, cuja encantadora figura lhes inspirara horrveis desejos...
  -        Venha comigo - disse Anglica, segurando o brao do adolescente. - E preciso ir ver. Vou passar pelo ptio.
  Vinte mos a seguraram.
  - Est louca?... Vai ser estripada! Eles so lobos!...
  - Talvez ainda haja tempo de salvar Linot e mestre Bourjus!...
  - Iremos quando eles comearem a cochilar.
  - E quando eles tiverem quebrado, pilhado e queimado tudo! - exclamou a jovem.
  Ela se arrancou s mos daqueles que queriam ret-la e, levando Davi, entrou no ptio. De l, passou para a cozinha.
  A porta da cozinha, que comunicava com a sala comum, tinha sido cuidadosamente aferrolhada por Davi, quando ele fugiu com os outros empregados. Anglica soltou 
um suspiro de alvio. Pelo menos, as importantes provises que ali estavam armazenadas no tinham sido submetidas ao furor destrutivo dos miserveis.
  Ajudada pelo rapaz, ela encostou a mesa  parede e alou-se at a imposta, que, a meia altura, permitia lanar uma vista d'olhos ao interior.
  Viu a sala devastada, juncada de baixelas e de pratos, de toalhas sujas, de vidros quebrados. Os presuntos e as lebres tinham sido desprendidos das vigas. Os bbados 
tropeavam neles, afastavam-nos a grandes golpes de bota. As palavras obscenas de suas canes, suas pragas, suas blasfmias, ouviam-se agora distintamente.
  A maior parte deles estava agrupado em volta de uma das mesas, perto da lareira. Por suas atitudes e suas vozes cada vez mais confusas, adivinhava-se que eles 
no tardariam a desabar. A luz do fogo, a viso daquelas bocas abertas e vociferantes, sob mscaras negras, tinha qualquer coisa de sinistro. As vestes luxuosas 
estavam manchadas de vinho e de molho e talvez tambm de sangue.
  Anglica procurava distinguir os corpos de Linot e do rtisseur. Mas as velas tinham sido derribadas e o fundo da sala estava no escuro.
  - Quem foi que atacou Linot em primeiro lugar? - perguntou ela em voz baixa.
  - Aquele homenzinho, no canto da mesa, aquele que tem uma onda de fitas rosa sobre o casaco azul-claro. Era ele que parecia dar o exemplo e arrastava os outros.
  No mesmo instante, aquele que Davi apontava endireitou-se com dificuldade e, levantando seu copo com mo tremula, exclamou com voz de falsete:
  -        Senhores, bebo  sade de Astreu e de Asmodeu, prncipes da amizade!
  -        Oh! Essa voz! - exclamou Anglica, lanando-se para trs.
Ela a teria reconhecido entre mil. Era a voz que, em seus piores pesadelos, ainda a despertava por vezes: "A senhora vai morrer!" Ento era ele, sempre ele. Tinha 
ele ento sido escolhido pelos infernos para encarnar eternamente, perante Anglica, o demnio de um malfadado destino?
  -        Foi ele quem deu em Linot a primeira espadada? - perguntou ela.
  - Talvez, no me lembro bem. Mas o alto, ali atrs, de rhingrave vermelha, tambm o golpeou.
  Aquele era outro que no precisava tirar a mscara para que ela o reconhecesse.
  O irmo do rei e o Cavaleiro de Lorena! Ela agora tinha certeza de poder dar nome aos demais rostos mascarados!
  Subitamente um dos brios comeou a lanar as cadeiras e os tamboretes ao fogo. Um deles pegou uma garrafa e, de longe, atirou-a atravs da sala. A garrafa explodiu 
no fogo. Era aguardente. Uma enorme chama atingiu logo os mveis. Uma labareda infernal engolfava-se rugindo na chamin, e ties saltavam crepitando sobre o piso.
  Anglica desceu precipitadamente.  - Eles vo incendiar a casa.  preciso det-los!
  Mas o aprendiz prendeu-a em seus braos nervosos.
  -        A senhora no ir. Eles a mataro!
  Lutaram um instante. Com as foras decuplicadas pela clera e pelo medo ao fogo, Anglica logrou desprender-se e empurrou Davi.
  Reajustou a mscara, pois no lhe convinha ser reconhecida.
  Resolutamente, puxou os ferrolhos e abriu com estrpito a porta da cozinha.
  A apario daquela mulher envolta em seu manto negro e to curiosamente mascarada de vermelho causou um instante de estupor entre os pndegos.
  Baixou o tom das canes e dos gritos.
  - Oh! A mscara vermelha!
  - Senhores - disse Anglica com voz virante -, perderam a razo? No receiam a clera do rei, quando pelo rumor pblico lhe chegarem ao conhecimento os seus crimes?...
  No silncio aparvoado que se seguiu, ela sentiu que tinha lanado a nica palavra - o rei! - capaz de penetrar nos crebros nublados dos bbados e de ali acender 
um raio de lucidez.
  Aproveitando sua vantagem, avanou audaciosamente. Sua inteno era alcanar a lareira e retirar os mveis inflamados, a fim de reduzir o braseiro e de evitar, 
desse modo, o fogo de chamin.
  Foi ento que ela percebeu sob a mesa o corpo horrivelmente mutilado do mestre Bourjus. Perto dele, o menino Linot, com o ventre aberto, o rosto branco como neve, 
calmo como o de um anjo, parecia dormir. O sangue das duas vtimas misturava-se s regueiras de vinho que corriam entre cacos de garrafas.
  O horror daquele espetculo paralisou-a por um segundo. Como um domador que, preso de pnico, se distrai um instante de suas feras, ela perdeu o controle da matilha.
  Foi o bastante para desencadear de novo a tempestade.
  - Uma mulher! Uma mulher!
  - Eis o que nos faltava!
  Uma mo brutal abateu-se sobre a'nuca de Anglica. Ela recebeu um golpe violento sobre a fronte. Tudo se tornou negro. Ela estava sufocada por uma nusea. No 
sabia mais onde se encontrava.
  Em algum lugar, uma voz de mulher soltou um grito agudo e contnuo...
  Percebeu que era ela quem gritava.
  Estava estendida sobre a mesa, e as mscaras negras inclinavam-se sobre ela com grandes risos soluosos.
  Seus pulsos e tornozelos estavam imobilizados por punhos de ferro. Suas saias foram levantadas brutalmente.
  -        De quem   vez? Quem deseja a pequena?
  Ela gritava como se ^rita nos pesadelos, em um paroxismo de desespero e de terror.r
  Um corpo abateu-se sobre o dela. Uma boca uniu-se  sua.
  Depois, houve como que um brusco silncio, to profundo que Anglica pensou que houvesse perdido a conscincia. No entanto, no era nada disso. Eram os seus verdugos 
que acabavam de calar-se e imobilizar-se. Seus olhares espantados seguiam no cho um objeto que Anglica no via.
  Aquele que, um segundo antes, tinha subido  mesa e se preparava para violar a jovem tinha se apartado precipitadamente. Sentindo que seus braos e suas pernas 
agora estavam livres, Anglica ergueu-se e desceu vivamente suas longas saias. Ela no compreendia. Dir-se-ia que uma vara de mgico subitamente petrificara os furiosos.
  Lentamente, ela se deixou escorregar at o solo. Ento viu Sor-bonne, que tinha derribado o pequeno homem de casaco azul e lhe prendia a garganta entre os seus 
colrriilhos. O co tinha entrado pela porta da cozinha e seu ataque fora rpido como um relmpago.
  Um dos libertinos gaguejou:
  - Chame seu co... Onde... onde esta a pistola?
  - No se mexam - ordenou Anglica. - Se fizerem o menor movimento, darei ordem a esse animal para estrangular o irmo do rei!
  As pernas lhe tremiam sob o seu peso como as de um cavalo aguado, mas sua voz era clara.
  -        Senhores, no se mexam - repetiu ela -, do contrrio, sero todos responsveis por essa morte perante o rei.
  Depois, muito calma, ela deu alguns passos. Olhou para Sorbonne. Ele segurava sua vtima como lhe havia ensinado Desgrez. A uma simples palavra, as mandbulas 
de ao triturariam completamente aquela carne palpitante, fariam estalar os ossos. Da garganta de Monsieur d'Orlans escapavam-se balbucios indistintos. Seu rosto 
se tornara violeta com a sufocao.
  -        Warte - disse docemente Anglica.
  Sorbonne abanou levemente a cauda, para mostrar que tinha compreendido e que esperava ordens. Em volta deles, as personagens da orgia permaneciam imveis, na atitude 
em que os surpreendera a investida do co. Sua ebriedade no lhes permitia compreender o que se passava. Viam somente que Monsieur, o irmo do rei, estava a ponto 
de ser estrangulado, e aquilo bastava para aterr-los.
  Anglica, sem desviar deles o olhar, abriu uma das gavetas da mesa, apanhou uma faca e aproximou-se do homem de rhingrave vermelha, que se encontrava mais perto 
dela.
  Vendo-a levantar a faca, ele fez um gesto de recuo.
  -        No se mexa! - disse ela em tom peremptrio. - No quero mat-lo. Quero somente saber com que se parece um assassino coberto de rendas.
  E, com gesto rpido, cortou o cordo que prendia a mscara do Cavaleiro de Lorena. Depois de olhar bem aquele belo rosto consumido pela devassido e que ela conhecia 
muito bem por t-lo visto inclinar-se sobre si, no Louvre, numa noite que jamais esqueceria, ela foi para os outros.
  Estupidificados, chegados ao ltimo grau da embriaguez, eles no reagiam, e ela os reconheceu a todos: Brienne, o Marqus d'01o-ne, o belo De Guich, seu irmo 
Louvignys e aquele que, quando ela o descobriu, esboou uma gaifona zombeteira e murmurou:
  -        Mscara negra contra mscara vermelha.
  Era Pguilin de Lauzun. Ela reconheceu tambm Saint-Thierry, Frontenac. Um elegante nobre, estendido no solo, nas poas de vinho e de vmitos, ressonava. A boca 
de Anglica encheu-se de dio e de amargura, quando identificou as feies do Marqus de Vardes.
  Ah! Os belos jovens do rei! Ela admirava outrora suas plumagens cintilantes, mas a hospedeira da Mscara Vermelha no tinha direito seno  imagem de suas almas 
apodrecidas!
  Trs deles eram-lhe desconhecidos. O ltimo, contudo, despertou nela uma recordao, mas to vaga que no lhe foi possvel precis-la.
  Era um alto rapaz com magnfica peruca de um louro dourado. Menos embriagado que os outros, ele se apoiava em um dos pilares da sala e fingia limar as unhas. Quando 
Anglica se lhe aproximou, ele no esperou que ela cortasse o cordo de sua mscara e a levantou ele mesmo, com gesto gracioso e displicente. Seus olhos, de um azul 
muito plido, tinham uma expresso gelada e desdenhosa. Ela perturbou-se. A tenso nervosa que a sustentava desapareceu. Uma grande fadiga a invadiu.-
  O suor corria-lhe sobre as tmporas, pois o calor da pea tinha se tornado insuportvel.
  Ela voltou para o co e tomou-o pela coleira para faz-lo largar a presa. Esperava que Desgrez surgisse, mas ficara s e abandonada entre os perigosos espectros. 
A nica presena que lhe parecia real era a de Sorbonne!
  -        Levante-se, monsigneur - disse ela com voz cansada. - E vocs todos, vo-se agora. J fizeram bastante mal.
  Vacilando, segurando sua mscara com uma das mos e arrastando com a outra os corpos desabados do Marqus de Vardes e do irmo do rei, o^ cortesos se retiraram. 
Na rua, tiveram de defender-se a espada contra os ajudantes de cozinha que, armados de seus espetos, os perseguiam com gritos de clera e de revolta.
  Sorbonne farejava o sangue e rosnava, com as negras beiorras arreganhadas. Anglica puxou para si o corpo leve do pequeno vendedor de barquilhos e acariciou-lhe 
a fronte pura e gelada.
  -        Linot! Linot! Meu doce menino... minha pobre sementinha de misria...
  Um clamor vindo de fora arrancou-a ao seu desespero.
  -        Incndio! Incndio!
  O tubo da chamin pegara fo^o f este comunicara-se ao alto da casa. Detritos comearam a cair ra lareira e uma fumaa espessa invadiu a sala.
  Carregando Linot, Anglica precpitou-se para fora da pea. A rua estava iluminada como se fosse dia claro. Clientes e rtisseurs mostravam horrorizados o penacho 
de chamas que coroava o telhado da velha casa. Fagulhas choviam sobre os tetos vizinhos.
  Correram ao Sena, bem prximo, para organizar uma cadeia de baldes e tinas. Mas o incndio havia hanho as alturas. Era preciso transportar a gua pelos andares 
dos dois prdios vizinhos, pois a escada da Mscara Vermelha desmoronara.
  Anglica, seguida de Davi, tentou regressar  sala para retirar o corpo de mestre Bourjus. Ambos tiveram de recuar, sufocados pela fumaa. Ento, pelo ptio, eles 
entraram na cozinha e levaram misturadamente tudo o que encontraram. - Entrementes, chegaram os capuchinhos. A turba os aclamou. O povo amava aqueles monges que 
tinham em sua regra a obrigao de socorrer as vtimas de incndio e acabaram tornando-se o nico corpo de bombeiros da cidade.
  Carregavam consigo escadas de mo, ganchos de ferro, e grandes seringas de chumbo destinadas a lanar ao longe possantes ja-tos d'gua.
  Assim que chegaram ao lugar do sinistro, eles arregaaram as mangas de seus buris e, sem se importarem com as fascas que lhes caam sobre os crnios, mergulharam 
nas casas adjacentes. Apareceram nos telhados e comearam a demolir tudo em volta, a grandes golpes de gancho. Graas a essa vigorosa interveno, a casa em. chamas 
foi isolada, e, como no havia vento, o incndio no se comunicou ao resto do quarteiro. Havia-se receado que ele se transformasse num dos grandes flagelos de que 
Paris, com seu amon-toamento de velhas casas de madeira, era vtima duas ou trs vezes por sculo.
  Urna vasta brecha repleta de escombros e de cinzas abria-se no lugar onde, pouco uites, se encontrava a alegre Taberna da Mscara Vermelha. Mas o fogo estava extinto.
  Com as faces enegrecidas, Anglica contemplava a runa de suas into dela estava Sorbonne.
  "Onde est Desgrez? Oh! Gostaria de ver Desgrez", pensava ela. "Ele me dir o que devo fazer."
  Pegou o co pela coleira.
  -        Leve-me ao seu dono.
  No teve de caminhar muito. A poucos metros, na sombra de um prtico, reconheceu o chapu e o grande capote do policial. Ele ralava tranquilamente um pouco de 
tabaco.
  - Boa noite - disse ele com voz calma.
  - Voc estava a, a dois passos! - exclamou Anglica, sufocada. - E no veio?
  - Por que deveria ir?
  - Ento no me ouviu gritar?
  - Eu no sabia que era voc.
  - Pouco importa! Era uma mulher que gritava.
  - No posso precipitar-me em socorro de todas as mulheres que gritam - disse Desgrez com bom humor. - No entanto, creia-me, se eu soubesse que se tratava de-voc, 
teria ido.
  Ela resmungou, magoada:
  -        Duvido!
  Desgrez suspirou.        '
  -        J no arrisquei uma vez minha vida e minha carreira por voc? Bem poderia arrisc-las ainda uma segunda vez. Voc  em minha vida um deplorvel hbito, 
e muito receio que, apesar de minha prudncia congnita, venha ainda a perder a pele por sua causa.
  - Eles me seguraram em cima da mesa... Queriam violentar-me. Desgrez desceu sobre ela seu olhar sarcstico.
  - Somente isso? Poderiam fazer pior. Anglica passou a mo sobre a fronte.
  - E certo! Tive uma espcie de alvio quando vi que era somente isso que eles queriam. Depois, Sorbonne chegou... a tempo!
  - Sempre tive grande confiana nas iniciativas desse co.
  - Foi voc quem o enviou?
  - Evidentemente.
  A jovem soltou um profundo suspiro e, com um movimento espontneo de fragilidade e escusa, encostou o rosto ao ombro ru-goso do rapaz.
  - Obrigada.
  - Voc compreende - tornou Desgrez com seu timbre tranquilo, que ao mesmo tempo a exasperava e acalmava -, s aparentemente perteno  polcia do Estado. Eu sou, 
na realidade, policial do rei. No me cabe perturbar os encantadores entretenimentos de nossos nobres senhores. Voc ainda no viveu bastante, minha cara, para perceber 
a que mundo pertence? Quem no acompanharia a moda? A embriaguez  uma brincadeira, a devassido levada at a lubricidade, um doce capricho, a orgia levada at o 
crime, um agradvel passatempo. De dia so taces vermelhos e reverncias cortess; de noite, amor,, tavolagem, tabernas. No  uma existncia bem realizada? Voc 
se engana, minha pobre amiga, se imagina que essas pessoas so temveis. Na verdade, suas pequenas diverses no so muito perigosas! O nico inimigo, o pior inimigo 
do reino,  aquele que, com uma palavra, pode abalar-lhe o poder:  o gazeteiro, o jornalista, o panfletrio. Eu procuro os panfletrios.
  -        Pois bem, pode pr-se  caa - disse Anglica, endireitando-se, com os dentes cerrados. - Prometo-lhe muito trabalho.
  Um ideia sbita assaltou-lhe a mente.
  Ela se afastou e comeou a distanciar-se. Depois voltou-se.
  -        Eles eram treze. H trs cujos nomes eu no sei.  preciso que voc os descubra.
  O policial tirou o chapu e inclinou-se.
  -        s suas ordens, senhora - disse ele, retomando a voz e o sorriso do advogado Desgrez.
  
  CAPITULO VII
  
  O escndalo do pequeno vendedor de barquilhos
  
  Como por ocasio de seu primeiro encontro, ela descobriu Cludio Le Petit dormindo em um barco de feno, para as bandas do Arsenal. Ela o despertou e contou-lhe 
os acontecimentos da noite. Seus esforos estavam todos destrudos. Os libertinos de rendas haviam devastado de novo a sua vida, assim como um exrcito de saqueadores 
devasta a regio que atravessa.
  -        E preciso que voc me vingue - repetia ela com os olhos brilhantes de febre. - Somente voc me pode vingar. Voc somente, porque  o maior inimigo deles. 
Desgrez o disse.
  O poeta bocejava com grandes estalos de mandbulas e esfregava os clios louros, ainda com sono.
  -        Estranha mulher! - disse ele, enfim. - Subitamente, trata-me de igual para igual. Por qu?
  Ele tomou-a pela cintura para estreit-la. Ela se desprendeu com impacincia.
  - Escute o que eu lhe digo!
  - Dentro de cinco minutos voc vai chamar-me de maltrapilho. Voc no  mais a pequena mendiga, mas uma grande dama que d ordens. Est bem: estou s suas ordens, 
marquesa. Alm disso, compreendi tudo. Por qual quer que eu comece? Por Brienne? Eu me recordo de que ele cortejou a Srta. de La Vallire e que sonhava em faz-la 
pintar na Madalena. Desde ento o rei no o suporta. Assim, vamos meter Brienne no molho para o almoo de Sua Majestade.
  Ele voltou seu belo rosto branco para leste, onde se erguia o sol.
  -        Sim, para o almoo,  possvel. s prensas de mestre Gilber
  to so sempre rpidas quando se trata de multiplicar o eco de meus rangeres de dentes contra o poder. J lhe disse que o filho do mestre Gilberto foi h tempos 
condenado s gals por no sei que pecadilho. Eis uma excelente coisa para ns, no ?
  E, tirando do sobretudo uma velha pena de ganso, o Poeta Pobre se ps a escrever.
  A manh comeava. Todos os sinos das igrejas e dos conventos tocavam alegremente o ngelus.
  Findava a. manh quando o rei, deixando a capela em que acabava de ouvir missa, atravessou a antecmara onde o esperavam os peticionrios. Ele notou que o lajedo 
estava juncado de papeizi-nhos brancos que um criado confuso se apressava em recolher, como se s ento os houvesse percebido. Mas, um pouco mais longe, descendo 
a escada que o levava a seus aposentos, Lus XIV encontrou a mesma desordem e mostrou-se descontente.
  -        Que significa isto? Chovem aqui pergaminhos como folhas no outono sobre o Cours-la-Reine? Dem-me isso, peo-lhes.
  O Duque de Crqui, muito vermelho, interps-se:
  - Majestade, esses mexericos no oferecem nenhum interesse...
  - Ah! vejo que so - disse o rei, que estendia a mo impaciente - mais algumas intrigas desse maldito Poeta Pobre do Pont Neuf, que escorrega feito uma enguia 
entre as mos dos archeiros e vem at o meu palcio depositar suas imundcies sob os meus ps. Dem-me, eu lhes peo...  realmente dele! Quando virem o senhor tenente-civil 
e o senhor preboste de Paris, podem apresentar-lhes minhas congratulaes, senhores...
  Amesendando-se para o almoo, diante de trs perdigotos com uvas, uma panelada de peixes, um assado com pepinos e um prato de bolinhos de lngua de baleia, Lus 
XIV colocou perto de si o papel sujo, cuja tinta de impresso, ainda fresca, manchava os dedos. O rei era grande comedor e, havia muito tempo, tinha aprendido a 
dominar suas emoes. Seu apetite no foi perturbado pelo que ele leu. Mas, quando a leitura terminou, o silncio que reinava naquela pea, onde habitualmente os 
nobres tagarelavam agradavelmente com o soberano, era to pesado como o de uma cripta.
  O panfleto estava escrito naquela linguagem crua e grosseira, cujas palavras, entretanto, feriam como dardos e que, havia mais de dez anos, tinha caracterizado, 
aos olhos de toda Paris, o esprito frondista da cidade.
  Ali se contavam os feitos hericos do Sr. de Brienne, primeiro gentil-homem do rei, aquele que, no contente de ter querido arrebatar "a ninfa de cabelos enluarados" 
a um amo a quem tudo devia, no contente de causar, por seu desentendimento com a esposa, um escndalo permanente, havia estado, na ltima noite, em uma rtisserie 
da Rue de la Valle-de-Misre. Ali, aquele galante jovem e seus companheiros, depois de violentarem um pequeno vendedor de barquilhos, tinham-no traspassado a golpes 
de espada. Haviam castrado o dono, que disso morrera, fendido a cabea de seu sobrinho, violado a filha e terminado suas distraes ateando fogo  loja, da qual 
s restavam cinzas.'
  "Querem capacitar-nos de que esses crimes e confuses
  So uma triste faanha de alguns desconhecidos.
  Ora, eles eram treze, todos nobres personagens.
  Um fez isto. Outro fez aquilo.
  Cada dia revelar um nome, e o ltimo
  Ser o de quem matou um menino de tenra idade.
  Um nome retumbante, que vocs todos conhecem.
  Quem  o matador do pequeno vendedor de barquilhos?"
  -        Por So Dionsio! - di^se o rei. - Se a coisa for verdadeira, Brienne merece a forca. Algum de vocs ouviu falar desses crimes, senhores?
  Os cortesos balbuciaram, alegando que estavam muito pouco a par dos acontecimentos da noite anterior.
  Ento, o rei, percebendo um jovem pajem que ajudava os oficiais-de-boca, perguntou-lhe  queima-roupa:
  -        E voc, meu menino, que deve ser grande bisbilhoteiro e curioso, como todos na sua idade, repita-me um pouco do que se disse, esta manh, no Pont Neuf.
  O adolescente enrubesceu, mas era de boa casa e respondeu sem grande embarao:
  - Sire, diz-se que tudo o que conta o Poeta Pobre  exato e que a coisa se passou esta noite na Taberna da Mscara Vermelha. Eu mesmo vinha de uma festa com alguns-companheiros, 
quando avistamos as labaredas, e corremos para ver de perto o incndio. Mas os capuchinhos j tinham apagado o fogo. O quarteiro est de p.
  - Dizem que o sinistro foi causado por gentis-homens?
  -  verdade, mas no se sabem os seus nomes, porque eles estavam mascarados.
  - Que sabe voc mais?
  Os olhos do rei mergulharam nos do pajem. Este temia pronunciar uma palavra que pudesse prejudicar a sua carreira. Mas, obedecendo  injuno daquele olhar imperioso, 
baixou a cabea e murmurou:
  - Sire, eu vi o corpo do pequeno vendedor de barquilhos. Ele estava morto e tinha o ventre aberto. Uma mulher o havia tirado do fogo e o estreitava nos braos. 
Vi tambm o sobrinho do dono da taberna com a testa enfaixada.
  - E o dono da taberna?
  - No foi possvel retirarem seu corpo do incndio. As pessoas diziam...
  O pajem esboou um sorriso, com a louvvel inteno de aliviar a atmosfera.
  -        As pessoas diziam que foi uma bela morte para um rtisseur.
  Mas o rosto do rei era de gelo, e os cortesos levaram rapidamente a mo aos lbios, para dissimular uma expresso de alegria incoveniente.
  -        Procurem-me o Sr. de Brienne - disse o rei. - E o senhor, duque - acrescentou ele dirigindo-se ao Duque de Crqui -, faa comunicar ao Sr. d'Aubrays as 
seguintes instrues: de um lado, que sejam colhidos todos os informes e detalhes do incidente dessa noite, e que o relatrio me seja imediatamente apresentado; 
de outro lado, que todo portador ou vendedor desses papis seja imediatamente preso e conduzido ao Chtelet. Finalmente, todo transeunte que for visto recolhendo 
ou lendo um desses papis ser taxado com multa severa e ameaado de perseguio e priso. Quero, igualmente, que as mais enrgicas medidas sejam tomadas imediatamente 
para a descoberta do mestre impressor e de Sieur Cludio Le Petit.
  Encontraram o Conde de Brienne em casa, posto no leito pelos criados e cozinhando pesadamente a borracheira.
  -        Meu caro amigo - disse-lhe o Marqus de Gesvres, capito dos guardas -, estou encarregado de um penoso dever junto a voc. Sem que a coisa esteja caracterizada, 
eu creio, na realidade, que venho prend-lo.
  E ps-lhe sob o nariz o poema com que se deliciara durante o trajeto, sem receio de sofrer aplicao de multa.
  - Sou um homem perdido - constatou Brienne, com voz pastosa. - As coisas andam depressa neste reino! Ainda no consegui... evacuar todo o vinho que bebi naquela 
maldita taberna, e j me fazem pagar o preo.
  - Senhor ministro - disse-lhe Lus XIV -, por muitas razes, -me desagradvel uma conversao com o senhor. Sejamos breves. Confessa haver participado esta'noite 
dos ignbeis atentados denunciados neste papel? Sim ou no?
  - Sire, eu estava l, mas no cometi todas essas torpezas. O prprio Poeta Pobre reconhece que no fui eu quem assassinou o pequeno vendedor de barquilhos.
  - E quem foi, ento?
  O Conde de Brienne no respondeu.
  -        Eu o aprovo por no atirar inteiramente sobre outros uma responsabilidade que lhe pertence amplamente. Isso se v em seu rosto. Tanto pior para o.senhor, 
conde. Teve o azar de se deixar reconhecer. Pagar pelosldemais. O povo murmura... com razo.  preciso, pois, que se faa justia, e prontamente. Quero que hoje 
 noite se possa dizer no Pont Neuf que o Sr. de Brienne est na Bastilha... e que ser duramente castigado. Quanto a mim, estou encantado com esta oportunidade, 
que me desembaraa de um rosto que eu no suportava mais seno com dificuldade. O senhor sabe por qu.
  O pobre Brienne suspirou, recordando os tmidos beijos que tentara roubar  terna La Vallire, quando ignorava ainda a inclinao de seu amo por aquela bela criatura.
  Ia pagar, ao mesmo tempo, por um namorico inocente e uma orgia vergonhosa. Era mais um gentil-homem em Paris a maldizer a pena do poeta. No caminho da Bastilha, 
a carruagem que conduzia Brienne foi detida por um grupo de vendedoras do mercado central. Elas brandiam as folhas do panfleto e sua faca de trinchar e reclamavam 
que lhes entregassem o prisioneiro para faz-lo sofrer... o que ele fizera sofrer ao pobre cozinheiro Bourjus.
  Brienne no respirou enquanto as pesadas portas da priso no se fecharam sobre ele e sobre sua virilidade-posta a salvo.
  Mas na manh seguinte nova enxurrada de folhas brancas invadiu Paris. Cmulo da insolncia: o rei encontrou o epigrama debaixo do prato de um lanche, que ele se 
preparava para comer antes de dirigir-se ao Bois de Boulogne para caar o gamo.
  A caa foi cancelada e o Sr. d'Olone, monteiro-mor da Frana, tomou direo oposta  que contava seguir. Isto , em lugar de descer o Cours-la-Reine, ele subiu 
o Cours Saint-Antoine, que o levou  Bastilha.
  De fato, o novo artigo apontava-o expressamente como aquele que segurava mestre Bourjus enquanto o assassinavam.
  "Cada dia revelar um nome, e o ltimo
  Ser o de quem matou um menino de tenra idade.
  Um nome retumbante, que vocs todos conhecem.
  Quem  o matador do pequeno vendedor de barquilhos?"
  Em seguida, foi a vez de Lauzun. Gritaram seu nome nas ruas quando ele se dirigia, de carruagem, ao petit lever do rei. Imediatamente, Peguilin fez voltar os seus 
cavalos e tomou a direo da Bastilha.
  - Prepare meu apartamento - disse ele ao governador.
  - Mas, senhor duque, no tenho nenhuma ordem a seu respeito.
  - Vai receb-la, no tenha receio.
  - Mas onde est sua ordem de priso?
  - Ei-la - disse Peguilin, estendendo ao Sr. de Vanois a folha impressa que acabava de comprar por dez soldos a um garoto pio-Ihento.
  Frontenac preferiu fugir sem esperar. Vardes desaconselhou-o vivamente de proceder assim.
  -        Sua fuga  uma confisso. Ela vai, certamente, denunci-lo. Enquanto, continuando a simular inocncia, voc talvez consiga passar por essa cascata de 
denncias. Olhe para mim. Tenho o ar perturbado? Eu brinco, eu rio. Ningum suspeita de mim, e o prprio rei me confia quanto o atormenta este assunto.
  .   - Cessar de rir quando chegar a sua vez.
  - Tenho a impresso de que ela no vir: "Eles eram treze", diz a cano. Saram apenas trs nomes, e j se afirma que vendedores detidos revelaram, sob tortura, 
o nome do mestre impressor. Dentro de alguns dias, a chuva das folhas cessar e tudo voltar ao normal.
  - No compartilho o seu otimismo - disse o Marqus de Frontenac, levantando friorentamente a gola de seu capote de viagem. - Quanto a mim, prefiro o exlio  priso. 
Adeus.
  Ele tinha alcanado a fronteira da Alemanha, quando seu nome apareceu e passou quase despercebido.  que na vspera Vardes fora sacrificado  vindita pblica, 
e em termos tais que o rei se perturbou. Efetivamente, o Poeta Pobre acusava aquele "celerado mundano" de ser o autor da carta espanhola que, dois anos antes, fora 
introduzida no apartamento da rainha, com o nico objetivo de inform-la caridosamente das infidelidades de seu esposo com a Srta. de La Vallire;- A acusao reabriu 
uma ferida viva no corao do soberano, pois ele nunca pudera pr a mo sobre os culpados, e, mais de uma vez, falara disso a Vardes, pedindo-lhe conselho sobre 
o assunto. Enquanto ele interrogava o capito dos guardas suos, fazia vir a Sra. de Soissons, sua amante e cmplice; enquanto sua cunhada Henriqueta da Inglaterra, 
igualmente implicada na histria da carta espanhola, se lanava a seus ps, e De Guich e o Petit Momieur discutiam acremente, na intimidade, com o Cavaleiro de 
Lorena, a lista dos criminosos da Taberna da Mscara Vermelha continuava, imperturbvel, a oferecer, cada dia, uma nova vtima  multido. Louvignys e Saint-Thierry, 
antecipadamente resignados e havendo tomado suas disposies, certificaram-se, uma bela manh, de que Paris conhecia agora o nome exato de suas amantes e suas particularidades 
amorosas. Esses detalhes condimentavam o habitual refro:
  "Mas quem, ento, matou um menino de tenra idade?
  Quem  o matador do pequeno vendedor de barquilhos?..."
  Beneficiando-se da perturbao em que as revelaes feitas sobre Vardes lanaram o rei, Louvignys e Saint-Thierry foram somente convidados a abandonar seus cargos 
e se recolher s suas terras.
  Um vento de excitao soprava sobre Paris.
  -        De quem  a vez? De quem  a vez? - berravam cada manh os vendedores de canes. Arrancavam-lhes das mos as folhas.
Da rua para as janelas, gritava-se "o nome" do dia.
  As pessoas da alta-roda adquiriram o costume de se abeirarem cochichando misteriosamente:        
  -        Mas afinal quem foi que matou o pequeno vendedor de barquilhos?...
  E estouravam de riso.
  Depois, um boato comeou a circular, e os risos se extinguiram.
  No Louvre, um clima de pnico e de profundo embarao sucedeu-se  diverso daqueles que, com a conscincia tranquila, seguiam alegremente o desenrolar do jeu de 
massacre. Viu-se vrias vezes a prpria rainha-me dirigir-se ao palcio real, para ali conversar com seu segundo filho. Nos arredores do palcio que o Petit Monsieur 
habitava, grupos de transeuntes hostis, calados, estacionavam. Ningum falava ainda, ningum afirmava, mas circulava o rumor de que o irmo do rei havia participado 
da orgia dja Mscara Vermelha e que era ele quem havia assassinado o pequeno vendedor de barquilhos.
  Foi por Desgrez que Anglica conheceu as primeiras reaes da corte.
  Logo na manh seguinte ao atentado, enquanto Brienne, conduzido  Bastilha, tinha bastante dificuldade em ali chegar, o policial bateu  porta da pequena casa 
da Rue des Francs-Bourgeois, onde Anglica se refugiara.
  Ela escutou, com ar srio, o relato que ele lhe fez das palavras e das decises do rei.
  -        Ele pensa que com Brienne o caso estar encerrado - murmurou ela, com os dentes cerrados. - Mas cuidado! Isto apenas comeou. Inicialmente, sero os menos 
culpados. E a coisa subir, subir, at o dia em que o escndalo estalar, em que o sangue de Linot salpicar os degraus do trono.
  Ela torceu com paixo suas mos lvidas e geladas.
  - Acabo de conduzi-lo ao Cimetire des Saints-Innocents. Todas as vendedoras do mercado deixaram seus negcios e acompanharam o pobre serzinho, que no recebera 
da existncia seno sua beleza e delicadeza. E foi preciso que prncipes viciosos viessem tirar-lhe sua nica riqueza: a vida. Mas, para seu enterro, ele teve o 
mais belo cortejo.
  - As damas do mercado esto neste momento escoltando o Sr. de Brienne.
  - Que elas o enforquem, que lancem fogo  sua carruagem, que incendeiem o palcio real! Que elas ponham fogo em todos os castelos dos arredores: Saint-Germain, 
Versalhes...
  - Incendiria! Onde voc ir danar quando voltar a ser uma grande dama?
  Ela o olhou fixamente e sacudiu a cabea.
  -        Jamais, nunca mais; eu no tornarei a ser uma grande dama.
  Experimentei tudo, e tudo perdi de novo. So eles os mais fortes. Voc tem os nomes que lhe pedi?
  - Ei-los - disse Desgrez, tirando de seu capote um rolo de pergaminho. - Resultado de uma pesquisa estritamente pessoal e que eu sou o nico a conhecer: entraram 
na Taberna da Mscara Vermelha, nessa noite de outubro de 16M: o Sr. d'Orlans, o Cavaleiro de Lorena, o Sr. Duque de Lauzun...
  - Oh! Eu lhe peo, nada de ttulos. - Anglica suspirou.
  - Isso  mais forte do que eu - disse Desgrez rindo. - Voc sabe que sou um funcionrio muito respeitoso do regime. Digamos ento: os Srs. de Brienne, de Vardes, 
du Plesss-Bellire, de Louvignys, de Saint-Thierry, de Frontenac, de Cavois, de Guich, de La Vallire, d'01one, de Tormes.
  - De La Vallire? O irmo da favorita?
  - Ele mesmo.
  - Otimo - murmurou ela, com os olhos brilhando do prazer da vingana. - Mas.., isso faz catorze. L, eu contei treze.
  - No princpio, eles eram catorze, pois o Sr. Marqus de Tormes estava com eles. Esse homem de idade gosta de tomar parte nos excessos da juventude. No entanto, 
quando ele percebeu as intenes de Monsieur sobre o rapazinho, retirou-se, dizendo: "Boa noite, senhores, no quero acompanh-los nessas veredas tortuosas. Vou 
dormir sossegadamente com a Marquesa de Raquenau". Ningum ignora que essa gorda dama  sua amante.
  -        Excelente histria para faz-lo pagar sua covardia.
Desgrez observou por um instante o rosto crispado de Anglica e teve um leve sorriso.
  - A maldade assenta-lhe bem. Quando a conheci, voc era sobretudo o gnero pattico, daquele que atrai a matilha.
  - E voc, quando eu o conheci, era o gnero afvel, alegre, franco. Agora, h momentos em que quase chego a odi-lo.
  Dardejou-lhe um olhar e disse-lhe por entre dentes:
  -        Tira do Diabo!
  O policial ps-se a rir com ar divertido.
  -        Senhora, dir-se-ia, escutando-lhe, que frequentou a classe dos malandros.
  Anglica ergueu os ombros, dirigiu-se para a chamin e tomou uma acha com a tenaz, procurando dominar-se.
  -        Voc tem medo, no  verdade? - tornou Desgrez com sua voz arrastada de parisiense dos faubourgs. - Tem medo de que prendam o seu Poeta Pobre? Desta vez, 
prefiro avisar-lhe: ele ser enforcado.
  A jovem evitou responder, embora tivesse vontade de gritar: "Ele jamais ser enforcado! Ningum prender o Poeta do Pont Neuf. Ele alar vo como um pssaro e 
ir empoleirar-se nas torres de Notre-Dame".
  Achava-se num estado de exaltao que lhe rompia os nervos. Atiou o fogo, conservando o rosto inclinado sobre as chamas. Tinha na testa uma pequena queimadura 
causada, na noite anterior, por uma brasa. Por que no se retirava Desgrez? No entanto ela gostava que ele estivesse ali. Hbito antigo, sem dvida.
  - Que nome voc disse?! - exclamou de repente. - Du Plessis-Bellire? O marqus?
  - Agora quer ttulos? Pois bem! Trata-se, com efeito, do Marqus du Plessis-Bellire, marechal-de-campo do rei... O vencedor de Norgen, como voc sabe.
  - Filipe! - murmurou Anglica.
  Como no o reconhecera quando ele tirou a mscara e pousou sobre ela aqueles mesmos olhos de um azul frio que ele pousava outrora, to desdenhosamente, sobre sua 
prima de vestido cinza? Filipe du Plessis-Bellire! O Castelo do Plessis apareceu-lhe como um branco nenfar em seu lago...
  - Como  estranho, Desgrez! Esse rapaz  um dos meus parentes, um primo meu que morava a algumas lguas de nosso castelo. Brincamos juntos.
  - E, agora que o priminho vem brincar com voc nas tabernas, voc ir poup-lo?
  - Talvez. Afinal de contas, eles eram treze. Com o Marqus de Tormes, o total ser esse.
  - No est sendo imprudente, minha cara, em revelar todos os seus segredos a um tira do Diabo?
  - O que eu lhe digo no o far descobrir o impressor do Poeta Pobre, nem como os panfletos penetram no Louvre. Alm disso, voc no me trair!
  - No, minha senhora, eu no a trairei, mas tambm no a enganarei. Desta vez o Poeta Pobre ser enforcado!
  -  o que veremos!
  -         de fato o que veremos - repetiu ele. - At a vista.
Depois que ele saiu, ela teve dificuldade em acalmar o longo estremecimento que dela se apossara. O vento de outono sibilava na Rue des Francs-Bourgeois. A tempestade 
aoitava o corao de Anglica. Jamais ela conhecera, no fundo de si mesma, semelhante tormenta. A ansiedade, o medo e a dor eram-lhe familiares. Mas desta vez ela 
atingia um desespero agudo e sem lgrimas, para o qual no encontrava consolao.    .
  Audiger tinha acorrido, com seu honesto rosto perturbado. Tomara-a nos braos, mas ela o repelira.
  - Minha querida,  um verdadeiro drama. Mas voc no deve deixar-se abater. Abandone essa expresso trgica. Voc me assusta!^
  -  uma catstrofe, uma terrvel catstrofe! Agora que a Taberna da Mscara Vermelha desapareceu, como conseguirei dinheiro? As corporaes no tm obrigao de 
me defender; ao contrrio. Meu contrato com mestre Bourjus no tem mais valor. Minhas economias vo esgotar-se rapidamente. Despendi grandes somas, ultimamente, 
na reforma da sala e nas reservas de vinhos, de aguardente e de licores. Em rigor, Davi poder fazer-se reembolsar pelo Departamento deis Incndios. Mas sei dos 
obstculos que se levantaro. E, de qualquer maneira, tendo o pobre rapaz perdido toda a sua herana, no poderia eu pedir-lhe o pouco dinheiro que ele obtivesse 
por esse meio. Tudo o que to penosamente edifiquei desmoronou-se... Que ser de mim?
  Audiger encostou a face nos doces cabelos da jovem.
  -        No tenha receio, meu amor. Nada lhe faltar, nem a seus filhos. Eu no sou rico, mas possuo dinheiro suficiente para ajud-la.
E, quando o meu negcio estiver funcionando, trabalharemos juntos, como estava combinado.
  Ela desprendeu-se dos seus braos.
  - Mas isso no  o que eu queria! - exclamou. - No pretendo trabalhar com voc como criada...
  - No ser como criada, Anglica.
  - Criada ou esposa, tudo d no mesmo. Eu queria entrar com a minha parte nesse negcio. Estar em igualdade...
  - Nisso  que est o buslis, Anglica! No estou longe de pensar que Deus quis puni-la por seu orgulho. Por que voc fala sempre em igualdade da mulher?  quase 
uma heresia. Se voc se mantiver modestamente no lugar que Deus reservou para as pessoas do seu sexo, ser mais feliz. A mulher foi feita para viver no lar, sob 
a proteo de seu esposo, que ela cerca de seus cuidados, bem como aos filhos nascidos de sua unio.
  - Que quadro encantador! - zombou Anglica. - Pois saiba que essa existncia resguardada nunca me tentou. Foi por gosto pessoal que eu me lancei no tumulto com 
meus dois filhos debaixo do brao. V embora, Audiger! Voc me parece to estpido, de repente, que me d vontade de vomitar.
  - Anglica!
  - V, eu lhe peo.
  Ela no podia mais suport-lo. Assim como no podia mais suportar a viso de Brbara chorando, de Davi estupidificado, de Ja-votte assustada, e at a presena 
dos filhos, que, com o instinto dos pequenos seres que sentem seu universo em perigo, redobravam os gritos e os caprichos. Ela estava cansada de todos. Que tinham 
eles ento de agarrar-se a ela? Ela perdera o leme, e a tempestade a arrastava em seu turbilho, onde voavam como grandes pssaros as folhas brancas dos panfletos 
venenosos do Poeta Pobre.
  Compreendendo que sua vez chegaria, o Marqus de La Valli-re decidiu ir confessar-se a sua irm, no Palcio de Biron, onde Lus XIV tinha instalado sua favorita. 
Lusa de La Vallire, amedrontada, aconselhou, entretanto, seu jovem irmo a confiar lealmente no rei.
  Foi o que ele fez.
  -        Se eu o castigasse muito severamente, faria chorar uns belos olhos que me so caros, o que me contristaria - disse-lhe Sua Majestade. - Deixe Paris, senhor, 
e junte-se ao seu regimento do Roussillon. Ns abafaremos o escndalo.
  Mas a coisa no era to simples como supunha o rei. O escndalo no queria deixar-se abafar. Apesar das detenes, das prises, das torturas, cada dia, com a regularidade 
de um fenmeno da natureza, novo nome surgia. O do Marqus de La Vallire no tardaria muito, nem o do Cavaleiro de Lorena, nem o do irmo do rei! Todas as tipografias 
eram visitadas, vigiadas. A maior parte dos vendedores de impressos do Pont Neuf permaneciam nos crceres do Chtelet.
  Mas ainda se achavam panfletos at no quarto da rainha!
  As entradas do Louvre estavam guardadas como as de uma fortaleza. Todas as pessoas que ali penetravam s primeiras horas do dia - aguadeiro, leiteira, criados 
etc. - eram revistadas at a pele. As janelas e os corredores tinham sentinelas. Era impossvel um homem sair do Louvre ou ali penetrar sem ser notado.
  "Um homem no pode, mas um meio homem, talvez", pensava o policial Desgrez, suspeitando muito que o ano da rainha, Barcarola, fosse cmplice de Anglica.
  ...Como eram seus cmplices os mendigos das esquinas, que escondiam maos de panfletos sob seus.andrajos e os semeavam nos degraus das igrejas e dos conventos; 
os espadachins, que, de noite, aps roubar um burgus retardatrio, davam-lhe "em troca" algumas folhas para ler "como consolo"; as floristas e as laranjeiras do 
Pont Neuf; o Grande Mateus, que esparzia, a ttulo de receitas grtis oferecidas  amvel clientela, as novas produes do Poeta Pobre.
  ...Como era seu cmplice, enfim, o novo Grande Cosre, Traseiro de Pau, no feudo para onde Anglica, em uma noite sem lua, fizera transportar trs malas repletas 
de panfletos, onde eram revelados os nomes dos cinco ltimos culpados. Uma batida policial nos ftidos antros do Faubourg Saint-Denis era pouco provvel. A hora 
parecia imprpria para assaltar um quarteiro cuja rendio exigiria verdadeira batalha.
  Malgrado sua vigilncia, os archeiros e beleguins no podiam estar em toda parte. A noite continuava ainda todo-poderosa, e a Marquesa dos Anjos, ajudada pelos 
seus "homens", pde sem incidente transferir as malas do Quartier de 1'Universit para o palcio de Traseiro de Pau.
  Duas horas mais tarde, detiveram o impressor e seus empregados. Um vendedor, aprisionado no Chtelet e que teve de engolir, pela mo do carrasco, cinco jarros 
de gua fria, havia dado o nome do mestre. Encontraram na oficina do impressor as provas da sua culpa, mas nenhum vestgio das futuras denncias. Alguns acreditaram 
que elas ainda no tinham sido impressas. Desencantaram-se quando, de manh, Paris soube da covardia do Sr. Marqus de Tormes, que, em lugar de defender o pequeno 
vendedor de barquilhos, deixara seus companheiros, dizendo: "Boa noite, senhores. Vou dormir com a Marquesa de Raque-nau".
  O Marqus de Raquenau no ignorava sua infelicidade conjugal. Mas, vendo-a proclamada por toda a cidade, achou-se na obrigao de ir desafiar o rival. Bateram-se 
em duelo e o marido foi morto. Enquanto o Sr. de Tormes tornava a vestir-se, o Marqus de Gesvres surgiu e apresentou-lhe a ordem de priso.
  O Marqus de Tormes, que ainda no lera o panfleto acusador, acreditou que o levavam para a Bastilha por ter se batido em duelo.
  - Faltam quatro! Faltam quatro! - cantavam os garotos formando farndolas.
  - Faltam quatro! Faltam quatro! - gritavam sob as janelas do palcio real.
  Os guardas dispersavam, a golpes de aoite, a turba que os injuriava.
  Extenuado, acossado de esconderijo em esconderijo, Cludio Le Petit refugiou-se em casa de Anglica. Estava mais plido que nunca, o rosto enegrecido pela barba.
  - Desta vez, minha bela - disse ele com um sorriso crispado -, h um cheiro de chamusco no ar. Tenho a impresso de que no poderei escorregar entre as malhas 
da rede.
  - No fale assim! Voc mesmo me disse cem vezes que nunca o prenderiam.
  - Falamos assim quando nada nos veio atingir a fora. Depois, subitamente a fora se escapa por uma fenda, e passamos a ver claro.
  Ele tinha sido ferido quando fugia por uma janela, da qual tivera de quebrar os vidros e entortar os chumbos do caixilho.
  Ela f-lo deitar na cama e deu-lhe de comer. Ele seguia com ateno os movimentos da jovem, e ela estava inquieta por no reencontrar nos seus olhos a habitual 
expresso de zombaria.
  - O azar  seu - disse ele bruscamente. - Eu no devia t-la reencontrado... nem a amado. Depois que ficamos ntimos compreendi que voc tinha feito de mim seu 
criado.
  - Cludio - disse ela, magoada -, por que voc procura discusso comigo? Eu... eu senti que voc estava muito perto de mim, que tudo faria por mim. Mas, se quiser, 
ficarei longe de voc.
  Ela sentou-se  beira do leito e tomou-lhe a mo, encostando o rosto nela, num gesto de ternura.
  -        Meu poeta...
  Ele se desvencilhou e fechou os olhos.
  -        Ah! - suspirou ele -, isso  que  mau para mim. Junto de voc eu me ponho a sonhar com uma vida em que voc sempre estar presente. Comeo a pensar como 
um burgus estpido: "Gostaria de entrar toda noite em uma casa aquecida e iluminada, onde ela me aguardasse! Gostaria de encontr-la toda noite em meu leito, quente 
e rechonchuda, e submissa ao meu desejo. Gostaria de ter uma respeitvel barriga e de ficar s primeiras horas da noite sentado  entrada de minha residncia, e 
dizer: minha mulher, falando dela aos vizinhos". Eis o que a gente pensa quando conhece voc. E comea-se a achar qu as mesas das tabernas so duras para nelas 
se dormir, que faz frio entre as patas do cavalo de bronze e que se est sozinho no mundo, feito um co sem dono.
  - Voc fala como Calembredaine - disse Anglica, pensativa.
  - A ele voc tambm fez mal. Porque, no fundo, voc no passa de uma iluso, fugaz como uma borboleta, ambiciosa, lcida, insacivel...
  A jovem no respondeu. Estava alm das disputas e das injustias. O semblante de Joffrey de Peyrac, na vspera de sua priso, acabava de aparecer-lhe, e tambm 
o de Calembredaine, um pouco antes da batalha la feira de Saint-Germain. Alguns homens, na hora da derrota, reencontram o instinto dos animais. Quem no notou a 
tristeza dos soldados partindo para o combate onde a morte os espera?
  Dessa vez, no devia deixar-se colher pelo acaso: era preciso lutar contra a sorte.
  - Voc vai deixar Paris - decidiu ela. - Sua tarefa est terminada, pois os ltimos panfletos esto escritos, impressos e em lugar seguro.
  - Deixar Paris? Eu? Mas para onde irei?
  - Para a casa de sua velha ama, a mulher de quem me falou e que o criou nas montanhas do Jura. O inverno no tardar, os caminhos ficaro cobertos de neve, ningum 
ir procur-lo l. Voc vai deixar minha casa, que no  segura, e refugiar-se na de Traseiro de Pau. Ainda hoje,  meia-noite, voc alcanar a Porte de Mont-martre, 
que  sempre muito mal guardada. Ali, encontrar um cavalo e, no coldre da sela, dinheiro e uma pistola.
  -        Est bem, marquesa - disse ele, bocejando.
E ergueu-se para partir.        
  Sua submisso alarmava Anglica mais que uma audcia imprudente. Seria a fadiga, o medo, ou o efeito do seu ferimento? Ele parecia agir como um sonmbulo. Antes 
de deix-la, olhou-a demoradamente, sem sorrir.
  -        Agora - disse ele -, voc  muito forte e pode deixar-nos no caminho.
  Ela no compreendeu o que ele queria dizer. As palavras no mais lhe penetravam na mente, e seu corpo estava dolorido como se a houvessem surrado.
  Ela no tardou a ver distanciar-se, sob a chuva fina, o vulto magro e negro do Poeta Pobre.
  De tarde, ela foi at o mercado de animais da feira de Saint-Germain, comprou um cavalo, que lhe custou uma parte de suas economias, depois passou pela Rue du 
Vald'Amour, para "tomar emprestada" a Belo Rapaz uma de suas pistolas.
  Ficou decidido que, por volta da meia-noite, Belo Rapaz, Pe-nia e alguns outros seguiriam com o cavalo para a Porte de Mont-martre. Cludio Le Petit ali chegaria, 
por seu turno, com alguns homens da confiana de Traseiro de Pau. Os narquois o escoltariam na travessia dos subrbios, at o campo.
  Estabelecido seu plano, Anglica encontrou um pouco de calma. De noite, ela subiu ao quarto dos meninos, depois at o sto em que estava alojado Davi. O rapaz 
tinha uma forte febre, pois seu ferimento, maltratado, comeava a supurar.
  Mais tarde, Anglica, em seu quarto, comeou a contar as horas. Os meninos e as domsticas dormiam. O smio Piccolo, aps ter arranhado a porta, veio instalar-se 
sobre a pedra da lareira. Anglica, com os cotovelos nos joelhos, contemplava o fogo. Dentro de duas horas, dentro de uma hora, Cludio Le Petit estaria fora de 
perigo. Ela respiraria melhor, e ento se deitaria e procuraria dormir. Depois do incndio da Taberna da Mscara Vermelha, parecia-lhe que ela esquecera o que era 
o sono.
  O passo de um cavalo ressoou nas pedras da rua, depois parou. Bateram  porta. Com o corao aos pulos, ela foi abrir o postigo gradeado.
  - Sou eu, Desgrez.
  - Voc vem em nome da amizade ou da polcia?
  - Abra-me. Di-lo-ei depois.
  Ela puxou os ferrolhos achando que a visita de um policial era extremamente desagradvel, mas, no fundo, sentia-se feliz em ver Desgrez. Era melhor do que ficar 
sozinha, sentindo cada minuto de seu relgio cair-lhe no corao como uma gota de chumbo derretido.
  -        Onde est Sorbonne? - indagou ela.
  -        No o tenho comigo esta noite.
  Ela observou que, sob seu capote molhado, ele estava vestido com um casaco de tecido vermelho, guarnecido de fitas negras e ornado de uma volta e de punhos de 
rendas. Com sua espada e suas botas e esporas, ele parecia bem- um pequeno gentil-homem de provncia, muito orgulhoso de se encontrar na capital.
  - Venho do teatro - disse ele alegremente. - Uma misso bastante delicada junto a uma bela...
  - Voc no persegue mais os panfletrios?
  - Pode ser que nesta ocasio se tenha compreendido que eu no daria o mximo...
  - Recusou ocupar-se desse caso?
  - No  bem isso. Deixam-me muito livre, como voc no ignora. Sabe-se que tenho meu pequeno mtodo pessoal.
  De p diante do fogo, ele esfregava as mos para reaquecer-se. Tinha posto suas luvas com punhos de couro negro e seu chapu sobre um tamborete."
  - Por que voc no se fez soldado no exrcito do rei? - perguntou-lhe Anglica, que admirava o garbo atual do antigo advogado de aparncia miservel. - Achar-lhe-iam 
um belo rapaz, e voc no aborreceria ningum... No se mexa... Vou buscar-lhe um jarro de vinho branco e folhados.
  - No, obrigado! Penso que, malgrado sua graciosa hospitalidade, ser melhor que eu me retire. Tenho ainda de dar um giro para os lados da Porte de Montmartre.
  Anglica sobressaltou-se e lanou um olhar sobre seu relgio: onze horas e meia. Se Desgrez se dirigisse agora para a Porte de Montmartre, haveria muita possibilidade 
de que ele casse sobre o Poeta Pobre e seus cmplices. Seria por acaso que ele queria ir  Porte de Montmartre, ou o diabo do homem havia farejado alguma coisa? 
No, era impossvel! Ela tomou bruscamente sua deciso.
  Desgrez vestiu o capote.
  - J?! - protestou Anglica. - No compreendo nada de seus hbitos. Chega a desoras, tira-me do leito e vai embora to cedo!
  - Eu no a tirei do leito. Voc ainda, no tinha mudado a roupa. Estava pensando diante do seu fogo.
  -  Precisamente... Eu estava aborrecida. Vamos, sente-se.
  -        No - disse ele, amarrando o,cordo de sua gola. - Quanto mais reflito, mais creio que devo apressar-me.
  -        Oh! Esses homens! - protestou ela, amuada. Ela procurava um pretexto para ret-lo.
  Receava, menos pelo poeta que pelo prprio Desgrez, o inevitvel encontro que se daria se ela o deixasse partir para a Porte de Montmartre. O policial tinha uma 
pistola e uma espada, mas os outros tambm estavam armados e eram numerosos. Alm disso, o co Sorbonne no estava com seu dono. De qualquer modo, seria intil que 
a evaso de Cludio Le Petit fosse acompanhada de uma rixa durante a qual um capito de polcia de Chtelet muito se arriscaria a ser morto. Era preciso a todo custo 
evitar isso.
  Mas j Desgrez saa do quarto.
  "Oh! Que bobagem!", pensou Anglica. "Se eu no for capaz de reter um homem por um quarto de hora, pergunto-me a mim mesma para que foi que Deus me fez nascer!"
  Ela o seguiu no vestbulo e, como ele segurasse a maaneta da porta, ela ps a mo sobre a dele. A ternura do gesto pareceu surpreend-lo. Ele teve uma leve hesitao.
  - Boa noite, senhora - disse ele com um suspiro.
  - No terei uma boa noite, se voc for embora - murmurou ela. - A noite  muito longa... para uma pessoa que est sozinha.
  E encostou a face no ombro dele.
  "Procedo como uma cortes", pensou ela, "mas pouco importa! Alguns beijos me faro ganhar tempo. E, mesmo que ele pea mais, por que no? Afinal de contas, h 
tanto tempo que nos conhecemos..."
  - H tanto tempo que nos conhecemos, Desgrez - repetiu ela em voz alta. - Nunca pensou que entre ns...
  - No  do seu feitio lanar-se  cabea de um homem - disse Desgrez com perplexidade. - Que tem voc esta noite, minha bela?
  Mas sua mo havia deixado a porta, e ele a segurava pelo ombro. Muito lentamente, como a contragosto, seu outro brao ergueu-se e enlaou a cintura de Anglica. 
No entanto, ele no a estreitava. Segurava-a mais como um objeto leve e frgil com o qual no se sabe o que fazer. Ela sentiu, entretanto, que o corao do policial 
Desgrez batia um pouco mais rapidamente. No seria divertido se ela chegasse a emocionar aquele homem indiferente e sempre senhor de si mesmo?
  -        No - disse ele afinal. - No, nunca pensei que poderamos dormir juntos. O amor  para mim qualquer coisa de muito ordinrio. Nisso, como em muitas outras 
coisas, eu desconheo o luxo e ele no me tenta. O frio, a fome, a pobreza e as varas de meus mestres no contriburam para dar-me gostos refinados. Sou um homem 
de taberna e de bordel. O que peo a uma fmea  que seja um bom animal, robusto, um objeto confortvel, que se possa manejar  vontade. Resumindo, minha cara, voc 
no  o meu tipo.
  Ela o escutava um tanto divertida e sem afastar a fronte de sua espdua. Sentia em suas costas a irradiao quente das duas mos de Desgrez. Ele no era talvez 
to desdenhoso quanto queria afirmar. Uma mulher como Anglica no se enganava nisso. Muitas coisas ligavam-na a Desgrez. Ela teve um risinho abafado.
  - Voc me fala como se eu fosse um objeto de luxo... no confortvel, como diz. Voc admira a riqueza de meu vestido e de minha morada?
  - Oh! O vestido nada significa. Voc sempre conservar aquela conscincia de sua superioridade que transparecia em seus olhos quando, um dia j dlistante, lhe 
apresentaram a certo advogado pauprrimo e plebeu.
  - Muitas coisas se passaram depois, Desgrez.
  - Muitas coisas nunca passaro, entre outras a arrogncia de uma mulher cujos ancestrais estiveram, como Joo II, o Bom, na Batalha de Poitiers, em 1356.
  - Como bom policial que , voc sabe sempre tudo sobre todos.
  - Sim... exatamente como seu amigo, o Poeta Pobre.
  Ele tomou-a pelos ombros e, com delicadeza mas firmemente, afastou-a de si para olh-la no rosto.
  -        Ento?... E verdade que ele devia estar  meia-noite na Porte de Montmartre?
  Ela estremeceu, depois pensou que, agora, o perigo tinha passado. Ao longe, um relgio deu as ltimas pancadas da meia-noite. Desgrez percebeu nos olhos dela um 
relmpago triunfante.
  -        Sim... sim,  muito tarde - murmurou ele, abanando a cabea com ar pensativo. - Havia tanta gente que tinha marcado encontro esta noite na Porte de Montmartre! 
Entre outros, o senhor tenente-civil em pessoa e vinte archeiros do Chtelet. Talvez, se eu tivesse chegado um pouco mais cedo, houvesse podido aconselh-los a ir 
tocaiar sua caa noutro lugar... Ou ento talvez eu pudesse ter feito um sinal  caa imprudente para' que fugisse por outro caminho... Mas, agora, creio, bem... 
sim, creio bem que  muito tarde...
  Flipot saiu de madrugada para buscar o leite fresco das crianas no mercado de Pierre-au-Lait. Acabava Anglica de passar por um breve sono agitado, quando o ouviu 
voltar correndo. Esquecendo-se de bater  porta, ele introduziu pela fresta a cabea desgrenhada. Os olhos saltavam-lhe das rbitas.
  - Marquesa dos Anjos - disse ele, esbaforido -, acabo de ver... na Place de Greve... o Poeta Pobre.
  - Na Place de Greve?... - repetiu ela. - Mas ele est completamente louco! Que  que ele fazia l?
  - Estava com a lngua para fora - respondeu Flipot. - Foi enforcado!
  
  CAPTULO VIII
  
  Desespero de Anglica
  
  - Prometi ao Sr. d'Aubrays, tenente da polcia de Paris, que por seu turno fez idntica promessa ao rei, que os trs ltimos homens da lista no ieriam conhecidos 
do pblico. Esta manh, apesar do enforcamento do autor desses panfletos, o nome do Conde de Guich foi servido aos parisienses. Sua Majestade compreendeu muito 
bem que a condenao do principal culpado no deteria a mo da justia imanente que vai abater-se sobre seu irmo, isto , sobre Monsieur. De minha parte, fiz compreender 
a Sua Majestade que eu conhecia o cmplice ou os cmplices, que, apesar da morte do panfletrio, continuariam sua obra. E, repito-o, prometi que os trs ltimos 
nomes no apareceriam.
  - Eles aparecero!
  - No!
  Anglica e Desgrez estavam de novo face a face, naquele mesmo lugar onde, na vspera, Anglica havia reclinado a cabea no ombro do policial. Jamais ela se reprovaria 
bastante a si mesma por aquele gesto. Agora, os olhares dos dois interlocutores cruzavam-se como espadas.
  A casa estava deserta. Davi, sozinho, ferido e febril, encontrava-se l em cima, no sto. Ouvia-se pouco rudo vindo da rua. O eco da agitao popular no chegava 
at aquele bairro aristocrtico. Na entrada do Marais, paravam os gritos da turba que, desde cedo, desfilava na Place de Greve, diante"d forca em que balanava 
o corpo de Cludio Le Petit, Poeta Pobre do Pont Neuf. Havia quinze anos que ele inundava Paris com seus epigramas e suas canes. Ningum podia acreditar que ele 
afinal estivesse morto e enforcado. Eram apontados seus cabelos louros, que o vento revolvia, e seus velhos sapatos de pregos gastos. Tia Marjolaine chorava. Na 
esquina da Rue de la Vannerie, a velha Hurlurette, com o rosto inundado de lgrimas, berrava ao som da rabeca desafinada de Hurlurot o clebre estribilho:
  "Quando eu for
  A Abadia de Monte--Regret,
  Por vocs rezarei,
  Pondo a lngua pra fora..."
  Ao ouvi-la, a multido entrava em transe. A falta de melhor, estendiam o punho para o Hotel de Ville.
  Na pequena casa da Rue des Francs-Bourgeois, a luta prosseguia, spera, implacvel, mas em voz baixa, como se Anglica e Desgrez desconfiassem de que a cidade 
inteira estivesse  escuta de suas palavras.
  - Eu sei onde esto os maos de papis que voc tenciona fazer distribuir ainda - dizia Desgrez. - Eu posso pedir o auxlio do exrcito, assaltar o Faubourg Saint-Denis 
e fazer cortar em pedaos todos os tratantes que se opuserem a uma busca da polcia em casa do Grande Cosre, Messire Traseiro de Pau. Entretanto, existe um meio 
mais simples de arranjar as coisas. Escute-me, pequena tola. Cludio, o poeta, est morto. Tinha de acontecer. Suas insolncias duraram muito tempo, e o rei jamais 
admitir ser julgado pela ral.
  - O rei! O rei! Voc tem a boca cheia dele. Antigamente voc era mais altivo!
  - Altivez  um pecado da juventude, senhora. Antes de ser altivo,  preciso saber contra quem se luta. Eu me choquei, pela fora das circunstncias, contra a vontade 
do rei. Quase fui quebrado. A demonstrao est feita: o rei  o mais forte. Eu estou, portanto, do lado do rei. Na minha opinio, voc, que tem dois filhos pequenos, 
deveria seguir meu exemplo.
  - Cale-se, voc me horroriza!
  - No ouvi eu falar de uma carta-patente que voc aspirava a obter para a fabricao de uma bebida extica, ou de qualquer coisa desse gnero?... E no pensa que 
uma boa quantia, por exemplo cinquenta mil libras, seria bem-vinda para ajud-la a lanar um comrcio qualquer? Ou ento algum privilgio, uma iseno de direitos, 
que sei eu? Uma mulher como voc no deve ter ideias curtas. O rei est pronto a conceder-lhe o que pedir, em troca do seu silncio definitivo e imediato. Eis a 
boa forma de terminar es
te drama para benefcio de todos. O senhor tenente-criminal ser felicitado, conceder-me-o um novo cargo, Sua Majestade soltar um suspiro de alvio, e voc, minha 
cara, tendo posto a flutuar outra vez o seu pequeno barco, continuar a navegar no rumo dos mais altos destinos. Vamos, no trema como uma poldra sob o chicote do 
amansador. Reflita. Voltarei dentro de duas horas para ouvir sua resposta...        
  Na Place de Greve acabavam de chegar, em uma carroa, o mestre-impressor Gilberto e dois de seus empregados. Trs outras forcas estavam erguidas para eles perto 
da do Poeta Pobre. Quando mestre Aubin enfiava no n corredio a cabea encanecida do impressor, um rumor surgiu e ampliou-se:
  -        A graa! O rei concedeu a graa.
Mestre Aubin hesitou.
  Acontecia, s vezes, que, ao p do patbulo, a graa do rei vinha arrancar um condenado s mos diligentes do carrasco. Prevendo a mudana de deciso do soberano, 
mestre Aubin devia mostrar-se pontual, mas sem pressa excessiva. Esperou pacientemente que lhe apresentassem o pedido de indulto assinado por Sua Majestade. Entretanto, 
nada aparecia. Fora um mal-entendido. De fato, no conseguindo a carroa dos capuchinhos, que vinha buscar os corpos dos condenados  morte, abrir passagem entre 
aquela multido muito densa, o monge que a" conduzia pusera-se a gritar:
  -        Gare! Gare! Arreda! Arreda!
  E cada qual compreendera: Grce! Grce! Perdo! Perdo!
  Vendo do que se tratava, mestre Aubin, tranquilamente, voltou  tarefa. Mas mestre Gilberto, resignado alguns instantes antes, j no queria morrer. Debatia-se 
e ps-se a gritar, com voz terrvel: ' - Justia! Justia! Apelo para o rei! Querem matar-me enquanto os assassinos do pequeno vendedor de barquilhos e do rtisseurBour-jus 
se pavoneiam em liberdade. Querem enforcar-me porque eu me fiz instrumento da verdade! Apelo para o rei! Apelo para Deus!
  O tablado sobre o qual estavam erguidas as trs forcas estalou, sob o mpeto da turba.
  Atacado a pedradas e porretadas, o .carrasco teve de largar a presa e refugiar-se sob o cadafalso. Enquanto corriam em busca de um tio para atear-lhe fogo, os 
soldados a cavalo surgiram na praa e, a chicotadas, conseguiram desimpedir o local. Mas os condenados tinham desaparecido...
  Orgulhosa de ter arrancado trs de seus filhos ao patbulo, Paris sentia renascer em si o esprito da Fronda. Ela se recordava de que em 1650 fora o Poeta Pobre 
o primeiro a lanar as flechas das "mazarinadas". Enquanto ele viveu, podia-se estar certo de ouvir s vezes sua lngua afiada fazer-se eco dos ressentimentos novos, 
podia-se deixar dormir os ressentimentos velhos. Mas, agora que ele estava morto, um medo pnico apoderou-se do povo. Tinha este a impresso de haver sido subitamente 
amordaado. Tudo voltava  superfcie: as fomes de 1656, de 1658, de 1662, as novas taxas. Que pena ter morrido o italiano! Teriam incendiado seu palcio...
  Grupos correram ao longo dos cais gritando:
  - Quem degolou o pequeno vendedor de barquilhos? Enquanto outros escandiam:
  - Amanh... saberemos! Amanh... saberemos!
  Mas no dia seguinte a cidade no teve sua cotidiana florescncia de pginas brancas. Nem nos dias posteriores. Retornou o silncio. O pesadelo esvanecia-se. Nunca 
se saberia quem matara o pequeno vendedor de barquilhos. Paris compreendeu que o Poeta Pobre estava bem morto.
  Alis, ele prprio dissera a Anglica:
  -        Agora voc  muito forte e pode deixar-nos no caminho.
Ela ouvia-o repetir-lhe, sem cessar, essas palavras. E, durante as longas noites em que nem por um instante ela achava repouso, via-o diante de si, olhando-a com 
seus olhos plidos e brilhantes como a gua do Sena, quando o sol nela se mira.
  No tinha querido ir  Place de Greve. Bastou-lhe que Brbara levasse os meninos at l, como ao sermo, e no lhes fosse ocultado nenhum detalhe do quadro sinistro: 
nem os cabelos louros do Poeta Pobre, que flutuavam diante do seu rosto tumefacto, nem suas meias negras em espiral sobre as magras palmilhas, nem seu tinteiro de 
chifres e sua pena de ganso, que o carrasco, supersticioso, tinha deixado em sua cintura.
  Levantando-se, no terceiro dia, depois de uma noite de insnia, ela disse a si mesma: "No posso mais suportar esta existncia".
  Nesse dia, aps o anoitecer, ela devia encontrar-se com Desgrez na casa dele, na Rue du Pont-Notre-Dame. De l, ele a conduziria a importantes personagens, com 
as quais se estabeleceria o acordo secreto que poria fim ao curioso caso do pequeno vendedor de barquilhos.
  As propostas de Anglica tinham sido aceitas. Em troca, ela entregaria a quem de direito as trs malas de panfletos, impressos mas no distribudos, dos quais 
os senhores da policia fariam, sem dvida, uma grande fogueira.
  E a vida recomearia. Anglica teria de novo muito dinheiro. Teria, tambm, somente ela, o privilgio de fabricar e vender, em todo o reino, a bebida chamada chocolate.
  "No posso mais suportar esta existncia", repetia ela consigo mesma.
  Acendeu uma vela, porque ainda no rompera o dia. O espelho colocado sobre a penteadeira enviava-lhe o reflexo do seu rosto plido e abatido.
  "Olhos verdes", pensou ela. "A cor que traz infelicidade. Sim,  ento exato. Eu levo infelicidade aos que amo... ou aos que me amam."        
  Cludio, o poeta?.-.. Enforcado. Nicolau?... Desaparecido. Joffrey?... Queimado vivo.
  Ela passou lentamente as mos geladas pelas tmporas. Tremia tanto, interiormente, que respirava mal.
  "Que fao eu aqui, lutando contra todos esses homens fortes e poderosos? No  este o meu lugar. O lugar de uma mulher  no seu lar, junto de um esposo a quem 
ame, ao calor do fogo, na quietude da casa e do filho que dorme em seu bero de madeira. Lembra-se, Joffrey, do pequeno castelo em que Florimond nasceu?... A tempestade 
das montanhas fustigava as vidraas, e eu me sentava em seus joelhos, minha face contra a sua. E olhei, com um pouco de medo e uma confiana deliciosa, sua fisionomia 
estranha, em que brincavam os reflexos do fogo... Como voc sabia rir mostrando os dentes brancos! Ou ento eu me estendia em nosso grande leito, e voc cantava 
para mim, com aquela voz profunda e veludosa, que parecia repercutida pela montanha. Eu adormecia, e voc se deitava junto de mim, na frescura dos lenis bordados, 
perfumados de ris. Eu lhe havia dado muito, eu o sabia. E voc me havia dado tudo... E eu dizia, a mim mesma, sonhando, que seramos eternamente felizes..."
  Ela titubeou atravs da pea, foi cair de joelhos ao p do leito, afundou o rosto nos lenis amarrotados.
  -        Joffrey, meu amor!...
  O grito, contido muito tempo, se elevava.
  -        Volte, meu amor, no me deixe sozinha!... Retorne, Joffrey!
Mas ele no voltaria mais, ela o sabia. Ele tinha partido para muito longe. Onde poderia ela encontr-lo doravante? Ela no tinha sequer um tmulo onde orar... As 
cinzas de Joffrey tinham sido dispersadas ao vento do Sena.
  Anglica levantou-se. Seu rosto estava em lgrimas.
  Sentou-se  mesa, tomou uma folha de papel e aparou a pena.
  "Quando lerem esta cana, senhores, terei cessado de viver. Eu sei que atentar contra a prpria existncia  um grande crime, mas, para este crime, Deus, que conhece 
o fundo das almas, ser meu nico refgio. Entrego-me  Sua Misericrdia. Confio a sorte de meus dois filhos  justia e  bondade do rei. Em troca de um silncio 
do qual dependia a honra da famlia real, e que eu respeitei, peo a Sua Majestade que se incline como um pai sobre essas duas pequenas vidas, iniciadas sob o signo 
das maiores desgraas. Se o rei no lhes restituir o nome e o patrimnio de seu pai, o Conde de Peyrac, que pelo menos lhes d os meios de subsistncia em sua infncia 
e, mais tarde, a educao e as somas necessrias para o seu estabelecimento..."
  Ela continuou a escrever, acrescentando alguns detalhes para a vida de seus filhos, pedindo tambm proteo para o jovem rfo Chaillou. Redigiu, igualmente, uma 
carta para Brbara, suplicando-lhe que jamais abandonasse Florimond e Cantor, legando-lhe os pobres objetos que possua, vestidos e jias.
  Enfiou a segunda carta no envelope e lacrou-o.
  Aps o qu, sentiu-se melhor. Lavou-se e vestiu-se, depois passou a manh no quarto de seus filhos, o que lhe fez bem. Mas o pensamento de que ela ia deix-los 
para sempre no a perturbava. Eles no mais precisavam dela. Tinham Brbara, que conheciam e que os conduziria a Monteloup. Eles seriam criados ao sol e ao bom ar 
do campo, longe daquela Paris lamacenta e malcheirosa.
  O prprio Florimond tinha perdido o hbito da presena daquela me que entrava tarde, de noite, em uma casa da qual eles tinham feito seu pequeno reino entre duas 
servilhetas, o co Pa-tou, seus brinquedos e seus pssaros. Como era sempre Anglica quem trazia os brinquedos, eles corriam para ela quando a viam e, tirnicos, 
resmungavam, reclamando ainda alguma coisa. Nesse dia, Florimond puxou sua camisola de droguete vermelho e disse:
  - Mame, quando terei um calo de rapaz? Sou um homem agora, no sabe?
  - Meu querido, voc j tem um grande chapu de feltro com uma bela pluma rosa. Muitos meninos da sua idade se contentam com um gorro como o de Cantor.
  - Eu quero um calo! - gritou Florimond, jogando ao cho sua corneta.
  Anglica retirou-se de mansinho, temendo uma clera que a teria obrigado a proceder com severidade.
  Aps o almoo, ela aproveitou o sono dos filhos para envergar seu manto e deixar a casa. Levava consigo o envelope lacrado. Iria entreg-lo a Desgrez e pedir-lhe 
que o levasse  famosa reunio secreta. Depois, ela o deixaria e caminharia ao longo das margens. Teria muitas horas diante de si. Tencionava caminhar durante muito 
tempo. Queria ir ao campo, levar como ltima viso a imagem dos prados amarelecidos pelo outono e das rvores douradas, respirar uma ltima vez o odor dos musgos, 
que lhe recordariam Mon-teloup e sua infncia...
  
  CAPITULO IX
  
  Brutalidade e volpia do policial Desgrez
  
  Anglica esperou Desgrez em sua casa do Pont de Notre-Dame. O policial gostava de residir sobre as pontes, pois os que ele perseguia moravam debaixo delas.
  Mas o cenrio tinha mudado depois da primeira visita que Anglica lhe fizera, alguns anos antes, em um dos velhos prdios do Petit Pont.
  Ele agora residia em casa prpria no riqussimo Pont de Notre-Dame. Era quase nova e de um mau gosto de burgus endinheirado, com suas fachadas ornadas de deuses 
Termos que sustentavam frutos e flores, seus medalhes de reis, suas esttuas, tudo pintado "ao natural", em cores berrantes.
  O quarto em que Anglica fora introduzida pelo porteiro refle-tia o mesmo conforto de uma pessoa da classe mdia. Mas ela quase no olhou para o vasto leito, cujo 
baldaquim era sustentado por colunas espiraladas, e a mesa de trabalho adornada com objetos de bronze dourado.
  Ela no fazia conjeturas sobre as circunstncias que haviam permitido ao advogado melhorar de vida. Desgrez era ao mesmo tempo uma presena e uma lembrana. Tinha 
ela a impresso de que ele sabia tudo a seu respeito, e isso a tranquilizava. Ele era duro e indiferente, mas firme como um pilar. Entregando-lhe sua ltima mensagem, 
ela poderia morrer em paz: seus filhos no seriam abandonados.
  A janela aberta deitava para o Sena. Ouviam-se as remadas dos barqueiros. O dia estava lindo e um tpido sol de outono espelhava-se no pavimento ladrilhado em 
branco e preto, cuidadosamente lustrado com leo.
  Afinal, Anglica ouviu no corredor o tilintar de esporas de um passo decidido. Reconheceu o passo de Desgrez.
  Ele entrou, sem mostrar qualquer surpresa.
  _ Senhora, eu a sado. Sorbonne, o meu co, est l fora, com as patas enlameadas.
  Ainda dessa vez ele estava vestido, se no com elegncia, pelo menos confortavelmente. Um galo de veludo negro sublinhava a gola de seu amplo capote, que ele 
jogou sobre uma cadeira. Mas ela reencontrou o antigo Desgrez na sem-cerimnia com que ele tirou o chapu e a peruca. Depois ele desprendeu a espada. Parecia de 
muito bom humor.
  -        Acabo de estar com o Sr. d'Aubrays. Tudo caminha esplendidamente. Voc vai encontrar as maiores personagens do comrcio e das finanas, minha cara. Diz-se 
mesmo que o prprio Sr. Colbert assistir  reunio.
  Anglica teve um sorriso polido. Essas palavras lhe pareciam vs, e no chegavam a sacudir sua hebetude. Ela no teria a honra de conhecer o Sr. Colbert. A hora 
em que essas onipotentes pessoas se reunissem em algum bairro afastado, o corpo de Anglica de Sanc, Condessa de Peyrac, Marquesa dos Anjos, estaria flutuando entre 
as margens douradas do Sena. Ela estaria livre, ento. Ningum mais a alcanaria. E talvez Joffrey a reencontrasse...
  Anglica teve um estremecimento porque Desgrez continuava a falar e ela no mais compreendia suas palavras.
  - Que estava dizendo?
  - Digo que voc est adiantada para o encontro.
  - Tambm no  por causa dele que estou aqui. De fato, acho-me aqui de passagem, pois um encantador gal me espera para me conduzir  galeria do Palais, onde quero 
admirar as ltimas novidades. Talvez, em seguida, eu passe pelas Tulherias. Estas distra-es me permitiro esperar sem nervosismo a hora fatdica do encontro. Mas 
trago comigo um envelope que me atrapalha. Poderia guard-lo? Apanh-lo-ei na volta.
  - As suas ordens, senhora.
  Ele tomou o envelope lacrado e, dirigindo-se ao pequeno cofre posto sobre um consolo, abriu-o e ali o depositou.
  Anglica voltou-se para apanhar o leque e as luvas. Tudo era muito simples, tudo se desenrolava sem complicaes. Com a mesma simplicidade, ela ia caminhar, sem 
se apressar. Bastaria, em dado momento, obliquar para o Sena...
  Um rangido na fechadura f-la erguer a cabea. Viu que Des-grez fechava a porta com chave. Depois, com a maior naturalidade, ele enfiou a chave no bolso e voltou 
para junto dela sorrindo.
  - Sente-se por alguns minutos - disse ele. - H muito que desejo fazer-lhe duas ou trs perguntas, e a ocasio me parece oportuna.
  - Mas... algum me espera!
  - Continuar a esper-la - disse Desgrez, sempre sorrindo. - Alm disso, ser tudo feito rapidamente. Sente-se, eu lhe peo.
  Ele indicou-lhe uma cadeira diante da mesa e tomou lugar do outro lado.
  Anglica estava enervada e no levantou outras objees. Havia vrios dias, seus gestos no tinham mais realidade que os gestos de uma sonmbula.
  Havia, no entanto, alguma coisa estranha. Que era?... Ah! Sim! Por que tinha Desgrez fechado a porta a chave?
  -        As informaes que desejo pedir-lhe referem-se a um caso bastante grave, do qual me ocupo atualmente. A vida de vrias pessoas depende disso. Seria muito 
longo, e alis intil, que eu lhe explicasse a gnese deste caso. Basta que responda s minhas perguntas.
  Ele falava sem olh-la e muito lentamente. Com a mo em pala sobre os olhos semicerrados, parecia absorvido por uma viso distante.
  -        H cerca de quatro anos, uma noite, no decurso de um assalto  casa de um boticrio do Faubourg Saint-Germain, Sieur Glazer, dois malfeitores de baixa 
condio foram presos. Pelo que recordo, eles tinham, no meio da malandragem, as alcunhas de Gazua e Prudente. Foram enforcados. Entretanto, antes de morrer, durante 
o interrogatrio, Prudente pronunciou certas palavras que eu encontrei, ultimamente, consignadas em um auto do Chtelet e que podem esclarecer a minha atual pesquisa. 
Elas dizem respeito ao que o Sieur Prudente viu em casa do Sieur Glazer, durante a visita improvisada que lhe fez naquela noite.
Infelizmente, os termos desse testemunho so imprecisos. E um palavrrio que deixa suspeitar muitas coisas e nada prova. Por isso quero pedir-lhe que me elucide. 
Que havia em casa do velho Glazer?
  O mundo tornava-se cada vez mais irreal para Anglica. As imagens se lhe dissipavam. Uma s luz permanecia, a das pupilas castanhas de Desgrez, subitamente abertas, 
e que tinham uma espcie de irradiao vermelha e estranha, uma claridade de concha translcida.
  - E  a mim que faz essa pergunta? - indagou a jovem.
  - A voc mesma. Que viu voc naquela noite em casa do velho Glazer?
  - Como quer que eu o saiba? Creio que voc perdeu a razo.
  Desgrez soltou um suspiro e a luz de seus,olhos se extinguiu por trs das plpebras baixadas. Ele tomou de sobre a mesa uma pena de ganso e comeou a vir-la maquinalmente 
nos dedos.
  - Havia naquela noite uma mulher em casa do velho Glazer, a qual acompanhava os ladres. No importa quem fosse! Uma mulher que tinha na classe perigosa um nome 
de que estou informado: Marquesa dos Arjos. Nunca ouviu falar dela? No? Essa mulher era a companheira de um ilustre bandido da capital: Ca-lembredaine. Esse Calembredaine 
deixou-se prender em 1661, na feira de Saint-Germain, e foi enforcado...
  - Enforcado!... - exclamou ela.
  - No, no - disse brandamente Desgrez -, no se perturbe, senhora... Ele no foi enforcado. Na verdade, escapou saltando ao Sena e... afogou-se. Acharam seu corpo 
com duas libras de areia na boca e inchado como um odre. Que pena, to belo homem! Compreendo a sua palidez! Voltemos  Marquesa dos Anjos, digna companheira desse 
triste senhor, que era, como voc no ignora, um assaltante famoso e um assassino. Condenado s gals, ele se evadiu etc. Quanto a ela, seu reinado foi breve mas 
edificante: ela participou de numerosos assaltos, ataques a mo armada a carruagens, como a da prpria filha do tenente-civil. Ela tem em seu ativo numerosos assassnios, 
entre outros o de um soldado do Ch-telet, cujo ventre abriu com muita habilidade, peo-lhe que me acredite...
  O esprito de Anglica saiu de seu entorpecimento. A jovem sentiu a armadilha fechar-se em torno dela. _
  Seu olhar voltou-se para a janela aberta, por onde chegava o rudo da corrente. O Sena estava ali!... A suprema evaso! "Mergulharei at o fundo! Estarei livre 
do mundo dos homens, este mundo execrvel!..."
  -A Marquesa dos Anjos estava com Prudente na casa de Glazer - tornou Desgrez. - Ela viu o que viu aquele homem.  Ela...
  De um mpeto, Anglica tinha saltado para a janela. Ali encontrou Desgrez mais lpido que ela. Ele segurou-lhe os pulsos e f-la recuar at a cadeira, onde a atirou 
brutalmente. Sua expresso estava transtornada.
  -        Ah! no, nada disso! - rosnou ele. - Nada desse joguinho comigo!
  Ele inclinava sobre a jovem um cruel semblante.
  -        Vamos, fale, se no quer que eu a sacuda. Que viu em casa do velho Glazer?
  Anglica olhava-o fixamente. Em seu corao defrontavam-se sentimentos contraditrios, aos quais se misturavam o medo e a clera.
  - Probo-o de me tratar assim.
  - Sempre trato assim as mariposas que interrogo.
  - Ficou completamente louco?
  - Responda! Que viu em casa de Glazer?
  - Vou gritar por socorro.
  - Pode berrar  vontade. A casa  habitada por archeiros. Sabem que no devem entrar aqui ainda que ouam gritar "assassino".
  O suor perlava as tmporas de Anglica.
  "No se deve", pensou ela, "no se deve transpirar. Nicolau dizia que era mau sinal. Isto quer dizer que se est prestes a dar o servio..."
  Uma bofetada magistral caiu-lhe sobre a face.
  -        Vai falar? Que viu em casa de Glazer?
  -        Nada tenho a dizer-lhe. Bruto! Deixe-me partir.
Desgrez aproximou-se dela e, segurando-a pelos cotovelos,
  obrigou-a a levantar-se, mas com precauo, como se ela estivesse gravemente enferma.
  -        Voc no quer falar, minha joiazinha? - disse ele com uma doura inesperada. - No  gentil, voc sabe. Quer que eu me zangue?...
  Ele a conservava encostada a si. Muito lentamente, suas mos desceram ao longo dos braos da jovem e impeliram seus cotovelos para trs. De sbito ela foi atravessada 
por uma dor pavorosa e soltou um grito agudo. Dir-se-ia que uma tenaz de ferro lhe acabara de arrancar os dois braos. O golpe do policial era tal que ela no podia 
fazer um movimento sem ter a impresso de receber uma punhalada entre as costelas. Mas eram sobretudo os dedos do antigo advogado que a faziam sofrer horrivelmente, 
seus dedos separados, distendidos e que, -mnima presso, faziam a tortura ainda mais insuportvel.
  -        Vamos, fale! Que havia em casa de Glazer?
  Anglica suava em bica. Um sofrimento intolervel martelava-Ihe a nuca, as omoplatas, alcanava os rins.
  -        Entretanto, no  terrvel o que lhe pergunto. Uma simples informaozinha para um caso que no lhe diz respeito, nem a voc nem aos seus companheiros... 
Fale, minha bela, eu a escuto.
No quer mesmo?
  Ele fez um movimento imperceptvel e os dedos frgeis de Anglica estalaram. Ela berrou. Sem se emocionar, ele continuou:
  - Vejamos, o amigo-Prudente, no Chtelet, falou de uma farinha branca... voc tambm a viu?
  - Vi.        '
  - Que era?
  - Veneno... arsnico.
  - Ah! Voc at sabia o que era? - disse ele, rindo.
  E largou-a. Ele ficou pensativo. Quebrada de dor, ela retomava flego.
  Ao cabo de um instante, ele saiu de suas reflexes, empurrou-a de novo para a cadeira e, puxando um tamborete, sentou-se diante dela.
  -        Agora que voc est razovel, no a farei mais sofrer.
  Ele estava muito junto dela e apertava entre seus joelhos os joelhos trmulos de Anglica. Ela olhava as palmas lvidas de suas prprias mos.
  -        Agora, conte-me sua pequena histria.
  Ele inclinava um pouco de lado a cabea e no a olhava mais. Tornava-se o duro confessor de segredos sinistros. Ela comeou a falar, em voz monocrdia:
  - Na casa de Glazer existia um quarto com retortas... Um laboratrio.        
  - Normal... Todos sabem que ele  boticrio.
  - Aquele p branco estava sobre um balco, em um prato de bronze. Reconheci-o pelo seu cheiro de alho. Prudente quis prov-lo. Eu impedi que o fizesse, dizendo-lhe 
que era veneno.
  - Que mais voc notou?
  - Perto do prato de arsnico havia um pacote de papel grosseiro, fechado com lacre vermelho.
  - E, sobre esse papel, havia qualquer coisa escrita?
  - Sim: para o Sr. de Sainte-Croix.
  - Perfeito. E depois?
  - Prudente derribou uma retorta, que se quebrou. O rudo acordou o proprietrio da casa. Ns fugimos, mas, ao atravessar o vestbulo da casa, ouvimo-lo descer 
a escada. Ele gritou: "Nanette! (ou um nome parecido). Voc se esqueceu de prender os gatos". Ele tambm disse: " voc, Sainte-Croix? Veio buscar o remdio?"
  - Perfeito! Perfeito!
  - Depois...
  O policial teve um gesto desdenhoso.
  -        O que houve depois no me interessa. Tenho j o que precisava...
  Depois... Anglica revia a rua escura onde surgira, aos saltos, o vulto do co Sorbonne. Ela se revia a si mesma correndo como uma louca. O passado no queria 
morrer. Renascia, negro, srdido, desfazendo de um golpe aqueles quatro anos de paciente e honesto labor. Procurou engolir a saliva, mas sua garganta estava rgida 
como pau. Conseguiu afinal articular:
  -        Desgrez... desde quando voc sabe?...
Ele lanou-lhe um olhar zombeteiro.
  -        Que voc  a Marquesa dos Anjos? Desde aquela noite. Acredita que  dos meus hbitos soltar uma loureira que eu tenha prendido e, ainda mais, devolver-lhe 
a faca?...
  Ele a tinha, pois, reconhecido! Acompanhara todas as fases de sua queda. Ela disse precipitadamente:
  -  preciso que eu lhe explique. Clembredaine era um pequeno campons da minha terra... um companheiro de infncia. Falvamos o mesmo dialeto.
  - No lhe peo que me conte sua vida - rosnou ele duramente.
  Mas a jovem agarrou-se a ele, gritando com voz plangente:
  -        Sim...  preciso que eu lhe diga...  preciso que voc me compreenda. Ele era meu companheiro de infncia. Era criado no castelo. Depois desapareceu. 
Encontrou-me quando vim para Paris... Ele sempre me quis... E todos me haviam abandonado... Voc tambm, voc me tinha abandonado... na neve. Ento ele tomou conta 
de mim e subjugou-me...  verdade que eu o segui, mas no cometi todos os crimes que voc me imputa. Desgrez, no fui eu quem matou o soldado Martin, juro por Deus... 
Matei apenas uma vez. Matei o Grande Cosre. Mas foi para salvar a vida, para arrancar meu filho a um destino horrvel...
  - Foi voc quem matou o Grande Coesre, aquele Rolih Tarra-co de quem todos tinham medo?:
  - Fui eu, sim.
  Ele se ps a rir levemente.
  -        Oh, no! Que nmero essa Marquesa dos Anjos! Voc sozinha? Com sua grande faca?
  Ela se tornou lvida. O monstro estava ali, a dois passos, desabado sobre si mesmo, com a garganta aberta, de onde o sangue esguichava. Parecia-lhe que ia vomitar. 
Desgrez, risonho, deu-lhe uma palmadinha na face.
  -        Vamos, no faa essa cara! Voc est gelada. Venha que eu
a aqueo.
  Puxou-a para os seus joelhos, apertou-a fortemente contra si, depois mordeu-lhe os lbios com violncia. Ela soltou um grito de dor e arrancou-se aos seus braos.
  - Sr. Desgrez - disse ela, reunindo o que lhe restava de dignidade -, ser-lhe-ei agradecida se tomar uma deciso a meu respeito. Vai prender-me ou deixar-me partir?
  - No momento, nem uma coisa nem outra - disse ele, com displicncia. - Depois de nossa pequena conversa, no nos podemos separar assim. Voc pensaria que o policial 
 um grande bruto. No entanto, eu posso ser gentil, se a ocasio se apresenta.
  Desgrez levantou-se. Ele sorria, mas seus olhos tinham reencontrado sua luminosidade de concha vermelha. Sem que a jovem pudesse esboar um gesto de defesa, ele 
a ergueu nos braos e murmurou, com o rosto inclinado sobre o dela:
  - Venha, minha bonita gatinha.
  - No quero que me fale dessa maneira - gritou ela. E rompeu em pranto convulso.
  Aquilo veio de chofre. Um furaco de lagrimas, de soluos, que lhe arrancavam o corao, que a sufocavam.
  Desgrez levou-a at o leito, onde a sentou, e ficou um longo espao de tempo a olh-la tranquilamente, com muita ateno. Depois, quando a violncia daquele desespero 
se acalmou um pouco, ele se ps a despi-la. Ela sentiu sobre a nuca o contato de seus dedos, que retiravam os alfinetes de seu corpinho com a habilidade de uma camareira. 
Inundada de lgrimas, ela j no tinha foras para resistir.
  - Desgrez, voc  malvado! - soluou ela.
  - No, meu bem, eu no sou malvado.
  - Eu acreditava que voc era meu amigo... Acreditava que... Oh! Meu Deus! Como sou infeliz!
  - Quietinha! - ralhou ele com indulgncia.
  Com mo lesta, ele levantou-lhe as grandes saias, desacolchetou as ligas, enrolou as meias de seda, descalou-a.
  Quando ela se achava apenas de camisa, ele se apartou e comeou, por seu turno, a despir-se, assobiando, atirando as botas, o casaco, o cinturo aos quatro cantos 
do aposento. Depois, de um salto, juntou-se a ela no leito e puxou as cortinas.
  Na penumbra quente da alcova, o grande corpo cabeludo de Desgrez parecia vermelho e revestido de veludo negro. O homem no perdera nada de sua animao.
  -        Ufa, minha filha! Como voc arqueja! Pare de chorar! O mo
mento  para rir. Chegue para c um pouquinho!
  Arrancou-lhe a camisa e assentou-lhe sobre os rins uma palmada to sonora que ela pulou, enraivecida de humilhao, e enterrou-lhe no ombro os pequenos dentes 
afiados.
  -        Ah! cachorra! - gritou ele. - Isso merece um corretivo!
  Mas Anglica se debatia. Lutaram. Ela gritava-lhe as mais baixas injrias que podia encontrar. Todo o vocabulrio da Polaca passou por ali, e Desgrez ria feito 
um louco. As suas gargalhadas, os seus dentes brancos, o acre cheiro de fumo, que se misturava quele suor viril, perturbavam Anglica at a medula. Ela estava certa 
de odiar Desgrez, de desejar sua morte. Gritava-lhe que o mataria com sua faca. Ele ria a mais no poder. Afinal, conseguiu imobiliz-la debaixo de si e procurou-lhe 
os lbios.
  -        Beije-me - dizia ele. - Beije o policial... Se no obedecer, dou-lhe uma surra que lhe arder durante trs dias... Beije-me...
Estou certo de que voc sabe beijar muito bem...
  Ela no podia mais resistir s injunes imperiosas daquela boca, que a mordia sem piedade a cada uma de suas recusas. Acabou cedendo.
  Cedeu de tal modo que, alguns instantes mais tarde, o desejo a atirou, cega, contra aquele corpo que a tinha vencido. A luta de ambos tomou outro sentido, o da 
eterna luta dos deuses e das ninfas nos bosques do Olimpo. A alegria de Desgrez no amor era prodigiosa, inaltervel. Ganhava Anglica como uma febre. Ela dizia consigo 
mesma que Desgrez a tratava sem qualquer respeito, que jamais algum a tratara assim, nem mesmo Nicolau ou o capito. Mas, com a cabea descada na beira da cama, 
ela ouvia o seu prprio riso como o de unia fmea travessa. Agora sentia muito calor. Seu corpo era sacudido por estremecimentos.
  Afinal, o homem puxou-a para si, com brao imperioso. Durante um segundo, ela entreviu uma mscara diferente: plpebras cerradas, gravidade apaixonada, um semblante 
em que todo o cinismo morrera, toda a ironia se dissipara sob o imprio de um sentimento nico. No instante seguinte, ela sentiu que lhe pertencia. E ele ria de 
novo, ria de maneira selvagem, o que lhe desagradou. Naquele momento, ela sentia necessidade de ternura. Um novo amante sempre despertava nela, ao primeiro abrao, 
um reflexo de espanto e de-inedo, talvez" de repugnncia.
  Sua excitao desapareceu. Uma lassido pesada como chumbo a invadiu.
  Ela se deixou tomar inerte, mas ele no pareceu formalizar-se. Ela teve a impresso de que ele a usava como uma decada qualquer.
  A jovem queixou-se, rolando a cabea de um lado para o outro.
  - Largue-me... Largue-me!
  Mas Desgrez persistia, como se quisesse esgot-la completamente.
  Tudo se tornou negro. A tenso nervosa que a tinha sustido por vrios dias cedeu diante de uma fadiga esmagadora. Ela no aguentava mais. Estava no fim de suas 
foras, de suas lgrimas, de sua volpia...
  Ao despertar, ela estava estendida sobre o leito devastado, braos e pernas espalhados em volta de si como uma estrela-do-mar, na posio em que o sono a tinha 
vencido. As cortinas do leito estavam erguidas. Um crculo de sol rosado se projetava sobre os ladrilhos. Ela ouvia cantar a gua do Sena entre os arcos do Pont 
de Notre-Dame. Outro rudo, discreto, mais prximo, se misturava quele.
  Ela voltou a cabea e viu Desgrez escrevendo em sua mesa.
  Ele trazia a peruca e uma volta branca engomada. Parecia muito calmo e absorvido em seu trabalho. Ela olhava sem compreender. Suas recordaes conservavam-se indistintas. 
Seu corpo parecia-lhe de chumbo e a cabea, leve. Teve conscincia de sua postura impudica e juntou as pernas.
  Nesse momento, Desgrez levantou a cabea. Vendo que ela estava acordada, ps a pena no tinteiro e aproximou-se da cama.
  -        Como vai? Dormiu bem? - perguntou ele em tom corts e natural.
  Ela mirou-o com ar um tanto estpido. No estava muito certa quanto a ele. Onde o vira terrfico, brutal, lascivo? Em sonho, provavelmente.
  - Ser que eu dormi? - balbuciou ela. - Acredita que eu dormi? Por quanto tempo?
  - Faz bem trs horas que tenho diante dos olhos esse espetcu-lo encantador.
  - Trs horas! - repetiu Anglica, sobressaltando-se e puxando o lenol para se cobrir. - Mas  horrvel! E o encontro com o Sr. Colbert?
  -        Ainda lhe resta uma hora para se preparar.
Ele dirigiu-se ao aposento vizinho.
  -        Tenho um quarto de banho confortvel e todo o necessrio para a toalete das damas: rebiques, moscas, perfumes etc.
  Ele voltava, tendo no brao um chambre sedoso, que lhe atirou.
  -        Ponha isso e despache-se, minha bela.
  Um pouco aturdida e com a impresso de movimentar-se numa atmosfera penugenta, Anglica tratou de banhar-se e vestir-se. Suas roupas estavam cuidadosamente dobradas 
sobre uma mala. Diante de um espelho, havia tambm grande nmero de acessrios, um tanto surpreendentes naquele banheiro de celibatrio: potes de al-vaiade e vermelho, 
sombra para as plpebras, toda uma gama de frascos de perfume.
  A memria de Anglica retornava aos poucos, no sem dificuldade. Ela se lembrou da sonora bofetada que o policial lhe tinha aplicado. Oh! Era espantoso! Ele a 
tinha tratado como uma prostituta, sem nenhum respeito. E ele sabia que ela era a Marquesa dos Anjos. Que faria dela agora?...
  Anglica ouvia ranger a pena de ganso. Repentinamente, Desgrez se levantou e perguntou:
  -        Est atrapalhada? Posso servir-lhe de camareira?
  Sem esperar resposta, ele entrou e comeou a amarrar com destreza os cordes de sua saia.
  Anglica no sabia mais o que pensar.
  Ao recordar as carcias que l lhe havia imposto, sentiu-se constrangida. Mas na verdade Desgrez parecia pensar completamente em outra coisa. Ela acreditaria 
que estava sonhando, se o espelho no lhe houvesse mostrado um rosto de mulher sensual e saciada, com as plpebras enegrecidas pela fadiga do prazer, com os lbios 
intumescidos pela mordedura dos beijos. Que vergonha! At aos menos sagazes ofereciam seus traos as marcas da violenta fornicao a que Desgrez a arrastara.
  Maquinalmente, ela ps dois dedos sobre os lbios inchados e doloridos.
  Encontrou-se no espelho o seu olhar com o de Desgrez. Ele esboou um sorriso.
  -        Est dando na vista - disse ele. - Mas no tem importncia. Essas graves personagens que voc vai encontrar ficaro apenas mais subjugadas... e talvez 
vagamente invejosas.
  Sem responder, ela acabou de alisar seus cachos e colou uma mosca na face.
  O policial tinha posto o boldri e apanhava o chapu... Estava verdadeiramente elegante, se bem que seus trajes conservassem qualquer coisa de sombrio e de austero. 
-
  - Voc vem subindo os degraus da escala social, Desgrez - disse Anglica, esforando-se por imitar sua desenvoltura. - Agora usa espada, e a sua residncia  a 
de um prspero burgus.
  - Eu recebo muitas visitas. A sociedade evolve estranhamente. Ser culpa minha, se as pistas que farejo me conduzem sempre um pouco mais para cima? Sorbonne est 
ficando velho. Quando ele morrer, no o substituirei, pois no  mais nas espeluncas que devo ir procurar os piores assassinos do nosso tempo.  em outros lugares.
  Pareceu refletir e acrescentou, abanando a cabea:
  - Nos sales, por exemplo... Est pronta, senhora? Anglica tomou seu leque e fez sinal que sim.
  - Devo entregar-lhe o seu envelope?
  - Que envelope?
  - Aquele que me confiou ao chegar aqui.
  Anglica franziu as sobrancelhas, procurando recordar-se. De sbito, sentiu um leve rubor subir-lhe  face. Tratava-se da sobrecarta que continha seu testamento 
e que ela entregara a Desgrez com a inteno de ir matar-se em seguida.
  Matar-se? Que ideia extravagante! Por que desejava matar-se? Essa no era decididamente a ocasio. Agora que, pela primeira vez, em anos, ela estava a ponto de 
ver o remate feliz de todas as suas tentativas, agora que tinha o rei da Frana praticamente  sua merc!...
  -        Sim, sim - disse ela precipitadamente. - Entregue-me o envelope.
  Ele abriu o cofre e estendeu-lhe o sobrescrito lacrado. Mas reteve-o no momento em que Anglica ia segur-lo, e ela levantou para ele uns olhos interrogativos. 
Desgrez tinha de novo no olhar aquele reflexo vermelho que parecia penetrar como um raio at as profundezas da alma.
  -        Voc queria morrer, no  assim?
  Anglica o encarou, como uma criana apanhada em falta. Depois, com um movimento de cabea, respondeu afirmativamente,
  - E agora?
  - Agora?... No sei mais. Em todo caso, no deixarei de tirar um bom proveito da tibieza dessa gente. A ocasio  nica, e estou persuadida de que, se chegar a 
lanar o chocolate, poderei refazer minha fortuna.
  - Excelente.
  Ele retomou-lhe o envelope e, dirigindo-se para a lareira, lanou-o ao fogo. Quando a ltima folha se consumiu, ele voltou-se para ela, sempre calmo e sorridente.
  - Desgrez - murmurou a jovem -, como adivinhou?...
  - Oh! Minha querida - exclamou ele rindo -, acredita que eu seja to simplrio que no ache suspeita uma mulher que chega a minha casa com ar espantado, sem p 
nem pintura, e que me conta que tem um encontro para ir passear na galeria do Palais?... Alm disso...
  Pareceu hesitar.
  -        Eu a conheo muito bem - continuou ele. - Vi logo que alguma coisa no corria bem, que a situao era grave, e que era preciso agir com rapidez e vigorosamente. 
Em considerao a minhas intenes amigveis, voc me perdoar o ter-lhe brutalizado, no  mesmo?
  -        Ainda no sei - disse ela, com algum ressentimento. - Vou pensar.
  Mas Desgrez ps-se a rir, envolvendo-a num olhar clido. Ela se sentiu humilhada. Mas, ao mesmo tempo, dizia para si mesma que no tinha melhor amigo no mundo. 
Ele acrescentou:
  -        Quanto  informao que me deu... com tanta boa vontade, no se preocupe com as suas consequncias. Ela me  preciosa, mas no era seno um pretexto;- 
Conservo-a. No entanto, j esqueci quem me forneceu. Um conselho, ainda, minha cara, se o permite a um modesto policial: olhe sempre para diante. No se volte jamais 
para o seu passado. Evite remexer-lhe as cinzas... Essas cinzas que foram dispersadas ao vento. Cada vez que pensar nelas, ter vontade de morrer. E eu nem sempre 
estarei perto para acord-la a tempo...
  Mascarada e, por maior precauo, com os olhos vendados, Anglica foi conduzida, em um coche de cortinas baixadas, at uma pequena casa do subrbio de Vaugirard. 
S lhe tiraram a venda em um salo iluminado por algumas tochas, no qual se achavam reunidas quatro ou cinco personagens de peruca, muito afetadas, e que pareciam 
contrariadas de v-la.
  Se no fosse a presena de Desgrez, Anglica teria receado haver cado numa armadilha, da qual no sairia com vida.
  Mas as intenes do Sr. Colbert, um burgus de fisionomia fria e severa, eram leais. Ningum melhor que aquele plebeu, que desaprovava a licenciosidade e os excessivos 
gastos das pessoas da corte, para apreciar os fundamentos da petio que Anglica endereava ao rei. O prprio soberano o havia compreendido - um pouco constrangido 
e forado, devia-se reconhecer, pelo escndalo dos panfletos do Poeta Pobre.
  Anglica percebeu logo que, se discutissem, seria meramente por uma questo, de forma. Sua posio pessoal era excelente.
  Quando ela deixou, duas horas mais tarde, a douta assembleia, levava a promessa de que um donativo de cinquenta mil libras lhe seria entregue, do Bolsinho do prprio 
rei, para a reconstruo da Taberna da Mscara Vermelha. A patente de chocolataria concedida ao pai do jovem Chaillou seria confirmada. Anglica figuraria nominativamente 
dessa vez. E ficou especificado que ela no dependeria de qualquer corporao.
  Toda sorte de facilidades para a obteno das matrias-primas lhe eram concedidas. Enfim, a ttulo de reparao, ela pediu, para si prpria, uma aao da recm-fundada 
Companhia das ndias Orientais.
  Esta ltima clusula surpreendeu seus interlocutores. Mas aqueles senhores das finanas viram que a jovem conhecia perfeitamente os negcios. Ela f-los notar 
que, concernindo ao seu comrcio particularmente os produtos exticos, a Companhia das ndias Orientais s poderia sentir-se satisfeita de possuir uma cliente que 
tinha todo o interesse em que a citada companhia prosperasse e fosse mantida pelas maiores fortunas do reino.
  O Sr. Colbert reconheceu, resmungando, que as reivindicaes daquela moa eram evidentemente importantes, mas pertinentes e fundadas. Ela conseguiu tudo o que 
desejava. Em troca, os esbirros do Sr. d'Aubrays, tenente de polcia, deviam dirigir-se a um casebre em campina rasa, para ali encontrar uma caixa anonimamente depositada 
e cheia de libelos onde se exibiam em tinta espessa os nomes do Marqus de La Valliere, do Cavaleiro de Lorena e de Monsieur, irmo do rei.
  No mesmo coche de janelas cerradas que a conduzia a Paris, Anglica procurava conter sua alegria. No lhe parecia decente aquela felicidade, sobretudo quando pensava 
nos horrores de que havia surgido o seu triunfo. Mas, enfim, se tudo se desenrolasse como previsto, seria o diabo se ela no chegasse um dia a ser uma das mulheres 
mais ricas de Paris. E, com dinheiro, at onde no podia ela subir? Iria a Versalhes, seria apresentada ao rei, recuperaria sua posio e seus filhos seriam educados 
como jovens nobres.
  Para o regresso, no lhe tinham vendado os olhos, pois era noite fechada. Ela estava sozinha na carruagem, mas, entregue a seus clculos e a seus sonhos, o trajeto 
pareceu-lhe curto. Ouvia em torno de si o tropel dos cascos dos cavalos de uma pequena escolta.
  De sbito, a viatura parou e uma das cortinas foi erguida do exterior. A luz de uma lanterna, ela viu o rosto de Desgrez inclinar-se para a portinhola. Ele estava 
a cavalo.
  - Deixo-lhe aqui, senhora. A carruagem a reconduzir. Dentro de dois dias, penso que a verei para entregar-lhe o que lhe  devido. Est tudo bem?
  - Penso que sim. Oh! Desgrez,  maravilhoso! Se eu chegar a instalar essa chocolataria, minha fortuna est feita.
  - Voc o conseguir. Viva o chocolate! - disse Desgrez.
  Ele tirou o chapu e, inclinando-se, beijou-lhe a mo, talvez um oouco mais demoradamente do que a cortesia lhe autorizava.
  - Adeus, Marquesa dos Anjos! Ela teve um pequeno sorriso.
  - Adeus, tira!
  
  AQUELAS DAMAS DO MARAIS
  
  CAPTULO X
  
  O charcuteiro da Place de Greve faz estranhas revelaes sobre a morte de Joffrey de Peyrac
          
  O charcuteiro da Place de Greve tomava ar diante de seu estabelecimento. Era um dos primeiros dias de primavera. O cu mostrava-se radioso. No havia ningum enforcado 
no patbulo nem aprestos de execuo, e, do outro lado do Sena, as torres quadradas de Notre-Dame projetavam-se contra um cu azul-claro, no meio de uma grande revoada 
de pombos e de gralhas.
  No havia muita gente na praa naquela manh. Percebia-se logo que a Quaresma no estava longe. As pessoas comeavam a caminhar menos depressa e a mostrar:se mal-humoradas, 
como se fosse uma catstrofe o dever sacrificar-se uma vez ao ano por Nosso Senhor. Decerto, mestre Lucas, o charcuteiro, seria obrigado a fechar a loja. Perderia 
dinheiro, e sua esposa grunhiria como uma porca molestada. Mas, enfim, penitncia  penitncia! Que cristos eram aqueles que queriam fazer penitncia sem sofrer? 
Mestre Lucas, no seu ntimo, agradecia  Santa Igreja ter institudo a Quaresma, que lhe permitia associar sua gastralgia s dores do Cristo crucificado.
  Entrementes, uma belssima carruagem surgiu na praa e parou no longe da charcutaria. Uma mulher apeou, uma mulher muito bonita, penteada  nova moda das damas 
do Marais: cabelos curtos, em pequenos anis cerrados, com dois cachos mais compridos descendo ao longo do pescoo, para-pousar graciosamente sobre o peito. Mestre 
Lucas via nisso ainda um sinal da loucura dos tempos: as mulheres cortarem seus cabelos, esse gracioso ornamento que Deus lhes deu. Seria bonito ver a Sra. Lucas 
ou mesmo sua filha Joaninha cortarem os cabelos para imitar as grandes damas!
  Mesmo durante a tremenda fome de 1658, quando o dinheiro faltava em casa, mestre Lucas se opusera a que sua mulher vendesse sua cabeleira queles malditos cabeleireiros, 
sempre vidos de satisfazer os gentis-homens. Assim ia o mundo: cortavam os cabelos das mulheres para p-los na cabea dos homens!
  A dama olhava as tabuletas e parecia procurar alguma coisa.
  Quando se aproximava da Charcutaria Santo Antnio, mestre Lucas a reconheceu. Um dia, haviam-na apontado no Quartier des Halles, onde ela possua dois entrepostos 
de mercadoria. No era uma dama de qualidade, como seu andar e a beleza de seus trajes poderiam fazer crer, mas uma das mais ricas comerciantes de Paris, uma certa 
Sra. Morens. Por ter tido a engenhosa ideia de lanar a moda do chocolate, ela fizera fortuna. No somente ela dirigia a Chocolataria An Espanhola, no Faubourg 
Saint-Honor, mas era ainda proprietria de vrios restaurantes e tabernas afamados. Tambm dirigia algumas empresas mais modestas, mas prsperas, tais como a dos 
"coches de cindo soldos" e vrias lojas da feira de Saint-Germain, bem como o monoplio da venda de pssaros das ilhas no Quai de la Mgisserie. Quatro dos comerciantes 
que acompanhavam a corte nos seus deslocamentos pagavam-lhe patente.
  Diziam-na viva, sada do nada, mas to hbil nos negcios que as maiores personagens das finanas, e at o Sr. Colbert, gostavam de palestrar com ela.
  Lembrando-se de tudo isso, mestre Lucas, quando a dama o abeirou, tirou o gorro e inclinou-se tanto quanto lhe permitia seu pequeno ventre rolio.
  - E aqui que mora mestre Lucas, dono da Charcutaria Santo Antnio? - perguntou ela.
  - Sou eu mesmo, senhora, para lhe servir. Se quer dar-se ao trabalho de entrar em minha humilde casa...
  Ele a precedeu, esperando uma encomenda importante.
  - Tenho chourios, salames mais belos que a gata, mais saborosos que o nctar. Tenho tambm aqui este presunto vermelho que...
  - Eu sei... eu sei que tudo o que o senhor fabrica  excelente, mestre Lucas - interrompeu ela gentilmente. - E vou enviar-lhe esta tarde um rapaz para fazer minha 
encomenda. Mas, se vim eu mesma esta manh, foi por outro motivo... Tenho uma dvida para com o senhor, mestre Lucas, h muitos anos, e ainda no a liquidei.
  -  Uma dvida? - repetiu, surpreso, o charcuteiro.
  Ele olhou atentamente os belos olhos de sua interlocutora, depois abanou a cabea, convicto de nunca ter ao menos dirigido a palavra a to bela criatura.
  Ela sorriu.
  - Sim. Eu lhe devo o preo da visita de um mdico e de um boticrio, que o senhor fez vir para tratarem de uma pobre moa que caiu doente  sua porta... h cerca 
de cinco anos.
  - Isso no me esclarece quem a senhora  - disse ele em tom afvel. - Pois tem-me acontecido mais de uma vez cuidar de pessoas que caem doentes  minha porta. 
Com tudo o que se passa na Place de Greve, eu teria feito melhor se me tornasse um frade hospitaleiro do que abrindo um negcio de charcutaria. A Greve no  um 
lugar para as pessoas que querem viver tranquilas. Conte como a coisa se passou, para que eu me lembre.
  - Era uma manh de inverno - disse Anglica com voz que se alterou contra sua svontade. - Queimavam um feiticeiro. Eu quis assistir  execuo e vim, mas fiz mal, 
pois me achava grvida e quase na minha hora. O fogo me assustou. Desfaleci e despertei em sua casa. O senhor tinha feito vir um mdico.
  - Sim! Sim! Agora me recordo - murmurou ele.
  O sorriso jovial tinha-se apagado de seu rosto. Ele olhava Anglica com expresso perplexa, na qual havia piedade e tambm um pouco de receio.
  -        Ento  a senhora - disse ele docemente. - Pobre mulher!
Anglica sentiu o rubor assomar-lhe s faces. Aquela visita, ela o sabia, trar-lhe-ia dolorosas recordaes. Tinha feito o propsito de no olhar para trs e dizer 
consigo mesma, sem cessar, que ela era a Sra. Morens, dona de uma slida fortuna e de uma reputao quase sem mancha.
  Mas a exclamao do bom homem libertou sua emoo e ela se reviu perdida na multido, sacudida, esmagada de todos os lados, to lamentvel com seus olhos esgazeados, 
seu pobre corpo deformado.
  Endireitou-se, alisou a saia de faile azul, as rendas tufadas sobre os punhos guarnecidos de jias. Disse, esforando-se por sorrir:
  -        E verdade. Eu era quela poca uma pobre mulher e o senhor foi caridoso para comigo, mestre Lucas. Mas a vida, desde ento, se me tem mostrado mais clemente, 
e eu posso hoje agradecer-lhe.
  Dizendo isso, ela tirou de sua esmoleira uma pesada bolsa de couro que havia preparado e pousou-a sobre o balco.
  O charcuteiro pareceu no lhe prestar ateno ao gesto. Continuou a mirar a visitante com ar atento e desconfiado.
  -        Elisa, venha c! - disse ele por cima do ombro. 
  A charcuteira aproximou-se e mergulhou nas suas numerosas saias deferrandine com sutaches de veludo. Ela ouvira a conversa.
  - De fato, a senhora mudou! - disse ela. - Mas eu a teria reconhecido somente por seus olhos. Meu esposo e eu trocvamos frequentes censuras por a termos deixado 
partir naquele estado, e muitas vezes desejamos reencontr-l.
  - Tanto mais...
  - ...que ns achvamos, depois, que deveramos contar-lhe...
  - ...o que se passara antes...
  - ...desde que fosse de sua famlia...
  Eles falavam com embarao, interrogando-se mutuamente com o olhar e respondendo um ao outro como em uma litania.
  - De que famlia? - perguntou Anglica admirada.
  - Da famlia do feiticeiro.
  A jovem sacudiu a cabea, esforando-se por simular indiferena.
  - No, eu no era de sua famlia.
  - Isso acontece. H mulheres que vm assistir  execuo e desmaiam diante da minha porta! Mas, nesse caso... se no  de sua. famlia...
  - Que me diriam se eu fosse de sua famlia?
  - O que se passou na Taberna da Vinha Azul, aqui ao lado, quando a carroa parou e desceram o feiticeiro para faz-lo beber um gole antes de subir para a fogueira.
  - E que se passou?
  O homem e a mulher entreolharam-se.
  -        Oh! A senhora sabe - disse mestre Lucas -, no so coisas que se contem a qualquer pessoa... Quer dizer, a pessoas a quem isso no diz respeito. Somente 
a um membro de sua famlia isso poderia interessar... Mas, como no o conhecia...
  Os olhos de Anglica iam de uma  outra das duas caras rubicundas. Ela no viu seno bondade, amabilidade ingnua.
  -        Sim, eu o conhecia - murmurou ela com voz sufocada. - Era... meu marido!
  O charcuteiro sacudiu a cabea.
  - Bem que eu desconfiava. Ento, escute.
  - Espere... - disse sua mulher.
  Foi at a porta, fechou-a cuidadosamente e colocou os dois tapadores de madeira diante do mostrurio onde se exibiam as vitualhas expostas aos olhos dos transeuntes.
  Na penumbra impregnada do apetitoso cheiro das salsichas, do toucinho salgado, do presunto, Anglica, o corao aos saltos, perguntava a si mesma que revelao 
iria ouvir. Sua visita ao charcu-teiro no tinha segunda inteno. Ela muitas vezes se reprovara no ter ainda reembolsado as boas criaturas que a tinham socorrido. 
Mas protelava sempre esse instante. Que podiam dizer-lhe que ela ainda no soubesse? O carrasco no tinha acendido a fogueira?... O corpo de Joffrey de Peyrac no 
tinha sido consumido e suas cinzas dispersadas ao vento...
  - Foi mestre Gilberto, o taberneiro, que nos contou a coisa - explicou o charcuteiro. - Ele falou numa noite em que bebera e seu segredo lhe pesava. Depois, fez-nos 
jurar que nada repetiramos, pois, com semelhantes histrias, a gente se arrisca a encontrar-se uma bela noite com uma adaga na garganta. Ele disse que na vspera 
da execuo alguns homens mascarados o procuraram e lhe ofereceram um saco cheio de escudos. Que desejavam eles em troca? Que mestre Gilberto lhes deixasse sua taberna 
por toda a manh do dia seguinte. Evidentemente, em uma manh de execuo, uma taberna na Place de Greve obtm boa fria. Mas o que havia no saco ultrapassava muito 
o que ele poderia ganhar. Ento ele respondeu: "Va l! Esto em sua casa!" No dia seguinte, quando os mascarados vokaram, Gilberto fechou a porta da rua e retirou-se 
para o seu quarto com a famlia e as criadas. De vez em quando, para distrair-se, eles espiavam por um furo do tabique, para ver o que faziam os sujeitos mascarados. 
No faziam nada. Estavam sentados em volta das mesas e pareciam esperar. Alguns tinham tirado a mscara, mas Gilberto no os conhecia.  preciso dizer-lhe que ele 
suspeitava um pouco do motivo pelo qual lhe haviam pedido a loja. Debaixo dela existem grandes pores, que so velhas fundaes romanas, e h mesmo um subterrneo 
meio derrudo que comunica com as margens do Sena. Aqui entre ns: Gilberto utiliza s vezes esse subterrneo para trazer algum tonel sem pagar direitos aos senhores 
do Hotel de Ville. Assim sendo, ele no se admirou quando viu os indivduos levantarem-se e puxarem o tampo de seu prprio poro: Fpi.no momento em que a multido 
comeava a gritar porque a carroa do condenado chegava  esquina da Rue de la Coutellerie e da praa. Todo mundo correu para as janelas, menos meu amigo Gilberto, 
que conservava o olho no tabique, porque lhe interessava saber o que se passava em sua taberna. Ele viu outros homens sarem do poro. Traziam um objeto bastante 
comprido, envolto num saco... Ele no pde ver o que havia no saco, mas fez esta reflexo: "Isso me parece um afogado". L fora, o clamor se fazia cada vez mais 
intenso. A carroa estava bem defronte da Vinha Azul e o tumulto era to grande que a impedia de avanar. Mestre Aubin gritava e seus auxiliares davam chicotadas, 
tudo em vo. Esperando que a turba se acalmasse um pouco, mestre Aubin decidiu-se a entrar na Vinha Azul para procurar fortalecer o condenado com um pouco de aguardente. 
Frequentemente ele faz isso. Ele prprio bebe um gole, bem como os seus ajudantes. Deve-se reconhecer que o ofcio de carrasco exige um pouco de estimulante, no 
acha? Quando a porta se abriu, Gilberto viu muito bem o condenado que eles traziam. Tinha a camisa branca manchada de sangue e os cabelos negros to longos que desciam 
at o cho... Perdoe-me, senhora, eu a molesto. Elisa, v buscar uma garrafa com copos.
  - No, eu lhe peo, continue - suplicou Anglica, arquejante.
  - E que... no h mais grande coisa a dizer, para falar a verdade. O prprio Gilberto o confessa. Ele nada viu. A loja estava escura. Ele ouviu mestre Aubin gritar 
porque no havia ningum para servir-lhe bebida. Os archeiros, l fora, guardavam a porta. Haviam posto o condenado sobre uma mesa.
  - E que faziam os outros, os homens mascarados?
  - Eles estavam em p, sentados, como ab-lo? Estava escuro. Gilberto disse: "Eu nada vi". Mas ele no pde deixar de pensar que o saco que os outros depois levaram 
no tinha o mesmo contedo que ao entrar e que... foi o afogado sado do subterrneo que queimaram naquele dia na Place de Greve!
  Anglica passou a mo pela fronte. A histria parecia-lhe insensata, e ela perguntava a si mesma por que a contava o charcuteiro. Ela apreendia mal a significao 
oculta daquele relato. A luz pouco a pouco passou atravs do seu estupor. Joffrey talvez no estivesse morto!
  Mas seria possvel? Ela o vira arder, grande forma negra amarrada ao poste. Ela ficara sozinha, presa de todos... Jamais uma claridade se produzira na sua noite, 
uma palavra, uma mensagem, um sinal amigo... Joffrey vivo! E tinha ela esperado mais de cinco anos para que uma aluso quele milagre lhe fosse feita... por um charcuteiro 
que, segundo sua prpria confisso, nada vira, no fazia seno repetir as palavras de um brio. Que loucura!
  Joffrey vivo!... Ela poderia rev-lo, toc-lo... Rever sua fisionomia misteriosa, fascinante, nica, seu rosto horrvel e to belo! Onde estava ele? Por que ainda 
no tinha voltado? Ah! se ele ainda no tinha voltado, era porque estava morto! Sim, morto! No havia esperana.
  -        Acalme-se - disse a charcuteira. - No trema assim. Tudo isso no passa de uma suposio. Beba um pouco de vinho.
  O vinho, muito forte, fez-lhe bem. Ela respirou profundamente duas ou trs vezes e tranqilzou-se. Mas estava enfraquecida como depois de uma doena curta e violenta.
  Tristemente, ela abanou a cabea.
  -        O que vocs me contam  verdadeiramente estranho. Mas como interpret-lo? Se tivesse havido substituio, mestre Aubin certamente o perceberia quando 
cobriu o condenado com o capuz negro, antes de amarr-lo  fogueira. Seria preciso admitir que mestre Aubin foi pago em troca de sua cumplicidade e que...
  Ela estremeceu.
  -        Se tivessem visto o carrasco ao menos uma vez, como eu vi, compreenderiam que isso  impossvel.
  Os honestos donos da charcutaria tiveram um gesto de impotncia.
  - Nada mais sabemos, minha senhora! Pensvamos que isso lhe interessaria. Muitas vezes dizamos um ao outro: "Por que no voltou a pobre moa? Talvez nossa histria 
pudesse dar-lhe um pouco de esperana!"
  - Cinco anos! - murmurou Anglica. - E nada durante todo esse tempo! Se ele contou com amigos devotados... quais?... para arranc-lo assim s mos do verdugo, 
amigos bastante ricos para pagar a fortuna necessria a dobrar mestre Aubin, por que ningum me avisou? No, tudo isso no passa de loucura!
  Ao levantar-se, suas pernas tremiam. Lanou um olhar inquieto aos seus interlocutores.
  - Por que me contaram isso? Vo trair-me?
  - No! Por quem nos toma, minha amiga?
  - Ento, por qu? Querem mais dinheiro?
  - A senhora perdeu o juzo! - disse o pequeno charcuteiro, empertigando-se com sbita dignidade. - Gosto de prestar servio ao meu prximo, eis tudo. E, quanto 
mais eu pensava nessa histria, mais estava certo de que ela significava alguma coisa e que era  senhora que devia ser contada.
  Ele ergueu os olhos devotamente para a esttua da Virgem.
  -        Eu oro sempre a Nossa Senhora para que ela me inspire atos de verdadeira caridade, dessa caridade que  til e benfazeja, e no daquela de que muitos 
se vangloriam e que humilha aquele que a recebe.
  - Se o senhor  to bom cristo, deveria ter-se regozijado com a morte de um feiticeiro.
  - Eu no me regozijo com morte alguma - murmurou o char-cuteiro, cujos olhos azuis, enterrados nas pregas de gordura, brilharam com uma luz pura. - Todo homem, 
diante da morte, no  mais que uma alma em perigo. Nenhum condenado passou por esta praa sem que eu pedisse a Nossa Senhora que o salvasse a fim de que ele tivesse 
tempo de se redimir, ou de melhor viver, tendo medido sua fraqueza diante do abismo da eternidade. E isso s vezes acontece: um mensageiro do rei traz a graa, ou 
ento... como ocorreu no h muito tempo, estala um conflito durante o qual trs condenados podem evadir-se.  com essas coisas que eu me regozijo...
  A esposa de mestre Lucas tinha ido reabrir a porta. O sol que de novo entrava no mostrou no semblante do charcuteiro seno sentimentos sinceros. Anglica, cuja 
experincia a tinha tornado assaz clarividente, no descobriu naquele comerciante nenhum sinal de hipocrisia.
  - Por que o senhor  to bom? - disse ela, admirada. - As pessoas de suas corporaes so insensveis. Elas no prestam servios sem esperar recompensa.
  - Por que no haveria de ser bom? - respondeu o charcuteiro com a alegria de um filho de Deus. - A vida  to curta e eu no tenho muita vontade de perder meu 
paraso por qualquer maro-teira ou dureza que me tornassem apenas mais rico e mais poderoso que os outros.
  Ao deix-los, Anglica dispensou sua viatura e decidiu voltar a p  Place Royale.
  Ela sentia-se dbil, mas tinha necessidade de caminhar para pr alguma ordem nas ideias.
  Seguiu o Sena por um cais que acabava de ser construdo e que orlava o Convento dos Clestins.
  As parreiras do belo pomar monstico comeavam a e.nfeitar-se de folhas e gavinhas de um verde tenro. O pblico podia passear no recinto. No se fechavam as portas, 
seno na poca em que as uvas maduras podiam tentar os visitantes, e eram reabertas depois das vindimas.
  Anglica entrou no pomar e foi sentar-se embaixo de uma das latadas. Ela ia frequentemente quele lugar com amigas e homens galantes que lhe recitavam versos, 
ou mais simplesmente no domingo, como me de famlia, com Florimond e Cantor.
  Naquela manh, o recinto ainda estava meio deserto. Alguns frades, de burel pardo, cingidos por ayental de pano grosso, revolviam a terra dos canteiros ou enxertavam 
as vinhas. Do convento chegava um sussurro de preces, cantos salmodiados, e um sino tocava sem cessar.
  Era daquela mistura de vozes, de cnticos, de crios acesos, de incenso, daquele acmulo de ritos, de observncias, de dogmas, que surgia, s vezes, no correr 
dos tempos, uma flor da santidade real, perfeita, como o Sr. Vicente, como o charcuteiro da Place de Greve.
  Santidade cotidiana, impregnada de moderao e benevolncia, que apagava sculos de torpezas, de mesquinharias, de intolerncia religiosa.
  "Por causa desses seres excepcionais", pensou Anglica, "pode-se perdoar."        
  
  CAPTULO XI
  
  Habilidade comercial de Anglica
  
  Sentada naquele local, Anglica recordava sua visita ao charcu-teiro. Seu esprito continuava a voltear em torno da bendita pessoa de mestre Lucas, na esperana 
de colher a certeza ou a dvida.
  O relato assumia, segundo o juzo que ela fazia do charcuteiro, aspectos diferentes. Alternadamente, ela queria ver nele o fruto de uma imaginao mista, uma manobra 
interessada para extrair-lhe dinheiro, ou simplesmente as confidncias de um tagarela sempre feliz de mostrar que  mais bem informado que os outros.
  Ao cabo de tantos anos, que podiam significar as aes e os gestos de alguns indivduos mascarados em uma manh de execuo? Supondo-se que a memria confusa de 
um brio, tal como o mestre da Vinha Azul, no houvesse confundido dois acontecimentos em um s, quem poderia ter-se preocupado em fazer escapar Joffrey de Peyrac?
  Anglica sabia melhor que ningum em que abandono eles se tinham encontrado, seu marido e ela, aps carem em desgraa.
  A poca, Andijos no passava de um desertor. Decerto, mais tarde, ela ouvira dizer que ele tinha sublevado o Languedoc contra o rei. Uma luta surda, feita de hostilidade 
e de guerrilhas, se havia declarado; recusa de pagar impostos, escaramuas com as tropas reais. Finalmente, o prprio rei tivera de ir ao Languedoc, para pr fim 
quela tenso perigosa. Andijos fora capturado. Tudo aquilo Anglica ouvira dos bate-papos de pessoas da corte ao saborearem seu chocolate na An Espanhola.
  Tudo aquilo havia talvez vingado Joffrey de Peyrac, mas no o havia salvado.
  E mestre Aubin? Como aceitar a simples ideia de sua cumplicidade? Aquele perfeito funcionrio do reino j recusara fortunas, diziam.
  E por que, em cinco anos, no recebera Anglica o menor eco daquela estranha conspirao?
  A medida que as horas passavam, p raciocnio sem falha da Sra. ]Vtorens destrua a louca esperana da pequena Anglica. Ai! Ela no era mais uma jovem sonhadora. 
A vida se encarregara de convenc-la da sua solido sem recurso. Quer seu marido houvesse morrido na fogueira, quer mais tarde, em um refgio ignorado, ele no ressuscitaria! 
Jamais ela o veria de novo.
  Apertou as mos uma contra a outra, num gesto que se lhe tinha tornado habitual quando queria dominar emoes muito vivas. Seu semblante de mulher jovem tinha, 
por vezes, uma expresso distante e suave, que espelhava a sua resignao. Mas poucas pessoas lhe conheciam aquela fisionomia, pois as necessidades de seu comrcio 
a faziam risonha e amvel, e mesmo um pouquinho ruidosa. Ela se conformava de bom grado com esse papel. Estava na sua natureza o mostar-se animada.
  Alm disso, aquilo a atordoava. Ela no tinha mais tempo de pensar. Assim, no correr do ano, ela no hesitara em lanar-se a iniciativas arriscadas, que faziam 
gemer Audiger e que tinham todas, ou quase todas, alcanado bom xito.
  Agora Anglica era rica. Possua um coche e morava na Place Royale. J no era ela quem, na chocolataria, vertia a cheirosa bebida nas xcaras das belas coquetes, 
mas um exrcito de negrinhos enfitados, que ela fizera vir de Sete e que havia treinado para esse fim.
  Ela s se ocupava das contas e das faturas. Sua existncia era a de uma burguesa abastada.
  Anglica levantou-se e reencetou a caminhada ao longo do Quai des Clestins. Para no refletir muito sobre a confidncia de mestre Lucas, ps-se a evocar as diversas 
etapas percorridas desde a noite em que havia comparecido diante do Sr. Colbert.
  Houvera, de incio, a inaugurao da chocolataria, tornada em pouco tempo um dos lugares da moda em Paris. Na tabuleta lia-se "An Espanhola", A rainha comparecera, 
encantada de no mais ser a nica a beber chocolate. Sua Majestade viera acompanhada pela an e seu ano, o grave Barcarola.
  Desde ento, a chocolataria no cessara de prosperar. Anglica reconhecia que uma sociedade com um homem enamorado como aquele honesto Audiger apresentava srias 
vantagens. Muito fraco para resistir-lhe e, por outro lado, persuadido de que ela um dia seria sua mulher, ele deixava-a inteiramente livre para fazer o que quisesse.
  Escrupulosa na obedincia s clusulas do contrato, Anglica no procurava menos, antes de tudo, fazer frutificar sua parte. Assim  que tomara inteiramente a 
seu cargo a instalao de filiais em vrias cidadezinhas dos arredores de Paris: Saint-Germain, Fon-tainebleau e Versalhes, e at em Lyon e Nantes.
  Escolhia muito bem aqueles que colocava  testa de suas novas empresas. Concendia-lhes grandes vantagens, mas exigia uma contabilidade honesta e estipulava no 
contrato que o estabelecimento devia, nos seis primeiros meses, fazer progressos contnuos, sob pena de demisso. Esporeado por tal ameaa, o gerente desenvolvia 
uma atividade febril para convencer os provincianos de que era sua obrigao beber chocolate.
  Anglica, ao contrrio de muitos comerciantes e financistas da poca, no entesourava o dinheiro.
  Investiu o que possua em outros pequenos negcios, tais como o das carruagens pblicas de Paris, que partiam do Hotel Saint-Fiacre, apanhando em seu percurso 
obreiros, criados, pajens, vendedoras, soldados de muletas e escreventes apressados, e os levavam aonde eles queriam, por apenas cinco soldos.
  Associara-se, igualmente, com seu antigo cabeleireiro de Toulouse, Francisco Binet.
  Anglica havia reencontrado Francisco Binet um dia em que, diante de seu espelho, ela mais uma vez se entristecia pensando em seus longos cabelos, outrora sacrificados 
pelos guardas do Chtelet.
  Seus "novos" cabelos no eram feios. Eram at mais dourados e mais ondulados que os antigos, mas permaneciam desesperadamente curtos. Agora que ela se tornara 
de novo uma dama e no podia dissimul-los sob uma touca, sentia um certo constrangimento. Precisava de cabeleira postia. Mas encontraria ela facilmente aquele 
tom de our-castanho, to raro, que era o dos seus cabelos? Recordou-se do que dissera o guarda que os havia cortado: "Vou vend-los ao Sieur Binet, na Rue Saint-Honor".
  Seria o Binet de Toulouse?... Quem quer que fosse, havia pouca probabilidade de que o cabeleireiro ainda tivesse, em sua loja, a cabeleira de Anglica. Mas a curiosidade 
de rever aquele familiar dos tempos felizes no mais a abandonou. Foi logo procur-lo.
  Era mesmo Francisco Binet, discreto, obsequioso, tagarela. Com ele, estaria tranquila. Ele falaria de tudo, mas no faria nenhuma aluso ao passado.
  Havia desposado uma mulher que tinha muita habilidade para pentear as damas e se chamava La Martin. Os dois atraam uma clientela j bastante seleta.
  Anglica podia apresentar-se sem falsa vergonha diante do antigo barbeiro de seu marido.
  A Sra. Morens, chocolateira, era personalidade muitssimo conhecida em Paris. No entanto, todo entregue a pente-la, Binet continuava a cham-la a meia voz "senhora 
condessa", e ela no sabia se isso lhe agradava ou lhe dava vontade de chorar.
  Binet e sua mulher compuseram para Anglica um penteado audacioso. Cortaram muito curto os seus cabelos, descobrindo-lhe as orelhas arrebatadoras e, com o que 
tiraram, formaram dois ou trs cachos postios que caam graciosamente ao longo do pescoo e das espduas e davam uma falsa aparncia de compridos.
  No dia seguinte, quando Anglica passeava no Mail com Audiger, duas damas a abeiraram e perguntaram-lhe quem a tinha penteado de maneira to apropriada.
  Ela mandou-as a Binet. Isso deu-lhe a ideia de associar-se com o cabeleireiro e sua mulher. Enviar-lhes-ia as grandes damas de sua prpria clientela e ganharia 
uma porcentagem sobre o montante dos negcios do casal. Tambm lhes emprestou dinheiro para que eles mandassem viaturas  provncia, carregadas de aprendizes cabeleireiros, 
que deviam comprar as cabeleiras das belas camponesas. Paris j no chegava para o enorme consumo de cabelos destinados  fabricao de perucas.
  Enfim, Anglica concluiu um negcio mais importante que todos os outros. Comprou "partes de barco" a um comerciante de Honfleur chamado Joo Castevast, com o qual 
j tinha relaes para seu abastecimento de cacau.
  Mestre Castevast fazia um trfico bastante complicado, que ia do fretamento de pesqueiros para os bancos da Terra Nova  venda do bacalhau em Paris; das compras 
macias de sal nas costas do Poitou e da Bretanha ao armamento de navios que traziam da Amrica produtos exticos. Aparelhava tambm corsrios.
  Seus negcios prosperavam. Ele emprestava dinheiro a juros altos e prazo curto aos marujos de suas prprias embarcaes; ressegurava a quatro por cento crditos 
duvidosos que os estrangeiros julgavam pouco seguros, mas que ele considerava bons; resgatava escravos cristos, trocando por eles mouros capturados por seus barcos, 
isso por intermdio de religiosos da Trindade, que tinham um convento em Lisieux.
  Esta ltima atividade permitia a mestre Castevast passar por benfeitor da humanidade, sempre pedindo "adiantamentos" s famlias dos prisioneiros e aceitando a 
expresso substancial do seu reconhecimento.
  Os negcios do mercador Castevast eram habitualmente muito prsperos, mas ele assumia grandes riscos e, ultimamente, havia-se encontrado de sbito  beira da falncia. 
Um de seus barcos tinha sido capturado pelos berberes; outro desaparecera em seguida a uma revolta da equipagem, e o aumento do imposto sobre o sal tinha-lhe feito 
perder todo um carregamento de bacalhau.
  Anglica fingiu que corria em socorro do pequeno mercador matreiro, cuja ousadia e habilidade ela \ apreciara.
  Ajudou-o de incio emprestando-lhe dinheiro. Depois, por meio de suas relaes, ela o fez eleger procurador do rei na cmara municipal de Honfleur. Obteve igualmente, 
para o irmo dele, o cargo de procurador do rei no almirantado da mesma localidade. Graas a esses dois cargos reais, Joo Castevast se encontrou quase inteiramente 
ao abrigo das rapinagens do fisco.
  Alm disso, sendo acionista da Companhia das ndias Orientais e Ocidentais, Anglica obteve de Colbert autorizao para que os barcos de Castevast tivessem acesso 
 Martinica e no pagassem seno uma pequena quantia aos funcionrios reais da ilha.
  Essa iseno de tributos era a primeira satisfao que ela buscara, como inconsciente vingana contra o cobrador de impostos que a importunara em sua infncia. 
Ela tambm se lembrava, talvez, das primeiras normas comerciais que lhe tinham sido inculcadas pelo Sieur Molines.
  Um dos princpios da Sra. Morens, e talvez o segredo de seu xito, era este rifo pessoal que ela jamais confiou a pessoa alguma: "Qualquer negcio  vantajoso... 
sem o fisco!"
  Em troca de seus prstimos e de seus servios, Anglica conseguira de Castevast duas partes de seus barcos. Ela era, enfim, sua nica comanditaria em Paris no 
que concernia aos produtos exticos: cacau, marfim, carapaas de tartaruga, pssaros das ilhas, madeiras preciosas.
  Fornecia madeiras s novas marcenarias reais, que o Sr. Colbert acabava de fundar. Quanto aos smios e aos pssaros, ela os vendia aos parisienses... Tudo isso 
lhe permitia ganhar muito dinheiro.
  Anglica percebeu que, toda entregue a seus clculos, deixara o cais e entrara na Rue du Beautreillis. A movimentao que reinava naquela rua chamou-a  realidade. 
Ela lamentou ter dispensado o coche. Andar a p entre aguadeiros e criadas no se harmonizava com a sua nova condio. Tendo abandonado a saia curta das mulheres 
do povo, ela via com pena a barra de suas pesadas saias sujar-se de lama.
  Um tumulto da populaa espremeu-a contra a parede de uma casa. Ela protestou violentamente. O gordo burgus que a tinha imprensado vokou-se para gritar-lhe:
  -        Pacincia, beleza!  o senhor prncipe que passa.
  De fato, uma grande porta-cocheira acabava de abrir-se e uma carruagem de seis cavalos saiu.
  Por trs da vidraa, Anglica teve-tempo de reconhecer o perfil sombrio do Prncipe de Conde. Algumas pessoas gritaram:
  -        Viva o senhor prncipe!
  Ele ergueu, enfadado, o punho de rendas. Para o povo ele continuava o vencedor de Rocroi. Infelizmente, a paz dos Pireneus o forava a um retiro que no lhe agradava 
muito.
  Depois que ele passou, normalizou-se o trfego. Anglica foi at diante do ptio da manso que o prncipe acabava de deixar. Deu uma olhadela. Havia algum tempo 
que seu belo apartamento da Place Royale j no a satisfazia. Ela sonhava em possuir tambm uma casa com porta-cocheira, ptio para manobra de carruagens, ptio 
de cavalarias e de cozinhas, alojamento de criados e, por trs, um belo vergel com laranjeiras e canteiros floridos.
  A residncia que ela viu naquela manh era de construo relativamente recente. Sua fachada clara e sbria, com janelas muito altas, balces de ferro forjado, 
telhado de ardsia muito limpa, com trapeiras arredondadas, estava na moda nos ltimos anos.
  A porta fechava-se lentamente. Sem saber por qu, Anglica demorava-se. Observou que, por cima da porta, o braso esculpido parecia ter sido quebrado. No eram"a 
-velhice nem as intempries que tinham podido apagar assim as armas principescas, mas certamente o deliberado cinzel de um obreiro.
  -        A quem pertence essa casa? - perguntou ela a uma florista que tinha loja no distante dali.
  - Ora... ao senhor prncipe - respondeu a outra, empertigando-se.
  - Por que fez o senhor prncipe retirar o escudo colocado por cima da porta?  pena, as outras esculturas so to belas!
  - Oh! Essa  outra histria - disse a boa mulher, com ar sombrio. - Eram as armas de quem fez construir a casa. Um nobre maldito. Ele praticava a feitiaria e 
invocava o Diabo. Condenaram-no  fogueira.
  Anglica ficou imvel. Depois, sentiu o sangue fugir-lhe lentamente do rosto. Eis por que ela sentiu, diante daquela porta de carvalho louro que refletia os raios 
solares, uma impresso de coisa j vista...
  Fora ali que ela viera em primeiro lugar, quando de sua chegada a Paris. Fora sobre aquela porta que ela vira apostos os selos da justia do rei...
  -        Dizem que esse homem era muito rico - continuou a mulher. - O rei distribuiu os seus bens. O senhor prncipe teve o maior quinho, do qual fazia parte 
essa casa. Antes de ali entrar, ele mandou raspar as armas do feiticeiro e aspergir gua benta por toda parte. A senhora pode imaginar... ele queria dormir tranquilo!
  Anglica agradeceu  florista e afastou-se. Ao atravessar a Rue du Faubourg Saint-Antoine, j excogitara uma hbil manobra para fazer-se apresentar ao Prncipe 
de Conde.
  Anglica mudara-se para a Place Royale alguns meses aps a inaugurao da chocolataria. Saindo da Rua des Francs-Bourgeois para o centro do bairro aristocrtico, 
a jovem subia um degrau na escala social.
  Na Place Royale os gentis-homens batiam-se em duelo, e as belas discutiam filosofia, astronomia e rimas.
  Longe do cheiro penetrante do cacau, Anglica sentia-se renascer e abria olhos cheios de simpatia para aquele mundo fechado e to parisiense.
  A praa, emoldurada por suas casas cor-de-rosa, com seus altos telhados de ardsia e a sombra de suas arcadas que abrigavam, no pavimento trreo, lojas de rendas 
e bordados, ofereceu-lhe um refgio onde ela descansava de seu labor.
  Ali, vivia-se discreta e preciosamente. Os escndalos tinham falsos ares teatrais.
  Anglica comeou a saborear o prazer da conversao, esse instrumento de cultura que, havia meio sculo, transformava a sociedade francesa. Infelizmente, ela receava 
sentir-se canhestra. Seu esprito estivera tanto tempo distanciado dos problemas gerados por um epigrama, um madrigal ou um soneto!
  Alm disso, por causa de sua origem plebeia, ou que assim se acreditava, os melhores sales se lhe mantinham fechados. Para conquist-los, ela encheu-se de pacincia. 
Vestia-se ricamente, mas sem muita certeza de estar na moda.
  Quando seus filhos passeavam sob as rvores da praa, os transeuntes voltavam-se para olh-los, to bonitos e bem vestidos eles eram. Florimond e o prprio Cantor 
usavam agora verdadeiros trajes de homem - de seda, brocado e veludo -, com grandes golas de rendas, meias bordadas, sapatos de rosetas e taces. Seus belos cabelos 
frisados eram cobertos por chapus de pluma, e Florimond tinha uma pequena espada, o que o encantava. Sob sua aparncia nervosa e frgil, ele tinha a paixo da guerra. 
Desafiava para duelo o macaquinho Piccolo ou o pacfico Cantor. Este, com quatro anos, falava pouco. No fosse a inteligncia de seus belos olhos verdes, Anglica;o 
teria crido um tanto retardado. Ele era apenas taciturno e no"via a utilidade de falar, pois Florimond o compreendia e os criados adivinhavam seus mnimos desejos.
  Anglica, na Place Royale, tinha uma cozinheira e um segundo criado. Com Flipot, promovido a pequeno lacaio, e o cocheiro, a Sra. Morens podia fazer muito boa 
figura entre suas vizinhas. Brbara e Javotte usavam toucas de rendas, cruzes de ouro, xales indianos.
  Mas Anglica sabia que aos olhos dos outros ela no passava de uma ricaa. Queria ir mais alto, e precisamente os sales do Ma-rais permitiam s ambiciosas "passar" 
da burguesia  aristocracia, pois burguesas e grandes damas ali se encontravam sob o signo do espirito.
  Ela comeou por ganhar as boas graas da velha senhorita que ocupava o apartamento por cima do seu. Esta havia conhecido os belos dias da sociedade "preciosa" 
e das querelas femininas. Tinha encontrado a Marquesa de Rambouillet, frequentara a Srta. de Scudry. Seu jargo era delicado e ininteligvel.
  Filnis de Parajonc pretendia que existiam sete espcies de estima e dividia os suspiros em cinco categorias. Desprezava os homens e detestava Molire. O amor 
era a seus olhos "a cadeia infernal".
  No entanto, ela no fora sempre to desdenhosa. Murmurava-se que, na sua juventude, longe de contentar-se com o inspido pas da Ternura, ela no menoscabara o 
reino do Coquetismo e tinha frequentemente visitado sua capital, a Sensualidade. Ela prpria confessava, levantando uns olhos brancos: "O amor devastou-me terrivelmente 
o corao!"
  - Se no houvesse devastado, como seria! - resmungou Audi-ger, que no via com bons olhos as visitas frequentes de Anglica aquela preciosa que comeava a envelhecer. 
- Voc vai tornar-se pedante. Um provrbio nosso diz, entretanto, que uma mulher  bastante sbia quando pode estabelecer diferena entre a camisa e o gibo de seu 
marido.
  Anglica ria e desarmava-o com um trejeito.
  Em seguida, ela ia assistir, com a Srta. de Parajonc, s conferncias do Palcio Precioso, onde aquela a tinha feito se inscrever por trinta francos.
  Ali se encontrava a flor das pessoas honestas, isto , muitas mulheres da mdia burguesia, eclesisticos, jovens sbios, provincianos. O prospecto da sociedade 
era muito atraente:
  "Pretendemos, mediante somente trinta francos, fornecer durante trs meses, do primeiro dia de janeiro  terceira quinta-feira da Quaresma, todas as diverses 
que o esprito razovel pode imaginar.
  s segundas e aos sbados, baile e comdia, com distribuio gratuita de limes doces e laranjas de Portugal.
  s teras, concertos de alades, de vozes e de instrumentos.
  s quartas, lio de filosofia.
  s quintas, leitura das gazetas e de peas novas submetidas a julgamento.
  s sextas, propostas curiosas submetidas a julgamento".
  Estava tudo previsto para tranquilizar as damas a quem podia inquietar um regresso noturno:
  "D-se boa escolta s pessoas que dela precisem para a segurana de seu dinheiro, de suas jias e pontos de Gnova. Talvez no seja necessria, estando ns em 
entendimentos com todos os larpios de Paris, que nos prometem bons passaportes, de modo que se possa ir e vir com toda a segurana, havendo esses senhores feito 
ver que eles so bastante religiosos para cumprir a palavra empenhada".
  A tanta solicitude o Palcio Precioso acrescentava uma seleo de conferencistas de boa marca. Roberval, professor de matemtica no Colgio Real, vinha falar do 
cometa que em 1665 agitara oS- parisienses.
  Discutia-se a enchente do Nilo, o casamento de inclinao, mas tambm as causas da luz, a questo^do vcuo e do peso do ar.
  Ouvindo as conferncias cientficas, Anglica no se sentia  vontade.        
  Diante de certos vocbulos, ela estremecia, percebendo-lhe ouvir a voz apaixonada de Joffrey de Peyrac e ver brilhar o fogo de seu olhar.
  - Meu crebro  muito pequeno - disse ela um dia  Srta. de Parajonc. - Todas essas grandes questes me assustam. No quero mais ir ao Palcio Precioso seno para 
o baile e a msica.
  - Seu sublime est muito profundamente enterrado na matria - lamentou a solteirona. - Como quer brilhar em um salo, se no anda ao corrente do que se discute? 
Voc no quer nem filosofia, nem mecnica^ nem astronomia e no sabe versejar. Que lhe resta?... A devoc Leu ao menos So Paulo e Santo Agostinho? Bons obreiros 
para estabelecer a soberana vontade de Deus. Eu lhes emprestarei.
  Mas Anglica recusou So Paulo e Santo Agostinho, e mesmo o livro da Srta. de Gournay: Da Igualdade dos Homens e das Mulheres, onde ela teria, entretanto, podido 
colher slidos argumentos para opor s 'declaraes de Audiger.
  Em compensao, mergulhou avidamente, e quase em segredo, nas pginas do Tratado de Ademanes e de Boa Aparncia, da Srta. de Quintin, e nas da Arte de Agradar 
na Corte, da Srta. de Croissy.
  
  CAPTULO XII
  
  Vtima de um lacaio licencioso, Anglica  defendida pelo Marqus de Montespan
  
  No dia seguinte ao em que fora  Place de Greve, Anglica tinha pedido  Srta. de Parajonc que a acompanhasse s Tulherias.
  Era esta a sua companheira habitual. Conhecia todo mundo e dizia o nome de uns e outros  sua amiga, que assim ia conhecendo as novas fisionomias da corte. Fazia-a 
tambm sobressair pelo contraste. Alis, inconscientemente, pois a pobre Filnis, coberta de alvaiade at os olhos e com as plpebras sombreadas de negro como uma 
velha coruja, acreditava-se ainda to irresistvel como nos tempos em que fazia suspirar interminavelmente os seus admiradores.
  Ela ensinava a Anglica a boa maneira de passear nas Tulherias, representando com bastante vivacidade os gestos necessrios, o que fazia rir os insolentes. Ela 
no via nisso seno homenagens prestadas aos seus encantos.
  - Nas Tulherias - dizia ela -,  preciso passear displicentemente na grande alia. Deve-se falar sempre sem nada dizer, a fim de parecer espiritual. Deve-se rir 
sem motivo, a fim de parecer alegre... aprumar-se a todo instante, para exibir a garganta... abrir os olhos, para aument-los, morder os lbios para faz-los vermelhos... 
falar com a cabea a um, com o leque a outro... Adocicar-se, enfim, minha cara! Graceje, gesticule, amaneire-se e faa tudo isso com ar de languidez...
  A lio, de fato, no era m, e Anglica aplicava-a com mais propriedade e tambm mais sucesso que sua companheira.
  As Tulherias eram, segundo a Srta. de Parajonc, "a lia da alta sociedade", e o Cours-la-Reine, "o imprio dos olhares amorosos". Ia-se s Tulherias para aguardar 
a hora do corso, e ali se voltava de noite, aps o corso, alternando-se o passeio de carruagem com o passeio a p.
  Os bosquetes do parque eram favorveis aos poetas e aos amantes. Os padres ali preparavam seus sermes, os advogados, seus arrazoados. Todas as pessoas de qualidade 
marcavam encontro naquele local e ali se via s vezes o rei ou a rainha, e frequentemente Monseigneur, o delfim, com sua governanta.
  Naquele dia, Anglica levou sua companhia para a banda do Grande Tabuleiro, onde eram encontradas habitualmente as altas personagens. O Prncipe de Conde ali se. 
achava quase toda tarde.
  Ela ficou decepcionada de no v-lo, enraiveceu-se e bateu com os ps.
  - Gostaria de saber por que voc est to ansiosa por ver Sua Alteza - disse, admirada, Filnis.
  - E absolutamente necessrio que eu o veja.
  - Voc tem alguma petio a dirigir-lhe?... Pois bem, no chore mais, minha car, ali est ele:
  De fato, o Prncipe de Conde acabava de chegar e aproximava-se pela grande alia, cercado dos gentis-homens de sua casa.
  Anglica viu logo que no havia qualquer encontro possvel entre ela e aquele prncipe. Ela ia declarar-lhe sem cerimnia: "Monseigneur, entregue-me a casa da 
Rue du Beautreillis, que me pertence e que o senhor recebeu indevidamente das mos do rei?"
  Ou ainda: "Monseigneur, eu sou a mulher do Conde de Peyrac, cujas armas o senhor fez retirar e cuja casa mandou exorcismar..."
  O impulso que a conduzira s Tulherias para ver o Prncipe de Conde era pueril e estpido. Ela no passava de uma chocolateira enriquecida. Ningum podia apresent-la 
quele grande senhor, e, alm disso, que lhe diria ela?... Furiosa, dirigia a si mesma veementes reproches: "Idiota! Se voc se mostrar sempre to impulsiva e sem 
raciocnio, que acontecer aos seus negcios?..."
  -        Vamos - disse ela  solteirona.
  E, num sbito movimento, desviou-se do grupo cintilante e tagarela que passava perto dela.
  Malgrado a tarde radiosa, a doura primaveril do cu, Anglica ficou emburrada durante o resto do passeio. Filnis perguntou-lhe se iriam ao corso. Ela respondeu 
que no. Sua carruagem era muito feia.
  Um peralvilho as abeirou:
  -        Senhora - disse ele a Anglica -, meu companheiro e eu trocamos perguntas a seu respeito. Um apostou que a senhora  esposa de um procurador; o outro, 
que  senhorita e preciosa. Desate nossa dvida.
  Ela poderia ter rido. Mas seu nimo estava sombrio, e ela detestava aqueles janotas, pintados como bonecas  que usavam a unha do auricular mais comprida que as 
dos outros dedos.
  -        Aposte que  um tolo - respondeu ela. - E nunca perder.
E deixou-o estupefato.
  Filnis de Parajonc estava escandalizada.
  - Sua rplica teve esprito, mas cheirava a peixeira a trs lguas de distncia. Jamais ter xito em um salo se...
  - Oh! Filnis! - exclamou Anglica, parando de repente. - Olhe... ali!
  - O qu?
  - Ali - repetiu Anglica, com uma voz que no era mais que um murmrio.
  A alguns passos dela, no enquadramento verde de um bosquete, um jovem alto se tinha displicentemente apoiado contra a base de uma esttua de mrmore. Era de uma 
beleza notvel, que a ele-^pcia de seu traje tornava perfeita. Sua roupa de veludo verde-jftindoa tinha bordados de ouro que representavam pssaros e *nores. Era 
um pouco extravagante, mas bela como a libr da primavera. Um chapu de feltro branco, ornado de plumas verdes, cobria sua abundante peruca loira. Na moldura de 
seus longos cachos, seu rosto branco e rosa, levemente empoado, era guarnecido de um bigode louro, desenhado em um s trao. Seus olhos eram grandes, de um azul 
transparente, que a sombra da folhagem enverdecia.
  O semblante do gentil-homem estava impassvel e seus olhos no pestanejavam. Estaria sonhando? Meditando?... Suas pupilas azuis pareciam vazias como as de um cego. 
Tinham elas, na fixidez daquele devaneio, a frieza da serpente.
  O desconhecido no parecia perceber o interesse que despertava.
  - O que  isso, Anglica? - disse acremente a Srta. de Parajonc. - Voc perdeu o juzo? Essa maneira de olhar para um homem  da ltima das burguesas.
  - Como... como se chama ele?
  -  o Marqus du Plessis-Bellire! Que h de extraordinrio? Ele espera algum, sem dvida. Voc, que no gosta dos perailhos, por  que fica plantada a como uma 
rvore que houvesse criado razes?
  -  Desculpe-me - balbuciou a jovem, caindo em si.
  por um segundo, ela se tinha tornado de novo uma menina admirativa e bravia. Filipe! Aquele grande primo desdenhoso. Oh! Monteloup e o cheiro da sala onde o calor 
da sopa fazia fumegar a toalha mida. Sofrimentos e douras misturados!
  As duas damas passaram diante dele. Ele pareceu not-las, mexeu-se e, tirando o chapu, com gesto de profundo tdio, saudou-as.
  -   um gentil-homem da corte, no ? - perguntou Anglica depois que se afastaram um pouco.
  - Sim. Ele foi para a guerra com o senhor prncipe, no tempo em que o mesmo estava com os espanhis. Depois, foi nomeado monteiro-mor da Frana. Ele  to belo 
e gosta tanto da guerra que o rei o chama de Marte. No entanto, contam-se dele coisas horrveis.
  - Coisas horrveis?... Eu gostaria de saber...
  A Srta. de Parajonc teve um risinho resignado.
  -        Voc j est ofendida de ouvir falar mal desse belo senhor. Alis, todas as mulheres so como voc. Elas correm atrs dele e desmaiam diante de seus cabelos 
louros, sua cor fresca, sua elegncia. No sossegam enquanto no se metem na cama dele. Mas a elas mudam de tom. Ouvi as confidncias de Armanda de Circ e da Srta. 
Jacari... O belo Filipe parece doce e polido. Ele  distrado como um velho sbio, e isso faz sorrir a corte. Mas parece que no amor ele  de uma brutalidade extrema; 
um palafreneiro tem mais considerao por sua mulher que ele por suas amantes.
Todas as que passaram pelos seus braos o odeiam...
  Anglica escutava com uma s orelha. A viso de Filipe, apoiado  esttua de mrmore, imvel e quase to irreal como uma apario, no a abandonava. Outrora, ele 
a tinha tomado pela mo para faz-la danar. Foi no Plessis, naquele castelo branco envolvido misteriosamente pela'grande floresta de Nieul.
  -        Parece que ele tem uma cruel imaginao para torturar suas amantes - continuou Filnis. - Por uma nuga, ele bateu na Sra. de Circ to horrivelmente que 
ela ficou sem poder mexer-se, ou quase isso, durante oito dias, o que foi bem embaraoso, por causa do marido. E, nas suas campanhas, a fornia pela qual ele se conduzia 
quando era vencedor constitua um verdadeiro escndalo.
Suas tropas so mais temveis que as do famoso Joo de Werth. As mulheres so perseguidas at nas igrejas e violentadas sem discernimento. Em Norgen, ele fez vir 
as filhas das pessoas importantes, quase as matou porque elas resistiram e, depois de uma noite de orgia com seus oficiais, ele as entregou  tropa. Vrias morreram 
ou ficaram loucas. Se o senhor prncipe no houvesse intervindo, Filipe du Plessis teria, certamente, cado em desgraa.
  -        Filnis, voc  uma velha invejosa! - exclamou Anglica, tomada de uma irritao sbita. - Esse jovem no  nem pode ser o energmeno que voc me descreve. 
Voc exagera deliberadamente os mexericos que ouviu a seu respeito.
  A Srta. de Parajonc estacou, sufocada de indignao.
  - Eu? Mexericos?... Voc bem sabe como tenho horror a isso, a histrias de vizinhana e a tudo o que cheira a visita feita a uma parturiente. Eu, mexericos!... 
Eu, que sou to desprendida das coisas vulgares! Se lhe falo assim  por ser verdade]
  - Pois bem, se  verdade, no  inteiramente por culpa dele - decretou Anglica. - Ele  assim porque as mulheres lhe fizeram mal, devido  sua beleza.
  - Como... como voc sabe disso? Voc o conhece?
  - N... no.
  - Ento, est louca! - exclamou a Srta. de Perajonc, que se tornara escarlate de clera. - Nunca pensei que voc pudesse ficar transtornada por um bonifrate dessa 
espcie. Adeus...
  Ela a deixou e dirigiu-se, a passos largos, para o porto de sada. Anglica no teve outro recurso seno segui-la, pois no queria indispor-se com a vizinha, 
a quem muito prezava.
  Se Anglica e a velha preciosa no houvessem discutido naquele dia, nas Tulherias, por causa de Filipe du Plessis-Bellire, no teriam sado to precipitadamente. 
E, ,se elas no houvessem sado naquele instante, no teriam sido vtimas de uma grosseira aposta que acabam de fazer os lacaios amontoados diante das grades. O 
Sr. de Lauzun e o Sr. de Montespan no se teriam batido em duelo pelos belos olhos verdes da Sra. Morens. E Anglica teria de esperar, sem dvida, muito tempo ainda, 
antes que pudesse frequentar de novo os grandes daquele mundo. O que prova que s vezes  bom ter a lngua solta e ser agastadia.
  Com efeito, sendo proibida por escrito a entrada no jardim "aos lacaios e  ral", sempre havia diante das grades uma ruidosa turba de criados, lacaios e cocheiros, 
que passavam as horas de espera entre partidas de baralho ou de boliche, quando no estavam metidos em alguma briga ou bebendo na taberna da esquina. Naquela tarde, 
os lacaios do Duque de Lauzun tinham feito uma aposta. Pagariam um quartilho quele que tivesse a audcia de levantar a saia da primeira dama que sasse das Tulherias.
  Aconteceu que essa dama foi Anglica, que acabava de juntar-se a Filnis e procurava acalm-la.
  Antes que ela tivesse tempo de prever o gesto do insolente, viu-se agarrada por um zangaralho que fedia a vinho e estava descomposto. Quase instantaneamente, 
sua mo abateu-se sobre a face do indiscreto. A Srta. de Parjonc soltava gritos papagaiais.
  Um gentil-homem que entrava em seu coche e assistira  cena fez um sinal aos seus homens, e estes, muito contentes pela oportunidade, caram sobre a famulagem 
do Sr. de Lauzun.
  Foi um pugilato furibundo, sobre excrementos de cavalos e no meio de um crculo de curiosos. Coube a vitria  libr do gentil-homem. Ele aplaudia entusiasticamente.
  Ele veio a Anglica e saudou-a.
  -        Senhor, obrigada por sua interveno.
  Estava furiosa e humilhada, mas sobretudo assustada, porque estivera a ponto de corrjgir ela prpria o bbado,  boa maneira da Taberna da Mscara Vermelha, temperando 
a lio com algumas palavras enrgicas sadas diretamente do vocabulrio da Polaca. Todos os cuidados que Anglica tomava para voltar a ser uma grande dama teriam 
sido inteis. No dia seguinte, as damas do Marais gozariam o incidente.
  Branca de emoo a esse pensamento, a jovem resolveu desfalecer levemente, segundo as boas tradies.
  - Ah! senhor... que infmia!  horrvel! Estar assim exposta aos ultrajes desses patifes!
  - Reanime-se, senhora - disse ele, sustentando-a pela cintura com brao presto e vigoroso.
  Era um belo rapaz de olhos vivos e cujo acento cantante no podia enganar. Era um gasco, com toda a certeza! Ele se apresentou:
  -        Lus Henrique de Pardaillan de Gondrin, Cavaleiro de Pardaillan e outros lugares, Marqus de Montespan.
  Anglica conhecia o nome. O recm-vindo pertencia  mais antiga nobreza da Guyenne. Ela sorriu com toda a seduo de que era capaz, e o marqus, manifestamente 
encantado pelo encontro, procurou saber onde e quando poderia ter notcias dela. A jovem no quis dizer seu nome, mas respondeu:
  -        Venha s Tulherias amanh,  mesma hora. Espero que as circunstncias sejam mais favorveis e nos permitam palestrar agradavelmente.
  - Onde a esperarei?
  - Perto do Eco.
  O local escolhido prometia muito. O Eco era o lugar dos encontros galantes. Satisfeito, o marqus beijou a mo que lhe era estendida.
  - Tem uma cadeirinha? Posso dar-lhe conduo?
  - Meu coche no est longe - afirmou Anglica, que no queria exibir sua modestssima carruagem.
  - Ento, at amanh, misteriosa beldade.
  Dessa vez, ele beijou-lhe a face com presteza e, a largas passadas, voltou para sua viatura.
  -        Voc no tem pudor - comeou a Srta. de Parajonc.
Mas o Marqus de Lauzun apareceu junto ao porto. Vendo em que estado se encontravam seus criados, um cuspindo os dentes, outro sangrando pelo nariz, todos rasgados 
e empoeirados, ps-se a esbravejar com voz de falsete. Como lhe explicassem que o mal viera da criadagem de um grande senhor, ele exclamou:
  -        Moerei a cacete esses infames e seu amo! Essa espcie no  digna de ser tocada com uma espada.
  O Marqus de Montespan ainda no estava instalado em seu coche. Ouvindo aquilo, saltou do estribo, correu por trs de Lauzun, agarrou-o pelo brao, f-lo rodar 
sobre os calcanhares e, depois de enterrar-lhe o chapu sobre os olhos, chamou-o de estpido e mariola.
  Um segundo mais tarde, duas espadas brilhavam, e os dois gas-ces se batiam em duelo sob os olhos cada vez mais interessados dos presentes.
  -        Senhores, por favor! - gritava a Srta. de Parajonc. - O due lo  proibido. Dormiro esta noite na Bastilha.
  Mas os dois marqueses no deram ouvidos a essas razoveis predies e esgrimiam com ardor, enquanto a turba opunha verdadeira resistncia passiva aos guardas suos 
que procuravam romper as fileiras para chegar at os duelistas.
  Felizmente, o Marqus de Montespan conseguiu cortar a coxa de Lauzun. Pguilin vacilou e deixou cair sua espada.
  -        Vamos depressa, meu caro! - gritou o marqus, sustentando o adversrio. - Evitemos a Bastilha! Senhoras, ajudem-me.
  O coche arrancou no instante em que,  custa de murros e golpes de alabarda, os guardas suos estavam prestes a alcan-lo. Enquanto a viatura descia, com grande 
estrpito, a Rue Saint-Honor, Anglica, pondo sua echarpe sobre a ferida de Pguilin, achou-se amontoada na carruagem com o Marqus de Montespan, a Srta. de Parajonc 
e at o lacaio que havia provocado o incidente e que tinha sido jogado meio morto ao piso do veculo.
  - Voc ser condenado  golilha~e s gals - disse-lhe Pguilin, dando-lhe um coice no estmago. - E no serei eu quem pagar uma libra pelo seu resgatei-... Com 
os demnios, meu caro Pardaillan, graas a voc, meu cirurgio no ter necessidade de sangrar-me nesta estao.
  -  preciso pensar-se - disse o marqus. - Venha  minha residncia. Creio que minha mulher hoje est em casa com amigas.
  Na esposa do Sr. de Montespan, Anglica reconheceu a bela Atenas de Mortemart, a antiga colega de internato de Hortnsia, com a qual ela assistira outrora  entrada 
triunfal do rei em Paris.
  A Srta. de Mortemart, que se chamava, em sua juventude, Srta. de Tonnay-Charente^ havia-se casado em 1662. Tornara-se mais bela ainda. Sua tez rasada, seus olhos 
azuis, seus cabelos de ouro e o clebre esprito de sua famlia faziam dela uma das mulheres mais notveis da corte. Infelizmente, se a famlia de seu marido e a 
sua eram de alta linhagem, tambm se equiparavam em dificuldades financeiras. Atormentada de dvidas e assediada pelos credores, a pobre Atenas no podia dar  
sua beleza o lustre que ela merecia, e acontecia-lhe faltar a festas na corte por no poder ali comparecer de roupa nova.
  O apartamento para onde se dirigiam os duelistas das Tulherias, acompanhados de Anglica e de Filnis de Parajonc, trazia a marca de uma pobreza quase miservel,- 
contrastando com uma elegncia de trajes quase opulenta.
  Vestes luxuosas estavam em desordem sobre os mveis empoeirados. No havia fogo na lareira, malgrado a estao ainda fresca, e Atenas, em chambre de tafet, discutia 
feito uma megera com o empregado de um ourives, que viera cobrar o sinal da encomenda de um colar de ouro e prata dourada, que a jovem devia estrear em Versalhes 
na semana seguinte.
  O Sr. de Montespan chamou a si a questo e expulsou o caixeiro a pontaps. Atenas protestou. Queria seu colar. Seguiu-se uma discusso, enquanto o sangue do pobre 
Lauzun inundava o piso.
  A Sra. de Montespan refletiu, afinal, e chamou sua amiga Francisca d'Aubign, que viera ajud-la a pr um pouco de ordem no apartamento, pois as criadas haviam 
partido na vspera.
  A viva do poeta Scarron apareceu logo, to parecida consigo mesma, em seu vestido pobre, com seus grandes olhos negros e a expresso reservada de sua boca, que 
Anglica teve a impresso de hav-la deixado na vspera.
  "Dentro de um instante verei surgir Hortnsia", pensou ela.
  Ajudou Francisca a transportar para um canap o Marqus de Lauzun, que acabara por desfalecer.
  -        Vou buscar gua na cozinha - disse a viva Scarron. - Tenha a bondade de conservar o curativo sobre o ferimento...
senhora...
  Pela imperceptvel hesitao, Anglica compreendeu que a Sra. Scarron tambm a reconhecera. Isso no tinha importncia. A Sra. Scarron era dessas pessoas que devem 
ocultar uma parte de sua existncia. De qualquer maneira, mais cedo ou mais tarde, Anglica teria de se defrontar com as caras do seu passado.
  No aposento vizinho, o casal Montespan continuava a altercar.
  - Mas como no a reconheceu?,..  a Sra. Morens! Voc se bate em duelo agora por uma chocolateira?
  - Ela  adorvel... e no esquea que ela tem fama de ser uma das mais ricas mulheres de Paris. Se  mesmo dela que se trata, no me arrependo de meu gesto.
  - Voc me desgosta!
  - Minha cara, quer ou no seu colar de diamantes?
  "Bem", disse Anglica consigo mesma, "saberei como testemunhar meu reconhecimento a essas pessoas da grande nobreza. Um presente valioso, talvez mesmo uma bolsa 
bem pesada, mas tudo envolto em discrio e delicadeza."
  O Marqus de Lauzun ergueu as plpebras. Pousou em Anglica um olhar vago.
  - Estou sonhando - balbuciou ele. - E voc, minha querida?
  - Sim, sou eu - disse ela, sorrindo-lhe.
  - Que o diabo me leve se eu esperava tornar a v-la, Anglica! Muitas vezes perguntei a mim mesmo o que era feito de voc.
  - Perguntou, mas aposto que no procurou sab-lo.
  -  verdade, querida. Eu sou um corteso, e todos os cortesos so um tanto covardes em relao queles ou quelas que caem em desgraa.
  Ele examinou o traje e as jias da jovem.
  -        As coisas parecem ter-se arranjado - disse ele.
  - Era preciso. Agora eu me chamo Sra. Morens.
  - Por So Severino, j ouvi falar de voc! Vende chocolate, no?
  - Eu me distraio. H os que se ocupam de astronomia ou de filosofia. Eu vendo chocolate. E voc, Pguilin? Continua a brilhar na corte? O rei continua a dedicar-lhe 
amizade?
  pguilin ficou srio e pareceu esquecer sua curiosidade.
  - Ah! minha cara, o equilbrio do meu favor  instvel. O rei pensa que eu estou ligado a Vards na histria da carta espanhola, aquela carta que fizeram chegar 
 rainha para inform-la das infidelidades de seu augusto esposo com La Vallire... Eu no consigo dissipar essa suspeita, e Sua Majestade  s vezes muito rude 
comigo!... Felizmente a Grande Mademoiselle est enamorada de mim.
  - A Srta. de Montpensier?
  - Ela mesma - cochichou Pguilin, revirando os olhos brancos. - Penso que ela vai perdir-me em casamento.
  - Oh! Pguilin! - exclamou Anglica, soltando uma gargalhada. - Voc  impagyel, incorrigvel. No mudou nada!
  - Voc tambm n mudou. E est bela como uma ressuscitada.
  - Que sabe voc sobre a beleza das ressuscitadas, Pguilin?
  - O que diz a Igreja! Um corpo glorioso!... Venha c, corao-zinho, que eu quero beij-la.
  Ele tomou-lhe o rosto com as duas mos e puxou-a para si.
  -        Com os demnios! - exclamou Montespan da entrada do aposento. - No lhe basta que eu lhe abra a coxa para impedir-lhe de correr?  preciso ainda, Pguilin 
do diabo, que voc venha passar-me para trs em minha prpria casa? Fiz muito mal em no deix-lo ir para a Bastilha!
  
  CAPTULO XIII
  
  O Prncipe de Conde pede a Anglica que se torne sua amante
  
  Depois desse encontro, Anglica revia frequentemente, nas Tu-lherias e no Cours-la-Reine, o Duque de Lauzun e o Marqus de Montespan. Estes apresentaram-lhe seus 
amigos. E, pouco a pouco, os rostos do passado foram ressurgindo. Um dia em que Anglica passeava no Cours com Pguilin, seu coche cruzou-se com o da Grande Mademoiselle, 
que a reconheceu. Nenhuma aluso foi feita. Prudncia ou indiferena? Cada uma tinha tanto em que pensar!
  Depois de mostrar-se reservada para com Anglica, Atenas de Montespan tinha-se repentinamente afeioado a ela e convidava-a para ir a sua casa. Ela observara 
que aquela chocolateira falava pouco, mas dava-lhe rplicas admirveis.
  Foi a Sra. Scarron, que Anglica frequentemente revia na residncia dos Montespan, quem a introduziu em casa de Ninon de Lenclos.
  O salo da clebre cortes nlo era considerado lugar de libertinagem, mas escola, por excelncia, de bom gosto.
  A amizade que uniu Ninon de Lenclos e Anglica de Sanc permaneceu discreta. Poucas cartas existem que dem testemunho dessa amizade, e nenhuma das duas fez alarde 
dos sentimentos profundos e slidos que as ligaram desde o primeiro encontro. Pertenciam ambas a essa raa de mulheres que atraem os homens, mais ou menos inconscientemente, 
por um encanto em que se dosam igualmente os atrativos do corpo, do corao e da inteligncia. Elas poderiam ter sido inimigas. Ao contrrio, sentiram uma pela outra 
a nica amizade feminina de suas existncias.
  Anglica, por ter lutado pertinazmente para sobreviver, era capaz de apreciar em Ninon aquelas qualidades de retido, coragem e simplicidade to raras em seus 
semelhantes e que faziam da cortes "um homem honesto". E, por seu turno, esta compreendeu logo que Anglica desejava servir-se dela para elevar-se o mais alto possvel 
na escala social. Desempenhou esse papel da melhor maneira, guiando a nova amiga, aconselhando-a, apresentando-a a todos.        
  Para que Anglica no se enganasse, ela lhe disse um dia:
  -        Minha amizade  o que eu tenho de melhor, Anglica. De todas as dedicaes, todas as delicadezas e longanimidade que no existem no amor minha amizade 
 capaz. De todo o meu corao, eu a ofereo a voc. No depende seno de voc que ela dure o tempo de nossa vida.
  Conhecendo melhor do que ningum o valor de uma vida voluptuosa, Ninon comprazia-se em aconselh-la s naturezas verdadeiramente sensveisj. Encorajou Anglica 
a arranjar um amante bem titulado. Mas Anglica mostrava-se indiferente. Estando sua vida material garantida por suas atividades comerciais, ela achava que a galanice 
era na realidade o meio menos seguro para alcanar o pice das honras. A Companhia do Santssimo Sacramento, oculta e poderosa, reinava at nos degraus do trono. 
Tinha devotos em toda parte. No jogo que praticava, Anglica apoiava-se neles com uma das mos, por sua reputao de prudncia, e com a outra nos libertinos, por 
sua alegria e seu entusiasmo em todas as festas.
  -        Tome ao menos um amante para o prazer - aconselhou ainda Ninon. - No v fazer-me crer que o amor a desagrada!
  Anglica respondeu que no tinha tempo para pensar nisso. Ela mesma se admirava da calma de seu corpo. Dir-se-ia que sua cabea, a fora de trabalhar sem descanso 
e de acumular projetos sobre projetos, a tinha esvaziado do desejo mais elementar. Quando desabava de noite em seu leito, morta de fadiga e aps ter concludo seu 
dia com uma suprema brincadeira de esconde-esconde com seus filhos, ela no tinha seno uma ideia: dormir profundamente, refazer as foras, para continuar a faina 
do dia seguinte.
  Jamais se entediava, e o amor  frequentemente, para a mulher desocupada, um derivativo. As declaraes inflamadas de seus cortadores, suas carcias furtivas, 
as "cenas conjugais" de Audiger, que as vezes terminavam por beijos aos quais o mordomo se arranava dificilmente, tudo isso no representava para ela seno "jogos 
teis ou inteis", conforme o proveito que auferia.
  Ninon, depois de escutar suas confisses, afirmou-lhe que essa mentalidade confinava com a doena. Para curar-se, era preciso abandonar algum tempo o trabalho 
e aproveitar os prazeres que uma vida livre oferecia aos ociosos: passeios, bailes de mscara, teatro, ceias e jogos a todas as horas.
  Em casa de Ninon, Anglica encontrou Paris inteira. O Prncipe de Conde ali ia jogar semanalmente sua partida de boca.
  Vrias vezes ela viu Filipe du Plessis, a quem se fez apresentar. O belo jovem deixou cair sobre ela um olhar cujo desdm ela j experimentara, e, aps refletir, 
disse com desprezo:
  -        Ah! ento  voc, Sra. Chocolate.
  O sangue de Anglica paralisou-se. Ela inclinou-se em uma profunda reverncia:
  -        Para servi-lo, meu primo.
  As sobrancelhas do rapaz aproximaram-se.
  - Seu primo? Parece-me, senhora, que  muito ousada...
  - No me reconheceu - disse ela, encarando-o com seus olhos verdes fulgurantes de clera. - Sou sua prima Anglica de Sanc de Monteloup. Encontramo-nos outrora 
no Plessis. Como vai seu pai, o amvel marqus?... E sua me?...
  Ela falou-lhe assim ainda por algum tempo, a fim de convenc-lo de sua identidade. Depois deixou-o, mordendo a lngua por sua tolice.
  Durante vrios dias, ela viveu no receio de ver divulgado o seu segredo. Quando de novo encontrou o Sr. du Plessis, suplicou-lhe que no repetisse o que lhe dissera.
  Filipe du Plessis pareceu cair das nuvens. Declarou, afinal, que aquela confidncia o deixara indiferente e que, alm do mais, ele no tinha interesse em que soubessem 
que ele era parente de uma dama que se rebaixara a vender chocolate.
  Anglica deixou-o, furiosa, prometendo a si mesma no mais prestar-lhe ateno. Ela sabia que o pai de Filipe morrera e que sua me, tornando-se devota em reparao 
de suas loucuras passadas, se retirara para o Val-de-Grce. O rapaz dilapidava sua fortuna em extravagncias. O rei gostava dele por causa da sua beleza e da sua 
bravura, mas sua reputao era escandalosa e mesmo inquietante. Anglica se reprovava por pensar nele to frequentemente.
  Uma declarao de amor inesperada e uma partida de hoca sensacional perturbaram-lhe a existncia e desviaram-na de seus pen-samentos durante alguns meses.
  la estava bastante orgulhosa de figurar na lista das pessoas a quem a Srta. de Montpensier permitia entrar no jardim do Luxemburgo. Um dia em que ela ali chegara, 
a mulher do suo, estando o marido ausente, abriu-lhe o porto.
  Anglica internou-se nas belas alias" margeadas de salgueiros e magnlias. Percebeu logo que o jardim, habitualmente muito animado, estava naquele dia quase deserto. 
No notou seno dois criados de libr, que corriam desabaladamente e se embrenharam num bosquete. Depois, mais nada. Intrigada e vagamente inquieta, continuou seu 
passeio solitrio.
  Quando passava perto de uma pequena gruta de embrechados, pareceu-lhe ouvir um leve rudo e, voltando-se, distinguiu uma forma humana agachada em uma touceira. 
"Deve ser algum larapio", pensou ela, "algum vassalo do Sieur Traseiro de Pau,  espera de uma oportunidade para entrar em ao. Seria bem divertido surpreend-lo 
e falar-lhe m gria, para ver a cara que ele'faria."
  Ela sorriu antecipadamente. No era todos os dias que um rapa-bolsas de emboscada podia ter ocasio de se encontrar diante de uma grande dama que falava a pura 
linguagem da Tour de Nesle e do Faubourg Saint-Denis. "Em seguida dar-lhe-ei minha bolsa, para arrancar o pobre homem ao seu estupor!", pensou ela, encantada de 
uma brincadeira que no teria testemunha.
  Mas, quando se aproximou, de mansinho, viu que o homem estava ricamente vestido, embora seus trajes estivessem sujos de lama. Ele se conservava de joelhos, com 
o busto inclinado para a frente, apoiado sobre os cotovelos, em uma postura estranha. De sbito, ele voltou nervosamente a cabea, como se escutasse, e ela reconheceu 
o Duque d'Enghien, filho do Prncipe de Conde. J o encontrara nos passeios da moda, nas Tulherias, no Cours-la-Reine. Era um adolescente muito brilhante, mas que 
diziam intratvel nas questes de etiqueta e desprovido de moderao.
  Anglica constatou que ele estava muito plido, com uma expresso selvagem.
  "Que faz ele ali? Por que se esconde? Que receia?", perguntou ela a si mesma, tomada de um mal-estar indefinvel.
  Depois de .hesitar, ela se retirou sem rudo e voltou a uma das grandes alias do jardim. Passou pelo suo, que, vendo-a, ficou assombrado.
  - Oh! Senhora, que faz aqui? Retire-se depressa!
  -        Mas por qu? Voc bem sabe que eu estou na lista da Srta. de Montpensier. E sua mulher deixou-me entrar sem dificuldades.
  O guarda olhou em volta de si com ar desolado. Anglica sempre fora muito generosa para com ele.
  -        Que a senhora me perdoe - cochichou ele, aproximando-se -, mas minha mulher no sabe o segredo que vou confiar-lhe: o jardim est hoje interditado ao 
pblico, porque desde cedo andam  procura do Sr. Duque d'Enghien, que imagina ser um coelho.
  E, como a jovem escancelasse os olhos, ele tocou as fontes com o dedo.
  - Sim, isso lhe d de vez em quando, pobre rapaz! Parece que  uma doena. Quando ele se supe coelho ou perdiz, tem medo de que o matem e corre a esconder-se. 
Faz horas que o procuramos.
  - Ele est ali na moita, perto da pequena gruta. Eu o vi.
  - Graas a Deus!  preciso ir prevenir o senhor prncipe. Ah! Vem ele a.
  Uma cadeirinha se aproximava. O Prncipe de Conde ps a cabea pela janela.
  -        Que faz aqui, senhora? - perguntou ele, furioso.
O suo apressou-se em intervir.
  - Monseigneur, esta senhora acaba de descobrir o senhor duque junto da pequena gruta.
  - Ah! bem. Abram-me essa portinhola, tratantes. Ajudem-me a descer! No faam tanto barulho; vo assust-lo. Voc a, corra a buscar seu primeiro criado de quarto, 
e rena voc todos os homens que possa encontrar e coloque-os nas sadas...
  Alguns instantes mais tarde, ouviram-se nas moitas saltos desordenados, depois uma carreira rpida. O Duque d'Enghien surgiu, correndo a toda a velocidade. Mas 
dois domsticos que o perseguiam conseguiram agarr-lo e ret-lo. Ele foi logo cercado e dominado. Seu primeiro camareiro, que o tinha criado, falou-lhe com doura:
  -        Ningum o matar, monseigneur. Ningum o fechar numa gaiola... Daqui a pouco o soltaremos e poder correr de novo no campo.
  O Duque d'Enghien estava lvido. No dizia uma palavra, mas tinha no olhar a expresso pattica e interrogadora dos animais acossados. Seu pai aproximou-se. O 
rapaz debatia-se furiosamente, mas sempre em silncio.
  -        Levem-no - disse o Prncipe de Conde. - Chamem seu mdico e seu cirurgio. Que o sangrem, que o purguem e, principalmente, que o amarrem. No tenho a 
mnima disposio de recomear uma nova brincadeira de esconder esta tarde. Farei surrar aquele que o deixar fugir de novo.
  O grupo afastou-se. O prncipe voltou-se para Anglica, que tinha assistido, completamente abalada, quela triste cena e que estava quase to plida quanto o pobre 
enfermo.
  Conde postou-se diante dela e examinou-a com olhar sombrio.
  - Bem! - disse ele. - Voc o viu? Ele  belo, descendente dos Conde, dos MontmorencyL. Seu bisav tinha manias, sua av era louca. Tive de casar com a filha. Na 
poca, ela j comeava a arrancar os cabelos, um a um, com uma pina. Eu sabia que seria atingido em minha descendncia, mas tive de casar com ela de qualquer maneira. 
Era uma ordem do Rei Lus XIII. E aqui est meu filho. s vezes, acredita que  co, e luta para evitar latir diante do rei. Ou ento pensa que  morcego, e receia 
chocar-se contra os lambris de seu apartamento. Outro dia ele sentiu-se transformar em planta, e foi preciso que os criados o regassem... E engraado, no ? No 
vaip rir?
  - Monseigneur... como pode acreditar por um segundo que eu tenha vontade de rir?... Evidentemente, o senhor no me conhece...
  Ele a interrompeu com um sorriso sbito que iluminou seu rosto severo:
  -        Eu a conheo bem, Sra. Morens. Eu a vi em casa de Ninon e de outros. Voc  alegre como uma jovem, bela como uma cortes e tem o corao afagante de uma 
me. Alm disso, suspeito que seja uma das mulheres mais inteligentes do reino. Mas no
faz alarde disso, porque  astuta e sabe que os homens temem as eruditas.
  Anglica sorriu, por sua vez, surpresa dessa declarao inesperada.
  - Monseigneur, o senhor me lisonjeia... E eu gostaria de saber quem lhe deu essas informaes a meu respeito...
  - No tenho necessidade de que algum me informe - disse ele com sua maneira brusca e spera de guerreiro. - Eu a observei. Nunca percebeu que eu a olhava com 
frequncia? Acredito que me receia um pouco. No entanto, voc no  tmida...
  Anglica levantou os olhos para o vencedor de Lens e Rocroi. No era a primeira vez que ela o olhava-assim. Mas certamente o prncipe estava a cem lguas de recordar 
a patinha cinzenta que me fizera frente e  qual ele dissera: "Quando voc for mulher, ja estou prevendo que haver homens que se enforcaro por terem-na encontrado".
  Ela sempre acreditara que alimentava profundo dio ao Prncipe de Conde, e teve de defender-se contra um sentimento de simpatia, de compreenso, que nascia entre 
eles. No havia ele feito espion-los durante anos, a ela e seu marido, pelo criado Clemente Tonnel? No tinha herdado bens de Joffrey de Peyrac? Havia muito que 
Anglica perguntava a si mesma como poderia saber exatamente o papel que o Prncipe de Conde havia desempenhado em seu drama. O acaso servia-a estranhamente.
  -"No responde nada? - disse o prncipe. -  ento verdade que eu a intimido?
  - No! Mas sinto-me muito indigna de conversar com o senhor, monseigneur. Sua fama...
  - Ora! minha fama... Voc  demasiadamente jovem para saber dela alguma coisa. Minhas armas esto enferrujadas e, se Sua Majestade no se decidir a dar uma lio 
a esses patifes holandeses ou ingleses, arrisco-me bem a morrer em meu leito. Quanto a conversar, Ninon disse-me cem vezes que as palavras no so balas que se enviam 
ao estmago de um adversrio, e ela pretende que eu ainda no aprendi bem a lio. Ah! Ah!
  Ele soltou uma ruidosa gargalhada e segurou-lhe o brao com desenvoltura.
  - Vamos. Minha carruagem espera-me l fora, mas, para caminhar, sou forado a apoiar-me em um brao caridoso. Eis o que devo  minha fama: dores contradas nas 
trincheiras cheias de gua e que, certos dias, me fazem arrastar a perna como um velho. Quer fazer-mc companhia por alguns momentos? Sua presena  a ni-' i que 
me parece suportvel depois do penoso dia que acabamos de passar. Conhece minha Manso do Beautreillis?
  Anglica respondeu, com um salto do corao:
  - No, monseigneur.
  - Dizem que  uma das mais belas coisas construdas pelo velho Mansart. Eu no me sinto bem ali, mas sei que as damas se extasiam diante da beleza dessa morada. 
Venha v-la.
  Embora relutasse em admiti-lo, Anglica apreciava a honra de estar sentada no coche de um prncipe de sangue, que os transeuntes aclamavam  sua passagem.
  Estava surpresa da ateno que seu companheiro lhe testemunhava e que ela sentia sincera. Dizia-se abertamente que o Prncipe de Conde, desde que sua amiga Marta 
du Vigean havia entrado para o Convento das Carmelitas do Faubourg Saint-Jacques, no dispensava mais s mulheres as atenes que a nobreza da Frana tinha o costume 
de prestar-lhes. Ele no lhes pedia seno um prazer todo fsico e, fazia anos, s se lhe conheciam aventuras de curta durao e de muito baixa origem. Nos sales, 
sua rudeza para com o belo sexo desencorajava as melhores vontades. Dessa vez, entretanto, o prncipe parecia fazeresforos para agradar  sua companheira.
  A carruagem deu a volta no ptio da Manso do Beautreillis.
  Anglica subiu a escadaria de mrmore. Cada detalhe daquela vivenda harmoniosa e clara falava-lhe de Joffrey de Peyrac. Ele quisera aquelas linhas flexveis como 
gavinhas nos ferros forjados dos balces e das balaustradas, aqueles frisos de madeira esculpida recobertos de ouro a emoldurarem os altos planos lisos dos mrmores 
ou dos espelhos, aquelas esttuas e aqueles bustos, aqueles animais e aqueles pssaros de pedra, presentes em toda parte como graciosos gniosde um lar feliz.
  -        No diz nada? - admirou-se o Prncipe de Conde, aps haverem percorrido os dois andares de aposentos luxuosos. - Geralmente, minhas visitantes fazem exclamaes 
de papagaio. Ser que este conjunto no lhe agrada? Dizem, entretanto, que voc  muito entendida no que concerne  organizao de uma casa.
  Eles se achavam em uma sala forrada de cetim azul bordado a ouro. Uma grade de ferro forjado, de requintado desenho, separava-os da comprida galeria que dava para 
os jardins.
  Ao fundo, a lareira, ladeada por dois lees esculpidos, exibia no fronto um ferimento recente. Anglica ergueu o brao e ps a mo nele.
  -        Por que danificaram este ornamento? - perguntou ela. - No  o primeiro estrago que observo. Olhe, nas janelas desta mesma sala apagaram o desenho em 
certos lugares.
  O rosto do senhor prncipe tornou-se sombrio.
  -        So as cifras do antigo proprietrio da casa, que eu fiz apagar. Um dia, restaurarei isso. No sei quando!... Prefiro empregar meu dinheiro na instalao 
da casa de campo em Chantilly.
  Anglica conservava a mo sobre o escudo mutilado.
  - Por que no deixou as coisas como estavam, em lugar de danific-las assim?
  - A viso das armas desse homem causava-me desprazer. Ele era um maldito.
  - Um maldito? - repetiu Anglica.
  -        Sim. Um gentil-homem que fabricava ouro por meio de um segredo que lhe fora revelado pelo Demnio. Foi queimado vivo. E o rei me fez doao de seus bens. 
No estou ainda bem certo de-que Sua Majestade no houvesse procurado trazer-me infelicidade com esse gesto.
  Anglica, a passos lentos, aproximara-se da janela e olhava para fora.
  -        O senhor o conhecia, monseigneur?.
  \- Quem? O gentil-homem condenado?... Oh! No, e tanto me-lhafpara mim!
  -        "Creio lembrar-me do caso - disse ela, espantada de sua audcia e ncxentanto muito calma. - Ser que no era um tolosano, um Sr... de^peyrac?
  -        Sim, realmente - confirmou ele com indiferena.
Ela passou a lngua sobre os lbios secos.
  - No disseram que ele fora condenado principalmente porque conhecia um terrvel segredo do Sr. Fouquet, que era ento muito poderoso?
  -  possvel. O Sr. Fouquet considerou-se durante muito tempo o verdadeiro rei da Frana. Ele tinha bastante dinheiro para isso. Mandou fazer asneiras com muita 
gente. Comigo, por exemplo. Ah! Ah! Ah!... Ora! Tudo isso pertence ao passado.
  Anglica voltou-se lentamente para observ-lo. Ele se deixara cair em uma poltrona e acompanhava com a ponta do basto as rosceas do tapete. Se ele teve uma zombaria 
amarga ao lembrar-se das asneiras que o Sr. Fouquet mandara fazer com ele, no reagira s aluses concernentes a Joffrey de Peyrac. A jovem teve a certeza de que 
no fora ele quem, durante anos, mantivera junto dela o criado Clemente Tonnel. Quem sabe? Talvez aquele Clemente Tonnel j houvesse sido colocado como espio, pelo 
Sr. Fouquet, junto ao Prncipe de Conde. Haviam-se visto nas conspiraes daquele tempo as intrigas mais complicadas. E os nobres tinham razo de praticar a poltica 
da memria curta.
  Que necessidade havia, para o senhor prncipe, de lembrar que outrora quisera envenenar Mazarino e que se vendera a Fouquet? Ele tinha de esforar-se bastante 
para recuperar o valimento de um jovem rei ainda desconfiado, e para conquistar aquela bela mulher cuja melancolia secreta, sob o riso alegre, o tinha seduzido mais 
profundamente do que ele queria acreditar.
  -        Eu estava em Flandres  poca do processo de Peyrac - tor
nou ele. - No acompanhei o processo. Antes assim! Ganhei a vivenda e confesso que no me regozijo muito. Parece que o feiticeiro nunca a habitou. No entanto, vejo 
nessas paredes algo triste e sinistro. Dir-se-ia uma decorao preparada para uma cena que jamais se realizou... Esses objetos graciosos aqui reunidos esperam um 
hspede que no sou eu. Conservei um velho palafreneiro que pertencia  criadagem do Conde de Peyrac. Ele diz que v seu esprito certas noites... E possvel. Respiro 
aqui uma presena que me repele e me enxota. Permaneo nesta casa o mnimo possvel. Ser que voc tambm experimenta essa penosa impresso?
  -        No, pelo contrrio - murmurou ela.
  Seu olhar errava em torno de si. "Aqui, estou em minha casa", pensou. "Eu e meus filhos, eis os hspedes que essas paredes esperam."
  - Ento esta moradia lhe agrada?
  - Amo-a. Ela  admirvel. Oh! Gostaria de morar aqui! - exclamou Anglica, juntando as mos sobre o peito com uma paixo inesperada.
  - Voc poderia morar aqui, se quisesse - disse Conde.
  A visitante voltou:se vivamente para o prncipe. Ele fitou nela aquele olhar magnfico e imperioso, do qual um dia o Sr. Bossuet falaria em termos eloquentes: 
"Esse prncipe... que trazia em seus olhos a vitria..."
  -        Morar aqui? - repetiu Anglica. - A que ttulo, monseigneur?
Ele sorriu de novo e ergueu-se abruptamente para aproximar-se dela.
  -        J lhe direi. Tenho quarenta e quatro anos, j no sou jovem, mas ainda no sou velho. Sinto s vezes dores nos joelhos,  certo, mas o resto ainda est 
bem-disposto. Digo-lhe isto cruamente. Em resumo, creio que posso ser um amante suportvel. Penso que voc no ficaria melindrada com a minha declarao. Ignoro 
de onde voc saiu, mas alguma coisa me diz que tem ouvido muitas de outros, e eu pelo menos no a pego  traio. Com as mulheres costumo ir direto ao assunto; acho 
intil usar de tantos rodeios para chegar sempre  mesma pergunta: "Quer ou no quer?"... No, no responda ainda. Quero que conhea bem algumas vantagens que poderei 
proporcionar-lhe. Voc teria uma penso... Sim, eu sei, j  muito rica. Pois bem! Escute, "dar-lhe-ei esta Manso do Beautreillis, j que ela lhe agrada. Ocupar-me-ei 
de seus filhos e os recomendarei em sua educao. Sei tambm que  viva e bastante ciosa da sua reputao de castidade.  verdade que isso  um bem precioso, mas... 
considere que eu no lhe peo que perca essa reputao por um velhaco. E, j que me falou da minha fama, permita-me fazer-lhe notar que... Ele hesitou com uma modstia 
real e tocante.
  - ...que no  uma desonra ser amante do Grande Conde. Nossa sociedade  assim. Apresent-la-ei por toda parte... Por que esse sorriso ctico e algo desdenhoso, 
senhora?
  - Porque - disse Anglica, sorrindo - eu me recordei deste refro que Hurlurot, um velho truo, costuma cantar nas esquinas:
  "Os prncipes so pessoas estranhas.
  Felizes os que no os conhecem muito.
  Mais felizes os que no precisam deles..."
  -        Ao diabo o insolente! - exclamou ele com furor fingido.
Tomou-a pela cintura e puxou-a contra si.
  -         por isso que eu a amo, minha amiga - disse ele, com voz contida. - Porque observei que, em sua profisso de mulher, voc tem uma grande audcia de guerreiro. 
Ataca no momento certo, aproveita a fraqueza do adversrio com uma habilidade maquiavlica e desfere contra ele golpes terrveis. Mas no retrocedeu com bastante 
rapidez para as suas posies. Ataco-a eu agora!... Como voc  fresca e firme! Tem um pequeno corpo sadio e tranquilizante!... Ah! como eu gostaria que no me escutasse 
co
mo prncipe, mas tal qual eu sou, isto , um pobre homem bastante infeliz. Voc  to diferente das coquetes de corao frio!
  Encostou a face nos cabelos de Anglica.
  - H nos seus cabelos louros uma mecha de cabelos brancos que me comove. Parece que, sob seu ar de juventude e alegria, tem a experincia que deriva das grandes 
dores. Estarei enganado?
  - No, monseigneur - respondeu Anglica docilmente.
  Ela pensava que, se na manh daquele dia algum lhe houvesse dito que antes do anoitecer ela estaria nos braos do Prncipe de Conde e reclinaria sem revolta a 
fronte naquela augusta espdua, teria gritado que a vida no era to louca. Mas sua vida nunca fora simples, e ela comeava a se habituar s surpresas da sorte.
  -        Desde a minha juventude - continuou ele -, s amei uma mulher. Nem sempre lhe fui fiel, mas no amei seno a ela. Era bela, doce, e era a companheira 
de minha alma. As intrigas e conspiraes que se formavam sem cessar para nos separar acabaram por fatig-la. Desde que ela tomou o vu, que me resta? Em toda a 
minha vida no tive mais de dois amores: ela e a guerra. Minha bem-amada retirou-se para um convento e o tratante do Mazarino assinou a paz dos Pireneus. No sou 
mais que um manequim pomposo, que vive a cortejar o jovem rei na esperana de obter, sabe Deus quando, algum governo militar e talvez um comando, se algum dia ele 
tiver a feliz ideia de reclamar o dote da rainha aos flamengos. Fala-se no assunto... Mas deixemos isso, no quero molest-la. Sua viso despertou em mim uma chama 
viva, que parecia extinguir-se. A morte do corao  a pior... Eu gostaria de conserv-la junto de mim...
  Anglica desprendera-se brandamente enquanto ele falava, e recuou um pouco.
  -        Monseigneur...
  - Sua resposta  "sim", no ? - disse ele com ansiedade. - Oh! Eu lhe suplico... Que a retm? Ama outro homem? No vai dizer-me que tem afeto a esse criado de 
baixa extrao, esse Audi-ger que a acompanha na cidade como um co fiel.
  - Audiger  meu scio nos negcios.
  - O que no impediu - rosnou ele, subitamente enciumado - que as tivessem vist ontem no teatro com o mordomo do Conde de Soissons.  o cmulo da vulgaridade!
  - Monseigneur - respondeu ela -, sabe que no renego nunca os meus amigos enquanto eles me so teis. Eu ainda preciso do mordomo Audiger.
  Ele mordeu os lbios.
  - Meu Deus! Voc  temvel, quando fala assim.
  - Como v, no sou apenas tranquilizante - disse ela com um pequeno sorriso.
  - Que importa?!  tal qual  que a desejo.
  Ela no podia compreender o dilema que ele lhe suscitara. Que teria ela respondido se ele lhe houvesse feito essa proposta em outro lugar? Ela no sabia.
  Mas ali, naquela manso em que penetrava pela primeira vez, ela se achava cercada de fantasmas. Perto do Prncipe de Conde, surgido do passado, com sua rhingrave 
um pouco fora de moda, existia a luminosa e dura silhueta de Filipe, em seus cetins plidos, e, por trs deles, aquela sombra mascarada, vestida de veludo negro 
e prata, com um solitrio rubi sanguneo em um dos dedos, o gentil-homem maldito que tinha sido seu mestre e seu nico amor.
  Entre todos aqueles que a vida ou a morte haviam libertado, somente ela permanecia prisioneira da antiga tragdia.
  -        Que h? - disse o prncipe. - Por que essas lgrimas em seus olhos? Que mgoa lhe causei? Fique nesta casa, que tanto lhe apraz. Permita que a ame. Eu 
serei discreto...
  Ela sacudiu lentamente a cabea.
  - No,  impossvel, monseigneur. 
  
  CAPITULO XIV
  
  Hortasia reaparece - Uma sensacional partida de hoca - Anglica arrisca sua fortuna e sua virtude
  
  Quando ela teve ocasio de rever o Prncipe de Conde, ele no lhe demonstrou nenhum ressentimento. Ele no tinha no amor a arrogncia que mostrava na corte e nos 
campos de batalha.
  -        Ao menos no me abandone para a minha partida de boca disse-lhe ele. - Conto com voc, em casa de Ninon, toda segunda-feira.
  Ela decidiu-se a ir, feliz de testemunhar-lhe sua amizade. A proteo do senhor prncipe no era de desdenhar. E, cada vez que Anglica pensava na Manso do Beautreillis, 
sentia um estremecimento. No lamentava, entretanto, haver recusado a proposta. Mas Manso do Beautreillis era dela. Isso a revoltava. Indignava-se Je no poder 
reivindic-la sem compensao.
  Sua personalidade de comerciante enriquecida pesava-lhe cada ez mais. Certa vez, ouvindo Ninon pronunciar o nome de San-, perguntou vivamente:
  -        Conhece algum de minha famlia?
  -        Sua famlia? - admirou-se a cortes.
Anglica disfarou como pde:
  -        Pensei ter ouvido Rance. So parentes distantes... De quem falava, ento?
  -        De uma amiga que deve chegar a-qualquer momento. Ela tem animao e eu me deleito em ouvi-la, se bem que a receiem mui-
  o: a Sra. Fallot de Sanc.
  -        Fallot de Sanc - repetiu Anglica, endireitando-se de repente, Seus olhos se dilataram.
  - E ela vai vir... aqui?
  - Vai vir, sim. Eu aprecio seu esprito... muitas vezes malvolo,  verdade. Mas so necessrias essas lnguas que destilam vinagre para trazer um pouco de pimenta 
 conversao. Um mundo de doura e benignidade seria inspido.
  - Eu ficaria contente, confesso-o.
  - Voc parece odiar a Sra. Fallot de Sanc.
  - Isso  dizer pouco.
  - Ela estar aqui dentro de um instante.
  - Vou arrancar-lhe a pele!
  - No, minha amiga... isso no se faz em minha casa.
  - Ninon, voc no pode saber... voc no pode compreender.
  - Querida, se todas as pessoas que se encontram aqui decidissem resolver imediatamente suas querelas, eu assistiria cada dia a trs ou quatro mortes violentas... 
Assim, haver de ser prudente. Ser que isso lhe faz mal?
  - Faz, sim - disse Anglica, que se sentia muito plida. - Tenciono ir embora.
  - Por que no procura ficar? Todas as paixes podem ser dominadas, minha amiga, mesmo o rancor mais justificado. No existe justificao para a loucura, e a clera 
 uma delas. Quer um conselho? Afaste-se de sua clera como de uma frigideira incandescente. Sente-se tranquilamente dentro de si mesma, e evite olhar para as razes 
de seu dio.
  - Ser difcil para mim, se eu tiver de conversar com minha irm.
  - Sua irm?
  - Oh! Ninon, no sei mais o que digo - murmurou Anglica.
  -        E uma experincia superior s minhas foras.
  -        No existem experincias superiores s suas foras, Anglica -respondeu Ninon, sorrindo. - Quanto mais a conheo, mais me persuado de que  capaz de tudo... 
mesmo disso. Veja, a vem a Sra. Fallot. Fique aqui neste canto um momento, para recobrar o seu sangue-frio.
  Ninon afastou-se e foi para junto de um grupo de senhoras que chegavam.
  Anglica sentou-se em um banco estofado de pelcia. Como em um sonho, reconheceu, destacando-se entre os cumprimentos, a voz aguda de sua irm. Era aquela mesma 
voz que lhe gritara um dia:
  -        V embora! V embora!
  Anglica recuou para dentro de si mesma, como lhe recomendara Ninon, e procurou esquecer aquele grito.
  Ao cabo de um instante, ousou levantar a cabea e olhar para o salo. Reconheceu Hortnsia em um belssimo vestido de tafet vermelho-escuro. Tinha emagrecido 
mais e ficado mais feia, se isso era possvel, mas pintava-se e penteava-se bem. Sua voz esganiada provocava risos. Parecia ter uma viveza de esprito extraordinria.
  Ninon tomou-lhe o brao e levou-a para o canto onde se achava Anglica.
  -        Cara Hortnsia, h muito tempo que desejava encontrar a Sra. Morens. Eu lhe fiz esta surpresa. Ei-la aqui.
  Anglica no tivera tempo de fugir. Viu muito perto de si o rosto medonho de Hortnsia, franzido em uma expresso aucarada. Mas sentia-se agora muito calma.
  -        Boa tarde, Hortnsia.'- disse ela..
Ninon olhou-as um instante e afastou-se.
  A Sra. Fallot de Sanc teve um sobressalto violento. Seus olhos amendoados alargaram-se. Tornou-se amarela sob a pintura.
  -        Anglica! - murmurou ela.
  - Sim, sou eu. Sente-se, minha cara Hortnsia... Por que tem o ar to espantado? Pensava sinceramente que eu estava morta?
  - De fato! - disse violentamente Hortnsia, que se reanimava.
  Ela fechou o leque na mo como uma arma. Suas sobrancelhas se aproximaram, sua boca se convulsionou. Anglica a encontrava inteira.
  "Como est feia! Como  horrvel!", disse a si prpria, com a mesma jubilao pueril dos tempos de sua infncia.
  - E permita-me afirmar-lhe - continuou Hortnsia, acremente - que, segundo a opinio da famlia,  o que teria de melhor a fazer: morrer.
  - No compartilho a opinio da famlia a esse respeito.
  - E uma pena. Que cara faramos agora? O eco desse terrvel caso mal comea a extinguir-se. Tnhamos conseguido fazer esquecer que voc era dos nossos, e eis que 
voc reaparece para prejudicar-me novamente!
  Se  disso que voc tem medo-, no tenha receio, Hortnsia- disse Anglica tristemente. - A Condessa de Peyrac no reaparecer jamais. Conhecem-me agora sob o 
nome de Sra. Mo-rens. Isso no acalmou a mulher do procurador.
  -        Ento  voc a Sra. Morens? Uma original que leva uma vida escandalosa, uma mulher que negocia como um homem ou a viva de um padeiro. Voc passar a 
vida a se singularizar para nos desonrar? Dizer-se que s existe em Paris uma mulher que vende chocolate, e que ela teria de ser minha prpria irm!...
  Anglica ergueu os ombros. As jeremiadas de Hortnsia no a comoviam.
  -        Hortnsia - disse ela de repente -, d-me notcias de meus filhos.
  A Sra. Fallot interrompeu-se e olhou sua irm com ar estpido.
  -        Sim, meus filhos - repetiu Anglica -, meus dois filhos que eu lhe confiei quando me caavam por toda parte.
  Ela viu que Hortnsia se preparava de novo para a luta.
  - Era tempo de se informar dos seus filhos! Foi por me encontrar que pensou neles - chasqueou ela. - Eis, decididamente, um corao de me extremosa...
  - Eu tive dificuldades...
  - Antes de comprar atavios como esses que exibe, voc teria podido, parece-me, informar-se de sua sorte.
  - Eu os sabia em segurana perto de voc. Fale-me deles. Como vo?
  - Eu... eu no os vejo h muito tempo - disse Hortnsia com esforo.
  - No esto, pois, com voc? Entregou-os a uma ama?
  - Que mais eu poderia fazer?! - exclamou a Sra. Fallot, em novo acesso de clera. - Iria guard-los comigo, quando nunca pude pagar uma ama a domiclio para meus 
prprios filhos?
  -        Mas agora? Eles esto crescidos. Que  feito deles?
Hortnsia olhou em volta de si, como acuada. De sbito suas feies se abateram e os cantos de sua boca desceram de maneira lamentvel. Anglica teve a impresso 
surpreendente de que sua irm ia desfazer-se em soluos.
  -        Anglica - disse ela com voz sufocada -, no sei como dizer-lhe... Seus filhos...  horrvel... Seus filhos foram raptados por uma cigana!
  Virou para o lado a cabea. Seus lbios tremiam. Houve um longo silncio.
  - Como voc soube disso? - perguntou afinal Anglica.
  - Pela ama... quando fui a Neuilly. Era muito tarde para prevenir a polcia... J fazia seis meses que seus filhos tinham sido raptados...
  - Ento, voc ficou mais de seis meses sem ir ver a ama, sem pagar-lhe, talvez?        
  - Pagar?... Com qu? Mal tnhamos com que viver. Depois do escndalo do processo de seu marido, Gasto perdeu quase toda a clientela; foi necessrio que nos mudssemos. 
Logo que pude, fui a Neuilly. A ama contou-me o drama..: Parece que um dia uma cigana, uma mulher andrajosa, entrou no ptio e reclamou as duas crianas, dizendo-se 
me delas. E, como a ama quisesse chamar os vizinhos, ela feriu-a com uma grande faca... Eu prpria fui obrigada a pagar uma conta do boticrio, por causa desse 
fe-
  . rimento...
  Hortnsia fungou k procurou o leno na esmoleira. Anglica permanecia de boca aberta. s lgrimas que avermelhavam os olhos de Hortnsia estupidificaram-na mais 
ainda do que ouvir que sua irm tinha voltado  casa da ama.
  A mulher do procurador pareceu perceber o seu comportamento inslito:
  -        Ento,  esse todo o efeito que isso lhe causa? - disse ela.
- Conto-lhe que seus filhos desapareceram e voc fica mais indiferente que um pedao de pau?... Ah! ns somos muito idiotas, Gasto e eu, que nos temos consumido 
durante anos pensando nesse pobrezinho do Florimond, arrastado pelas estradas com...
ciganos!
  A voz quebrou-se na ltima palavra.
  - Hortnsia, acalme-se - balbuciou Anglica. - No aconteceu nada de mau s crianas. Essa... essa mulher que foi busc-los... era eu.
  - Voc!
  Nos olhos horrorizados de Hortnsia, Anglica viu passar a imagem de uma mulher em farrapos, armada de uma faca pontiaguda.
  -        A ama exagerou: eu no estava em farrapos e no a feri com uma faca. Apenas tive de gritar um pouco alto porque os meninos se achavam num estado espantoso. 
Se eu no os fosse buscar, voc nunca mais os encontraria, porque eles estariam mortos. De outra vez, trate de escolher um pouco melhor a ama.
  -        Evidentemente. Com voc pode-se sempre prever uma outra vez - disse Hortnsia levantando-se, fora de si. - Voc  de um desleixo incrvel, de uma insolncia, 
de uma... Adeus.
  E retirou-se, derribando o tamborete em sua ira.
  Deixada s, Anglica permaneceu muito tempo com as mos juntas sobre o vestido, em atitude de meditao. Ela dizia a si mesma que as pessoas no so sempre to 
ms quanto poderiam ser.
  Uma Hortnsia que, sob a influncia de um medo abjeto, a expulsara sem compaixo era capaz de sentir remorsos lembrando-se de um pequeno Florimond transformado 
em cigano.
  Um galhofeiro meridional como Andijos, muito bom para perder ao jogo e para fazer tufar seus punhos de renda, subitamente insurgia-se contra o rei e mantinha, 
durante quatro anos, como chefe de bando, uma provncia inteira em revolta.
  Um Prncipe de Conde salvava um reino, tramava assassnios, atraioava, depois humilhava-se para recuperar o valimento do monarca, e no era, no fundo, seno um 
homem simples, realmente modesto, entristecido pela loucura de seu filho, um homem cuja vida inteira fora dominada por um nico amor terno e apaixonado.
  No dia seguinte, Anglica enviaria Florimond e Cantor  casa dos Fallot de Sanc, com presentes para seus primos e para sua tia.
  - Voc est a? - perguntou Ninon, levantando a cortina. - Vi partir a Sra. Fallot. Ela parecia de boa sade, mas de mau humor. Devo acreditar que voc lhe arrancou 
a pele?
  - Pensando bem - respondeu Anglica suavemente -, achei que seria mais cruel deix-la como estava.
  Esse mesmo dia poderia ser marcado com uma pedra branca. Foi aps o anoitecer que se jogou, entre a Sra. Morens e o Prncipe de Conde, a clebre partida de hoca 
que devia entreter os mexericos mundanos, escandalizar os devotos, encantar os libertinos e divertir toda Paris.
  A partida comeou, como de hbito,  hora de trazerem as velas. Conforme a sorte dos jogadores, poderia durar trs ou quatro horas. Depois, haveria uma pequena 
ceia. Em seguida, cada um iria para sua casa.
  O hoca comeava com um nmero ilimitado de participantes.
  Nessa noite, uma quinzena de jogadores iniciaram a partida. Jogava-se forte. Os primeiros lances eliminaram rapidamente metade dos parceiros. A partida tornou-se 
mais lenta.
  De sbito, Anglica, que estava distrada e pensava em Hortnsia, percebeu, com espanto, que fazia ousadamente um combate muito cerrado contra o senhor prncipe, 
o Marqus de Thianges e o Presidente Jomerson. Era ela quem, havia algum tempo, "mandava" no jogo. O pequeno Duque de Richemont, que a adorava, marcava seus cartes 
e, dando-lhes uma olhada, ela viu que tinha ganho uma pequena fortuna.
  - Est com sorte esta noite, senhora -. disse-lhe o Marqus de Thianges com uma visagem. - H perto de uma hora que tem a banca e no parece decidida a larg-la.
  - Nunca vi um jogador conservar a banca tanto tempo! - exclamou o pequeno duque, muito excitado. - Senhora, no esquea que, se a perder, dever reembolsar a cada 
um desses senhores a mesma soma que ganhou at agora. Ainda  tempo de parar. Tem direito a isso. \
  O Sr. Jomerson ps-se a gritar que os espectadores no tinham o direito de intervir e que, se aquilo continuasse, ele faria evacuar a sala. Acalmaram-no fazendo-lhe 
notar que ele no estava no Palcio da Justia, mas em casa da Srta. de Lenclos. Esperaram a deciso de Anglica.
  -        Eu continuo - disse ela.
  E distribuiu as cartas. O presidente respirou. Ele tinha perdido muito e esperava que um golpe de sorte viesse, no segundo imediato, recompens-lo, ao cntuplo, 
de suas imprudncias. Jamais se vira um jogador conservar a banca tanto tempo quanto aquela dama. Se a Sra. Morens se aferrasse, estaria fatalmente perdida, e tanto 
melhor para os outros. Era bem de uma mulher persistir daquela maneira! Felizmente, ela no tinha marido a quem prestar contas; do contrrio, o pobre homem poderia 
desde logo preparar-se para fazer vir seu intendente a fim de saber de quanto dispunha ainda em dinheiro lquido.
  Entrementes, o Presidente Jomerson teve de mostrar um jogo lamentvel, e abandonou a partida, muito embaraado.
  Anglica ainda mandava. Assistentes a cercavam e pessoas que estavam de sada no se decidiam a ir embora: ficavam na ponta dos ps, com o pescoo espichado.
  Durante algumas mos conservou-se a igualdade. Nesse caso, Anglica topava a parada feita, mas nenhum jogador era eliminado. Depois o Sr. de Thianges perdeu e 
deixou a mesa enxugando a testa. A noite tinha sido cruel! Que diria sua mulher, ao ouvir que ele devia pagar  Sra. Morens, a chocolateira, as rendas de "dois anos? 
Desde que ela ganhasse, naturalmente! No caso contrrio, ela deveria pagar ao Prncipe de Conde o dobro da quantia que j havia ganho. Sentiam vertigens s m pensar 
nisso! Aquela mulher estava doida! Corria ao encontro de sua runa. No ponto a que ela chegara nenhum jogador, ainda o mais louco, teria o atrevimento de continuar.
  -        Detenha-se, meu amor! - suplicava o pequeno duque ao ou
vido de Anglica. - Voc no pode mais ganhar.
  Anglica tinha a mo pousada sobre o mao de cartas. Era um pequeno tijolo, liso e duro, que lhe queimava a palma.
  Ela fixou um olhar atento sobre o Prncipe de Conde. A partida, no entanto, no dependia somente dele, mas da sorte.
  A sorte achava-se diante dela. Assumira as feies do Prncipe de Conde, seus olhos de fogo, seu nariz aquilino, seus dentes brancos e agudos, que um sorriso descobria. 
 j no eram cartas que ele tinha entre as mos, mas um cofrezinho em que brilhava um frasco verde de veneno.
  Em volta dele, s havia trevas e silncio.
  Depois o silncio quebrou-se como vidro, ao choque da voz de Anglica:   .
  -        Eu continuo.
  Dessa vez ainda houve igualdade. Villarceaux ps-se  janela. Chamava os transeuntes, gritando-lhes que era preciso subir, que nunca se vira partida to sensacional 
desde aquela em que seu av tinha jogado sua mulher e seu regimento, no Louvre, com o Rei Henrique IV.
  Espectadores amontoavam-se no salo. Os prprios criados tinham subido s cadeiras para acompanhar de longe a peleja. As 'velas fumegavam. Ningum cuidava de espevit-las.
  Fazia um calor sufocante.
  - Eu continuo. - repetiu Anglica.
  - Igualdade.
  - Se ainda durante trs mos houver igualdade, haver a "escolha dos prmios".
  - O supremo lance do hoca... Um lance que no se v seno de dez em dez anos!
  - De vinte em vinte, meu caro.
  - Uma vez em cada gerao.
  - Lembrem-se do financista Tortemer, que pediu o braso de Montmorency.
  - Que tinha pedido a frota inteira de Tortemer.
  - Foi Tortemer quem perdeu...  
  - Continua, senhora?
  - Continuo.
  Um bulcio quase derribou a mesa e dobrou os dois jogadores sobre suas cartas.
  -        Com os demnios! - praguejou o prncipe, procurando seu
basto. - Juro-lhes que os espancarei a todos, se no nos deixa
rem respirar. Afastem-se, que diabo!...
  O suor rociava a fronte de Anglica. Somente o calor a fazia transpirar. Ela no experimentava nenhuma ansiedade. No pensava nem em seus filhos nem em todos os 
esforos que havia empregado e que estavam-a ponto de ser anulados.
  Na verdade, tudo lhe parecia perfeitamente lgico. Durante muitos anos ela lutara contra a sorte, como uma toupeira laboriosa. Eis que se encontrava face a face 
com a sorte, em seu terreno, em sua loucura. Ia agarr-la pela garganta e apunhal-la. Ela tambm estava louca, perigosa e inconsciente como a sorte mesma. Estavam 
em igualdade!
  - Igualdade.        .        . Houve um rumor, depois gritos.
  - A escolha dos prmios! A escolha dos prmios! Anglica esperou que a confuso se acalmasse para perguntar,
  com voz modesta de escolar, em que consistia exatamente o lance supremo do boca.
  Todos se puseram a falar de uma vez. Depois o Cavaleiro de Mr veio instalar-se junto dos jogadores e, com voz trmula, explicou-lhe a coisa.
  Para essa derradeira mo, os jogadores partiam de zero. Dvidas e ganhos precedentes eram anulados. Cada qual escolhia seu prmio, isto , no o que oferecia, 
mas o que reclamava. E devia ser enorme. Citavam-se exemplos: o financista Tortemer, no ltimo sculo, tinha reclamado os ttulos de nobreza de um Montmorency, e 
o av de Villarceaux tinha aceitado ceder sua mulher e seu regimento ao adversrio, caso perdesse.
  -        Posso ainda retirar-me? - perguntou Anglica.
  -  seu direito estrito, senhora.
  Ela permaneceu imvel e pensativa. Podia-se ouvir o vo de uma mosca. Por vrias horas Anglica tinha "mandado no jogo". Iria a sorte abandon-la naquele supremo 
lance?
  Seus olhos pareceram despertar e puseram-se a brilhar com uma intensidade quase feroz. No entanto, ela sorriu.
  -        Eu continuo.
  O Cavaleiro de Mr-engoliu a saliva e disse:
  -        Para a "escolha do premio", a frase regulamentar  esta: "Partida aceita. Se eu ganhar, peo..."
  Anglica inclinou docilmente a cabea e, sempre sorrindo, repetiu:
  -        Partida aceita, monseigneur. Se eu ganhar, peo-lhe a sua Manso do Beautreillis.
  A Sra. de Lamoignon soltou uma exclamao, que seu esposo abafou prontamente com mo furiosa.
  Todos os olhos estavam voltados para o prncipe, que tinha a clera nos olhos. Mas ele era um jogador limpo e sem subterfgios.
  Sorriu, por seu turno, e ergueu a majestosa fronte.
  -        Partida aceita, senhora. Se eu ganhar, a senhora ser minha amante.
  As cabeas, num s movimento, voltaram-se dessa vez para An- , glica. Ela continuava a sorrir. As luzes punham reflexos em seus lbios entreabertos. A umidade 
que perlava a superfcie de sua pele dourada tornava-a brilhante, lustrosa como uma ptala sob o orvalho da manh. A fadiga que azulava suas plpebras dava-lhe uma 
curiosa expresso de sensualidade e abandono.
  Os homens presentes estremeceram. O silncio fez-se pesado.
  A meia voz, o Cavaleiro de Mr falou:
  -        A escolha cabe-lhe ainda, senhora. Se recusar: partida nula, e volta-se ao lance precedente. Se aceitar: partida ajustada.
  A mo de Anglica tomou as cartas.
  -        Partida ajustada, monseigneur.
  Ela no tinha seno valetes, damas e cartas baixas. Seu pior jogo desde o incio da partida. No entanto, depois de algumas trocas, conseguiu compor uma srie de 
pequeno valor. Restava-lhe duas solues: mostrar logo suas cartas e correr o risco de que o jogo do Prncipe de Conde fosse maior que o seu, ou ento procurar compor, 
com o auxlio da "loteria", uma srie mais importante. Nesse caso, o prncipe, talvez bastante malprovido, pudesse melhorar seu jogo e pr-lhe diante dos olhos uma 
srie de reis e ases.
  Ela hesitou, depois mostrou suas cartas.
  Isso no produziu grande rudo, mas um tiro de canho no teria petrificado mais a assistncia.
  O prncipe, com os olhos em seu jogo, no fazia o menor movimento.
  De repente ele se levantou, exibiu suas cartas, depois inclinou-se profundamente.
  - A Manso do Beautreillis  sua, senhora.
  
  CAPTULO XV
  
  Alegrias e tristezas na Manso do Beautreillis - O fantasma de Joffrey
  
  Ela no podia acreditar em seus olhos. Um jogo de cartas e a sorte mais incrvel, mais absurda, lhe haviam devolvido a Manso do Beautreillis!
  Puxando seus dois filhos pela mo, ela percorreu a suntuosa residncia. No ousava dizer-lhes:
  - Isto aqui pertencia a seu pai. Mas repetia-lhes:
  - Isto aqui  seu!  seu!
  No se cansava de examinar as maravilhas: a decorao alegre de deusas, crianas e folhagens, os balastres de ferro forjado, os revestimentos de madeira ao gosto 
da poca e que substituam as pesadas tapearias.
  Na penumbra das escadas e dos corredores, via-se brilhar uma profuso de ouro e de guirlandas de flores, cuja cintilao mida s era interrompida aqui e ali pelo 
brao coruscante de uma esttua que sustentava um candelabro.
  O Prncipe de Conde no tinha montado aquela casa, de que no gostava muito. Havia retirado alguns mveis. Os que sobraram, ele deixou-os para Anglica com uma 
generosidade de grande senhor.
  Como bom perdedor, afastara-se depois de ter entregado o prmio da partida quela que o tinha ganho. Ele estava, talvez, na realidade, mais magoado do que desejava 
confessar pela completa indiferena da jovem em relao a ele. Anglica no tinha olhares seno para a manso do Beautreillis, e ele perguntava a si mesmo, com melancolia, 
se a amizade que acreditava ler, s vezes, nos olhos de sua graciosa vencedora no tinha sido, tambm, simples manobra interesseira.
  Demais, o senhor prncipe receava-um pouco que o eco daquela partida sensacional chegasse aos ouvidos de Sua Majestade. Este no gostava muito das excentricidades 
retumbantes. O senhor prncipe decidiu retirar-se para Chantilly.
  Anglica ficou sozinha em face de seu sonho exaltado. Com um prazer sem jaca, ela empreendeu a ornamentao de sua casa com tudo o que havia de mais novo.
  Ebanistas, ourives e tapeceiros foram convocados. Fez fabricar pelo Sr. Boulle mveis de madeiras translcidas, com incrustaes de marfim, concha de tartaruga 
e bronze dourado. Seu leito esculpido, as cadeiras e as paredes de seu quarto foram cobertos de cetim branco e verde com grandes flores amarelas. Em seu quarto de 
vestir, a mesa, a mesinha de centro e a madeira das poltronas eram revestidas de belssimo esmalte azul. O soalho desses dois aposentos era de marchetaria e de madeira 
to odorfera que o seu aroma penetrava as vestes de quem o pisasse.
  Ela fez vir Gontran para pintar o teto do salo.
  Comprou mil coisas, bibels da China, quadros, roupas brancas, baixela de ouro e de cristal.
  A escrivaninha passava por pea rara, de escola italiana, e era quase o nico mvel antigo da manso. Era de bano, ornada de rubis rosa e vermelho-cereja, granadas 
e ametistas.
  Em sua febre de despesas, ela fez, igualmente, aquisio de uma pequena hacania branca para Florimond, a fim de que ele pudesse galopar pelas alias do jardim 
que ela fizera guarnecer de laranjeiras plantadas em caixas de madeira.
  Cantor ganhou dois grandes ces severos e mansos, que podia atrelar a um pequeno coche de madeira dourada, em que tomava assento.
  Ela prpria seguiu a moda da estao, adquirindo um desses pequenos ces fraldiqueiros, bem peludos, que eram a coqueluche das damas. Deu-lhe o nome de Crisntemo. 
Florimond e Cantor, que gostavam dos grandes animais bravios, desprezavam francamente aquela miniatura desgrenhada.
  Finalmente, para coroar sua instalao, ela decidiu oferecer uma grande ceia, seguida de baile. -Essa festa consagraria a nova situao da Sra. Morens, no mais 
chocolateira no Faubourg Saint-Honor, mas transformada numa das damas de qualidade do Marais.
  Para esse festim, ela se lembrou de Audiger. O mordomo ser-lhe-ia precioso conselheiro. Anglica lembrou-se de que no o vira nos ltimos trs meses. Negligenciara 
um tanto os seus negcios durante esse tempo, mas, felizmente, pudera despender alta soma sem preocupaes, porque dois de seus navios tinham voltado sem contratempo 
de uma primeira viagem s ndias Orientais, e ela vira dobrar seus lucros de uma hora para outra.
  Anglica sabia que o duque, ento Conde de Soissons, havia acompanhado o rei ao Roussillon, e deduziu que Audiger fizera parte da comitiva. Admirou-se, no entanto, 
de que seu scio, habitualmente solcito e respeitoso, houvesse deixado Paris sem dizer-lhe adeus.
  Em todo caso, mandou-lhe um recado pedindo-lhe notcias e dizendo que teria prazer em v-lo.
  Ele apareceu logo no dia seguinte, com ar sombrio e puritano.
  - Que acha do meu palcio? - disse Anglica, recebendo-o alegremente. - No  uma das mais belas manses de Paris?
  - Para falar a verdade, no acho nada - respondeu Audiger com voz cavernosa.
  Anglica fez uma cara de decepo.
  - Ainda est zangado! No est feliz pelo meu xito?
  - Existem duas espcies de xito - disse o mordomo, inflexvel. - Inclino-me diante daquele que  fruto do trabalho e da inteligncia. Mas no me disseram que 
ganhou a sua casa no jogo?
  -  exato.
  - E no me disseram que o Prncipe de Conde, seu parceiro, lhe pedira que fosse sua amante, caso perdesse?
  - Tambm  exato.
  - Que teria feito, se ele ganhasse?
  - Ter-me-ia tornado sua amante, Audiger! Voc sabe to bem quanto eu que uma dvida de jogo  sagrada.
  A redonda cara do mordomo tornou-se escarlate, e ele aspirou profundamente. Anglica apressou-se em acrescentar:
  - Mas eu no perdi! E agora sou proprietria desta esplndida moradia. Ser que no valeu a pena correr o risco de ser... coquete?
  - Semeie coquetismo e colher cabres - disse Audiger sombriamente.
  - Suas reflexes so estpidas, meu pobre amigo. Encare a realidade. Eu no perdi, e voc no  cabro... pelo simples motivo de que no somos casados. No o esquea 
to frequentemente.
  - Como o esqueceria? - gemeu ele com voz alterada. - Eu me consumo em pensar nisso, Anglica. - Estendeu para ela as duas mos. - Case-se comigo, eu lhe imploro, 
casemo-nos enquanto  tempo.
  - Enquanto  tempo?... - repetiu ela com surpresa.
  Ela estava de p no ltimo degrau da escadaria, de onde o tinha interpelado quando viera ao encontro dele.
  Sua pequena mo ornada de anis repousava no corrimo de pedra trabalhada. Usava um vestido caseiro, de veludo negro, que realava sua carnao alambreada. Ao 
pescoo, um colar de prolas.
  Em seus cabelos cacheados, com reflexos de ouro, a mecha de cabelos brancos, como uma rosa de prata, era uma outra jia, comovente...
  Sua pessoa era a imagem de uma jovem viva muito frgil para viver, assim isolada, no seio de uma grande habitao semideser-ta. Mas seus olhos verdes recusavam 
qualquer clemncia. Vagarosamente, eles percorreram a decorao grandiosa do vestbulo de mosaicos de pedra dura, as altas janelas abertas para o ptio, o teto de 
caixotes, guarnecido de emblemas que no puderam ser apagados.
  -        Enquanto  tempo? - repetiu ela em voz mais baixa, como
para si mesma. - Oh! No, sinceramente, eu no creio.
  Com a sensao de haver recebido uma bofetada, Audiger mediu o abismo que o separava dela. O infeliz no compreendia por qual implacvel evoluo a modesta criada 
da Mscara Vermelha se tinha metamorfoseado naquela grande dama desdenhosa. No via nela mais que uma criatura cheia de ambio.
  Em sua ingnua simplicidade desprovida de instinto, o mordomo no podia adivinhar que trgica silhueta se erguia, ali mesmo, por trs da jovem solitria: a de 
Joffrey de Peyrac, Conde de Toulouse, o esposo querido que fora queimado como feiticeiro na Place de Greve e que, mesmo morto, continuava o dono inconteste daquele 
lugar.
  Conhecendo a nobreza, seus dentes acerados, sua tolice inveterada e sua arrogncia, ele estava persuadido de que a pobre menina se quebraria contra barreiras intransponveis 
e voltaria a ele um dia, ofegante, humilhada, mas ajuizada afinal. Alis, no havia ela querido rev-lo, no o havia chamado, tomando conscin-C1a, enfim, de sua 
loucura e desejosa de um conselho amigo e prudente, como s ele poderia dar-lhe?
  - Voc me escreveu - disse ele cheio de esperana - que queria ver-me?
  - Oh! Sim, Audiger! - exclamou a jovem, feliz pela diverso. - Imagine que tenho muita vontade de oferecer um grande banquete e gostaria que voc se ocupasse de 
preparar a mesa e orientar os criados para o servio.
  Ele ficou vermelho. Ela sentiu seu erro ejsrocurou emend-lo.
  -        No  natural que eu apele para voc? E o mais perfeito mordomo que conheo, e ningum melhor que voc sabe dobrar os guardanapos para dar-lhes toda espcie 
de formas curiosas e novas...
  Audiger passou por todas as cores do arco-ris. Ele tinha, simultaneamente, vontade de injuriar Anglica, de mo-la de pancadas, de partir em silncio, de obedecer-lhe 
e de fazer saltar os miolos. Com amargura, dizia a si mesmo que no h como as mulheres para tornar ridculo um homem, qualquer que seja o partido que ele adote.
  Ele escolheu, no entanto, o mais digno:
  -        Estou desolado, mas no conte comigo - disse ele com voz rouca.
  E, com uma grande saudao, deixou-a inopinadamente.
  Ela teve de passar sem ele. Mas a festa que a Sra. Morens deu em sua casa do Bautreillis foi um grande sucesso.
  As pessoas mais tituladas de Paris no se dedignaram de l comparecer. A Sra. Morens danou com Filipe du Plessis-Bellire, ofuscante em um costume de cetim azul-claro. 
O vestido de Anglica, de veludo azul-rei com sutaches de ouro, combinava com o traje de seu par. Formaram o mais brilhante casal da reunio. Anglica teve a surpresa 
de ver o frio rosto abrir-se num sorriso, enquanto ele, sustendo no alto sua mo, a guiava em uma dana atravs do salo.
  -        Hoje voc no  mais a Baronesa do Triste Vestido - disse ele.
  Ela guardou aquelas palavras em seu corao, com o sentimento de um bem precioso, infinitamente raro. O segredo de sua origem tornava-os cmplices. Ele se lembrou 
da pequena patinha cinzenta cuja mo tinha tremido na de um belo primo.
  "Como sou tola!", refletia Anglica sorrindo, pensativa, inclinada sobre o seu passado de adolescente.
  Terminada a montagem de sua residncia, Anglica sofreu uma sbita depresso moral. A solido de sua casa principesca a oprimia. A Manso do Bautreillis significava 
muitas coisas para ela. Aquela moradia, que jamais fora habitada e que, no entanto, ela sentia impregnada de lembranas, parecia-lhe envelhecida por uma longa aflio.
  "As lembranas do que deveria ter sido", pensou ela.
  Sentada, no decurso das suaves noites primaveris, diante do fogo ou diante da janela, ela deixava passar as horas. Sua atividade habitual abandonara-a. Ela era 
presa de um mal que no podia compreender. Pois seu corpo de mulherjovem estava solitrio, enquanto seu esprito e seu corao sentiam a presena de um fantasma. 
s vezes erguia-se de sbito e, tomando um candelabro, ia at a entrada, para espreitar, nas trevas da galeria, no sabia o qu...
  Viria algum?... No! Era o silncio. As crianas dormiam em seu aposento, sob a guarda de servilhetas dedicadas. Ela havia-lhes entregue a casa de seu pai.
  Anglica deitava-se em seu leito magnfico. Sentia frio. Tocava sua carne lisa e firme e acariciava-a com uma espcie de melancolia. Nenhum homem vivo poderia 
satisfazer seu desejo. Ela estava sozinha diante da vida!
  Aquela parte do Maais onde se achava a Manso do Beautreil-lis estava repleta de vestgios medievais, pois fora o local do Palcio de Saint-Pol, que tinha sido, 
sob Carlos VI e Carlos VII, a residncia preferida dos reis. Construdo para o soberano e seus prncipes, o Palcio de Saint-Pol havia agrupado numerosas habitaes 
ligadas entre si por galerias separadas por ptios e jardins e onde se encontravam o avirio, um pequeno jardim zoolgico, os campos de jogo e de justa. Os grandes 
vassalos tinham suas residncias particulares na imediata vizinhana do rei. Estas casas, muito belas, como as de Sens ou de Reims, misturavam ainda suas empenas 
e suas torrinhas agudas s novas residncias. Por toda parte, a trabalhada pedra medieval sobrevivia e ostentava-se nas belas fachadas concebidas por Mansart ou 
Perrault.
  Anglica possua, no fundo de seu jardim, um poo muito velho, rendilhado como uma pea de ourivesaria. Depois de ter subido os trs degraus circulares que o debruavam, 
podia-se sentar sobre o bocal e sonhar  vontade sob a cpula de ferro forjado, acariciando com um dedo salamandras esculpidas e cardos de pedra musgosa.        
  Numa noite serena e de lua cheia em que a jovem passeava em seu jardim, encontrou junto ao poo um velho alto de cabelos brancos, que tirava gua. Reconheceu o 
domstico que trazia a lenha e se ocupava das velas. Ele j estava na Manso do Beautreillis quando ela para ali se mudou. Era ele que o Prncipe de Conde dizia 
ter servido o antigo proprietrio.
  Anglica raramente havia falado com o ancio. Os outros criados designavam-no com o nome de "vov". Ela perguntou-lhe como se chamava.
  - Pascalou Arrengen, senhora, para lhe servir.
  - Eis um nome que diz bem de onde vem voc.  gasco ou bearns?
  -        Sou de Bayonne, senhora. Sou basco, para dizer tudo.
Ela passou a lngua sobre os lbios e perguntou a si mesma se devia falar.
  O velho tinha tirado o balde do poo. A gua salpicou o bocal e brilhava sob a lua.
  -  verdade que quem fez construir esta casa era de l, do Languedoc?
  - Certamente que era... de Toulouse!
  - Como se chamava ele?
  Ela queria ouvir seu nome, saborear a doura amarga de senti-lo vivo ainda na recordao de um pobre homem que se aproximara dele e talvez o tivesse amado. Mas 
o velho benzeu-se precipitadamente e olhou assustado em volta de si.
  -        Psiu! No se deve pronunciar seu nome. Ele  maldito!
O corao de Anglica sangrou.
  - Ento  verdade? - perguntou ela, continuando a representar seu papel. - Dizem que ele foi queimado como feiticeiro...
  - Dizem.
  O velho olhou-a com ateno extrema. Seus olhos mortios pareciam interrogar, como se ele hesitasse  beira de uma confidncia.
  Subitamente ele se ps a sorrir, e suas rugas impregnaram-se de uma malcia sonsa.
  - Dizem... mas no  verdade.
  - Por qu?
  - Foi um outro, j morto, que queimaram na Place de Greve. Dessa vez, o corao de Anglica ps-se a bater como um tambor.
  - Como voc sabe?
  - Sei porque tornei a v-lo.
  - Quem?
  - A ele... o conde maldito.
  - Tornou a v-lo? Onde?
  - Aqui... Uma noite... na galeria de baixo... eu o vi. Anglica suspirou e fechou os olhos com lassido. Que loucura buscar uma esperana nas divagaes de um 
pobre criado que acreditara ver um fantasma! Desgrez tinha razo de dizer que no se devia mais falar nele, que no se devia mais pensar nele. Mas o velho Pascalou 
estava embalado.
  -        Foi numa noite, pouco depois da fogueira. Eu dormia na cavalaria, no ptio, e estava s, porque o porteiro tinha ido embora. Eu havia ficado. Aonde queria 
.que eu fosse? Ouvi rudo na galeria, e reconheci seu passo.   
  Um riso mudo fendeu a boca desdentada.
  -        Quem no reconheceria seu passo?... O passo do Grande Coxo do Languedoc?... Acendi a lanterna e entrei. O passo marchava diante de mim, mas eu no via 
ningum, porque a galeria fazia um cotovelo. No entanto, quando cheguei  volta, eu o vi! Ele se apoiava  porta da capela e voltava-se para mim...
  A pele de Anglica ontraiu-se em um longo frmito.
  - Voc o reconheceu?
  - Reconheci-o "cm um co reconhece o dono, mas no pude ver-lhe o rosto. Ele traria mscara... Uma mscara de ao negro... De repente, ele mergulhou na parede 
e eu no mais o vi.
  -        Oh! V-se - gemeu ela -, voc me faz morrer de medo.
O velho olhou-a com surpresa, passou a manga sob o nariz, apanhou seu balde e afastou-se mansamente.
  Anglica voltou para seu quarto em um estado de pnico indescritvel. Eis por que, entre aquelas paredes, ela se sentia oprimida alternadamente pela alegria e 
pela dor.'Era porque o fantasma de Joffrey de Peyrac as frequentava. Joffrey de Peyrac... fantasma! Que triste destino o dele, que no era seno vida, que adorava 
a vida sob todas as formas e cujo corpo era to maravilhosamente adestrado para a voluptuosidade!
  Ela deixou tombar a cabea entre as mos e acreditou que ia chorar.
  Foi ento que, do seio da noite, nasceu um canto, um canto celeste e delicioso, que lembrava o dos anjos quando voam sobre os campos, na noite de Natal.
  A princpio, Anglica sups que fosse uma alucinao. Mas, aproximando-se do corredor, distinguiu claramente uma voz de criana a cantar.
  Tomando um castial, ela dirigiu-se para o quarto de seus filhos.
  Suavemente, levantou o reposteiro e parou, embevecida com o quadro que tinha diante dos olhos.
  Uma lamparina de prata dourada alumiava docemente a alcova em que dormiam os meninos. De p sobre o grande leito, Cantor, de camisa branca, as mos gordinhas juntas 
sobre o ventre e de olhos levantados, cantava, semelhante a um anjinho do paraso. Sua voz era de uma pureza extraordinria, mas sua dico infantil estropiava as 
palavras da maneira mais tocante:
  " o dia de Natal 
  que Jesus nasceu. 
  Ele nasceu em um estabo,
  em cima da palha; 
  ele nasceu a um canto, 
  em cima do feno".
  Florimond, com os cotovelos apoiados no travesseiro, escutava-o com visvel prazer.
  Um leve rudo tirou Anglica de seu xtase. Ela viu Brbara a seu lado, enxugando duas lgrimas enternecidas.
  - A senhora no sabia que o nosso tesouro tinha to bela voz? - cochichou a criada. - Eu queria fazer-lhe uma surpresa. Mas ele  esquivo. S quer cantar para 
Florimond.
  De novo a alegria substituiu a angstia no corao de Anglica.
  A alma dos trovadores se tinha encarnado em Cantor. Joffrey de Peyrac no estava morto, pois revivia em seus dois filhos. Um parecia-se com ele, o outro tinha 
a sua voz...
  Imediatamente ela decidiu fazer dar lies a Cantor pelo Sr. Lulli, o msico do rei.
  
  CAPITULO XVI
  
  Mistrios e venenos no bairro da Marais
  
  Assim Anglica organizava sua vida naquele belo bairro em que morava a fina flor de Paris. Construam-se muitas casas claras, com fachadas levemente inclinadas. 
Os jardins e os ptios das casas particulares formavam, entre aquelas construes comprimidas, ilhotas de verdura em que sermisturavam os contrastantes odores das 
laranjeiras e das estrebarias.
  A Sra. Morens tinha dois coches, seis cavalos, dois palafrenei-ros, quatro lacaios. Sua famulagem era completada por dois camareiros, um cozinheiro, um escriturrio, 
vrias criadas e um nmero ilimitado de criadinhas e ajudantes de cozinha.
  Ela poderia completar sua personalidade de dama do Marais indo  igreja com um lacaio carregando o coxim, um outro sustentando-lhe a cauda do vestido e um terceiro 
com o saco bordado em que se punha o livro de oraes.
  Mas Anglica raramente ia  igreja, ou, melhor dizendo, jamais. Sabia que isso lhe prejudicava a reputao, mas a casa de Deus era para ela um lugar de tormentos. 
Lembrava-se de que havia cometido um crime, de que vivera como uma decada. Revia a fogueira da Place de Greve, o crucifixo erguido do monge Bcher...
  Tomada de nusea fsica, ela se reencontrava mentalmente no adro das igrejas, entre mendigos deitados nos degraus...
  Renunciara a acompanhar suas amigas s cerimnias litrgicas e era, para os que a cercavam, um motivo-de assombro. Sua vida casta e sua irreligiosidade causavam 
estranheza, numa poca em que no se conhecia seno a converso da carne ou da heresia, mas no a da f em Deus.
  A Sra. Scarron empreendera secretamente reconduzi-la  piedade. Anglica parecia-lhe uma presa mais fcil que a encantadora Ninon, cujo pensamento livre assentava 
sobre uma filosofia haurida nas fontes gregas e que se traduzia por uma vida escandalosa.
  Anglica frequentemente se encontrava com a viva Scarron, ora nas graves reunies da casa de Aumont, ora nas recepes mais agitadas dos Montespan. Na volta, 
Francisca propunha-lhe acompanh-la. Regressavam a p, amigavelmente, tendo uma e outra guardado da pobreza o gosto de caminhar pelas ruas e desprezar a escravido 
da carruagem. Era esse passado miservel, durante o qual elas se haviam reunido furtivamente junto  lareira da Sra. Cordeau, que as ligava to fortemente? Anglica 
temia e amava a Sra. Scarron por uma s razo:  que ela sabia, de maneira notvel, ouvir confidncias. Por sua voz harmoniosa, sua compreenso flexvel, seu interesse 
no fingido, ela dava ao corao mais fechado o desejo de expandir-se, e Anglica receava constantemente deixar escapar uma palavra imprudente. Por seu turno, a 
Sra. Scarron lembrava-se de que nascera numa priso; que aos doze anos, em La Rochelle, ela ia buscar um prato de sopa no convento dos jesutas e que, mais tarde, 
morando com sua tia de Navailles, tratada quase como uma servilheta, viajava montada num dos mulos da liteira de sua prima.
  Ocultando reciprocamente suas misrias antigas, ambas sentiam, todavia, uma pela outra, a atrao que entre elas suscitavam aqueles destinos perturbados, e viam-se 
com grande prazer.
  Outra amiga de vizinhana que Anglica frequentava assiduamente era a encantadora Marquesa de Svign.
  Esta tambm, como a Sra. Scarron, evitava o amor, que a tinha martirizado durante muito tempo, mas, enquanto Francisca substitura tal sentimento por uma ambio 
to desmesurada quanto secreta, a Sra. de Svign, segundo ela prpria confessava, "tinha enchido seu corao de amizade". Era um encanto passar algumas horas junto 
dela e, mais ainda, receber suas cartas vivas e cheias de esprito.
  Anglica visitava-a para ouvir falar de Versalhes, onde a marquesa s vezes comparecia, por expresso convite do rei, que gostava da sua companhia. Ela contava 
com muito ardor e entusiasmo os divertimentos que ali se ofereciam: jogo da argolinha, bailados, comdias, fogos de artifcio, passeios. E, quando ela via demasiado 
pesar nos olhos de Anglica, exclamava:
  - No fique desolada, querida! Versalhes  o reino da Desordem. A confuso  tal que, quando h uma festa, os cortesos se irritam, porque o rei no lhes dispensa 
o mnimo cuidado. Outro dia, os Srs. de Guise e d'Elbeuf no acharam um buraco onde se abrigar. Tiveram de dormir na estrebaria.
  ' Mas Anglica estava persuadida de que os Srs. de Guise e d'El-beuf preferiam dormir na estrebaria a ser excludos dos fastos de Versalhes, e ela estava certa.
  Aquele castelo real, onde todo mundo conversava, e"que ela se recusava a conhecer antes de poder ali apresentar-se em todo o seu esplendor, convertera-se em alvo, 
ao mesmo tempo nico e inverossmil, de sua ambio. Ir a Versalhes! Mas podia uma chocolateira, mesmo a mais rica de Paris, encontrar um lugar na corte do Rei-Sol?
  Ela se persuadiu de que isso aconteceria um dia. J lhe tinham acontecido tantas coisas!
  Lus XIV despendia somas fabulosas no aformoseamento de Versalhes.
  "Ele se ufana da lindeza de sua casa como uma bela do seu rosto", dizia a Sra. de Sevign.
  Quando a rainha-mle morreu de cncer, o rei, que tinha desmaiado  sua cabeceira, correu a Versalhes. Ali ficou trs dias, errando entre as alias de tlias, os 
bosquetes de buxo aparado em globo e a multido marmrea de- deusas e deuses. Versalhes ps um blsamo sobre a ferida cruciante. Ele pde derramar lgrimas, evocar 
com doura a augusta presena daquela que fizera dele um rei e que ele revia em suas vestes negras adornadas de rendas e de bordados, com o magnfico colar de prolas 
que lhe descia at os joelhos, sua bela cruz de diamantes e suas pequenas mos admirveis. Ele demorou no aposento em que a tinha recebido e que er ornamentado 
por duas coisas que Ana d'ustria preferia: buques de jasmim, vastos como touceiras, e bibels da China em filigrana de ouro e de prata. Em Versalhes, pelo menos, 
ele no tinha feito sua me chorar.
  Pela mesma poca, a Sra. de Montespan tambm perdeu a me, e esse luto, junto ao da corte, reteve um momento em casa a louca conterrnea de Anglica. Ela vinha 
mais frequentemente  casa desta, fugindo aos credores e aos aborrecimentos domsticos. Sua alegria era turbada por um tormento secreto. Falou de sua infncia. Seu 
pai era homem dissoluto e sua me, uma beata. De sorte que, estando uma na igreja durante o dia, o outro na farra durante a noite, os dois esposou quase no se viam. 
No se sabia como encontraram maneira de-gerar alguns filhos. Atenas falava tambm
  da corte, mas com reticncias e uma impacincia mal dissimulada: a rainha era uma tola, e La Vallire, uma infeliz imbecil. Quando, ento, o rei se decidiria a 
repudi-la? No faltavam pessoas prontas para ocupar o lugar dela... Dizia-se que a Sra^ de Roure e a Sra. de Soissons tinham ido procurar La Voisin para envenenar 
La Vallire.
  Falava-se muito de veneno em Paris, e, no entanto, existiam no Marais apenas trs velhas damas que, na hora da refeio, faziam trazer-lhes a credencia, pequeno 
armrio com taas cheias de pedras-de-sapo ou de pedaos de chifre de licorne e tambm o languier, espcie de saleiro de ouro ou de prata, em que se viam lnguas 
de serpente. Todas essas coisas eram destinadas a combater os efeitos do veneno.
  A nova gerao afetava desprezar essas prticas. Entretanto, muitas pessoas morriam misteriosamente, e os mdicos achavam suas vsceras queimadas por um fogo corrosivo. 
Aparentemente algum lhes havia dado, segundo a expresso do policial Desgrez, "um tiro de pistola na sopa".
  Anglica tinha por vizinha a Marquesa de Brinvilliers. Esta morava na Rue Charles V, a dois passos. Foi no entanto por acaso que Anglica se encontrou diante daquela 
mulher que ela assaltara nas proximidades da Porte de Nesle, quando fazia parte do bando de Calembredaine.
  A Sra. de Brinvilliers no a reconheceu, pelo menos Anglica assim pensou. Mas a ltima sentiu-se extremamente embaraada durante a visita, pensando no bracelete 
de ouro guardado num cofre, juntamente com o punhal de Rodoguno, o Egpcio. . A Sra. Morens tinha vindo  casa da filha do tenente de polcia, Sr. d'Aubrays, para 
dirigir-lhe uma petio. O Sr. d'Aubrays morrera recentemente, mas seu filho tinha ocupado o cargo, e Anglica esperava que a Sra. de Brinvilliers se dispusesse 
a intervir junto a seu irmo. Tratava-se de obter a libertao de um pobre pedinte, detido por mendicidade, e que a Sra. Morens, que o conhecera outrora, desejava 
tomar a seu servio.
  O mendigo era P Ligeiro.
  Um dia em que Anglica passava de carruagem pela Place du Pilori, notara, exposta na golilha, a cara comprida, de olhos tristes, de P Ligeiro.
  Seu sangue paralisou-se, pois P Ligeiro era um inocente, que seu fatigante ofcio de corredor tornara invlido e reduzira  misria. Mesmo na Tour de Nesle, jamais 
Anglica o vira roubar. Calembredaine achava justo aliment-lo e abrig-lo sem lhe exigir compensao.
  Anglica fez parar sua viatura e desceu  terra. Sem se importar com os assistentes, ela interpelou o-condenado:
  - P Ligeiro, meu amigo, que faz voc a em cima?
  - Oh! E voc, Marquesa dos Anjos? - respondeu o infeliz. - Sei l o que eu fao aqui! O beleguim dos pobres me agarrou. Depois, eles me puseram no seu campanrio. 
Saber por que  outro assunto.
  - Tenha um pouco de pacincia, eu venho tir-lo.
  A fim de no perder tempo em tentativas infrutferas, Anglica correu diretamente  casa da irm do tenente de polcia. Obteve que o inqurito fosse rpido e a 
libertao assinada no dia seguinte. A Sra. de Brinvilliers convidou Anglica para sua prxima reunio. Ela veria ali toda sorte de pessoas encantadoras, entre outras 
o Cavaleiro de Sainte-Croix.- Ningum ignorava que o referido cavaleiro era o amante titular da dama...
  P Ligeiro, envergando belssima libr, foi nomeado camareiro de Florimond e de Cantor. No podia fazer grande coisa, mas era meigo e bom, e sabia contar histrias 
aos meninos. No lhe exigiam mais que isso.
  No era o primeiro egresso da Tour de Nesle que Anglica recolhia na Manso do Beautreillis.
  Os outros, os irredutveis mendigos, estropiados, vagabundos, tinham aprendido depressa o caminho de sua morada, onde, trs vezes por semana, os esperava uma sopa 
quente, po e roupas. Dessa vez, Anglica no pedira a Traseiro de Pau que a livrasse de seus mendigos. Receber os pobres fazia parte das suas atribuies de grande 
dama, e ela gostaria de poder abrig-los todos.
  Enquanto a familiaridade de Audiger comeava a se lhe tornar odiosa, relembrando-lhe sua humilde condio de criada, os pobres continuavam seus irmos, e ela no 
temia, baixando a voz a fim de no ser ouvida por seus criados, falar gria com eles. Os mendigos soltavam, ento, assustadora gargalhada, aquela gargalhada que 
ela conhecia to bem...
  Poderia ela esquecer a Tour de Nesle, o cheiro do ensopado que fervia na panela, as velhinhas roendo os cadveres de ratos trazidos pelo espanhol, a dana monstruosa 
de Hurlurot e Hurlurette, o canto da velha, as risadas estrepitosas, os grandes gritos, as respiraes estertorosas?...
  Ela abria sua porta. E, nas manhs geladas de inverno, aquelas manhs silenciosas de neve, em que o hlito podre dos mendigos se condensava em nuvens opacas, a 
jovem os via dirigir-se para ela como feras.
  -        Os pobres so terrveis - dizia o Sr. Vicente.
  Sim, eles eram terrveis. Mas Anglica sabia como a aflio e a maldade podem morder a prpria carne, o prprio corao. Ela tambm fora arrastada na torrente 
purulenta.
  A velha voz clida que havia despertado o sculo para a caridade, a voz do Sr. Vicente, achava nela um eco.
  -        Os pobres... que no sabem aonde ir nem o que fazer, que erram na solido de sua misria e que j se multiplicam, ai!... so a minha carga e a minha dor!
  De joelhos sobre o piso, ela lhes lavava os ps, pensava-lhes as feridas. Somente eles e seus dois filhos tinham o poder de reanimar a fonte do amor em seu corao 
endurecido.
  Pouco depois do incidente com P Ligeiro, ela reviu Po Negro. O velho no mudara. Estava sempre coberto de suas conchas, de seus teros de falso peregrino. Enquanto 
ela lhe pensava a lcera que lhe roa a perna, ele lhe disse:
  - Minha irm, eu vim para preveni-la: se voc tem amor  pele, no deve continuar seu pequeno manejo.
  - Que histria  essa, Po Negro? Que foi que eu fiz?
  - Voc, nada. Mas trata-se da outra.
  - Que outra?
  - A mulher que lhe faz festinhas h uns oito dias. Cuidado! Olhe, ainda hoje eu a vi sair de sua casa.
  Anglica lembrou-se de que a Sra. de Brinvilliers tinha vindo visit-la.
  - Aquela dama pequena, vestida com um manto purpurado?
  - No sei se era purpurado o seu manto, mas aquela pequena dama, eu a conheo bastante para lhe dizer que desconfie dela... como do Diabo.
  - Ora essa, Po Negro, ela  a Sra. de Brinvilliers, a prpria irm do tenente de polcia.
  -  possvel! Mas eu lhe digo que deve desconfiar.
  - Como voc a conhece?
  - E uma histria novelesca. Um dia em que fazia frio, eu adormeci no adro da Igreja de Santa Oportuna. Acordei no Htel-Dieu. Cobertores, um colcho, cortinas 
e, na cabea, uma touca de lao... nunca minha vermina fora to aquecida. Apesar disso tudo, minhas gmbias no queriam mais mexer-se... Fiquei no Htel-Dieu... 
Tinha de ser!... Aquela dama nos visitava. Trazia doces, presunto... Uma boa dama. Somente que todos os enfermos que comiam o que ela lhes levava morriam como moscas. 
Eu fiquei de olho. Pude ver tudo sozinho. Assim, quando ela veio um dia e me disse, toda aucarada: "Esto, aqui alguns doces, meu pobre homem", eu disse: "No, 
no tenho ainda vontade de ir ver o Franc-Mitou, no tenho vontade de morrer!" Que miradas ela me lanou! O fogo do inferno estava dentro delas,  por isso que eu 
lhe digo: cuidado, Marquesa dos Anjos, ela no  pessoa que se frequente.
  - Que anda voc imaginando, meu pobre Po Negro?
  - Imaginar... imaginar!... Eu creio no que vejo. E conheo tambm um criado que se chama La Chausse e que  da casa do Sr. de Sainte-Croix, o gal dessa Brinvilliers, 
e esse La Chausse me contou histrias estranhas.
  Anglica ficou pensativa. O nome de Sainte-Croix tinha sido envolvido na expedio  casa do velho Glazer, onde ela descobrira arsnico. E Desgrezno lhe dissera: 
"Os criminosos de nosso tempo, no  mais nas ruas que devo procur-los, mas em outros lugares... talvez nos sales..."?
  Ela estremeceu. Belo bairro tranquilo do MaraisL. Quantos dramas ainda se ocultavam por trs das pprtas-cocheiras encimadas por escudos de pedra! No existia paz 
naquele mundo...
  -        Est entendido, Po Negro. No frequentarei mais essa dama. Obrigada pelo aviso.
  Foi buscar-lhe uma garrafa de vinho e um pedao de toucinho.
  -        Sua sacola no est muito pesada, meu pobre Po Negro.
O velho contemplou a rua nevosa, que era sua nica morada.
  Piscou um olho:
  "   - Ai! os pobres mendigos, cheios de desventuras,
  No so ricos seno de coisas futuras".
  Sobre os passos do mendigo, chegou o policial de nariz comprido. Ela raramente vira Desgrez no curso dos ltimos anos, e isso no acontecia, cada vez, sem algum 
embarao para ela. Malgrado as maneiras muito corretas do policial, ela no podia olvidar inteiramente a cena, ao mesmo tempo brutal e voluptuosa, a que ele a submetera. 
Sentia-se em condio de inferioridade perante ele, e, desde ento, temia-o um pouco.
  Quando a avisaram da presena do antigo advogado, fez uma careta e desceu aborrecida. Tinham-no introduzido em um pequeno gabinete, onde ela recebia habitualmente 
os escreventes e os fornecedores.
  - No est com o ar muito satisfeito, senhora - disse alegremente Francisco Desgrez. - Ser por ver-me? Venho, no entanto, felicitar-lhe pela admirvel morada 
em que teve o bom gosto de se instalar. Deus sabe como a conseguiu...
  - Deus talvez no saiba - respondeu Anglica -, mas, em compensao, estou bem certa de que voc o sabe. No seja hipcrita, senhor policial, e diga-me sem rodeios 
a que devo a honra de sua visita.
  - Sempre assoberbada, pelo que vejo. Est bem! Vamos ao fato. Voc tem por vizinha e amiga, creio, essa encantadora Dama de Brinvilliers. Poderia, oportunamente, 
apresentar-me a ela?
  - Por que isso? Voc  policial e, nessa qualidade, poderia muito bem introduzir-se por intermdio de seu irmo.
  - Acontece que eu no quero apresentar-me nessa qualidade. Mas poderia ser, por exemplo, um jovem nobre de sua amizade, seduzido por seus belos olhos e que arde 
por fazer-lhe a corte.
  - Por qu - repetiu Anglica, que torcia as mos com uma angstia inconsciente -, por que pede isso a mim?
  - Voc j est ao corrente de muitas coisas, minha filha, e poderia ser-me til.
  - No quero ser-lhe til! - exclamou a jovem. - No quero introduzi-lo nos sales para ali exercer sua suja funo de tira. No quero frequentar essa mulher... 
No quero nada de comum com vocs todos... com todos esses horrores. Deixe-me em paz!...
  Todo o seu corpo tremia. O homem olhou-a com surpresa.
  - Que tem voc? Est com os nervos em farrapos, palavra. J a vi assustada ou desesperada, mas nunca to amedrontada, sem razo plausvel. No entanto, parece-me 
que voc triunfou. Aqui voc pode ficar tranquila, est a salvo.
  - No, eu no estou a salvo, pois voc ainda vem aqui... Vem sempre! Especula sobre o meu passado miservel para fazer-me confessar... no sei o qu. Eu no sei 
de nada, no quero saber de nada, no quero ouvir nada, no quero ver nada... Voc no compreende que j destru minha vida por me haver envolvido em intrigas dos 
outros?... Ainda tenho um longo caminho a percorrer e, se eu tremo,  porque tenho medo de vocs todos, que vo aliar-se para perder-me outra vez... Deixe-me, esquea-me. 
Oh! Desgrez, eu lhe suplico!
  Ele a escutava pensativo e ela acreditou ver, no fundo de seus olhos pardos, uma expresso inusitada, um olhar melanclico de co espancado. Ele estendeu a mo-como 
se quisesse acariciar-lhe o rosto, mas no completou seu^gesto.
  - Tem razo - disse ele com um suspiro. -J lhe fiz bastante mal. Fique em paz. No mais'a atormentarei, corao.
  Ele se retirou e ela no mais o reviu.
  A jovem guardou disso uma inconfessada mgoa, mas sentiu-se aliviada.
  No queria mais evocar aquele passado, que comeara a arrancar de si como um traje vergonhoso.
  Brinvilliers podia envenenar sua prpria famlia inteira, se isso lhe agradasse. Anglica no se importava. No seria ela quem se meteria a ajudar urri policial 
a desmascar-la.
  Tinha outra coisa que fazer. Queria ser recebida em Versalhes.
  Mas os ltimos passos de sua ascenso eram os mais penosos. Ela ofegava. Sentia que, para chegar ao fim, era-lhe preciso travar um ltimo combate, o mais duro, 
o mais spero de todos...
  Marcou um tento importante quando o acaso a ps novamente em contato com seu irmo, o jesuta Raimundo de Sanc.
  CAPTULO XVII
  
  Raimundo aconselha Anglica a seduzir o glacial Filipe du Plessis
  
  Uma tarde, muito antes da noite, quando Anglica secava com areia uma epstola  sua cara amiga Ninon de Lenclos, vieram avis-la de que um clrigo tonsurado a 
solicitava com urgncia. Na entrada, a jovem encontrou um sacerdote. Este lhe disse que seu irmo, o Reverendo Padre de Sanc, queria v-la.
  - Agora?
  - Agora mesmo, senhora!
  Anglica subiu para pr um manto e a mscara. Hora estranha para o reencontro de um jesuta com sua irm, e tambm com a viva de um feiticeiro queimado na Place 
de Greve!
  O clrigo disse que no era longe. Aps alguns passos, a jovem encontrou-se diante de uma casa de aparncia burguesa, da Idade Mdia, contgua  nova colegiada 
dos jesutas. No vestbulo, o guia de Anglica desapareceu como um fantasma negro. Ela subiu a escada, com os olhos erguidos para o andar de onde se inclinava uma 
comprida silhueta que segurava um castial.
  - E voc, minha irm?
  - Sou eu, Raimundo.
  - Venha, eu lhe peo.
  Ela seguiu-o sem fazer perguntas. Os laos secretos dos Sanc de Monteloup reatavam-se prontamente. Ele f-la entrar em uma cela de pedra mal alumiada por uma 
lamparina. Ao fundo da alcova, Anglica distinguiu um plido rosto delicado - mulher ou criana? - de olhos cerrados.
  -        Ela est doente e talvez morra - disse o jesuta.
  - Quem e?
  - Maria Ins, nossa irm.
  Aps um instante de silncio, ele acrescentou:
  - Ela veio refugiar-se junto,a mim. Fi-la repousar, mas, dada a natureza de seu mal, eram-me necessrios os conselhos de uma mulher. Pensei em voc.
  - Voc fez muito bem. Que tem ela?
  -        Perde muito sangue. Achoque provocou um aborto.
Anglica examinou sua jovem irm. Tinha as mos maternais,
  precisas e que sabiam tratar. A hemorragia no parecia violenta, mas vagarosa e contnua.
  -  preciso estanc-la o mais depressa possvel; seno, ela morrer.
  - Pensei em chamar um mdico, mas...
  - Um mdico!... Ele saberia apenas sangr-la, e isso acabaria com ela.        
  - Infelizmente, eu no posso introduzir aqui uma parteira, sem dvida curiosa e tagarela. Nossa regra  ao mesmo tempo muito livre e muito estrita. No receberei 
nenhuma censura por ter socorrido sigilosamente minha irm. Mas devo evitar os mexericos. -me difcil conserv-la nesta casa, que  o anexo do grande seminrio... 
Voc me compreende facilmente...
  - Logo que ela tenha recebido os primeiros cuidados, f-la-ei transportar para minha residncia. Enquanto isso,  preciso ir buscar o Grande Mateus.
  Um quarto de hora mais tarde, Flipot galopava para o Pont Neuf, assobiando s vezes, para fazer-se reconhecer pelos vagabundos. Anglica j tinha recorrido ao 
Grande Mateus por ocasio de um acidente de Florimond, atropelado por um coche. Sabia que o emprico possua um remdio quase milagroso para estancar o sangue. Ele 
tambm sabia envolver-se, quando lhe recomendavam, em um manto... de discrio.
  Ele veio prontamente e cuidou da jovem enferma, com a energia e habilidade de uma longa prtica, sempre monologando, como era seu hbito:
  -        Ah! pequena dama, por que no usou a tempo o eleturio de castidade que o Grande Mateus vende no Pont Neuf?  feito de cnfora, alcauz, sementes de videira 
e flores de nenfares. Basta tomar de manh e  noite duas ou trs dracmas, e beber por cima urn copo de soro de leite no qual se tenha mergulhado um ferro em brasa... 
Creia-me, pequena dama, no h nada melhor para reprimir os excessivos ardores de Vnus, que se pagam to caro...
  Mas a pobre Maria Ins estava completamente incapaz de escutar essas tardias recomendaes. Com as faces difanas, as plpebras arroxeadas e o rosto diminudo 
em seus opulentos cabelos negros, ela parecia uma suave figura de cera privada de vida.
  Afinal, Anglica pde constatar que a hemorragia parecia deter-se, enquanto um pouco de colorido voltava s faces de sua jovem irm.
  Foi-se o Grande Mateus, deixando com Anglica uma tisana que a doente devia beber de hora em hora "para substituir o sangue que perdera".
  Ele recomendou que esperassem algumas horas antes de remov-la.
  Depois que ele partiu, Anglica veio sentar-se junto da pequena mesa de onde um crucifixo negro com pedestal projetava sobre a parede uma sombra gigantesca. Alguns 
instantes depois, Raimundo reuniu-se a ela e sentou-se do outro lado da mesa.
  - Eu penso que de manh cedinho poderemos faz-la transportar para minha casa - disse Anglica -, mas  prefervel esperar um pouco mais, at que ela recupere 
as foras.
  - Podemos esperar - aprovou Raimundo.
  Ele inclinou o rosto mate, talvez um pouco menos magro que outrora, em atitude de meditao. Seus cabelos negros e prateados caam sobre a volta branca da sotaina. 
Sua tonsura estava um pouco ampliada, sob as primeiras investidas da calvcie, mas ele no mudara muito.
  -        Raimundo, como voc soube que eu morava na Manso do Beautreillis e que usava o nome de Sra. Morens?
  O jesuta fez um gesto vago com sua bela mo branca.
  - Foi fcil informar-me e encontr-la. Eu a admiro, Anglica. O terrvel caso de que voc foi vtima est agora bem distante.
  - No to distante ainda - disse ela com amargura -, pois ainda no posso mostrarrme em pleno dia. Muitos senhores de menos nobre linhagem que a minha olham-me 
como uma chocolateira enriquecida, e eu jamais poderei voltar  corte, nem ir a Versalhes.
  Ele lanou-lhe um olhar penetrante. Conhecia todas as maneiras de superar as dificuldades mundanas.
  -Por que voc no desposa um grande nome? No lhe faltam admiradores, e sua fortuna, se no sua beleza, pode tentar mais de um nobre. Voc encontrar, assim um 
nome e ttulos novos.
  Anglica pensou subitamente em  Filipe e sentiu-se enrubescer a essa nova ideia. Despos-lo? Marquesa du Plessis-Bellire?... Seria maravilhoso.
  - Raimundo, por que no pensei nisso antes?
  - Porque voc talvez ainda no tivesse notado que era viva e livre - replicou ele com firmeza. - Voc tem hoje todos os meios de ascender a uma alta situao 
de maneira honesta.  uma posio que oferece muitas vantagens, e eu posso ajud-la com toda a minha influncia.
  - Obrigada, Raimundo. Seria mavarilhoso - repetiu ela, pensativa. - Venho de ta longe, Raimundo, voc nem pode imaginar. De toda a famlia^fui eu quem caiu mais 
baixo, e no entanto no se pode dizer que b destino de cada um de ns tenha sido to brilhante. Por que nos samos to mal?
  - Agradeo-lhe esse "ns" - disse ele com um sorriso rpido.
  - Oh! Ser jesuta tambm  sair-se mal. Lembre-se, nosso pai no ficou satisfeito. Ele preferiria v-lo possuidor de um bom e slido benefcio eclesistico. Josselino, 
esse desapareceu na Amrica. Dionsio, o nica militar da famlia, tem fama de brigo e mau jogador, o que  mais grave. Gontran? Nem se fala. Ele se desclassificou 
pelo prazer de lambuzar telas como um arteso. Alberto  pajem em casa do Marechal de Rochant.  amante do cavaleiro, a menos que esteja reservado aos encantos da 
gorda marechala. E Maria Ins...
  Ela se calou, escutou a respirao quase imperceptvel que vinha da alcova, e continuou, mais baixo:
  - Ainda menina, j era assanhada e rolava na palha com os rapazes da regio. Mas, na corte, creio que se entregou a todo mundo. Voc faz ideia de quem seja o pai 
da criana?
  - Penso que ela prpria no faz ideia - disse cruamente o jesuta. - Mas o que eu gostaria principalmente que fosse esclarecido  se se trata de um aborto ou de 
um nascimento clandestino. Tremo ao pensar que ela tenha podido deixar um pequeno ser vivo entre as mos dessa Catarina Monvoisin.
  - Ela foi  casa de La Voisin?
  - Creio que sim. Ela balbuciou esse nome.
  - Quem no a procura? - disse Anglica, erguendo os ombros.
  -        H pouco tempo, o Duque de Vendme foi l, disfarado em limpador de chamins, a fim de extrair daquela mulher alguma revelao a respeito de um tesouro 
que o Sr. de Turenne teria escondido. E Monsieur, irmo do rei, f-la ir a Saint-Cloud, para que lhe mostrasse o Diabo. No sei se ela o conseguiu, mas ele pagou-lhe 
como se o tivesse visto. Adivinha, fazedora de anjos, traficante de venenos, ela tem muitas habilidades...
  Raimundo escutava, sem sorrir, essa parolagem. Fechou os olhos e suspirou profundamente.
  -        Anglica, minha irm, estou apavorado - disse ele lentamente.
  -        O sculo em que vivemos  testemunha de costumes to infames, de crimes to atrozes, que os tempos futuros estremecero.
S neste ano, vrias centenas de mulheres acusaram-se, em meu confessionrio, de terem-se desembaraado do fruto de seus amores. Isso no  nada:  a consequncia 
normal da licenciosidade e do adultrio. Mas quase metade dos meus penitentes confessam ter envenenado um dos seus, ter procurado fazer desparecer, por meio de prticas 
demonacas, aquele ou aquela que os constrangia. Seremos porventura ainda brbaros? Aluindo as barreiras da f, ter-nos-o as heresias revelado o fundo de nossa 
natureza? H um desacordo terrvel entre as leis e as inclinaes do povo. E cabe  Igreja mostrar de novo o caminho reto no meio desse desregramento...
  Anglica escutava com surpresa as confidncias do grande jesuta.
  -        Por que voc me conta isso, Raimundo? Sou talvez uma dessas mulheres que...
  O olhar do religioso voltou-se para ela. Ele pareceu examin-la e depois sacudiu a cabea.
  -        Voc  como o diamante - disse ele -, uma pedra nobre, dura, inflexvel... mas simples e transparente. Ignoro que faltas voc cometeu durante esses anos 
em que esteve desaparecida, mas estou certo de que, se as praticou, foi porque muitas vezes no lhe era possvel proceder de outra forma. Voc  como os verdadeiros 
pobres, minha irm Anglica, voc peca sem saber, ao contrrio dos ricos e dos grandes...
  Uma gratido ingnua invadiu o corao de Anglica, ao enunciado dessas" surpreendentes palavras, em que ela discerniu como que um chamado da Graa e a expresso 
de um perdo vindo de mais alto.
  A noite estava calma. Um odor de incenso flutuava na cela, e a sombra da cruz que velava entre eles,  cabeceira de sua irm em perigo, pareceu a Anglica, pela 
primeira vez em muitos anos, suave e tranquilizante.
  Com um movimento espontneo, ela se ajoelhou sobre o lajedo. . - Raimundo, voc quer ouvi-me em confisso?
  CAPTULO XVIII
  
  Sonhos ambiciosos - Consulta a La Voisin
  
  O restabelecimento de Maria Ins prosseguiu de maneira satisfatria na Manso do Beautreillis. No entanto, a jovem permanecia abatida e triste. Parecia ter esquecido 
seu riso cristalino, que era o encanto da corte, e no mostrava de seu temperamento seno o lado exigente e impulsivo. A princpio, no manifestou nenhum reconhecimento 
pelas gentilezas de Anglica. Mas, quando ela recuperou as foras, Anglica aproveitou a primeira oportunidade para dar-lhe uma sonora bofetada. Desde ento, Maria 
Ins decretou que Anglica era a nica mulher com quem poderia entender-se. Aconchegava-se carinhosamente a sua irm naquelas noites de inverno em que permaneciam 
junto ao fogo, tocando bandolim ou fazendo um bordado. As duas trocavam impresses acerca das pessoas que conheciam e, como tinham a lngua acerada e o esprito 
vivo, riam, por vezes, a bandeiras despregadas de suas pilhrias.
  Depois de curada, Maria Ins no parecia de modo nenhum decidida a deixar "sua amiga, a Sra. Morens". Ignorava-se que elas eram parentas prximas. Isto as divertia. 
A rainha informou-se da sade de sua donzela de honor. Maria Ins mandou dizer que estava bem, mas que ia entrar para um convento. Essa piada era mais sria do que 
parecia. Maria Ins recusava-se obstinadamente a ver quem quer que fosse, e mergulhava nas epstolas de So Paulo e acompanhava Anglica aos ofcios religiosos.
  Anglica estava muito contente por ter tido a coragem de se confessar a Raimundo. Isso lhe permitia apresentar-se diante do altar sem segunda inteno nem falsa 
vergonha, e desempenhar perfeitamente seu papel de dama do Marais. Ela reencontrava com satisfao a atmosfera das longas cerimonias impregnadas de incenso, vibrantes 
com a voz sonora dos pregadores e a msica dos rgos.
  Era muito consolador ter tempo para rezar e pensar em sua alma.
  O boato da converso das duas atraiu  Manso do Beautreillis gentis-homens indignados. Admiradores de Anglica ou ex-amantes de Maria Ins, todos protestavam.
  - verdade o que nos disseram? Esto fazendo penitncia? Tencionam clausurar-se?
  Maria Ins opunha s perguntas uma mscara de pequena esfinge desdenhosa. Muitas vezes, ela preferia no aparecer, ou ento abria ostensivamente um livro de oraes. 
Anglica, por seu turno, desmentia energicamente. O momento parecia-lhe inoportuno. Assim, tendo-a levado a Sra. Scarron ao seu diretor espiritual, o honesto Padre 
Godin, Anglica rebelou-se logo que ele lhe falou em cilcio. No Seria agora, quando ela arquitetava projetos j para casar com Filipe^ que iria estragar sua pele 
e as atraentes curvas de seu belo corpo com cintures de crina e outros objetos de penitncia.
  No achava excessivas todas as suas sedues para vencer a indiferena daquele estranho rapaz que, com seus cetins claros e seus cabelos louros, parecia feito 
e vestido de gelo.
  No entanto, ele era bastante assduo na Manso do Beautreillis. Chegava despreocupado, falando pouco. Ao contempl-lo em sua beleza desdenhosa, Anglica reencontrava 
sempre uma sensao distante, um pouco humilde e admirativa, de mocinha diante do alto e elegante primo. Quando pensava nele, essa recordao desagradvel era acompanhada 
de uma voluptuosidade bastante perturbadora. Lembrava-se das brancas mos de Filipe sobre suas coxas, da esfoladura causada por seus anis... Agora que ela o via 
to frio e distante, acontecia-lhe lamentar aquele contato e sua prpria fuga.
  Filipe ignorava, certamente, ser ela a mulher que ele atacara naquela noite.
  Quando seus olhos claros pousavam em Anglica, ela sentia a deprimente impresso de que o jovem nunca notara sua beleza. Ele no lhe fazia nenhum elogio, ainda 
o mais banal. Era pouco amvel, e as crianas, em vez de se deixarem atrair por seu garbo, tinham-lhe medo.
  -Voc tem um modo de olhar o belo Plessis que me alarma - declarou uma noite Maria Ins a sua irm mais velha. - Anglica, voc que  a mulher mais sensata que 
conheo, no me diga que se deixa prender pela seduo desse...
  Ela pareceu buscar um epteto lapidar, no o encontrou, e fez uma cara de desgosto.
  -        Que lhe censura? - indagou Anglica, admirada.
  - O que eu lhe censuro? Pois bem,  precisamente o ser to belo, to sedutor, e nem mesmo saber prender uma mulher em seus braos. Porque isso tem importncia, 
confessa-o, a maneira pela qual um homem prende uma mulher em seus braos...
  - Maria Ins, eis um assunto bem frvolo para uma jovem que tenciona entrar para o convento!
  - Justamente.  preciso aproveitar enquanto ainda no estou l. E pela maneira de um homem me agarrar que eu o julgo prontamente. O gesto do brao peremptrio 
e suave, do qual sinto que no poderei desprender-me e que, no entanto, me deixa livre. Ah! que prazer, nesse instante, em ser mulher e frgil!
  Seu fino rosto, com olhos de gata cruel, abrandou-se num xtase, e Anglica sorriu por ver-lhe fugitivamente a mscara de volpia que ela s mostrara aos homens. 
Depois, as sobrancelhas da jovem franziram-se de novo.
  -        Deve-se reconhecer que bem poucos homens possuem esse dom. Mas ao menos fazem o que podem, enquanto Filipe nem sequer o tenta. Ele no conhece seno uma 
forma de agir com as mulheres: derruba-as e viola-as. Deve ter aprendido a amar nos campos de batalha. A prpria Ninon nada pde fazer. Sem dvida ele reserva suas 
graas para seus amantes!... Todas as mulheres o detestam na proporo em que ele as decepciona.
  Anglica, inclinada sobre o fogo em que assava castanhas, irritava-se com a clera que lhe causavam as palavras de sua irm.
  Decidira desposar Filipe du Plessis. Era a melhor soluo, a que arranjava tudo e remataria seu ascendimento e sua reabilitao. Mas queria iludir-se com relao 
quele homem que escolhera para segundo marido e aos sentimentos que a atraam para ele. Queria ach-lo "amvel" para ter o direito de am-lo.
  Em um impulso de franqueza para consigo mesma, correu  casa de Ninon no dia seguinte, e interpelou-a sobre o assunto.
  - Que pensa voc de Filipe du Plessis? A cortes refletiu, com um dedo na face.
  - Penso que, quando o conhecemos bem, achamos que ele  muito pior do que parece. Mas, quando o conhecemos mais profundamente, conclumos que ele  muito melhor 
do que parece.
  - J no a entendo, Ninon.
  - Quero dizer que ele no tem nenhuma das qualidades prometidas por sua beleza, nem mesmo, o gosto de se fazer amar. Em compensao, se formos  essncia das coisas, 
ele inspira estima, porque  espcime de uma raa quase extinta:  um nobre por excelncia. Aflige-se por questes de etiqueta e receia uma ndoa de lama em sua 
meia de seda. Mas no tem medo da morte. E, quando morrer, estar solitrio como um lobo e no pedir socorro a ningum. Ele no pertence seno ao rei e a si prprio.
  - Eu no o sabia to cheio de grandeza!
  - Mas voc no v tambm sua pequenez, minha cara! A mesquinhez de um verdadeiro nobre  hereditria. Seu braso ocultou-lhe o resto da humanidade h sculos. 
Por que sempre acreditar que a virtude e o seu oposto no podem coexistir em um mesmo ser? Um nobre  ao,mesmo tempo grande e mesquinho.
  - E que pensa el das mulheres?
  - Filipe?... Minhaquerida, quando voc o souber, vir dizer-mo.
  - Parece que ele  horrivelmente brutal com elas.
  -  o que dizem...
  - Ninon, voc no me far crer que ele nunca dormiu com voc.
  - Ai, minha cara, toda a minha habilidade malogrou com ele.
  - Voc me assusta, Ninon!
  - Para dizer a verdade, ele me tentava, aquele Adnis de olhos duros. Diziam-no malformado para as coisas do amor, mas eu no receio uma certa impetuosidade e 
agrada-me disciplin-la. Fiz tudo, pois, para atra-lo  minha alcova...
  - E ento?
  - Ento, nada. Eu teria talvez mais sorte com um boneco de neve apanhado no ptio. Ele acabou por confessar-me que eu no o excitava de modo nenhum, porque ele 
me tinha amizade. Acredito que ele necessita do dio e da violncia para sentir-se em forma.
  - E um louco!
  - Talvez... Ou talvez no: ele  apenas retardado para a sua poca. Deveria ter nascido cinquenta anos mais cedo. Quando o vejo, ele me comove estranhamente, porque 
jne recorda a minha juventude.
  - Sua juventude, Ninon?... - disse Anglica, olhando a face delicada, sem uma ruga, da cortes. - Mas voc  mais jovem do que eu!
  - No, minha amiga. Para consolar certas mulheres, costuma-se dizer que o corpo envelhece mas a alma continua jovem. Para mim, porm,  um pouco ao contrrio: 
meu corpo permanece jovem... que os deuses sejam louvados!... mas minha alma envelheceu. O tempo de minha alma envelheceu. O tempo de minha juventude foi no fim 
do ltimo reinado e no comeo do atual. Os homens eram diferentes. Batiam-se por toda parte: hugueno-tes, suecos, os revoltosos do Sr. Gasto d'Orlans. Os moos 
sabiam guerrear e no amar. Eram grandes selvagens com golas de renda. Quanto a Filipe... quer saber com quem ele se parece? Com Cinq-Mars, aquele belo gentil-homem 
que foi favorito de Lus XIII. Pobre Cinq-Mars! Apaixonou-se por Marion Delorme. Mas o rei era ciumento. E o Cardeal de Richelieu no teve grande trabalho para precipitar 
sua desgraa. Cinq-Mars ps ateia cabea dura no cepo. Havia muitos destinos trgicos naquele tempo!
  - Ninon, no fale como uma av. Isso no lhe assenta bem.
  - Preciso mesmo assumir uns ares de av para ralhar um pouco voc, Anglica. Porque tenho medo de que venha a cometer um erro!... Anglica, minha linda, voc, 
que sabe o que  um grande amor, no v dizer-me que est enamorada de Filipe. Ele est muito distante de voc. Decepcionar-lhe-ia mais que a qualquer outra.
  Anglica ruborizou-se e os cantos de sua boca tremeram como os da boca de uma criana.
  - Por que voc diz que eu conheci um grande amor?
  - Porque isso se v em seus olhos. So to raras as mulheres que trazem no fundo das pupilas esse trao melanclico e maravilhoso! Sim, bem o sei... Acabou-se 
tudo para voc. De que maneira?... Pouco importa! Talvez voc tenha sabido que ele era casado, talvez ele a tenha enganado, talvez esteja morto...
  - Ele est morto, Ninon!
  -        E melhor assim. Sua grande ferida est sem veneno. Mas...
Anglica aprumou-se com altivez.
   - Ninon, no fale mais, eu lhe peo. Quero casar com Filipe. E preciso que eu case com Filipe. Voc no pode compreender por qu. No o amo,  verdade, mas ele 
me atrai. Sempre me atraiu. E eu sempre pensei que ele me pertenceria um dia. No me diga mais nada...
  Munida dessas insignificantes informaes sentimentais, Anglica reencontrou em seu salo aquele mesmo Filipe enigmtico. Ele vinha frequentemente, mas o plano 
de sua prima no fazia nenhum progresso.
  Anglica desconfiou que ele vinha por causa de Maria Ins. Mas, apesar de sua jovem irm ter-se retirado para o Convento das Carmelitas do Faubourg Saint-Jacques 
a fim de preparar sua Pscoa, ele continuou a se apresentar amide. Ela soube um dia que ele se gabava de beber em casa da-Sra. Morens o melhor roslio de toda Paris. 
Talvez ele no viesse seno para saborear aquele fino licor que ela prpria preparava com grande quantidade de funcho, anis, coentro, camomila e acar macerados 
em aguardente.
  Anglica tinha orgulho de suas habilidades domsticas, e nenhum engodo lhe parecia negligencivel. Mas ficou magoada a esse pensamento. Ento nem sua beleza nem 
sua conversa atraam Filipe?
  Quando chegaram os primeiros dias da primavera, ela se sentiu desesperada, tanto mais que um rigoroso jejum quaresmal a tinha enfraquecido. Estava to entusiasmada 
secretamente com a ideia de desposar Filipe que no tinha coragem de renunciar a ele. Com efeito, tornada Marquesa du Plessis, ela seria apresentada  corte, visitaria 
sua terra natal, sua famlia, e reinaria no belo castelo branco que lhe maravilhara a juventude. ..
  Com os nervos irritados por alternativas de esperana e desnimo, ardia por ir consultar La Voisin, a fim de que lhe previsse o futuro. A ocasio foi-lhe proporcionada 
pela Sra. Scarron, que uma tarde se apresentou em casa dela.
  -        Anglica, venho busc-la, pois  absolutamente necessrio que me acompanhe. Essa louca Atenas meteu na cabea a ideia de ir perguntar no sei o qu a 
uma adivinha diablica chamada Catarina Monvoisin. Parece-me que ns no seremos mais que duas mulheres piedosas para rezar e lutar contra os malefcios que vo 
talvez abater-se sobre essa infeliz imprudente.
  -        Tem toda a razo, Francisca - apressou-se a dizer Anglica.
Ladeada por seus dois anjos custdios, Atenas de Montespan penetrou no antro da feiticeira. Era uma belssima casa do Faubourg du Temple, para onde a feiticeira 
enriquecida se mudara do sinistro sto em que por muito tempo o ano Barcarola introduzira furtivas silhuetas. Agora, iam quase abertamente procur-la. Ela em geral 
recebia seus clientes sobre uma espcie de trono e envolta num manto bordado de abelhas de ouro. Mas, naquele dia, Catarina Monvoisin, que a frequncia da alta-roda 
no desviara de seus hbitos deplorveis, estava bria de cair.
  Da porta do locutrio em que foram introduzidas, as trs mulheres compreenderam logo que nada podiam extrair  pitonisa.
  Esta, depois de contempl-las longamente com olho turvo, acabou por descer de sua poltrona, titubeando, e esbarrou na horrorizada Francisca Scarron, cuja mo agarrou.
  - Voc tem um destino pouco comum- disse ela. - Vejo o Mar, depois a Noite, e depois principalmente o Sol. A Noite  a misria. Sabe-se o que  isso! No existe 
nada mais negro! Como a Noite! Mas o Sol  o rei. Eis, minha bela, o rei am-la-, e at casar com voc.
  - Mas voc se engana! - exclamou Atenas, furiosa. - Eu  que vim perguntar-lhe se o rei me amar. Confundiu tudo.
  - No se zangue, minha pequena dama - protestou a outra com voz pastosa. - No estou to embriagada que possa confundir o destino de duas pessoas. Cada qual tem 
o seu, no  verdade? D-me sua mo. Em voc tambm h o Sol. E depois, a Sorte. Sim, a voc tambm o rei amar. No entanto, ele no casar com voc.
  - Que v para o diabo a bbada - resmungou Atenas, retirando a mo com raiva.
  Mas La Voisin resolvera dar a cada uma boa medida. Apoderou-se da mo de Anglica, revirou os olhos, abanou a cabea.
  - Um destino prodigioso! Vejo a Noite, mas principalmente o Fogo, o Fogo que domina tudo.
  - Eu gostaria de saber se vou casar com um marqus.
  - No posso dizer-lhe se ele  marqus, mas vejo dois casamentos. Aqui, nestes dois pequenos traos. E depois seis filhos...
  - Meu Deus!...
  - E depois... ligaes amorosas!... Uma, duas, trs, quatro, cinco...
  - No vale a pena - protestou Anglica, querendo retirar a mo.
  - Espere!... E esse Fogo que  surpreendente. Ele arde durante toda a sua vida... at o fim. Ele  to violento que esconde o Sol. O rei a amar, mas voc no 
o amar por causa desse Fogo...
  No coche que as reconduzia, Atenas no se desencolerizava.
  -        Essa mulher no vale um nico soldo de todo o dinheiro que lhe demos. Nunca ouvi tamanha coleo de asneiras. O rei am-la-!... O rei am-la-!... Ela 
diz a mesma coisa a todo mundo!
  Foi pela Srta. de Parajonc que Anglica soube da novidade. No esperava por isso, e levou algum tempo para distinguir a verdade no jargo da velha preciosa. Esta 
viera v-la, conforme seu hbito,  hora da ceia. Surgira da noite brumosa, qual uma coruja sombria, cheia de fitas, com os olhos fixos e espreitadores. Anglica 
ofereceu-lhe alguns folhados junto  lareira. A solteirona falou demoradamente acerca de sua vizinha, a Sra. de Gauffray, que acabava de "sentir a consequncia do 
amor permitido", isto , que aps dez meses de casada tinha dado  luz um belo menino. Depois estendeu-se sobre os incmodos de "seus caros padecentes". Anglica 
sups que ela falava de seus velhos genitores, mas tratava-se dos ps da Srta. de Parajonc. Os "caros padecentes" tinham calos. Afinal, depois de dividir os cabelos 
em quatro e os sentimentos em oito, depois de ter declarado, olhando a chuva atravs da vidraa, "O terceiro elemento est caindo", Filnis, desejosa de anunciar 
a novidade, decidiu falar como o comum dos mortais:
  - Sabe que a Sra. de Lamoignon vai casar a filha?
  - Bom proveito! A pequena no  bela, mas tem bastante dinheiro para fazer um brilhante casamento.
  - Como sempre, voc enxergou logo de maneira precisa, minha cara.  bem verdade que somente o dote dessa pequena trigueira poderia tentar to belo gentil-homem 
como Filipe du Plessis.
  - Filipe?        
  - Voc no tinha ouvido nenhum boato? - perguntou Filnis, pestanejando com seus olhos atentos.
  Anglica havia recobrado o sangue-frio. Disse, erguendo os ombros:
  -        Talvez.... Mas no dei importncia. Filipe du Plessis no pode rebaixar-se a desposar a filha de um presidente, altamente colocado,  verdade, mas de 
origem plebeia.
  A solteirona teve um riso zombeteiro.
  -        Um campons de meus domnios dizia muitas vezes: "O dinheiro s se encontra na terra, e para apanh-lo  preciso abaixar-se". Todos sabem que o jovem 
Du Plessis est sempre em dificuldades. Ele joga alto em Versalhes, e para o equipamento de sua ltima campanha despendeu uma fortuna. Levou atrs de si uma tropa 
de dez mulas transportando sua baixela de ouro e no sei mais o qu. A seda de sua tenda era to bordada que os espanhis a descobriram de suas trincheiras e a tomaram 
para alvo... Reconheo, alm do mais, que esse encantador insensvel  furiosamente belo...
  Anglica deixou-a monologar. Depois -de uma primeira reao de incredulidade, sentiu-se desanimada. A ltima porta a franquear para enfim aquecer-se  luz do Rei-Sol 
- o casamento com Filipe - desmoronava. Ela sempre soubera, alis, que isso seria muito difcil e que no teria foras bastantes. No passava de uma chocolateira, 
e no poderia manter-se por muito tempo mais ao nvel da nobreza, que jamais a acolheria. Recebia-a, mas no a acolhia... Versalhes!... Versalhes!... O brilho da 
corte, o esplendor do Rei-Sol! Filipe! Belo deus Marte inacessvel!... Ela recairia b nvel de um Audiger. E seus filhos nunca seriam gentis-homens...
  Absorvida em seus pensamentos, ela no sentia o tempo passar. O fogo se extinguia na chamin, a vela fumegava.
  Ouviu Filnis interpelar asperamente Flipot, que se mantinha de guarda junto  porta:
  -        Imprestvel, remova o suprfluo dessa ardente.
  Como Flipot ficasse de boca aberta, Anglica traduziu em tom lasso:
  -        Lacaio, espevite a vela.
  Filnis de Parajonc levantou-se, satisfeita.
  -        Minha cara, voc parece pensativa. Deixo-a entregue s musas...
  
  CAPITULO XIX
  
  Ameaadora declarao de amor
  
  Naquela noite, Anglica no pde conciliar o sono. De manh, foi assistir  missa. Regressou muito calma. No havia, no entanto, tomado qualquer deciso, e quando, 
na parte da tarde, chegou a hora do corso e elaisubiu para sua carruagem, ainda no sabia o que iria fazer.        
  Mas dispensara especial cuidado ao seu traje. Dando tapinhas em seus failes e suas sedas, ela se reprochou de repente na solido de sua viatura. Por que havia 
estreado aquele vestido novo de trs saias alternadas, cores castanha-da-ndia, folha de outono e verde-tenro? Um finssimo bordado de ouro, realado por prolas, 
cobria como uma rede de ramagens cintilantes a primeira saia, o manto do vestido e o corpete. As rendas da gola e das mangas, com lacinhos verdes, reproduziam o 
desenho dos bordados. Anglica havia-os feito executar especialmente pelas manufaturas de Alen-on, segundo um projeto do Sr. de Moyne, ornamentista das casas reais. 
Ela havia, a princpio, reservado aquele traje, austero e luxuoso ao mesmo tempo, para as reunies de grandes damas, como as que oferecia a Sra. d'Albret, onde as 
conversas mundanas no se queriam demasiado frvolas. Anglica sabia que seu vestido combinava admiravelmente com a sua cor e os seus olhos, embora a envelhecesse 
um pouco.
  Mas por que o tinha ela posto para ir ao corso? Esperaria deslumbrar o implacvel Filipe, ou, pela severidade de seu vesturio, mspirar-lhe confiana?... Abanava-se 
nervosamente, para atenuar a onda de calor que lhe subia s faces.
  Crisntemo franziu o pequeno focinho mido e lanou um olhar Perplexo a sua dona.
  - Creio que vou fazer uma bobagem, Crisntemo - disse-lhe a jovem com melancolia. - Mas no posso renunciar. No, verdadeiramente, no posso renunciar.
  Depois, para grande surpresa do pequeno co, ela fechou os olhos e deixou-se tombar no fundo da viatura, como se tivesse perdido todas as foras.
  Ao aproximar-se das Tulherias, Anglica reanimou-se repentinamente. Com os olhos cintilantes,- tomou seu pequeno espelho trabalhado, que lhe pendia da cintura, 
e examinou sua maquila-gem. Plpebras negras, lbios vermelhos. Ela no se permitia mais que isso. No procurava branquear a tez, havendo concludo que o calor de 
sua carnao lhe atraa mais homenagens que as delicadas tentativas de revestimento a gesso, em moda. Seus dentes, cuidadosamente esfregados com p de flores de 
giesta e enxaguados com vinho queimado, tinham um brilho mido.
  Ela sorriu para si mesma.
  Tomou Crisntemo sob um dos braos e, segurando com a outra mo o manto do vestido, atravessou o porto das Tulherias. Aps um breve instante, disse a si mesma 
que, se Filipe no estivesse ali, ela renunciaria  luta. Mas ele estava. Ela o viu junto ao Grande Tabuleiro, ao lado do Prncipe de Conde, que perorava naquele 
lugar favorito, onde gostava de ir mostrar-se aos curiosos.
  Anglica dirigiu-se ousadamente para o grupo. Deliberou subitamente que, se o destino havia trazido Filipe s Tulherias, ela cumpriria o que havia decidido.
  O final da tarde estava doce e fresco. Uma breve pancada de chuva tinha escurecido o saibro e tornado lustrosas as primeiras folhas das rvores.
  Anglica passava, cumprimentando e sorrindo. Dizia a si mesma, contrariada, que seu vestido discordava horrivelmente do costume que Filipe trazia. Ele, que sempre 
vestira roupas claras, ostentava nesse dia um extraordinrio traje azul-pavo, com espessas botoeiras de bordados de ouro sem intervalos. Sempre na vanguarda da 
moda, ele j tinha dado ao seu casaco a nova forma de ampla saia, que a espada levantava atrs.
  Seus punhos eram belos, mas os canhes eram quase inexistentes, e o calo apertava estreitamente os joelhos. Os que ainda usavam rhingrave ruborizavam-se ao encontr-lo. 
Belas meias escarlates com quadrados de ouro acompanhavam os taces vermelhos de seus sapatos de couro com fivelas de diamantes. Debaixo do brao, Filipe trazia 
um pequeno chapu de castor, to fino que se diria de prata velha polida. As plumas eram de cor azul-celeste, e, como o jovem acabava de chegar, no tivera o aborrecimento 
de ver essa obra-prima desarranjada pela chuva primaveril.
  Com sua peruca loura cascatando sobre as espduas, Filipe du plessis-Bellire semelhava um belo pssaro aprumado sobre os espores.
  Anglica procurou com os olho a silhueta da pequena Lamoignon, mas sua triste rival no estava presente. Com um suspiro de alvio, caminhou em direo ao Prncipe 
de Conde, que sempre que a encontrava dava mostras de uma afeio decepcionada e resignada.
  -        Ento, minha linda! - suspirou ele, esfregando seu longo nariz
na fronte de Anglica. - Minha cruel, dar-nos- a honra de vir ao Cours partilhar nossa carruagem?
  Anglica deu um pequeno grito. Depois fingiu lanar um olhar embaraado para Filipe e murmurou:
  - Que Vossa Alteza me perdoe, mas 6 Sr. du Plessis j me havia convidado para o ipasseio.
  - Ao diabo esses frangos emplumados! - resmungou o prncipe. - Ol, marqus, ter a pretenso de reter por muito tempo, para seu uso pessoal e exclusivo, uma das 
mais belas damas da capital?
  - Deus me livre, monseigneur - respondeu o jovem, que no tinha ouvido o dilogo e ignorava de'que dama se tratava.
  - Est bem! Pode lev-la. Eu a concedo a voc. Mas, no futu: ro, digne-se descer de sua nuvem a tempo de considerar que no  nico no mundo e que outros tambm 
tm direito ao mais brilhante sorriso de Paris.
  - Tomo nota, monseigneur - afirmou o corteso, varrendo o saibro com sua pluma azul.
  Aps uma profunda reverncia  companhia, Anglica j tinha posto sua pequena mo na de Filipe e o levava. Pobre Filipe! Por que parecia to temvel? Ele era, 
ao contrrio, desarmante, com sua distrao altiva, da qual se podia to facilmente abusar.
  Quando o casal passava diante de um banco, o Sr. de La Fontaine, que ali se achava em companhia dos Srs. Racine e Boileau, comentou em voz alta:
  -O faiso e sua faisoa!
  Anglica compreendeu a aluso ao contraste que formavam seus costumes. Por trs de seu leque, dirigiu um pequeno olhar ao poeta, que lhe respondeu com uma piscadela 
brejeira. Mas ela pensava. "O faiso e sua faisoa?... Deus o oua!"
  Baixou os olhos e viu, com o corao batendo, o passo seguro e magnfico de Filipe, com seus taces vermelhos. Nenhum senhor sabia pisar como ele, nenhum tinha 
to belas pernas, cheias e arqueadas. "Nem mesmo o rei...", pensou a jovem. Mas, para julg-lo, era-lhe necessrio rever o rei um pouco mais de perto e, para isso, 
ir a Versalhes. Ela iria a Versalhes Assim, com sua mo sobre a de Filipe, subiria a galeria real. Os olhares da corte examinariam seu traje maravilhoso. Ela se 
deteria a alguns passos do rei... "A Sra. Marquesa du Plessis-Bellire..."
  Seus dedos crisparam-se um pouco. Filipe disse ento, de mau humor:
  - Ainda no compreendi por que o senhor prncipe me imps sua presena...
  - Porque ele pensou que lhe agradava, voc sabe que ele o quer ainda mais que ao senhor duque. Voc  o filho de seu esprito guerreiro.
  E acrescentou, dirigindo-lhe um olhar carinhoso:
  - Minha presena o aborrece a esse ponto? Est esperando algum?
  - No! Mas eu no tencionava ir ao Cours esta tarde.
  Ela no ousou perguntar-lhe por qu. Talvez ele no tivesse nenhum motivo. Com Filipe era frequentemente assim. Suas decises no significavam nada de srio, mas 
ningum ousava interrog-lo.
  Ao longo do Cours, os passeantes ainda eram raros. Um cheiro de bosque fresco e de cogumelos impregnava o ar sob a abbada sombria das grandes rvores.
  Ao subir para o coche de Filipe, Anglica notara a gualdrapa com franjas de prata que pendiam quase at o cho. Onde pudera ele encontrar os recursos necessrios 
para aquela nova elegncia? Ela supunha-o, no entanto, muito endividado, aps as suas loucuras do carnaval. Seria j o efeito das generosidades do Presidente de 
Lamoignon para com seu futuro genro?
  Nunca Anglica havia suportado to dificilmente o silncio de Filipe.
  Impaciente, ela fingia interessar-se pelas faccias de Crisntemo ou pelas carruagens com que cruzavam. Vrias vezes ela abriu a boca, mas o perfil imperturbvel 
do rapaz a desencorajava. Com olhar distante, ele movia lentamente as faces, chupando uma pastilha de almscar ou de funcho. Anglica dizia a si mesma que, quando 
fossem casados, ela o faria perder aquele hbito. Quando algum possui uma beleza to pura, na deve entregar-se a um hbito que pode faz-lo parecer um ruminante.
  Agora havia mais sombra, porque as- rvores eram mais frondosas. O cocheiro fez perguntar por,um lacaio se devia voltar ou prosseguir pelo Bois de Boulogne.
  -        Prosseguir - ordenou Anglica, sem esperar o assentimento de Filipe.
  E, tendo o silncio afinal sido quebrado, ela continuou vivamente:
  -        Sabia da tolice que se propala, Filipe? Esto dizendo que voc vai casar com a jovem Lamoignon.
  Ele inclinou a bela cabea loura.
  - Essa tolice  verdadeira, minha cara.
  - Mas...
  Anglica tomou flego e investiu:
  - Mas isso no  possvel! Voc, o rbitro da elegncia, no vai fazer-me crer que acha algum encanto naquela moa.
  - No tenho qualquer opinio sobre seu encanto.
  - Afinal, que  que o inspira nela?
  - Seu dote.
  A Srta. de Parajonc no tinha, pois, mentido. Anglica reteve um suspiro de alvio. Se era uma questo de dinheiro, tudo poderia arranjar-se. Mas esforou-se por 
dar ao rosto uma expresso penalizada.
  - Oh! Filipe, no o acreditava to materialista!
  - Materialista? - repetiu ele, erguendo os superclios com ar ignorante.
  - Quero dizer, to apegado s coisas terrenas.
  - A que deseja que eu seja apegado? Meu pai no me destinou s ordens.
  - Mesmo sem ser da Igreja, pode-se considerar o casamento de outro modo que no seja por uma questo de dinheiro!
  - De que modo ento?
  - Ora!... por uma questo de amor.
  - Oh! Se  isso que a inquieta, minha' cara, eu posso afirmar-ihe que tenho a inteno de fazer um magote de filhos nessa pequena sem encanto.
  - No! - gritou Anglica, irritada.
  - Ela os ter por seu dinheiro.
  -        No! - repetiu Anglica, batendo com o p.
  Filipe voltou para ela um rosto profundamente surpreso.
  - No quer que eu faa filhos em minha mulher?
  - No se trata disso, Filipe. No quero que ela seja sua mulher, eis tudo.
  -        E por que, ento, no o ser ela?
Anglica soltou um suspiro de exasperao.
  - Oh! Filipe, voc, que frequentou o salo de Ninon, no posso compreender como no adquiriu o menor senso da conversao. Com seus ''porqus" e seus ares aturdidos, 
acaba por dar a seus interlocutores a impresso de que eles so completamente estpidos.
  - Talvez o sejam - disse ele com um leve sorriso.
  Por causa desse sorriso, Anglica, que estava com vontade de bater-lhe, foi invadida por um enternecimento absurdo. Ele sorria.,. Por que sorria to raramente? 
A jovem tinha a impresso de que somente ela poderia vir a compreend-lo e faz-lo sorrir assim.
  "Um tolo", diziam alguns. "Um bruto", diziam outros. E Ninon de Lenclos: "Quando o conhecemos bem, achamos que ele  muito pior do que parece. Mas, quando o conhecemos 
mais profundamente, conclumos que ele  muito melhor do que parece...  um nobre... No pertence seno ao rei  a si prprio..."
  "A mim tambm, ele me pertence", pensou Anglica ferozmente.
  Estava com raiva. Que seria necessrio para fazer sair aquele rapaz de sua indiferena? O cheiro da plvora? Pois bem! Ele teria a guerra, j que a desejava. Ela 
afastou nervosamente Crisntemo, que mordicava as borlas de seu manto, depois fez um esforo para dominar sua irritao e disse em tom jovial:
  - Se se trata de restaurar sua fortuna, Filipe, por que no se casa comigo? Tenho muito dinheiro, meus bens no correm o risco de ser hipotecados em consequncia 
de ms colheitas. So negcios bons e slidos e que tendem a aumentar.
  - Casar-me com voc? - repetiu ele.
  Seu espanto era verdadeiro. Ele soltou uma gargalhada desagradvel.
  -        Eu? Casar-me com uma chocolateira! - disse com supremo desdm.
  Anglica enrubesceu violentamente. Aquele Filipe teria sempre a arte de transtorn-la de vergonha e de clera. Ela disse, com os olhos faiscantes:
  -No se diria que eu proponho unir meu plebesmo a um sangue real? No esquea que eu me chamo Anglica de Ridou de Sanc de Monteloup. Meu sangue  to puro 
quanto o seu, meu primo, e mais antigo, pois minha famlia descende dos primeiros Capetos, enquanto, pelos homens, voc no pode orgulhar-se se no de um bastardo 
qualquer de Henrique II.
  Sem pestanejar, ele a fixou demoradamente e um sutil interesse pareceu acordar em seus olhos plidos.
  -        Oh! Voc j me disse outrora qualquer coisa desse gnero. Eu me recordo. Foi em Monteloup, na sua fortaleza em runa. Uma pequena suja e feia, mal penteada 
e em farrapos, esperava-me ao p da escada para fazer-me saber que seu sangue era mais antigo que o meu. Oh! Era verdadeiramente muito engraado e ridculo.
  Anglica reviu-se no corredor gelado de Monteloup, os olhos erguidos para Filipe. Ela recordou como suas mos estavam frias, sua cabea ardente, seu ventre dolorido, 
enquanto ela o via descer a grande escada de pedra. Todo o seu jovem corpo, trabalhado pelo mistrio da puberdade, havia tremido diante da apario do belo adolescente 
louro. Ela desmaiara.
  Quando voltou a si, no grande leito de seu quarto, sua me explicou-lhe que ela no era mais uma menina e que um novo fenmeno se manifestara nela.
  Que Filipe houvesse estado assim ligado s primeiras manifestaes da sua vida como mulher ainda a perturbava depois de tantos anos. Sim, como ele lhe dizia, era 
ridculo, mas no carecia de doura.
  Contemplou-o com ar incerto e esforou-se por sorrir. Como naquela tarde, sentia-se quase a tremer diante dele. Murmurou em tom splice:
  -        Filipe, case comigo. Voc ter todo o dinheiro que quiser.
Sou de sangue nobre. Esquecero rapidamente o meu comrcio.
Alis, muitos gentis-homens, no momento atual, no se dedignam de comerciar. O sr. Colbert me disse...
  Ela se interrompeu. Ele no a escutava. Talvez pensasse em outra coisa... ou em nada. Se ele lhe houvesse perguntado: "Por que deseja casar comigo?", ela lhe teria 
gritado: "Porque eu o amo!" Pois naquele momento ela descobria que o amava com o mesmo amor nostlgico e ingnuo com que adornara sua infncia. Mas ele no fazia 
nenhuma pergunta. Ento, ela continuou, desastradamente, cheia de desespero:
  -        Compreenda-me... eu quero reencontrar meu meio, ter uninome, um grande nome... Ser apresentada  corte... em Versalhes...
  No era assim que deveria falar. Lamentou prontamente essa confisso, esperou que ele no a tivesse ouvido. Mas ele murmurou, com um leve sorriso:
  -        No seria certamente um casamento por questo de dinheiro!
Depois, com o mesmo tom com que repeliria a mo que lhe estendesse uma doceira:
  -        No, minha cara, decididamente no...
  Ela compreendeu que a deciso dele era irrevogvel. Ela havia perdido.
  Ao cabo de alguns instantes, Filipe fez-lhe notar que ela no respondera ao cumprimento da Srta. de Montpensier.
  Anglica percebeu que a carruagem tinha regressado s alias do Cours-la-Reine, agora muito animadas.
  Ps-se a responder maquinalmente s saudaes que lhe dirigiam. Parecia-lhe que o sol se tinha apagado e que a vida tomara um sabor de cinza. Acabrunhava-a o pensamento 
de que Filipe estava sentado junto dela e que ela se achava assim desarmada. No haveria, ento, nada mais a fazer?... Seus argumentos, sua paixo deslizavam sobre 
ele como sobre uma carapaa lisa e gelada. No se pode forar um homem a casar conosco quando ele no nos ama nem nos deseja e seus interesses encontram outra soluo. 
Somente o medo poderia talvez constrang-lo. Mas que medo conseguiria curvar a fronte daquele deus Marte?
  - Eis a Sra. de Montespan - tornou Filipe. - Ela est com sua irm, a abadessa, e a Sra. de Thianges. So verdadeiramente criaturas radiosas.
  - Eu pensava que a Sra. de Montespan estivesse no Roussillon. Ela suplicou a seu marido que a levasse, para fugir aos credores.
  - A julgar pelo aspecto de sua carruagem, os credores deixaram-se enternecer. Notou como o veludo  belo? Mas por que preto?  uma cor sinistra.
  - Os Montespan ainda esto de luto aliviado por sua me.
  - Muito aliviado luto. Ontem a Sra. de Montespan danou em Versalhes. Foi a primeira vez que houve ali um pouco de divertimento aps a morte da rainha-me. O rei 
convidou a Sra. de Montespan.
  Anglica fez um esforo para perguntar se aquilo significava que a desgraa da Srta. de La Vallire estava prxima. Ela mantinha com dificuldade aquela conversao 
mundana. Pouco se lhe dava que o Sr. de Montespan fosse cabro e que sua audaciosa amiga se tornasse amante do rei.
  -  O senhor prncipe lhe faz smais - disse ainda Filipe.
  Com alguns movimentos de leque, Anglica respondeu aos giros de basto que o Prncipe de Conde lhe dirigia pela portinhola de seu coche.
  -        Voc , certamente, a nica mulher a quem monseigneur ainda dirige alguma galanteria - constatou o marqus com um pequeno riso, que no se sabia se era 
de mofa ou de admirao. - Desde a morte de sua doce amiga, a Srta. Le Vigean, no carmelo do Faubourg Saint-Jacques, ele jurou que no mais pediria s mulheres seno 
um prazer carnal. Foi ele quem me fez a confidncia.
Mas eu pergunto a mim mesmo que poderia ele pedir-lhes anteriormente.
  E, depois de um polido bocejo:
  - Ele no almeja seno uma coisa: conseguir de novo um comando. Logo que ele sabe que h no ar ideias de campanha, no falta um dia ao jogo do-rei e paga suas 
dvidas com pistolas de ouro.
  - Que herosmo! - chacoteou Anglica, que comeava a ficar exasperada com o tom aborrecido e precioso de Filipe. - At onde esse perfeito corteso no se arrastaria 
para recuperar o valimento real?... Quando penso que j houve tempo em que ele procurou envenenar o rei e seu irmo!
  - Que est dizendo, senhora? - protestou Filipe, indignado. - Que o prncipe se tenha rebelado contra o Sr. de Mazarino, ele prprio no o nega. Seu dio levou-o 
mais longe do que ele teria desejado. Mas atentar contra a vida do rei, jamais essa ideia poderia ocorrer-lhe! A que ponto chega a irresponsabilidade das mulheres!
  - Oh! No se faa de inocente, Filipe. Voc sabe to bem quanto eu que isso  verdade, pois foi no seu prprio castelo que se tramou o atentado.
  Houve uma pausa e Anglica compreendeu que atingira o alvo.
  -Voc est louca! - disse Filipe com voz alterada.
Anglica voltou-se subitamente para ele. Havia ela ento encontrado to depressa o caminho de seu medo, de seu nico medo?...
  Viu-o plido, tenso, com os olhos a espreitarem-na com uma expresso afinal atenta. Disse em voz baixa:
  -        Eu estava l. Vi-os e ouvi-os. O Prncipe de Conde, o monge Exili, a Duquesa de Beaufort, seu pai e muitos outros ainda vivos e que no momento se divertem 
em Versalhes. Eu os ouvi venderem-se ao Sr. Fouquet.
  -         mentira!
  Semicerrando os olhos, ela recitou:
  - "Eu, Lus II, Prncipe de Conde, assumo perante Monseig-neur Fouquet o compromisso de jamais me subordinar a outra pessoa que no ele, de lhe entregar minhas 
praas, fortificaes e outras obras de defesa, todas as vezes..."
  - Cale-se! - gritou ele, horrorizado.
  -        "Feita no Plessis-Bellire, a 20 de setembro de 1649."
Com grande jbilo, ela o via empalidecer cada vez mais.
  - Pequena tola - disse ele, erguendo os ombros com desprezo. - Por que voc exuma essas velhas histrias? O passado  o passado. O prprio rei no lhes daria crdito.
  - O rei nunca teve entre as mos tais documentos. Ele jamais soube verdadeiramente at onde podia ir a traio dos grandes.
  Ela se interrompeu para saudar a carruagem da Sra. d'Albret, depois continuou com muita suavidade:
  - Ainda no faz cinco anos, Filipe, que o Sr. Fouquet foi condenado.
  - E da? Aonde voc quer chegar?
  - A isto: que o rei, durante muito tempo ainda, no poder ver com ternura os nomes de tais ou tais pessoas ligados ao do Sr. Fouquet.
  - Ele no os ver. Tais documentos foram destrudos.
  - Nem todos.
  O jovem aproximou-se dela, no assento de veludo. Ela teria sonhado com aquele gesto para um beijo de amor, mas a hora no era, manifestamente, de galanterias. 
Ele agarrou-lhe o pulso e apertou-o em sua mo fina, cujas articulaes embranqueceram. Anglica mordeu os lbios de dor, mas seu prazer foi mais forte. Ela preferia 
mil vezes v-lo assim, violento e grosseiro, a v-lo distante, fugidio, inexpugnvel no retraimento de seu desdm.
  Sob a leve maquilagem, o rosto do Marqus du Plessis estava lvido. Ele segurava-lhe o pulso.
  Ela recebeu em pleno rosto seu hlito almiscarado.
  - O cofre com o veneno... - cochichou ele. - Ento foi voc que o apanhou!
  - Sim, fui eu.
  - Sujeitinha reles! Eu sempre tive certeza de que voc sabia alguma coisa. Meu pai no o acreditava. O desaparecimento desse cofre torturou-o at a morte. E foi 
voc! E ainda tem o cofre?
  - Ainda o tenho.
  Ele se ps a praguejar entre dentes. Anglica achava magnfico ver aqueles belos lbios desfiarem tal rosrio de imprecaes.
  -        Deixe-me - disse ela -, voc me maltrata.
  Ele afastou-se lentamente, mas com um fulgor no olhar.
  -        Eu sei - disse Anglica - qucvoc gostaria de maltratar-me mais ainda. Maltratar-me at que eu me calasse para sempre. Mas nada ganharia, Filipe. No mesmo 
dia da minha morte, meu testamento deve ser entregue ao rei, que nele achar as revelaes necessrias e a indicao do esconderijo onde se encontram os documentos.
  Com uma pequena careta, ela descolou de seu punho a corrente de ouro, cujos elos os dedos de Filipe haviam incrustado em sua carne.
  -        Voc  um bruto, Eilipe -disse ela em tom leve.
  Depois simulou olhar pela portinhola. Agora estava muito calma.
  L fora, o sol descera .para o poente atravs das rvores. A carruagem tinha voltado para o Bois de Boulogne. Ainda estava claro, mas a noite no tardaria a cair.
  Anglica sentiu-se penetrada pela umidade. Com um estremecimento, voltou-se de novo para Filipe.
  Ele se achava branco e imvel como uma esttua, mas ela notou que seu bigode louro estava molhado de suor.
  - Eu amo o prncipe - disse ele -, e meu pai era um bom homem. Penso que no se pode fazer isso... Que dinheiro voc quer em troca desses documentos? Tomarei emprestado, 
se necessrio.
  - No quero dinheiro.
  - Que voc quer ento?
  - J lhe disse h um instante, Filipe. Quero que se case comigo.
  - Nunca! - disse ele, recuando.
  Ele desgostaria dela a tal ponto? No entanto, havia entre os dois mais que simples relaes mundanas. No tinha ele buscado sua companhia? A prpria Ninon atentara 
nisso.
  Permaneceram muito tempo silenciosos. Somente quando a carruagem se aproximava da Manso do Beatreillis foi que Anglica percebeu que tinha voltado a Paris. Era 
noite fechada. A jovem nao via mais o semblante de Filipe. Era melhor assim.
  Ela teve a audcia de perguntar, em tom mordaz:
  -        Ento, marqus, por onde andou em suas meditaes?
Ele mexeu-se e pareceu despertar de um sonho mau.
  -        Estamos entendidos, senhora, eu casarei com voc! Apresente-se amanha de noite em minha casa da Rue Saint-Antoine. Discutir ali com o meu intendente 
os termos do contrato.
  Anglica no lhe estendeu a mo. Sabia que ele a rejeitaria.
  Ela recusou a colao que lhe apresentou o criado e, contrariamente ao seu hbito, no subiu para Ver os filhos, mas ganhou diretamente o familiar refgio de seu 
escritrio chins.
  -        Deixe-me - disse ela a Javotte, que se apresentara para tirar-lhe a roupa.
  Quando ficou s, apagou as velas, pois tinha medo de ver a prpria imagem refletida num espelho.
  Ficou muito tempo imvel, apoiada ao canto da janela. Do formoso jardim lhe vinha, atravs das sombras, o perfume das flores novas.
   O fantasma negro do Grande Coxo com mscara de ferro a espreitava?
  Recusava voltar-se, olhar para dentro de si mesma. "Voc me deixou s! Que poderia eu fazer ento?", gritava ela ao fantasma do seu amor. Dizia a si mesma que 
muito em breve seria Marquesa du Plessis-Bellire, mas no sentia nenhum jbilo em seu triunfo. Experimentava um dilaceramento de seu ser inteiro, uma destruio 
completa.
  "O que voc fez  ignbil, espantoso!..."
  Lgrimas correram-lhe pelas faces e, com a fronte apoiuda-aos vitrais onde uma sacrlega mo apagara as armas do Conde de Peyrac, ela chorava convulsivamente, 
jurando que aquelas lgrimas de fraqueza seriam as ltimas que derramaria em sua vida.
  
  CAPITULO XX
  
  Molines prepara o novo contrato de casamento
  
  Quando, no dia seguinte, a Sra. Morens se apresentou  casa da Rue Saint-Antoine, tinha reencontrado um pouco de sua altivez. Havia decidido no comprometer, por 
escrpulos tardios, as consequncias de um ato que tivera tanta dificuldade em concretizar. "O vinho est tirado, preciso bb-lo", teria dito mestre Bourjus.
  Com a cabea erguida, ela entrou em um grande salo, alumiado apenas pelo fogo da lareira. No havia ningum ali. Teve tempo de tirar o manto e a mscara e estender 
os dedos para as chamas. Embora ela se defendesse contra qualquer apreenso, tinha as mos frias e o corao agitado.
  Alguns instantes mais tarde, um reposteiro se levantou e um velho modestamente vestido de negro aproximou-se dela e saudou-a profundamente. Anglica no pensara 
um s momento que o intendente dos Plessis-Bellire pudesse ser ainda o Sieur Molines. Reconhecendo-o, deu um grito de surpresa e agarrou-lhe espontaneamente as 
duas mos.
  - Sr. Molines!... Ser possvel? Oh! Como estou feliz"por v-lo de novo!
  - A senhora me honra muito - respondeu ele, inclinando-se outra vez. - Sente-se nessa poltrona.
  Ele sentou-se perto da lareira, diante de uma mesinha de centro na qual havia folhas de papel, um tinteiro e uma taa de areia.
  Enquanto ele aparava uma pena, Anglica, ainda estupefata por aquela apario, examinava-o. Ele envelhecera, mas seus traos permaneciam firmes, seu olhar, rpido 
e inquisitrio. Somente seus cabelos, que ele cobria com um solidu de pano preto, se haviam
  tornnado completamente brancos. Ao seu lado, Anglica no podia deixar de evocar a silhueta robusta de seu pai, que tantas vezes tinha ido sentar-se junto  lareira 
do intendente huguenote para discutir e preparar o futuro de sua ninhada.
  - Pode dar-me notcias de meu pai, Sr. Molines? O intendente soprou as aparas da pena de ganso.
  - O senhor baro est de boa sade, senhora.
  - E os muares?
  -        Os da ltima estao vo bem. Penso que este pequeno comrcio tem dado satisfao ao senhor seu pai.
  Ao lado de Molines, Anglica estava sentada como outrora, mocinha pura, um pouco intransigente e muito direita. Fora Molines quem negociara seu casamento com o 
Conde de Peyrac. Ela o via agora reaparecer, mas dessa vez em nome de Filipe. Como uma aranha tecendo pacientemente seus fios, Molines era sempre encontrado envolvido 
na trama de sua vida. Era tranquilizador hav-lo reencontrado. No seria o sinal de que o presente se ligava ao passado? A paz da terra natal, a fora haurida no 
seio do patrimnio familiar, mas tambm os cuidados da infncia, os esforos do pobre baro para estabelecer a prognie, as inquietantes generosidades do intendente 
Molines...
  -        O senhor se recorda? - perguntou ela pensativamente. - O senhor estava l, na noite de minhas npcias em Monteloup. Eu no simpatizava com o senhor. E 
no entanto fui imensamente feliz, graas ao senhor.
  O velho lanou-lhe um olhar por cima dos grossos culos de tartaruga.
  -        Ns estamos aqui para perder-nos em consideraes comoventes sobre seu primeiro matrimnio ou para discutir as condies do segundo?
  As faces de Anglica empurpuraram-se.
  - Est sendo muito duro, Molines.
  - A senhora tambm  dura, a julgar pelos meios empregados para persuadir meu jovem amo a despos-la.
  Anglica respirou profundamente, mas seu olhar no se desviou. Ela sentia que o tempo no era mais aquele em que, mocinha intimidada e pobre, ela olhava com temor 
o todo-poderoso intendente Molines, que tinha entre as mos a sorte de sua famlia.
  Ela era agora uma mulher de negcios, com quem o Sr. Colbert no desdenhava palestrar, e cujos raciocnios lcidos desarmavam o banqueiro Pennautier.
  -        Molines, o senhor me disse um dia: "Quando algum quer atingir um fim, deve estar disposto a fazer algum sacrifcio". Neste caso, eu creio que vou perder 
qualquer coisa de muito precioso: a estima de mim prpria... Mas  preciso! Tenho um fim a atingir. Um leve sorriso distendeu os lbios, severos do intendente.
  -        Se minha humilde aprovao pode servir-lhe de algum consolo, senhora, eu a concedo.
  Foi a vez de Anglica sorrir. Ela sempre se entenderia com Molines. Essa certeza deu-lhe a coragem de enfrentar a discusso do contrato.
  - Senhora - tornou ele -, sejamos precisos. O senhor marqus deu-me bem a entender que esto em jogo coisas muito srias. Eis por que vou expor-lhe algumas condies, 
que a senhora dever subscrever. Em seguida a senhora dar-me- conhecimento das suas. Depois eu redigirei o contrato e farei sua leitura diante das duas partes. 
De incio, senhora, dever jurar sobre um crucifixo que conhece o esconderijo de certo cofre do qual o senhor marqus deseja obter a posse. Somente depois desse 
juramento  que o contrato ter valor../"
  - Estou pronta a faz-lo - afirmou Anglica, estendendo a mo.
  - Em alguns instantes, o Sr. du Plessis vai apresentar-se com seu capelo. Entrementes, esclareamos a situao. Estando convencido de que a Sra. Morens  possuidora 
de um segredo que lhe interessa em alto grau, o Sr. Marqus du Plessis-Bellire aceitar desposar a Sra. Morens, nascida Anglica de Sanc de Monteloup, em troca 
das seguintes vantagens: realizado o casamento, isto , imediatamente aps a bno nupcial, a senhora se desfar do referido cofre, em presena de duas testemunhas, 
que sero sem dvida o capelo que tiver abenoado o casamento e eu mesmo, seu humilde servidor. Alm disso, o senhor marqus exige poder dispor livremente de sua 
fortuna.
  - Oh! Um momento! - disse vivamente Anglica. - O senhor marqus dispor de quanto dinheiro queira, e eu estou pronta a fixar os algarismos da renda que lhe atribuirei 
anualmente. Mas permanecerei a nica proprietria e administradora dos meus deveres. Oponho-me mesmo a que ele participe de qualquer maneira dos meus negcios, pois, 
aps haver trabalhado to duramente, nao estou disposta a encontrar-me de repente na misria, mesmo com um belo nome. Conheo o gnio dilapidatrio dos grandes senhores!
  Sem pestanejar, Molines riscou algumas linhas e escreveu outras. A seguir, pediu a Anglica que fizesse uma exposio to detalhada quanto possvel dos diversos 
negcios de que ela se ocupava... Com bastante orgulho, ela ps o intendente ao corrente de suas empresas, feliz de poder sustentar a discusso com aquela velha 
raposa e de lhe indicar as personagens importantes junto s quais ele poderia verificar o que ela dizia. Essa precauo no melindrou a jovem, pois, desde que ela 
comeou a penetrar nos arcanos das finanas e do comrcio, tinha aprendido que nenhuma palavra tem valor seno na medida em que esteja apoiada em fatos verificveis. 
Ela notou em seus olhos um brilho de admirao, quando lhe explicou sua posio na Companhia das ndias, e como ali havia ingressado.
  -        Confesse que no me sa mal, Sr. Molines - concluiu ela.
Ele meneou a cabea.
  -        Confesso que seus negcios no me parecem desazados. Tudo depende, evidentemente, do que pde investir no incio.
  Anglica teve um risinho amargo.
  -        No incio?... Eu no tinha nada, Molines. A pobreza em que vivamos em Monteloup no era nada em comparao com a que eu conheci depois da morte do Sr. 
de Peyrac.
  A meno desse nome, eles permaneceram silenciosos algum tempo. Como o fogo diminusse, Anglica apanhou uma acha num depsito colocado junto da lareira e p-la 
sobre os ties.
  -  preciso que eu lhe fale de sua mina de Argentire - disse afinal Molines, no mesmo tom tranquilo. - Ela tem contribudo muito para o sustento de sua famlia, 
nestes ltimos anos, mas  justo que, doravante, a senhora possa receber, assim como seus filhos, o usufruto dessa produo.
  - Ento a mina no foi posta sob selos e atribuda a outros, como todos os bens do Conde de Peyrac?
  - Escapou  rapacidade dos inspetores reais. A poca, ela representava seu dote. Sua situao de propriedade permaneceu bastante ambgua...
  - Como todas as coisas de que o senhor se ocupa, mestre Molines - disse Anglica, rindo. - O senhor tem o gnio de poder servir a vrios amos.
  - Isso  que no! - protestou o intendente. - Eu no tenho vrios amos, senhora. Tenho vrios negcios.
  - Percebo a sutil diferena, Matre Molines. Falemos, ento, do caso de Du Plessis-Bellire Filho. Subscrevo os compromissos que o senhor me pediu com relao 
ao cofre. Estou pronta a estudar o montante da renda necessria ao senhor marqus. Em troca dessas vantagens, peo o casamento e que seja reconhecida como marquesa, 
soberana das terras e ttulos pertencentes a meu esposo. Peo igualmente que seja apresentada aos seus parentes e amigos como sua mulher legtima. Peo tambm que 
meus dois filhos encontrem acolhida e proteo na casa de seu padrasto. Finalmente, eu gostaria de ser sabedora dos valores e bens de que ele dispe.
  - Hum!... A a senhora arrisca-se a no descobrir seno insignificantes vantagens. No lhe ocultarei que meu jovem amo est muito endividado. Ele possui, alm 
desta casa parisiense, dois castelos, um na Touraine, que lhe vem de sua me, o outro no Poi-tou. Mas as terras dos dois castelos esto hipotecadas.
  - Ter o senhor gerido mal os negcios de seu amo, Molines?
  - Ai de mim, senhora! O prprio Sr. Colbert, que trabalha quinze horas por dia para sanear as finanas do reino, nada pode contra o esprito de prodigalidade d 
rei, que torna falhos todos os clculos de seu ministro^Da mesma forma, o senhor marqus consumiu todas as suas rendas, j muito diminudas plo fausto do senhor 
seu pai, em campanhas guerreiras ou frivolidades cortess. Vrias vezes o rei lhe fez presente de cargos interessantes, que ele poderia ter feito frutificar. Mas 
ele apressava-se a vend-los para pagar uma dvida de jogo ou comprar uma carruagem. No, senhora, o negcio do Plessis-Bellire no  um negcio interessante para 
mim. Ocupo-me dele por hbito... sentimental. Permita-me redigir sua proposta, senhora.
  Durante alguns instantes no se ouvia na pea seno o arranhar da pena, que respondia ao crepitar do fogo.
  "Se eu me casar", pensava Anglica, "Molines tornar-se- meu intendente. E curioso! Nunca pensei nisso. Ele certamente procurar meter seus longos dedos em meus 
negcios. Terei nele um conselheiro excelente."
  - Posso permitir-me sugerir-lhe uma clusula suplementar? - perguntou Molines, erguendo a cabea.
  - A meu favor ou de seu amo?
  - A seu favor.
  - Eu acreditava que o senhor representava os interesses do Sr. du Plessis...
  O velho sorriu sem responder e tirou os culos. Depois recostou-se no espaldar de sua poltrona e lanou sobre Anglica aquele olhar vivo e penetrante que j pousara 
sobre ela dez anos antes, quando lhe dizia: "Creio que a conheo, Anglica, e falar-lhe-ei diferentemente do modo como falo a seu pai..."
  - Eu penso - disse ele - ser muito bom casar com meu amo. No esperava tornar a v-la. A senhora est aqui, contra toda a probabilidade, e o Sr. du Plessis acha-se 
na obrigao de despos-la. Faa-me a justia de admitir, senhora, que eu em nada concorri para tal unio. Mas agora  preciso que essa unio seja um xito: no interesse 
de meu amo, no seu e tambm no meu, pois a felicidade dos patres faz a dos servidores.
  - Sou de sua opinio, certamente, Molines. Qual , ento, essa nova clusula?
  - Que exija a consumao do matrimnio...
  - A consumao do matrimnio? - repetiu Anglica, abrindo olhos de pensionista recm-sada do convento.
  - Espero que compreenda o que lhe quero dizer!
  - Sim... eu compreendo - balbuciou Anglica. - Mas o senhor me surpreendeu.  bem evidente que, desposando o Sr. du Plessis...
  - No  de todo evidente, senhora. Casando com a senhora, o Sr. du Plessis no faz um casamento de inclinao. Eu diria, mesmo, que ele faz um casamento forado. 
Assombr-la-ei se lhe disser que os sentimentos que inspira ao Sr. du Plessis esto longe de parecer os do amor e se aproximariam mais da clera e mesmo do dio?
  -        Eu imagino - murmurou a jovem, erguendo os ombros. Mas, ao mesmo tempo, a angstia a invadiu. Exclamou com violncia:
  - E da?... Que me importa que ele me ame ou no? Tudo o que eu quero  o seu nome, so os seus ttulos. O resto me  indiferente. Ele pode desprezar-me e ir dormir 
com prostitutas, se isso lhe aprouver. No serei eu que correrei atrs dele!
  - Cometer um erro, senhora. Creio que a senhora conhece mal o homem com quem vai casar. No momento, sua posio  muito forte porque o cr fraco. Mas, depois, 
ser necessrio que o domine de qualquer maneira. Seno...
  - Seno?...
  - A senhora ser horrivelmente infeliz.
  O rosto da jovem tornou-se duro, e ela disse, com os dentes cerrados:
  -        J fui horrivelmente infeliz, Molines. No tenho a inteno de recomear.
  -Eis por que lhe proponho um meio de defesa. Escute-me, Anglica, sou bastante velho para lhe falar cruarrlente. Depois do seu casamento, no ter mais poder sobre 
Filipe du Plessis. O dinheiro o cofre, ele possuir tudo. O argumento do corao no tem nenhum valor para ele.  preciso, pois, que'consiga domin-lo pelos sentidos.        
  -         um poder perigoso, Sr. Molines,'e bem vulnervel.
  -  um poder. Cabe-lhe torn-lo invulnervel.
  Anglica estava muito perturbada. Ela no se sentia chocada com tais conselhos na boca de um austero huguenote. Toda a personali-dade de Molines era impregnada 
de uma prudncia astuta, que jamais levava em conta princpios, mas somente as flutuaes da natureza humana a servio dos interesses materiais. Mais uma vez, Molines 
devia ter razo. Anglica recordou os acessos de medo que Filipe lhe inspirara e, tambm, a sensao de impotncia que ela experimentava diante da sua indiferena, 
da sua calma glacial. Ela percebeu que, no fundo de si" mesma, j era com sua noite de npcias que ela contava para escfaviz-lo. Afinal de contas, quando uma mulher 
tem um homem nos braos,  muito poderosa. Chega o momento em que as defesas do homem cedem diante da atrao da voluptuosidade. Uma mulher hbil deve saber aproveitar 
esse momento. Mais tarde o homem voltar, contra a vontade,  fonte do prazer. Anglica sabia que, quando o corpo magnfico de Filipe se juntasse ao dela, que, quando 
aquela boca.elstica e fresca como uma fruta se colasse  sua, ela por seu turno se converteria na mais viva e mais sbia das amantes. Eles encontrariam juntos, 
no anonimato da luta amorosa, um entendimento que Filipe, ao clarear o dia, talvez fingisse esquecer, mas que os ligaria mais firmemente um ao outro do que qualquer 
declarao inflamada.
  Seu olhar um pouco vago voltou-se para Molines. Ele devia ter seguido sobre seu rosto o fio de seus pensamentos, pois teve um pequeno sorriso irnico e disse:
  - Penso tambm que voc  bastante bela para jogar a partida. Seria preciso ainda... que ela pudesse travar-se. O que no significa, alis, necessariamente, que 
ganhar a primeira parada.
  - Que quer dizer?
  - Meu amo no gosta das mulheres. Ele certamente as conhece, mas elas so para ele um fruto amargo e nauseante.
  -        Atribuem-lhe, no entanto, aventuras retumbantes. E aquelas orgias clebres, durante suas campanhas estrangeiras, em  Norgen...
  - So reflexos de militar excitado pela guerra. Ele toma as mulheres como atearia um incndio, como atravessaria com um golpe de espada o ventre de uma criana... 
para fazer o,mal...
  - Molines, voc diz coisas assustadoras!
  - No quero assust-la, mas somente preveni-la. Voc  de famlia nobre, mas sadia e rstica. Parece ignorar a espcie de educao a que  submetido um jovem gentil-homem 
cujos pais so ricos e mundanos. Desde a infncia ele  joguete das criadas e dos lacaios e, depois, dos senhores em cujas casas  colocado como pajem. Nas prticas 
italianas que lhe ensinam...
  - Oh! Cale-se. Tudo isso  muito desagradvel - murmurou Anglica, olhando o fogo com ar contrafeito.
  Molines no insistiu e ps de novo os culos.
  - Devo acrescentar esta clusula?
  - Acrescente o que quiser, Molines. Eu...
  Ouvindo a porta abrir-se, ela se interrompeu. Na penumbra do salo, a silhueta de Filipe, vestido de cetim claro, apareceu de incio como uma esttua de neve, 
que pouco a pouco se tornou mais distinta. Branco e louro, coberto de ouro, o jovem parecia preparado para ir a um baile. Saudou Anglica com uma arrogncia indiferente.
  - Em que p esto as negociaes, Molines?
  - A Sra. Morens concorda em subscrever os compromissos propostos.
  - Est pronta para jurar sobre o crucifixo que conhece verdadeiramente o esconderijo do cofre?
  - Posso jur-lo - disse Anglica.
  - Nesse caso, pode aproximar-se, Sr. Carette...
  O capelo, cuja magra e negra figura permanecera invisvel atrs da de seu amo, apareceu por seu turno. Segurava um crucifixo sobre o qual Anglica jurou que conhecia 
verdadeiramente o esconderijo do cofre e que se comprometia a entreg-lo ao Sr. du Plessis aps seu casamento. Depois, Molines enunciou o montante da renda que Anglica 
outorgaria mais tarde a seu esposo. A quantia era vultosa, mas devia corresponder ao conjunto das despesas do jovem gentil-homem, tais como o intendente tinha o 
hbito de fixar cada ano. Anglica fez uma pequena careta, mas no pestanejou: se seus negcios permanecessem slidos e prsperos, ela no teria dificuldade em cumprir 
o contrato. Por outro lado, quando ela fosse a Marquesa du Plessis, procuraria fazer prosperar ao mximo as duas propriedades de Filipe.
  Este no levantou nenhuma objeo. Mostrava um ar de profundo aborrecimento.
  -        Est bem, Molines - disse ele, dissimulando um bocejo. - trate de regular o mais rapidamente possvel esta desagradvel histria.        O intendente 
tossiu levemente e esfregou as mos com embarao.
  -        Existe ainda uma clusula, senhor marqus, que a Sra. Morens, aqui presente, me pediu que inclusse no contrato. Ei-la: as condies financeiras no sero 
executadas se no houver a consumao do matrimnio.
  Filipe pareceu levar alguns instantes para compreender, depois sua fisionomia purpurou-se.
  -        Oh! Com efeito! - disse ele. - Oh! Com efeito!...
  Ele pareceu to pobre de vocabulrio que Anglica teve por ele um estranho sentimento de compaixo.
  -         incrvel! - exclamou ele, afinal. - O impudor unido  impudncia!        
  Agora ele estava branco de raiva...
  -        E pode dizer-me, Molines, como deverei provar ao mundo que honrei o leito dessa pessoa?... Deflorando uma prostituta que j tem dois filhos e que andou 
com todos os mosqueteiros e financistas do reino?... Apresentando-me perante um tribunal, como
o idiota desse Langey, que teve de esforar-se diante de dez pessoas para provar sua virilidade? A Sra. Morens preveniu as testemunhas que devero assistir a tal 
cerimnia?
  Molines fez com as duas mos um gesto de apaziguamento.
  -        No vejo, senhor marqus, por que esta clusula o coloca em tal estado. Ela , na realidade, to... posso permitir-me diz-lo?...
to interessante para o senhor como para sua futura esposa. Imagine que, num impulso de aborrecimento ou de rancor bem com
preensvel, negligencie seus deveres conjugais; a Sra. Morens ter o direito, daqui a alguns meses, de reclamar a anulao do casamento e arrast-lo a um processo 
ridculo e dispensioso. Eu perteno  religio reformada, mas acredito saber que a no consumao do casamento  uma das causas de anulao reconhecidas pela Igreja. 
No  assim, senhor capelo?
  -  Exatamente, Sr. Molines, o casamento cristo e catlico no tem seno uma finalidade: a procriao.
  - Ai est! - disse com suavidade o intendente, cuja ironia soante Anglica, que bem o conhecia, podia perceber. - Quanto  prova de sua boa vontade - continuou 
ele -, parece-me que a melhor  sua esposa dar-lhe logo um herdeiro.
  Filipe voltou-se para Anglica, que, durante essa conversao, procurava manter-se impassvel. No entanto, quando ele a olhou, ela no pde deixar de erguer os 
olhos para o jovem. A dura expresso daquele belo rosto causou-lhe um estremecimento invo-untrio.e que no era de prazer.
  - Pois bem, est entendido - disse lentamente Filipe, enquanto um sorriso cruel distendia seus lbios. - Farei o que me sugere...
  
  CAPITULO XXI
  
  Estranhas palavras de Molines sobre o Conde de Peyrac
  
  - Voc me fez desempenhar um papel mais odioso do que eu pensava - disse Anglica.a Molines.
  - Quando se escolheu m papel odioso, senhora, no se pode vacilar.  necessrio firmSr bem suas posies.
  Levemente curvado, ele a seguiu e acompanhou-a at sua carruagem. Com seu pequeno barrete negro e o gesto um pouco astuto de suas mos secas, que esfregava naturalmente 
uma na outra, ele era uma sombra surgida do passado.
  "Volto para os meus", disse Anglica a si mesma, com uma sensao de plenitude que lenia as feridas humilhantes produzidas pelo desdm de Filipe.
  Ela tomava p novamente, reencontrava seu mundo. Na porta, o intendente pareceu examinar com ate/io o cu estrelado, enquanto a carruagem da Sra. Morens dava 
volta no ptio a fim de se colocar diante da escada.
  - Eu me pergunto - tornou o intendente, franzindo as sobrancelhas - como tal homem pde morrer.
  - Que homem, Molines?
  - O Sr. Conde de Peyrac...
  Anglica estremeceu. Depois de algum tempo, o desespero que ela sempre experimentava ao pensar em Joffrey agravou-se por obscuros remorsos. Seus olhos tambm buscaram-maquinalmen
te o cu noturno.
  - Acredita que... que ele me querer mal... se eu casar com Filipe? - perguntou.
  O velho no pareceu hav-la entendido.
  -        Que tal homem pudesse morrer, eis o que ultrapassa o entendimento - tornou ele, meneando a cabea. - Talvez o rei o haja compreendido a tempo...
  Anglica segurou-lhe o brao com gesto impulsivo.
  - Molines... voc sabe alguma coisa?
  - Ouvi dizer que o rei o perdoou... no ltimo momento.
  - Ai! Eu o vi, com os meus prprios olhos, ser queimado na fogueira.
  - Ento, deixemos os mortos enterrarem os mortos - disse Molines com um gesto de pastor que lhe ficava muito bem e que devia ajud-lo a enganar seu mundo. - Que 
a vida siga seu caminho!
  No coche que a reconduziu a casa, Anglica apertava uma contra a outra suas mos cheias de anis.
  -        Joffrey, onde est voc? Por que esta claridade que se precisa, agora que a chama da fogueira est extinta h cinco anos?...
Se voc erra ainda sobre a terra, volte para mim!
  Calou-se, espantada com as palavras que murmurava. A passagem da viatura, as lanternas das ruas, que o Sr. de La Reynie havia mandado instalar, projetavam manchas 
de luz sobre seu vestido. Ela no as via com bons olhos, pois dissipavam a escurido em que desejava submergir cegamente.
  Estava receosa. Tinha medo de Filipe, mas sobretudo de Joffrey, estivesse morto ou vivo!...
  Na Manso do Beautreillis, Florimond e Cantor aproximaram-se da me. Estavam ambos vestidos de"cetim rosa, com golas de renda, usavam minsculas espadas e tinham 
 cabea chapus de feltro com plumas cor-de-rosa.
  Apoiavam-se ao pescoo de um grande co de pelagem ruiva, quase to alto como Cantor.
  Anglica deteve-se, com o corao agitado, diante da graa daqueles seres adorveis. Como eles estavam graves e compenetrados de sua importncia! Como caminhavam 
lentamente, a fim de no amarfanhar seus belos trajes!
  Entre Filipe e o fantasma de Joffrey, eles surgiam, fortes em sua fraqueza. "Que a vida siga seu caminho", tinha dito o velho intendente huguenote. E a vida eram 
eles. Era por eles que ela devia continuar a traar seu caminho, lentamente, sem desfalecimento.
  
  CAPTULO XXII
  
  Os rostos do passado
  
  Os pavores e os escrpulos que durante esse perodo assaltaram Anglica e perturbaram suas noites no foram suspeitados nem pelos que a cercavam-nem-por seus amigos. 
Nunca ela parecera to bela, to segura de si mesma. Recebeu com um sorriso ao mesmo tempo condescendente-e natural-a curiosidade dos sales, onde se espalhou, como 
um rastilho de plvora, simultaneamente com a notcia do seu futuro casamento, a revelao de sua origem aristocrtica.
  A Sra. Morens! A chocolateira! Uma Sanc?... Famlia tornada obscura durante os ltimos sculos, mas aliada, por um entrelaamento de ramos gloriosos, aos Montmorency 
e mesmo aos Guise. Alis, os ltimos rebentos dessa famlia tinham comeado a orn-la com novo lustre. No havia a prpria Ana d'ustria reclamado  sua cabeceira 
de agonizante um grande jesuta com olhos de fogo, o Reverendo Padre de Sanc, cuja direo espiritual todas as grandes damas da corte desejavam receber? Ento, 
a Sra. Morens, cuja original existncia e repentina ascenso no deixavam de constituir um pequeno objeto de escndalo, era a prpria irm daquele fino e hbil eclesistico, 
j quase ilustre?... Muitos duvidavam. Mas, em uma recepo cada pela Sra. d'Abret,-que fora arranjada para p-los face a face, viu-se o jesuta abraar a futura 
Marquesa du Plessis-Bellire, trat-la ostensivamente por voc e conversar demoradamente com ela entre gracejos fraternais.
  fora, alis, para Raimundo que Anglica se precipitara no dia seguinte ao de seu encontro com Molines. Sabia que nele teria um aliado seguro que, sem tocar no 
assunto, organizaria admiravelmente sua reabilitao mundana. O que, alis, no deixou de acontecer.
  No fazia uma semana que desmoronara a barreira de arrogncia erguida entre o presumido plebesmo da jovem comerciante e a simpatia das nobres damas do Marais. 
Falava-se de sua irm, a deliciosa Maria Ins de Sanc, cuja graa tinha encantado, em duas estaes, a corte. Sua converso era passageira, pensava-se. De qualquer 
modo, a corte ia honrar-se com a presena de outra Sanc, cuja beleza nada tinha que invejar  da primeira e cujo esprito j era clebre nas ruelles.
  . Seus irmos Dionsio e Alberto, este ltimo pajem da Sra. de Rochant, vieram v-la e, depois das efuses mescladas de franqueza, pediram-lhe dinheiro.
  No falaram do irmo pintor, cujo destino ignoravam. Referiam-se de passagem ao mais velho, um jovem louco que seguira outrora para as Amricas. Da mesma maneira, 
no insistiram muito sobre o primeiro casamento de Anglica, nem sobre as razes que tinham podido levar a descendente de uma autntica famlia de prncipes a fabricar 
chocolate. Aqueles cortesos e aquelas damas frvolas sabiam perfeitamente olvidar, nos cochichos de uma confidncia, o que uns e outros tinham interesse em esquecer.
  Com exceo de um s, De Guich, todos os favoritos de outrora, temendo a desgraa, haviam aprendido a ser mais discretos. Vardes estava na priso desde o caso 
do pequeno vendedor de bar-quilhos, caso que concorrera para desvendar o da carta espanhola.
  A profunda bondade da Grande Mademoiselle ditou-lhe o silncio, malgrado seu gosto das bisbilhotices. Abraou Anglica demoradamente e disse-lhe: "Seja feliz, 
muito feliz, minha querida", enquanto enxugava algumas lgrimas de emoo.
  A Sra. de Montespan recordava-se bem de um pormenor bastante estranho na vida daquela Anglica de Sanc, mas, toda entregue s suas prprias intrigas, quase no 
se ocupou do assunto. Regozijava-se de que Anglica estivesse prestes a ser apresentada  corte. Com a triste Lusa de La Vallire e uma rainha mal-humorada e choramingona, 
a corte precisava de entusiasmo. Ora, o rei, taciturno e grave, estava to necessitado de alegria e folgana como um adolescente muito tempo reprimido. O carter 
jovial de Anglica faria maravilhas para permitir ao da brilhante Atenas expandir-se. A parelha formada por essas duas belezas risonhas e que sabiam replicar to 
vivamente uma  outra no era j buscada nos sales como garantia de animao e de xito de um sarau?
  Atenas de Montespan acorreu e deu  sua amiga uma srie de conselhos sobre seus vestidos e as jias que lhe eram necessrias para sua apresentao em Versalhes.
  Quanto a Sra. Scarron, podia-se ter confiana em sua discrio. A inteligente viva tinha o cuidado muito constante de manter reserva sobre o presente, o passado 
ou o futuro das pessoas que podiam ser-lhe teis, e no se arriscaria a cometer uma imprudncia.
  Por esse acordo tcito e geral, o recente passado de Anglica pareceu tombar em uma negra cova.-Certa noite, depois de ter olhado uma vez mais o punhal de Rodoguno, 
o Egpcio, a jovem compreendeu que tudo aquilo tinha sido apenas um sonho atroz. Sua vida reatava, segundo uma linha contnua e traada com antecipao, a vida de 
Anglica de Sanc, jovem nobre do Poitou,  qual, j outrora, Filipe du Plessis-Bellire parecia prometido.
  
  CAPITULO XXIII
  
  As violncias de Audiger
  
  No entanto, esse desaparecimento de uma fase de sua existncia no se efetuava sem alguns incidentes.
  Certa manh, quando ela se preparava diante do toucador, o mordomo do Conde de Soissons, Audiger, se fez anunciar.
  Podendo enfiar um vestido e descer para receb-lo, Anglica preferiu ficar sentada em frente da penteadeira. Uma grande dama podia muito bem receber de roupo 
um subalterno.
  Quando Audiger entrou, ela no se voltou e continuou a empoar suavemente o pescoo e o colo. No grande espelho oval, erguido diante dela, a jovem podia ver o visitante 
avanar, entesado em suas vestes burguesas. Tinha a expresso severa, que ela conhecia bem, aquela que precedia entre eles a exploso das "cenas conjugais".
  - Entre, Audiger - disse ela cordialmente -, e sente-se perto de mim, nesse tamborete. H muito tempo que no nos vemos, mas no era necessrio. Nossos negcios 
caminham bem com esse honesto Marchandeau!
  - Sempre deploro ficar muito tempo sem encontr-la - disse o rapaz, com voz moderada. - Porque geralmente aproveita minha ausncia para fazer tolices.  verdade 
que vai desposar o Marqus du Plessis-Bellire?
  -  o que existe de mais verdadeiro, meu amigo - respondeu negligentemente Anglica, removendo com uma pequena escova macia um pouco de p-de-arroz do seu pescoo 
de cisne. - O marqus  meu primo e creio, na verdad :, que sempre lhe tive amor.
  - Ento, voc conseguiu final reaizar os projetos de sua cabecinha ambiciosa! H muit J temj o que eu compreendi que nada seria jamais bastante alto para voc. 
A qualquer preo e como se isso valesse a pena, voc quer fazer parte da nobreza...
  -        Eu sou da nobreza, Audiger, e sempre fui, mesmo no tempo em que servia os fregueses de mestre Bourjus. Voc, que est to bem ao corrente de todos, os 
boatos, certamente no deixou de ouvir, nestes ltimos dias, que eu me chamo, na realidade, Anglica de Sanc de Monteloup.
  O rosto do mordomo se crispou. Ele estava muito vermelho. "Deveria fazer-se sangrar", pensou Anglica.
  -        Ouvi, com efeito. E isso me esclareceu acerca do significado do seu desdm.  por essa razo que se recusava a tornar-se minha mulher!... Porque eu a 
encheria de vergonha.
  Com um dedo, ele abriu a volta que, em sua clera contida, o estrangulava. Depois de respirar, continuou:
  -        Ignoro por que razes voc desceu to baixo, a ponto de eu t-la conhecido corro criada pobre e escondendo-se de sua prpria famlia. Mas conheo bastante 
o mundo-para adivinhar que voc foi vtima de intrigas srdidas e criminosas, como se encontram sempre  sombra das cartes. E goraquer voltar para esse mundo!... 
No, no posso ainda consider-la assim. Eis por que continuo a falar-lhe em tom familiar, que talvez j a melindre... No, voc no vai desaparecer, Anglica, mais 
cruelmente do que se morresse. A bela glorola de pertencer a um meio vil, hipcrita e estpido! Como  que voc, Anglica, cuja lucidez e slido bom senso eu admirava, 
pode permanecer- cega aos defeitos dessa classe  qual deseja pertencer?... A atmosfera sadia de que voc tem necessidade para se expandir e a bondade fraternal 
dos simples que encontrou entre ns... veja, eu no tenho vergonha, eu, de me pr em p de igualdade com um mestre Bourjus!... Como pode voc rejeitar tudo isso 
to facilmente?... Ficar sozinha entre esses intrigantes, cuja futilidade e vilania entraro em conflito com o seu gosto da realidade, com a sua franqueza, ou melhor, 
como eles, voc se corromper...
  Anglica pousou um tanto secamente sua escova de prata na beira do toucador. Irritava-se muitssimo com as cenas conjugais de Audiger. Deveria ela, at Versalhes, 
ouvir os sermes de um mordomo? Lanou um olhar sobre o rosto cheio e liso, de olhos honestos, de belos lbios, e disse a si mesma: " "pena ser um homem ao mesmo 
tempo to simptico e to estpido!" Com um suspiro de deciso, ela se levantou.
  -        Meu caro amigo...
  -        Eu no sou seu amigo, Deus me livre! - disse ele, erguendo-se por sua vez.
  De vermelho que era, ele se tornara muito plido. Seus traos se alteraram. Sua voz tremeu como sob o acesso de um sbito desvario.
  -        Iluses!... - resmungou ele. -Jamais tive seno iluses a seu respeito. Pensar que estive at a planejar... Voc, minha mulher!
Pobre idiota!  verdade... voc pertence bem ao seu mundo. Afinal de contas, no passa de uma fmea boa para se virar as pernas
para o ar!
  Em dois passos ele chegou junto dela, tomou-a pela cintura e derribou-a sobre o div. Arquejante, com uma raiva inaudita, ele segurou-lhe os punhos com uma s 
mo, mantendo-os contra o peito da jovem a fim de imobilizar-lhe o busto, enquanto com a outra mo lhe arrancava o chambre, a fina camisa, procurando desnud-la 
inteiramente.
  O primeiro reflexo de Anglica tinha sido de revoltar-se, mas, muito depressa, imobilizou-se, ficando entregue quele assalto furioso. O homem, que esperava uma 
luta, sentiu, pouco a pouco, a inanidade e o ridculo de sua violncia. Desconcertado, afrouxou seus gestos, depois desfez o arrocho.
  Seus olhos bravios examinaram o rosto que, tombado para trs, fazia pensar no de uma morta.
  -        Por que no se defende? - balbuciou.
  Ela o olhou fixamente, com seus olhos verdes, sem pestanejar. Jamais o rosto de Audiger havia estado to perto do seu. Gravemente, ela afundou suas pupilas naquele 
olhar de bronze, em que se acendiam e apagavam, alternadamente, a loucura, o desespero, a paixo.
  -        Voc foi um companheiro muito til, Audiger - murmurou. - Eu o reconheo. Se me deseja, possua-me. No me recusarei. Voc bem sabe que nunca recuo quando 
 chegada a hora de pagar uma dvida.
  Mudo, ele a contemplava. O sentido das palavras que ela pronunciava no penetrava seno lentamente em seu esprito. Sentia contra sua perna aquela carne macia 
e firme, cujo odor, ao mesmo tempo estranho e familiar, fazia-o desfalecer. Anglica no estava por modo nenhum perturbada. Ele devia reconhecer que ela se entregava 
sem resistncia. Mas aquele prprio abandono era in-sultante. Era um invlucro sem alma que se lhe oferecia.
  Ele o compreendeu. Com uma espcie de soluo, endireitou-se e recuou alguns passos titubeando, sem deixar de olh-la.
  Ela no se mexeu, e permaneceu ali, meio estendida sobre o div, sem mesmo fazer o gesto de reunir sobre o peito a renda rasgada de seu chambre. Ele podia ver 
as pernas com que tanto sonhara, e elas eram to perfeitas, como ele as tinha imaginado, longas, fuseladas, terminadas por ps muito pequenos, que se destacavam 
sobre o veludo dos coxins como esquisitos bibels de marfim cor-de-rosa. Audiger respirou profundamente.
  -        Eu o lamentarei, decerto, a vida toda - disse com voz sufocada. - Mas ao menos no terei desprezo a mim mesmo. Adeus, senhora! No quero sua esmola.
  Recuou mais, at o reposteiro, e saiu.
  Anglica ficou ainda muito tempo a refletir. Depois examinou os estragos de suas vestes. A gola de renda de Malines estava perdida.
  -        Ao diabo os homens! - disse ela com irritao.
Recordou-se do quanto ansiara, durante o passeio ao moinho de Javel, que Audiger se tornasse seu amante. Mas as circunstncias eram outras. Aquela poca, Audiger 
era mais rico que ela, e a gola que ela usava naquele dia no lhe custara nem trs libras...
  Com um pequeno suspiro, foi sentar-se diante da penteadeira.
  "Ninon de Lenclos tem razo", pensou ela. "O que geralmente causa mal-entendidos em amor  que os relgios do desejo no soam sempre  mesma hora."
  No dia seguinte, por uma criada da An Espanhola, Anglica recebeu um lacnico recado de Audiger, que lhe pedia fosse ao estabelecimento  noite, a fim de examinar 
com ele os livros. O convite pareceu-lhe uma esperteza simplria. O pobre rapaz, depois de uma noite de insnia e de tormentos, tivera de mandar ao inferno sua dignidade 
e sua grandeza de alma e tentaria receber o inesperado presente que ela lhe ofertara. Anglica no recuou. Como dissera na vspera, estava decidida a fazer as coisas 
correta-mente, e sabia que devia muito a Audiger.
  Assim, sem entusiasmo mas decidida a provar-lhe, naquele nico amplexo, todo o seu reconhecimento, foi ter com o mordomo. Achou-o no pequeno escritrio eontguo 
 sala de refeio. Ele trajava um casaco de cavaleiro e usava botas de caa. Parecia muito calmo e mesmo alegre. No fez qualquer aluso  escaramua do dia anterior.
  -        Desculpe-me, senhora - disse ele -, de t-la incomodado, mas, antes de partir, pareceu-me necessrio examinar a seu lado os negcios da chocolataria, 
embora a gerncia de Marchandeau possa inspirar-nos toda a confiana.
  - Voc vai partir?
  - Vou. Acabo de assinar um contrato para o Franco-Condado, onde dizem que Sua Majestade ter alguma cidade a conquistar nesta primavera.
  Durante mais de uma hora, com a ajuda de Marchandeau, esmiuaram os livros de contabilidade, foram  oficina, para examinar as mquinas, e aos depsitos, para 
verificar as reservas de cacau, acar e especiarias. Depois, em dado momento, Audiger levantou-se e saiu, como se fosse buscar algum outro dossi de faturas. Mas, 
alguns instantes depois, Anglica ouviu o passo de um cavalo que se afastava. Compreendeu que Audiger tinha partido e que nunca mais o veria.
  
  CAPITULO XXIV
  
  Adeus a Desgrez
  
  Ela acabou de escrever uma carta ao seu armador de La Rochel-le. Depois, tendo-a secado com areia e lacrado, ps a mscara e apanhou seu manto. Ouvia o burburinho 
vindo da sala que estava superlotada porque uma chuva forte e breve acabava de expulsar dos caramanches os fregueses que ali se achavam.
  O cheiro do chocolate, misturado ao das amndoas torradas, penetrava naquele escritrio onde, durante dois anos, Anglica, de vestido negro, gola branca e punhos 
brancos, com uma pena de ganso na mo, havia-se afadigado sobre faturas interminveis.
  Como de hbito, ela foi at a porta da sala e observou "seus" clientes, pelo discreto interstcio da tapearia. Quando se tornasse Marquesa du Plessis-Bellire, 
no mais penetraria naquela sala seno acompanhada de um grupo de ridculos janotas, para saborear o "divino" chocolate. Isso seria bem engraado - uma desforra 
assaz picante.
  Os grandes espelhos, em suas molduras de madeira dourada, re-fletiam a animao de bom-tom que ela sempre soubera manter na An Espanhola, sem grande esforo, 
alis, pois o chocolate  uma bebida que d mais propenso para os suaves colquios do que para as speras querelas.
  Muito perto da tapearia atrs da qual se dissimulava, ela notou um homem que estava sentado sozinho diante de uma xcara fumegante e que melancolicamente esmigalhava 
pistcios. Depois de o ter olhado duas vezes, Anglica disse a si mesma que o conhecia e> da terceira vez, comeou a suspeitar que aquela personagem ricamente vestida 
no podia ser outra seno o policial Desgrez, com 0 rosto habilmente disfarado. Teve uma alegria pueril. Entre os rancores glaciais de seu futuro esposo, os reproches 
de Audiger, a curiosidade de seus amigos, Desgrez era o nico ser com quem ela poderia palestrar sem ser obrigada a apelar para todas as suas foras ou a representar 
uma comdia. Saiu do esconderijo e aproximou-se dele.
  -        Parece-me que o abandonaram, Matre Desgrez - disse ela a meia voz. - Posso substituir, oh!, muito modestamente, a cruel que lhe faltou?
  Ele levantou os olhos e reconheceu-a.
  -        Nada me honraria mais do que ter ao meu lado a dona deste lugar encantador.
  Ela sentou-se rindo perto dele e fez sinal a um dos negrinhos para trazer uma xcara e bolos.
  - Que vem voc caar em minhas terras, Desgrez? Um jornalista virulento?
  - No. Somente seu equivalente no sexo feminino, isto : uma envenenadora.
  - Ora!  muito banal. Eu mesma conheo envenenadoras - disse estouvadamente Anglica, que pensava na Sra. de Brinvilliers.
  - Eu sei. Mas o que voc tem de melhor a fazer  esquecer que as conhece.
  Como ele no sorrisse, ela fez sinal de que compreendera.
  -        Quando eu tiver necessidade de suas informaes, saberei pedi-las - observou Desgrez com uma ponta de ironia. - Sei que voc mas confiar de muito bom 
grado.
  Anglica absorveu-se na deglutio da bebida quente que o negrinho Tom acabava de servir-lhe.
  - Que pensa deste chocolate, Sr. Desgrez?
  -  uma verdadeira penitncia! Mas, no fundo, quando fao uma investigao, sei muito bem que terei de passar por algumas pequenas provas deste gnero. Devo reconhecer 
que, durante minha carreira, tive muito frequentemente de penetrar em lugares mais sinistros que esta chocolataria.  muitssimo galante...
  A jovem estava persuadida de que Desgrez se achava perfeitamente a par do seu projeto de casamento com Filipe. Mas, como ele no lhe falasse disso, ela se achava 
embaraada para tocar no assunto.
  O acaso veio em seu socorro, trazendo, entre um alegre bando de senhores e damas, o prprio Marqus Filipe. Anglica, mascarada e sentada em um canto recuado da 
sala, no se arriscava a ser reconhecida por ele.
  Disse, mostrando Filipe a Desgrez:
  -        V aquele gentil-homem de cetim azul-celeste? Vou casar com ele.
  Desgrez fingiu surpresa.
  - Ha?... Mas no  o priminho que brincou com voc certa noite, na Taberna da Mscara Vermelha?
  -  ele mesmo - confirmou Anglica, com um movimento provocante do queixo. - Ento, que acha?
  - De qu? Do casamento ou do priminho?
  - Dos dois.
  - O casamento  um assunto delicado e eudeixo ao seu confessor o cuidado de conversar com voc a esse respeito, minha criana - disse Desgrez, em tom douto. - 
Quanto ao priminho, constato com pesar que ele no  absolutamente seu gnero de homem.
  - Como assim? Ele , entretanto, muito belo.
  - Precisamente. A beleza  a coisa menos suseetvel de seduzi-la nos homens. O que voc ama neles no so as qualidades que os aproximam das mulheres, mas aquilo 
que os diferencia delas: sua inteligncia, sua viso do mundo, qui nem sempre muito justa, mas que lhe parece nova, e tambm o mistrio de sua funo viril. Sim, 
minha cara, voc  assim. No vale a pena olhar-me com esse ar chocado por trs da sua mscara. Acrescentarei que, quanto mais um homem se destaca do comum, mais 
voc o reconhece como senhor.  por isso que seus amores no acabam sempre bem. Desde que um homem saiba distra-la e faz-la rir, voc est pronta a segui-lo at 
o fim do mundo. Se alm disso ele tiver a robustez e a habilidade necessrias para satisfazer as exigncias de seu pequeno corpo refinado, voc lhe perdoar tudo. 
Ora, aquele ali no  tolo, mas no tem esprito. Se ele a ama, voc se arrisca muito a aborrecer-se mortalmente em sua companhia.
  - Ele no me ama.
  - Tanto melhor. Voc poder sempre distrair-se tentando fazer com que ele a ame. Mas, para o amor fsico, eu apostaria sem vacilar que ele  menos sutil que um 
lavrador. No me disseram que ele fazia parte do grupo de Monsieur}
  - No gosto que se fale assim de Filipe - disse Anglica, ensombrada. - Oh! Desgrez, no me agrada fazer-lhe esta pergunta. Mas ser que tais prticas no podem 
impedir um homem de... ser pai?
  - Depende do tipo de homem de que se trate, minha bela inocente - disse Desgrez, rindo. - Pela compleio desse rapaz, penso que ele tem todo o necessrio para 
tornar feliz uma mulher e dar-lhe uma ninhada. Mas o que lhe falta  o corao. Quando ele morrer, seu corao no poder ser mais frio em seu peito do que o  agora... 
Oh! Vejo que voc quer saborear a beleza. Pois bem! Saboreie-a, morda-a gulosamente e, sobretudo, no lamente nada. Quanto a mim, vou deix-la.
  Levantou-se para beijar-lhe a mo.
  -        Minha envenenadora no veio. Estou pesaroso. Obrigado, entretanto, por sua agradvel companhia.
  Quando ele se afastou por entre as mesas, Anglica ficou paralisada pela sensao de.inquietude e de melancolia que lhe apertava a garganta.
  "Quanto a.mim, vou deix-la", dissera Desgrez.
  Subitamente ela compreendeu que, no mundo em que iria entrar - a corte, Versalhes, Saint-Germain, o Louvre -, no mais encontraria o policial Desgrez e seu co 
Sorbonne. Eles desapareceriam, voltariam para o meio de criados, de mercadores, de gente insignificante que se movimenta em volta dos grandes e que os olhos destes 
no vem.
  Anglica levantou-se por sua vez e, rapidamente, alcanou a porta pela qual Desgrez tinha sado. Viu-o afastando-se pelas alias escuras do jardim, seguido da 
silhueta branca de Sorbonne.
  Correu atrs dele.
  -        Desgrez!
  Ele se deteve e voltou. Anglica puxou-o para a penumbra de um caramanchel e passou-lhe os braos em volta do pescoo.
  -        Abrace-me, Desgrez.
  Ele teve um pequeno sobressalto.
  - Que se passa com voc? Quer salvar algum panfletrio?
  - No... mas eu...
  Ela no sabia como exprimir-lhe o pnico que a assaltara ao pensamento de que no mais o veria. Perturbada, esfregou carinhosamente a face no ombro de Desgrez.
  - Voc compreende, eu vou me casar. Depois, ento, no me ser possvel enganar meu marido.
  - Pelo contrrio, minha cara. Uma grande dama no deve cair no ridculo de amar seu marido e ser-lhe fiel. Mas eu a compreendo. Quando voc for a Marquesa du Plessis-Bellire, 
no ser muito elegante para si contar entre seus amantes um policial chamado Desgrez...
  - Oh! Por que voc busca razes? - protestou Anglica.
  Ela desejaria rir, mas no chegava a dominar sua emoo. E seus olhos se encheram de lgrimas quando murmurou de novo: I - Por que buscar razes? Desde que o mundo 
 mundo, quem, senhores, j soube explicar o corao das mulheres e o porqu de suas paixes?
  Ele reconheceu o eco de sua pruria voz, quando um dia se ergueu no tribunal para defender o Conde de Peyrac.
  Silenciosamente, fechou os braos emredor dela e apertou-a contra si.
  - Voc  meu amigo, Desgrez - murmurou Anglica. - Eu no tive nenhum melhor, jamais terei algum melhor que voc. Diga-me, voc que tudo sabe, diga-me que no 
me tornei indigna dele. Era um homem que tinha dominado suas desgraas e a pobreza, a ponto de reinar sobre o esprito dos outros como poucos seres podem faz-lo... 
Mas eu, que no dominei eu tambm? Voc, que sabe de onde eu venho,.lembre-se e diga-me... Sou indigna daquele prodigioso fenmeno de vontade que era o Conde de 
Peyrac?... Na fora que desenvolvi paja arrancar seus filhos  misria no reconheceria ele a sua?... S ele voltasse...
  - Oh! No quebre a cabea, meu anjo - disse Desgrez com sua voz arrastada. - Se ele voltasse... bem, se ele voltasse, pelo que eu pude julgar desse homem, penso 
que ele comearia por aplicar-lhe uma surra de varas verdes. Em seguida ele a tomaria nos braos e possu-la-ia at que voc pedisse clemncia. Depois, ambos se 
ocupariam em achar um canto tranquilo para ali aguardar bodas de ouro. Acalme-se, meu anjo, e siga seu caminho.
  - No  estranho, Desgrez, que eu no possa destruir em mim esta esperana de rev-lo um dia? Alguns disseram que... no foi a ele que queimaram na Place de Greve.
  - No d ouvidos a conversas - disse ele duramente. - Procuram sempre criar lendas em torno dos seres extraordinrios. Ele est morto, Anglica. No alimente esperana. 
Isso desgasta o nimo. Olhe para a frente e case como seu marquesinho.
  Ela no respondeu. Sentia no corao uma dor imensa, desmesurada, infantil.
  - No suporto mais! - gemeu ela. - Estou muito triste. Beije-me, Desgrez.
  - Oh! Essas mulheres... - resmungou ele. - Falam de seu maior amor, do ser nico. Meio minuto depois, elas nos pedem que a beijemos. Que raa!
  Um pouco brutalmente, ele desceu-lhe as mangas do corpete at os cotovelos, descobrindo-lhe as espduas, e ela sentiu as velosas mos de Desgrez deslizarem sob 
suas axilas, cujo calor ele pareceu saborear.
  - Voc  extremamente apetitosa, no posso neg-lo, mas no a beijarei.
  - Por qu?
  - Porque tenho outra misso que no am-la. E, se eu a possu uma vez, foi unicamente para prestar-lhe um servio. E uma vez j foi demasiado para a paz da minha 
alma.
  Lentamente, ele retirou suas mos, roando na passagem os seios intumescidos pela armao do peitilho.
  -        No me queira mal, minha bela, recorde-se de mim... de vez em quando. Eu ficarei contente. Boa sorte, Marquesa dos Anjos!...
  
  CAPITULO XXV
  
  Regresso ao Poitou
  
  Desde o incio, Filipe lhe dissera que o casamento seria celebrado no Plessis. Ele no pretendia dar o mnimo fausto a essa cerimnia. Isso convinha perfeitamente 
a Anglica, dando-lhe assim a possibilidade de apanhjar o famoso cofre sem que os seus movimentos despertassem atefio. s vezes, sentia um sbito suor frio ao 
perguntar a si mesma se o cofre continuava no mesmo lugar, na falsa torrinha do castelo. No o teria algum descoberto? Mas isso era pouco provvel. Quem se lembraria 
de ir arrastar-se sobre uma goteira, por onde mal podia passar uma criana, e olhar para o interior de uma torrinha de aspecto to insignificante? E ela sabia que 
no curso dos ltimos anos "o Castelo do Plessis no tinha sido objeto de nenhuma transformao. Era, pois, muito provvel que ela encontrasse o trunfo de seu jogo. 
A hora mesma do casamento, ela poderia entreg-lo a Filipe.
  Os preparativos da partida para o Poitou foram animados. Iriam para l Florimond e Cantor, bem como toda a famulagem, os ces, o smio e os papagaios. Para as 
malas e os criados, foram necessrios um coche e mais duas viaturas. A comitiva de Filipe seguiria separadamente.
  Este fingia permanecer estranho a todos esses aprestos. Continuava a frequentar as festas e as recepes na corte. Quando algum fazia aluso ao seu casamento 
prximo, ele erguia as sobrancelhas com ar admirado, depois exclamava em tom de desprezo e desdm: "Ah! sim! realmente!"
  Durante a ltima semana, Anglica no o viu uma s vez. Por breves bilhetes que Molines lhe transmitia, ele ditava-lhe suas or-dens. Ela devia partir em tal data. 
Ele a encontraria em tal dia.
  Chegaria com o padre e Molines. O casamento seria efetuado sem demora.
  Anglica portava-se como esposa dcil. V-la-iam, mais tarde, fazer mudar de tom aquele rapaz inexperiente. Afinal de contas, ela lhe trazia uma fortuna e no 
lhe quebrara o corao ao separ-lo da pequena Lamoignon. Far-lhe-ia compreender que, se ela tivesse de agir um pouco brutalmente, no haveria vantagem para nenhum 
dos dois e que o seu mau humor permanente era ridculo.
  Aliviada e ao mesmo tempo decepcionada de no v-lo, Anglica esforou-se em no pensar muito no seu "noivo". O "problema Filipe" era um espinho introduzido em 
sua alegria, e, quando ela refletia sobre isso, percebia que tinha medo. Era melhor, portanto, no refletir.
  As carruagens cobriram em menos de trs dias a distncia entre Paris e Poitiers. Os caminhos se achavam em mau estado, com depresses causadas pelas chuvas da 
primavera, mas no houve incidentes,  parte um eixo quebrado um pouco antes de chegarem a Poitiers. Os viajantes permaneceram vinte e quatro horas nessa cidade. 
Dois dias depois, de manh, Anglica comeou a reconhecer os lugares. Passaram no longe de Monteloup. Ela teve de fazer um esforo para no se dirigir para l, 
mas as crianas estavam fatigadas e sujas. Haviam dormido, na noite anterior, em um pssimo albergue infestado de pulgas e ratos. Para encontrar algum conforto, 
era preciso chegar ao Plessis.
  Com um brao passado em volta dos ombros de seus garotos, Anglica respirava com delcia o ar puro dos campos em flor. Perguntava a si mesma como pudera viver 
tantos anos em uma cidade como Paris. Dava gritos de alegria e dizia os nomes dos lugarejos que atravessava, cada um dos quais lhe recordava uma anedota de sua infncia. 
Durante vrios dias ela fizera a seus filhos descries detalhadas de Monteloup e dos folguedos maravilhosos a que podiam entregar-se ali. Florimond e Cantor conheciam 
o subterrneo que lhe servira outrora de caverna de feiticeira e o celeiro de desvos encantados.
  Afinal, 0 Plessis surgiu ao longe, branco e misterioso,  beira de seu lago. Pareceu a Anglica, que conhecera as moradas suntuosas e os palcios parisienses, 
menor que a imagem gravada em sua memria. Alguns domsticos se apresentaram. Malgrado o abandono em que os senhores do Plessis deixavam seu castelo de provncia, 
ele estava bem conservado graas aos cuidados de Molines.
  Um correio, expedido uma semana antes, havia feito reabrir as janelas, e o odor fresco da cera de lustrar combatia o do mofo entranhado nas tapearias. Mas Anglica 
no experimentou o prazer com que contava. Suas sensaes pareciam subitamente atenuadas. Talvez fosse necessrio que ela chorasse ou se pusesse a danar, a gritar, 
a beijar Florimond e.Cantor. No podendo fazer tudo isso, ela se sentia uma alma morta. Incapaz de suportar a excessiva emoo daquele retorno,"la estava to embargada 
que no tinha nenhuma reao.
  Indagou do lugar em que seus filhos poderiam repousar, ocupou-se ela mesma da instalao deles, e no os deixou enquanto no os viu, lavados e vestidos com roupas 
macias e limpas, sentarem-se diante de uma refeio de laticnios e bolos trazidos pelos camponeses.
  Fez-se, ento, conduzir ao quarto da ala norte, que mandara preparar para si: o quarto do Prncipe de Conde.
  Teve ainda de aceitar os servios de Javotte e responder s saudaes de dois criados que traziam as tinas de gua fervente para o banheiro contguo. Distraidamente, 
diante de seu francs pobre, ela respondeu em pato. Eles abriram a boca de surpresa, ao ouvirem aquela grande dama de Paris, cujos atavios, por certo, lhes pareciam 
extravagantes, exprimir-se em seu dialeto como se o falasse desde o bero.
  -        Sou eu! - disse-lhes Anglica, rindo. - No me reconhecem?
Sou Anglica de Sanc. E voc, Guillot, eu me recordo que voc  da aldeia de M lubuis, perto de Monteloup.
  O dito Guillot, com o qual ela fizera outrora algumas colheitas de amoras e cerejas, nos belos dias de vero, teve um sorriso extasiado.
  - Foi a senhora, ento, que casou com o nosso amo?
  - Fui eu, sim.
  +- Bem, isso vai alegrar todo mundo. Perguntvamos uns aos outros quem seria a nova patroa.
  Assim, os camponeses no estavam mesmo informados. Ou, antes, estavam mal informados, pois j a supunham consorciada.
  -         pena que no tenham espetado estar entre ns - continuou Guillot, meneando a cabea hirsuta. - Teramos feito to belas npcias!
  Anglica no ousou desmentir Filipe dizendo quele bronco Guillot que o casamento devia realizar-se mesmo no Plessis e que ela contava, no que lhe concernia, com 
festejos que lhe permitissem rever todos os habitantes da regio.
  -        Em todo caso, haver festas - prometeu.
  Em seguida, pediu a Javotte que se apressasse em tirar-lhe a roupa. Quando a pequena camareira se retirou, Anglica, envolta em seu chambre de seda, foi at o 
meio do aposento.
  A decorao no havia mudado nos ltimos dez anos. Mas Anglica no a via mais com seus olhos deslumbrados de menina-moa e achava terrivelmente fora de moda os 
pesados mveis de madeira negra, de inspirao holandesa, e o leito de quatro colunas macias.
  Dirigiu-se para a janela e abriu-a. Assustou-se ao constatar a estreiteza do rebordo em que, no passado, ela grimpava to agilmente.
  "Fiquei muito gorda, nunca poderei ir at a torrinha", pensou, desolada.
  Muitos haviam gabado seu corpo elegante... Anglica, naquela tarde, mediu amargamente a marcha implacvel do tempo. No somente ela j no tinha a ligeireza necessria, 
como carecia de flexibilidade, e arriscava-se muitssimo a quebrar o pescoo.
  Depois de refletir, tomou a deciso de chamar Javotte.
  - Javotte, minha filha, voc  magra, pequena e mais flexvel que um canio. Procure subir a esse rebordo e chegar  torrinha do ngulo. E trate de no cair!
  - Est bem, senhora - respondeu Javotte, que passaria pelo orifcio de uma agulha para agradar a sua ama.
  Inclinada  janela, Anglica seguiu com ansiedade a progresso da mocinha ao longo da goteira.
  - Olhe para o interior da torrinha. V alguma coisa?
  - Vejo uma coisa escura, uma caixa - respondeu prontamente Javotte.
  Anglica fechou os olhos e teve de apoiar-se ao alizar.
  -        Est bem. Apanhe-a e traga-ma com cuidado.
  Alguns instantes mais tarde tinha em suas mos o cofre do monge Exili. Uma crosta de terra o recobria. Mas ele era de sndalo, e nem os bichos nem o bolor haviam 
podido invadi-lo.
  - V - disse Anglica com voz sem timbre a Javotte. - E no conte a ningum o que acabou de fazer. Se calar, eu lhe darei uma coifa e um vestido novo.
  - Oh! senhora, a quem quer que eu conte? - protestou Javotte. - Nem sequer entendo a lngua dessa gente.
  Ela lamentava muito ter deixado Paris. Com um suspiro, foi juntar-se a Brbara, a fim de conversar com ela sobre pessoas conhecidas e particularmente sobre o Sieur 
Davi Chaillou.
  Anglica limpou o cofre. Teve muita dificuldade para fazer funcionar a mola enferrujada. Enfim, a tampa se levantou e, sobre o leito de folhas de papel dobradas, 
apareceu o frasco de veneno cor de esmeralda. Depois de o contemplar, ela tornou a fechar o cofre. Onde iria escond-lo, enquanto esperava a chegada de Filipe e 
a hora de entregar-lho em troca do anel nupcial? Guardou-o na mesma secretria de onde, dezessete anos antes, o retirara to irresponsavelmente. "Se eu tivesse sabido!", 
disse a si mesma. "Mas pode algum, aos treze anos, avaliar as consequncias de seus atos?"
  Com a chave da secretria escondida no corpete, ela continuou a olhar em volta de si com desespero. Aqueles lugares no lhe haviam causado seno tormentos. Por 
causa do furto que ela cometera, Joffrey, seu nico amor, tinha sido condenado, e sua vida destruda!...
  Decidiu-se a repousar. Depois, percebendo por um chilreio infantil sobre o relvado que seus filhos estavam acordados, foi juntar-se a eles e f-los subir com Brbara, 
Javotte, Flipot e P Ligeiro em uma velha carriola, qu& ela prpria conduziu. E todos partiram alegremente para Moriteloup.
  O sol declinava e lanava uma luz aafroada sobre os grandes prados verdes em que pastavam os muares. Os trabalhos de drenagem dos pntanos haviam transformado 
a paisagem.
  O domnio dos ribeiros, sob seus arcos de verdura, parecia ter recuado para oeste.
  Mas, ao franquear a ponte levadia, onde os perus se pavoneavam como outrora, Anglica constatou que o castelo de sua infncia no havia mudado. O Baro de Sanc, 
malgrado a relativa abastana de que agora desfrutava, no tinha feito na velha construo todos os reparos necessrios. O torreo e as muralhas amea-das continuavam 
desmantelados sob seu revestimento de hera, e a entrada principal continuava sendo a da cozinha.
  Acharam o velho baro perto da ama, que estava limpando cebolas. A ama ainda era muito alta e viva, mas perdera os dentes, e seus cabelos, inteiramente brancos, 
faziam-lhe o rosto parecer to escuro como o dos mouros.
  Seria uma iluso? Pareceu a Anglica que a alegria com que seu pai e a velha serva a receberam tinha qualquer-coisa de forada, como acontece quando se reencontra 
viva uma pessoa que se supunha morta. Prantearam-na, sem dvida, mas a vida prosseguiu sem ela, e agora era preciso arranjar-lhe de novo um lugar.
  A presena de Florimond e de Cantor dissipou o constrangimento. A ama chorou apertando "estes belos queridinhos" contra o corao. Em trs minutos, os meninos 
tinham as faces vermelhas de seus beijos, as mos cheias de mas e nozes. Cantor, em cima da mesa, cantou seu repertrio inteiro.
  - E a velha pequena dama de Monteloup, o fantasma, ser que ainda passeia? - indagou Anglica.
  - No a vejo h muito tempo - disse a ama, abanando a cabea. - Desde que Joo Maria, o caula da famlia, partiu para o colgio, ela no mais reapareceu. Sempre 
tenho pensado que ela procurava uma criana...
  No escuro salo, a tia Joana continuava a reinar diante do seu trabalho de tapearia, feito uma gorda e negra aranha no meio de sua teia.
  -        Ela no ouve mais e tem a mioleira desarranjada - explicouo baro.
  A velha, depois de perceber Anglica, perguntou com voz rouca:
  -        O Coxo tambm veio? Eu pensava que o tivessem queimado...
  Foi essa a nica aluso que se fez em Monteloup ao primeiro casamento de Anglica. Pareciam preferir deixar na sombra essa parte de sua vida. Alm disso, o velho 
baro parecia no fazer a si mesmo muitas indagaes.  medida que seus filhos se iam, se casavam, retornavam ou no retornavam, ele os confundia um pouco em seu 
esprito. Falava muito de Dionsio, o oficial, e de Joo Maria, o mais novo. No se preocupava com Hortnsia e no sabia, manifestamente, o que era feito de Gontran. 
O assunto principal de sua conversa eram sempre os muares.
  Depois que Anglica percorreu o castelo, sentiu-se mais tranquila. Monteloup permanecera na mesma. Tudo ali era ainda um pouco triste, um pouco miservel, mas 
to cordial!
  Ela viu com alegria que seus filhos se tinham instalado na cozinha de Monteloup como se houvessem nascido ali, entre os vapores da sopa de couve e as histrias 
da ama Fantina.
  Eles insistiam em ficar para o jantar e para dormir. Mas Anglica levou-os de volta ao Plessis, pois receava a chegada de Filipe, e queria estar l para receb-lo.
  No dia seguinte, como nenhum mensageiro o anunciasse ainda, ela voltou sozinha  casa de seu pai.
  Em sua companhia, percorreu as terras, e ele mostrou-lhe todos os seus arranjamentos.
  A tarde estava linda e perfumada. Anglica tinha vontade de cantar. Quando o passeio terminou, o baro deteve-se subitamente  e ps-se a olhar sua filha com ateno. 
Depois soltou um suspiro.
  -        Ento, voc voltou, Anglica? - disse ele.
  Apoiou sua mo na espdua da jovem, e repetiu vrias vezes, com os olhos midos de lgrimas:
  -        Anglica, minha filha Anglica!...
Esta respondeu, emocionada:
  - Voltei, pai, e vamos poder encontrar-nos frequentemente. O senhor sabe que vou casar-me com Filipe du Plessis-Bellire, para o que nos enviou seu consentimento.
  - Mas eu supunha que esse casamento j se tivesse realizado! - disse ele com espanto.
  Anglica cerrou os lbios e no disse mais nada, Quais eram as intenes de Filipe deixando que as pessoas da terra e da sua prpria famlia acreditassem que o 
matrimnio fora celebrado em Paris?...
  
  CAPTULO XXVI
  
  Anglica defende seus filhos contra Filipe
  
  Na viagem de regresso, Anglica estava inquieta, e seu corao bateu mais rpido quando ela reconheceu no ptio a carruagem do marqus.
  Os lacaios disseram-lhe que seu amo tinha chegado havia mais de duas horas. Ela se apressou rumo ao castelo. Quando subia a escada, ouviu as crianas gritarem.
  "Mais um acesso de raiva de Florimond ou de Cantor", pensou ela, contrariada. "O ar do campo torna-os turbulentos."
  No convinha que seu futuro padrasto pudesse consider-los seres insuportveis. Precipitou-se para o quarto dos meninos, a fim de cham-los severamente  ordem. 
Reconheceu a voz de Cantor. Ele gritava com terror indizvel e aos seus gritos misturavam-se latidos ferozes.
  Anglica abriu a porta e ficou petrificada.
  Diante da chamin, onde flamejava um grande fogo, Florimond e Cantor, agarrados um ao outro, achavam-se encurralados por trs enormes ces-lobos, negros como diabos 
do inferno, que ladravam ferozmente, estirando as correias. A extremidade destas estava na mo do Marqus du Plessis. Este, retendo os animais, parecia divertir-se 
muito com o terror dos infantes. Sobre o piso, Anglica reconheceu, banhado em um mar de sangue, o cadver de Parthos, um dos dogues familiares dos meninos, que 
certamente fora estrangulado ao procurar defend-los.
  Cantor gritava, com o rosto redondo inundado de lgrimas. Mas a figura plida de Florimond tinha uma extraordinria expresso de coragem. Ele puxara sua pequena 
espada e, apontando-a para os animais, tentava proteger o irmo.
  Anglica no teve tempo de soltar uma exclamao. Mais rpido que seu pensamento, um reflexo f-la apanhar um pesado tamborete de madeira e ela o lanou  boca 
dos ces, que uivaram e recuaram ganindo de dor.
  J ela tomava Florimond e Cantor em seus braos. Eles agarraram-se  me. Cantor calou-se prontamente.
  -        Filipe - disse ela ofegante -, no deve assustar assim essas crianas... Elas poderiam ter cado no fogo... Veja, Cantor j tem a mo queimada...
  O jovem marqus volveu para ela suas pupilas duras e lmpidas como gelo.
  -        Seus filhos so covardes como fmeas - disse ele com voz pastosa. 
  Seu rosto estava mais sombrio que de hbito, e ele vacilava um pouco.
  "Ele bebeu", pensoiela.
  Nesse momento, surgiu Brbara. Esbaforida, ps uma das mos sobre o peito, para conter os saltos do corao. Seus olhos, com expresso de terror, foram de Filipe 
a Anglica, depois se detiveram sobre o co morto.
  - Que a senhora me desculpe - disse ela. - Eu tinha ido  copa buscar o leite, para a refeio dos meninos. Deixei-os sob a guarda de Flipot. No podia imaginar...
  - No h nada de grave, Brbara - disse Anglica, muito calma. - Esses meninos no esto habituados a ver animais de caa to ferozes.  bom que eles se acostumem, 
se quiserem, mais tarde, caar o cervo e o javali, como verdadeiros gentis-homens.
  . Os futuros gentis-homens lanaram um olhar pouco entusiasmado aos trs ces. Mas, como estavam nos braos de Anglica, no receavam mais nada.
  -        Vocs so uns tolinhos - disse-lhes ela em tom de doce repreenso.
  Parado, com as pernas afastadas, Filipe, em seu costume de viagem de veludo castanho-dourado, contemplava o grupo de me e filhos. De repente, fez estalar seu 
chicote sobre os ces, puxou-a para trs e saiu da pea.
  Brbara apressou-se a fechar a porta.
  -        Flipot foi me chamar - cochichou ela. - O senhor marqus o expulsara do quarto. A senhora no me tirar da ideia que ele queria fazer devorar as crianas 
pelos ces...
  - No diga tolices, Brbara - interrompeu secamente Anglica. - O senhor marqus no est acostumado a crianas: ele quis brincar...
  - Brincar? Brinquedo de prncipes! Sabe-se at onde pode chegar. Conheci um pobre menino que o pagou bem caro.
  Anglica estremeceu evocando Linot. O louro Filipe, de passo displicente, no tinha estado entre os verdugos do pequeno vendedor de barquilhos? Pelo menos, no 
tinha ficado indiferente s suas splicas?...
  Vendo os filhos tranquilizados, ela foi para seu aposento. Sentou-se diante da penteadeira, para recompor seus cachos.
  Que significava o que tinha acontecido? Deveria tomar a srio o incidente? Filipe estava brio, saltava aos olhos. Desembriaga-do, ele se desculparia de ter causado 
aquele rebulio...
  Mas as palavras de Maria Ins vieram aos lbios de Anglica: "Ele  um bruto!"
  Um bruto dissimulado, sonso, cruel... "Quando ele quer vingar-se de uma mulher, no hesita diante de coisa alguma."
  "Ele no chegar da mesma forma a atacar meus filhos", pensou Anglica, largando o pente e levantando com agitao.
  No mesmo instante a porta do quarto se abriu. Anglica viu Filipe na soleira. Ele pousou sobre a jovem um olhar pesado.
  - Est com o cofre do veneno?
  - Entregar-lho-ei no dia de nosso casamento, Filipe, como foi estipulado em nosso contrato.
  - Ns nos casaremos esta noite.
  - Ento, eu o entregarei a voc esta noite - respondeu ela, esforando-se por no mostrar seus receios.
  Ela sorriu e estendeu-lhe a mo.
  - Ainda no nos cumprimentamos...
  - No vejo necessidade - replicou ele, e fechou a porta brutalmente.
  Anglica mordeu os lbios. Decididamente, o esposo que ela escolhera no seria fcil de acariciar. Veio-lhe  memria o conselho de Molines: "Procure escraviz-lo 
pelos sentidos". Mas, pela primeira vez, ela duvidava de sua vitria. Sentia-se sem foras sobre aquele homem gelado. No tinha jamais notado nenhum desejo nele 
quando estava em sua presena. Ela prpria, no momento, amarrada pela ansiedade, no experimentava qualquer atrao por ele.
  "Ele disse que nos casaremos esta noite. Ele no sabe mais o que diz. Meu pai nem mesmo foi avisado..."
  Estava nesse ponto de suas reflexes, quando bateram timidamente. Anglica foi abrir e viu que eram seus filhos, ainda agarrados um ao outro da maneira mais tocante. 
Mas dessa vez Florimond estendia sua proteo de mais velho ao smio Piccolo, que tinha sobre um brao.
  - Mame - disse ele com uma vozinha trmula -, ns gostaramos de ir para a casa do senhor nosso av. Aqui, ns temos medo.
  - Medo  uma palavra que um menino que usa espada no deve pronunciar - disse Anglica severamente. - Sero vocs covardes, como foi insinuado h pouco?
  - O Sr. du Plessis j matou Parthos. Agora ele vai talvez matar Piccolo.        
  Cantor ps-se a chorar com pequenos soluos abafados. Cantor, o calmo Cantor, perturbado! Era mais do que Anglica podia suportar. Era intil indagar se isto era 
ou no estpido: seus filhos tinham medo. Ora, ela jurara a si mesma que eles no mais conheceriam o medo.
  - Est bem; vo partir com Brbara-para Monteloup imediatamente. Apenas desejo que tenham juzo.
  - Meu av prometeu-me que me faria montar em um mulo - disse Cantor, j reconfortado.
  -        A mim ele vai dar-me um cavalo - afirmou Florimond.
Menos de uma hora mais tarde, Anglica os introduzia numa carriola, com seus criados e suas malas. Havia bastantes leitos em Monteloup para os alojar a todos. Os 
prprios domsticos pareciam contentes de ir embora. A chegada de Filipe trouxera ao castelo branco uma atmosfera irrespirvel. O belo jovem, que desempenhava o 
papel da graa na corte do Rei-Sol, fazia reinar em seu domnio solitrio o punho de um dspota.
Brbara murmurou:        
  -        Senhora, no vamos deix-la aqui, completamente s com esse... esse homem.
  -        Que homem? - perguntou Anglica, altiva.
E acrescentou:
  - Brbara, uma existncia confortvel a fez olvidar alguns episdios de nosso passado comum. Recorde-se de que eu sei como defender-me.
  Beijou a criada nas faces redondas, pois sentia o corao transido.
  
  CAPTULO XXVII
  
  Brutal noite de npcias
  
  Quando deixou de ouvir, na tarde azulada, o som das campainhas da pequena viatura, Anglica voltou a passos lentos para o castelo. Estava aliviada por sentir seus 
filhos sob a asa tutelar de Monteloup. Mas o Castelo do Plessis pareceu-lhe mais deserto e quase hostil, no obstante sua beleza de bibel renascentista.
  No vestbulo, um lacaio se inclinou diante dela e avisou-a de que o jantar estava servido. Ela se dirigiu  sala de refeies, onde a mesa estava posta. Quase 
imediatamente Filipe apareceu e, sem uma palavra, sentou-se a um dos extremos da mesa. Anglica tomou o lugar no outro. Estavam ss, servidos por dois lacaios. Um 
ajudante de cozinha trazia os pratos.
  As chamas das trs tochas eram refletidas pelas peas de preciosa prataria. Durante toda a refeio no se ouviu seno o rudo das colheres e o tinir dos copos, 
que dominava o canto estridente dos grilos na relva. Pela porta da sacada via-se a noite brumosa invadir a campina.
  Anglica, aps haver dito a si mesma que no poderia engolir nada, comeu com bom apetite, em obedincia s injunes particulares de seu temperamento. Observou 
que Filipe bebia muito, mas que a bebida, longe de torn-lo expansivo, aumentava mais e mais sua frieza.
  Quando ele se levantou, tendo recusado a sobremesa, ela no teve outra alternativa seno acompanh-lo- ao salo vizinho. Ali encontrou Molines e o capelo, bem 
como uma camponesa que, s mais tarde ela o soube, fora a ama de Filipe.
  - Est tudo pronto, padre? - perguntou o jovem, saindo de seu mutismo.
  - Est, senhor marqus.
  - Ento, vamos  capela.
  Anglica estremeceu. O casamento, seu casamento com Filipe, ia mesmo realizar-se naquelas condies sinistras? Ela protestou:
  - No pretende que tudo esteja pronto para o nosso casamento e que ele se celebre to precipitadamente...
  - No o pretendo, senhora - respondeu Filipe, escarninho. - Ns assinamos o contrato em Paris. E o suficiente para o mundo! O senhor padre aqui presente vai abenoar-nos, 
e ns trocaremos nossos anis.  o bastante para Deus! Outros preparativos no me parecem necessrios.
  A jovem olhou com hesitao para as testemunhas daquela cena. Uma nica tocha, sustentada pela velha, os alumiava. L fora, a escurido era total. Os criados haviam-se 
retirado. Se Molines no estivesse ali, o spero, o duro Molines, mas que a amava mais que  prpria filha, Anglica recearia ter cado numa cilada.
  Procurou o olhar do intendente. Mas o velho baixou os olhos com aquele servilismo particular que sempre afetava diante dos senhores Du Plessis.
  Ento, ela se resignou.
  Na capela, iluminada por dois grandes crios amarelos, um pequeno campons estupefato, metido numa casula de menino-de-coro, trouxe a gua benta.
  Anglica e Filipe tomaram lugar em dois genuflexrios. O capelo veio colocar-se diante deles, recitou num resmungo as preces e frmulas habituais.
  - Filipe du Plessis-Bellire, aceita como esposa Anglica de Sanc de Monteloup?
  - Sim.
  - Anglica de Sanc de Monteloup, aceita como esposo Filipe du Plessis-Bellire?
  Ela disse "sim" e estendeu a mo para Filipe, a fim de que ele lhe pusesse o anel. Lembrou-se de um gesto idntico, realizado anos antes, na catedral de Toulouse.
  Naquele dia, ela no estava menos trmula, e a mo que havia tomado a sua apertara-a docemente, como para tranquiliz-la. Em seu nervosismo, ela no compreendera 
a significao daquele discreto aperto. Agora aquele detalhe voltava-lhe  mente e a feria como uma punhalada, enquanto ela via Filipe, meio brio, cegado pelos 
vapores do vinho, tatear sem conseguir enfiar-lhe o anel. Finalmente o colocou. Tudo estava consumado. O grupo saiu da capela.
  -        E a sua vez, senhora - disse Filipe, olhando-a com seu insuportvel sorriso gelado.
  Ela compreendeu e pediu aos assistentes que a seguissem at seu quarto.
  L, ela retirou da secretria o cofre, abriu e entregou-o a seu marido. A chama das velas refletiu-se no frasco.
  -         este o cofre perdido - disse Filipe depois de um instante
de silncio. - Tudo vai bem, senhores.
  O capelo e o intendente assinaram um papel em que declaravam ter sido testemunhas da entrega do cofre pela Sra. du Plessis-Bellire, segundo as clusulas do contrato 
de matrimnio.
  Depois eles curvaram a espinha mais uma vez diante do casal e afastaram-se a passos contados, precedidos da velha ama que lhes alumiava o caminho.      
  Anglica teve de dominar-se para no reter o intendente. O pnico que ela sentia era no somente ridculo mas sem fundamento. Certamente nunca  agradvel ter 
de enfrentar o rancor furioso de um homem. Entretanto, entre ela e Filipe haveria um meio de se entenderem, de assinarem uma trgua...
  Ela deitou-lhe um olhar furtivo. Cada vez que o examinava, na perfeio de sua beleza, ela se tranquilizava. O homem inclinava para o temvel cofre seu perfil 
de uma pureza de medalha, levemente tufado sobre o lbio pelo bigode louro. Seus longos clios espessos projetavam uma sombra sobre suas faces. Mas ele estava mais 
vermelho que de costume, e o forte odor de vinho que exalava era bem desagradvel.
  Vendo-o levantar com mo insegura o frasco de veneno, Anglica disse vivamente:
  - Cuidado, Filipe. O monge Exili pretendia que uma s gota desse veneno bastaria para desfigurar para sempre.
  - Deveras?
  Ele ergueu os olhos para ela e um brilha perverso atravessou-lhe as pupilas. Sua mo balanou o frasco. Num timo, Anglica compreendeu que ele estava tentado 
a lanar-lhe ao rosto. Paralisada de terror, no pestanejou, entretanto, e continuou a olh-lo com expresso calma e ousada. Ele riu zombeteiramente e em seguida 
reps o frasco no cofre e fechou-o, pondo-o debaixo do brao.
  Sem uma palavra, segurou o punho de Anglica e arrastou-a para fora do quarto.
  O castelo estava silencioso e escuro, mas a lua, que acabava de nascer, projetava sobre o piso a imagem luminosa das altas janelas.
  A mo de Filipe segurava to duramente o frgil punho da jovem que esta sentia seu prprio pulso. Mas ela preferia isso. Em seu castelo, Filipe tomava uma consistncia 
que na corte no tinha, absolutamente. Sem dvida, ele era assim na guerra, abandonando o envoltrio do belo corteso pensativo para assumir sua verdadeira personalidade 
de guerreiro nobre, preciso, quase brbaro.
  Eles desceram a escada, atravessaram o vestbulo e saram para o jardim.
  Um nevoeiro prateado flutuava sobre o lago. No pequeno embarcadouro de mrmore, Filipe empurrou Anglica para um bote.
  - Entre! - disse secamente.
  Tomou, por sua vez, lugar no bote e pousou com precauo o cofre sobre um dos bancos. Anglica ouviu soltar a amarra. Depois, lentamente, o esquife se afastou 
da margem. Filipe tomara um dos remos. Levou o barco para o meio do lago. Os reflexos da lua brincavam sobre as pregas de seu traje de cetim branco, sobre os cachos 
dourados de sua peruca. No se ouvia seno o roar do casco nas folhas cerradas dos nenfares. As rs, intimidadas, haviam-se calado.
  Quando atingiram a gua negra, mas lmpida, do centro do lago, Filipe imobilizou o bote. Olhou em torno de si, com ateno. A terra parecia distante, e o castelo 
branco, entre os dois alcantis sombrios do parque, fazia pensar numa visagem. Em silncio, o Marqus du Plessis retomou entre as mos aquele cofre cuja desapario 
afligira os dias e as noites de sua famlia. Resolutamente, lanou-o  gua. O objeto afundou e, muito rapidamente, desfizeram-se as ondas que assinalavam o local 
de sua queda.
  Ento, Filipe olhou Anglica. Esta tremeu. Ele se deslocou e veio sentar-se perto dela. Esse gesto, que quela hora, naquele ambiente ferico, poderia ter sido 
o de um amoroso, paralisou-a de medo.
  Lentamente, com aquela graa que caracterizava cada um de seus movimentos, ele levantou as duas mos e pousou-as no pescoo da jovem.
  E agora vou estrangul-la, minha bela - disse ele em voz baixa.
- Voc ir reunir-se, no fundo da gua, ao seu maldito cofre!
  Anglica no se mexeu. Ele estava brio ou louco. De qualquer modo, era capaz de mat-la. Ela no estava  sua merc? No podia nem pedir socorro nem defendr-se. 
Em um movimento imperceptvel, apoiou a cabea contra o ombro dele. Sobre sua fronte sentiu o contato de uma face que no fora barbeada desde a manh, uma face masculina, 
enternecedora. Tudo se acabou... A lua viajava no cu, o cofre jazia no fundo da gua, a campina suspirava, representava-se o ltimo ato da tragdia. No era justo 
que Anglica de Sanc fosse morta assim, pela mo do jovem deus que se chamava Filipe du Plessis?
  Subitamente, voltou-lhe o flego, e o aperto que a sufocava relaxou-se. Ela viu Filipe, de dentes cerrados, o rosto convulsionado pela clera.
  -        Com os diabos! - praguejou ele. - Nenhum medo far en
to curvar-se sua cabecinha orgulhosa? Nada a far gritar, supli
car?... Pacincia, voc haver de chegar a isso!
  Repeliu-a com brutalidade e retomou o remo.
  To logo pisou terra firme, Anglica resistiu ao desejo de fugir desesperadamente. No sabia mais o que devia fazer. Suas ideias estavam confusas. Levou a mo 
ao pescoo, que lhe doa horrivelmente.
  Filipe observava-a com uma ateno que-tornava sombrio o seu olhar. Aquela mulher no parecia de uma espcie comum. Nem lgrimas nem gritos. Nem sequer tremia. 
Desafiava-o ainda por cima, e no entanto era ele o ofendido. Ela o havia constrangido, humilhado como nenhum homem pode suportar sem desejar a morte. Por semelhante 
afronta, um nobre pode responder com a espada, um campons com o porrete. Mas uma mulher?... Que reparao exigir dessas criaturas resvaladias, moles, hipcritas, 
cujo contato  semelhante ao dos animais venenosos, e que to bem nos envolvem em suas palavras que nos achamos embados... e culpados ainda por cima?
  Oh! As mulheres nem sempre eram vitoriosas. Filipe sabia como vingar-se delas. Havia-se deleitado com ps-sluos, os gritos, as splicas das moas que violentara 
nas noites de combate e que em seguida entregara como pasto aos seus homens.
  Vingava-se, assim, das humilhaes que elas lhe haviam feito sofrer em sua adolescncia.
  Mas aquela, como abat-la? Ela reunia, por detrs de sua fronte convexa, lisa, por detrs do seu olhar de gua verde, todas as manhas femininas, toda a fora sutil 
de seu sexo. Pelo menos, era o que ele acreditava. No sabia que Anglica tremia e estava" a ponto de chorar.
  Se ela o enfrentava, era porque tinha o hbito de enfrentar e combater.
  Ele tomou-lhe o brao, com um gesto de malvado carcereiro, e levou-a para o castelo. .
  Quando subiam a grande escada, ela viu-o estender a mo para o longo chicote de ces, pendurado na parede...
  - Filipe - disse ela -, separemo-nos aqui. Voc est embriagado, eu creio. Para que brigarmos outra vez? Amanh...
  - Oh! No! - disse ele, sarcstico. - No tenho obrigao de cumprir meu dever conjugal? Mas antes quero corrigi-la um pouco, para faz-la deixar o gosto da chantagem. 
No esquea, senhora, que sou seu marido e que tenho todo o poder sobre sua pessoa.
  Ela procurou escapar-lhe, mas ele a reteve e aoitou-a como haveria aoitado uma cadela rebelde. Anglica soltou um grito que era mais de indignao que de dor.
  - Filipe, voc est louco!
  - Voc me pedir perdo! - disse ele, com os dentes cerrados. - Voc me pedir perdo do que fez!
  - No!
  Empurrou-a para o quarto, fechou a porta atrs deles e comeou a golpe-la com o chicote. Sabia manej-lo. Seu cargo de monteiro-mor da Frana no era, certamente, 
imerecido.
  Anglica pusera os braos diante do rosto, a fim de proteger-se. Recuou at a parede, virou-se num gesto instintivo. Cada chicotada a fazia estremecer, e ela mordia 
os lbios para no gemer. No entanto, um curioso sentimento a invadiu, e sua revolta inicial cedeu diante de uma espcie de aceitao, um estranho gosto da justia. 
De repente exclamou:
  -        Basta, Filipe, basta!... Eu lhe peo perdo.
  Como ele se detivesse, espantado de sua fcil vitria, ela repetiu:
  -        Eu lhe peo perdo...  verdade, procedi mal para com voc.
Indeciso, ele permaneceu imvel. Ela ainda o insultava, pensou ele, ela se furtava  sua clera por meio de uma humildade enganosa. Todas eram assim! Arrogantes 
na vitria, rastejantes sob o chicote! Mas o tom de Anglica tinha qualquer coisa de sincero
  
  que o perturbava. Talvez ela no fosse corno as outras, talvez a lembrana estereotipada em sua memria da pequena "Baronesa do Triste Vestido" no fosse uma simples 
aparncia...
  Na penumbra em que competiam a claridade lunar e a da tocha, a viso daquelas brancas espduas contundidas, daquela nuca frgil, daquela fronte escondida contra 
a parede como a de uma criana penitente, despertou nele um desejo violento, mas inusitado e como nenhuma mulher jamais lhe havia inspirado. No era mais somente 
uma exigncia bestial e cega. A ela se juntava uma atrao um pouco misteriosa, quase doce.
  Subitamente ele teve o pressentimento de que, com Anglica, iria alcanar qualquer coisa de novo, uma desconhecida regio do amor, em vo buscada por meio de tantos 
corpos olvidados..
  Seus prprios lbios pareceram-lhe secos, sedentos, vidos de se desalterar ao contato de  uma carne macia e perfumada.
  Com a respirao curta, ele atirou para longe o chicote, depois desembaraou-se do gibo", e da peruca.
  Anglica, inquieta, viu- subitamente meio despido e desarmado, ereto como um arcanjo na sombra, com seus curtos cabelos louros que lhe davam uma nova cabea de 
pastor antigo, a camisa rendada entreaberta sobre vim torso liso e branco, os braos afastados, em um gesto indeciso.
  De repente, ele se aproximou da jovem,-agarrou-a e, canhestra-mente, pousou a boca na ardente cavidade do pescoo. Mas Anglica ainda sentia doer aquele lugar, 
e foi a sua vez de se enraivecer. Alm do mais, se ela possua retido bastante para reconhecer seus erros, era tambm muito altiva para que o tratamento que acabava 
de receber a pusesse em disposio amorosa.
  Arrancou-se s mos de seu novo esposo:
  - Ah! no, isso no!
  Ouvindo-a gritar, Filipe tornou-se urioso. Ento o sonho ainda lhe fugia! Aquela mulher no era st no uma mulher como as outras, recalcitrante, calculista, exigente, 
o eterno feminino!... Recuou, ergueu o punho e golpeou-a em cheio no rosto.
  Ela vacilou. Depois, agarrando-o com as cjuas mos pela gola da camisa, mandou-o, com um empurro, contra a parede. Ele ficou um momento estupefato. Ela fizera, 
para defender-se, um gesto de cantineira habituada aos brios.
  Jamais ele vira uma dama de qualidade defender-se daquela maneira. Achou aquilo ao mesmo tempo muito engraado e exasperante. Supunha ela que ele iria ceder?...
  Ele conhecia muito bem aquela casta. Se no a domasse naquela noite mesma, ficaria, mais tarde, escravizado a ela. Rangeu os dentes, invadido pelo acre desejo 
de destruir, de superar uma fraqueza. Depois, subitamente, saltou com uma leveza dissimulada, agarrou-a pelo pescoo e bateu-lhe selvagemente com a cabea na parede.
  Com o choque, Anglica ficou meio desfalecida e resvalou para o cho.
  Lutava para no desmaiar. Uma certeza acabava de se lhe impor: na Taberna da Mscara Vermelha fora mesmo Filipe quem a tinha deixado moda de pancadas antes que 
os outros se apoderassem dela para a violar! Oh! Ele era um bruto, um bruto horrvel!
  O peso de seu corpo a esmagava sobre o lajedo frio. Anglica tinha a impresso de ser presa de uma fera excitada, uma fera que, depois de a ter forado, a martelava 
sem trgua, selvagemente. Dores inumanas trespassavam-lhe os rins... Mulher nenhuma poderia sofrer aquilo sem morrer... Ele ia mutil-la, destru-la!... Um bruto 
horrvel!...
  Finalmente, no resistindo mais, ela soltou um grito lancinante:
  - Clemncia, Filipe, clemncia!...
  Ele respondeu com um grunhido surdo e triunfante. Afinal, ela havia gritado. Enfim, ele reencontrava a nica forma de amor que podia satisfaz-lo, a alegria infernal 
de estreitar uma presa inteiriada pela dor, uma presa dementada, suplicante, que o vingava das humilhaes pretritas. Seu desejo, exaltado pelo dio, tornava-o 
rijo como uma barra de ferro. Ele a esmagava com toda a sua fora.
  Quando afinal a largou, ela se achava quase inconsciente.
  Ele a contemplou, estendida a seus ps.
  Ela j no gemia, mas, buscando vagamente recobrar a plenitude dos sentidos, mexia-se um pouco sobre o piso, como um belo pssaro ferido.
  Filipe teve uma espcie de soluo.
  "Que  que eu tenho?", pensou ele com terror.
  Subitamente o mundo no era mais que trevas e desespero. Toda a luz havia se extinguido. Tudo estava destrudo para sempre. Tudo o que teria podido ser estava 
morto. Ele havia assassinado at a tmida lembrana de uma menina vestida de cinzento, cuja mo havia estremecido na sua - aquela lembrana que lhe acudia, s vezes, 
e o encantava, ele no sabia por qu...
  Anglica abriu os olhos. Ele tocou-a com a ponta do p e disse, com um riso escarninho:
  - Penso que voc est satisfeita! Boa noite, Sra. Marquesa du Plessis.
  Ela ouviu-o afastar-se dando encontres nos mveis. Depois, ele saiu do aposento.
  
  CAPITULO XXVIII
  
  Anglica no se d por vencida
  
  Ela ficou muito tempo estendida no cho, apesar do frio que lhe mordia a carne desnuda.
  Sentia-se mortificada at o sangue, e sua garganta estreitava-se num desejo infantil de chorar. Malgrado seu, a lembrana de suas primeiras npcias, sob o cu 
de Toulouse, voltou a visit-la.
  Revia-se deitada, inerte, a cabea leve, os membros pesados de uma lassido que ela conhecia pela primeira vez. A sua cabeceira inclinava-se a figura do grande 
Joffrey de Peyrac.
  "Pobre pequena ferida!", dissera ele.
  Mas sua voz no tinha piedade. E, de repente, ele se pusera a rir. Era um riso de triunfo, o riso exultante do homem que foi o primeiro a apor seu selo na carne 
da companheira amada.
  "Eis tambm por que o amo!", havia ela pensado ento. "Porque  o Homem por excelncia. Que importa sua face destroada? Ele tem a fora e a inteligncia, a virilidade, 
a intransigncia sutil dos conquistadores, a simplicidade, em suma, tudo b que faz do Homem o primeiro dos seres, o rei da criao..."
  E fora esse homem que ela perdera, que acabava de perder uma segunda vez! Pois sentia obscuramente que o esprito de Joffrey de Peyrac a renegava. No acabava 
ela de tra-lo?
  Ps-se a sonhar com a morte no pequeno lago coberto de nenfares. Depois lembrou-se do que Desgrez lhe havia dito:
  "Evite revolver as cinzas que foram dispersadas ao vento... Cada vez que pensar nisso, ter vontade de morrer... E eu nem sempre estarei presente..."
  Ento, por causa de Degrez por causa de seu amigo policial,
  a Marquesa dos Anjos afastou mais uma vez a tentao do desespero. No queria decepcionar Desgrez.
  Soerguendo-se, arrastou-se at a porta e empurrou os ferrolhos. Depois, foi abater-se como um fardo sobre o leito. Era muito melhor no refletir. Alm disso,'Molines 
a tinha prevenido: "Pode ser que perca a primeira parada..."^
  A febre cozinhava-lhe as tmporas, e ela no sabia como aplacar as dores pungentes de seu ccjrpo.
  De um raio da lua saltou o leve fantasma do poeta, com seu chapu pontudo e seus cabelos plidos. Ela chamou-o. Mas ele j desaparecera. Acreditou ouvir Sorbonne 
latir e o passo de Desgrez diminuir na distncia...
  Desgrez, o Poeta Pobre... Ela os confundia um pouco em seu esprito, o caador e o perseguido, ambos filhos da grande Paris, ambos trocistas e cnicos, esmaltando 
sua gria de latim. Mas ela havia reclamado em vo sua presena: eles se esfumavam, perdiam toda a realidade. No piais faziam parte de sua vida. A pgina tinha 
sido virada. Ela je separara deles para sempre.
  Anglica despertou~'subitamente e ps-se a escutar.
  O silncio da floresta de Nieul envolvia o castelo branco. Em um dos quartos, o belo verdugo devia ressonar, embrutecido pelo vinho. O pio de uma coruja trouxe 
consigo toda a poesia da noite e do pequeno bosque.
  Uma grande calma invadiu a jovem. Ela se virou no travesseiro e resolutamente procurou o sono.    
  Tinha perdido a primeira parada, mas em todo caso havia-se tornado Marquesa du Plessis-Bellire.
  A manh seguinte, todavia, trouxe-lhe uma nova decepo. Quando descia, tendo-se preparado ela mesma para evitar a curiosidade de Javotte, e depois de ter mascarado 
o rosto com alvaiade e p, a fim de dissimular uma equimose demasiado visvel, soube que o marqus seu esposo partira para Paris de madrugada. Ou melhor, para Versalhes, 
onde a corte se reunia para os ltimos festejos antes das campanhas de vero. O sangue de Anglica ferveu. Imaginaria Filipe que sua mulher aceitaria ficar enterrada 
na provncia, enquanto havia festas em Versalhes?...
  Quatro horas depois, uma carruagem puxada por seis velozes cavalos lanava-se pelas estradas pedregosas do Poitu.
  Anglica, morta de cansao mas firme na sua vontade, retornava, tambm, a Paris.
  No ousando reencontrar o olhar perspicaz de Molines, havia-lhe deixado uma carta em que lhe recomendava seus filhos. Entre Brbara, a ama, o av e o intendente, 
Florimond e Cantor,estariam como peixes dentro d'gua. Ela podia ausentar-se com o espirito tranquilo.
  Em Paris, foi cair em casa de Ninon de Lenclos. Esta, havia trs meses, era fiel ao amor que lhe inspirava o Duque de Gassempier-re. Como o duque estava na corte, 
onde permaneceria uma semana, Anglica encontrou na residncia de sua arniga o almejado retiro. Passou quarenta e oito horas estendida no leito de Ninon, com uma 
cataplasma de blsamo-do-peru sobre o rosto, duas compressas de alume sobre as plpebras, o corpo untado de leos e de pomadas.
  Havia atribudo a um acidente de carruagem as numerosas pisaduras e verges que lhe cobriam o rosto e as espduas. O tato da cortes era to grande que Anglica 
nunca soube se ela havia ou no acreditado.
  Ninon falou-lhe muito naturalmente de Filipe, que ela vira, por ocasio de seu regresso, dirigindo-se para Versalhes. Um programa de festejos dos mais agradveis 
estava previsto l: jogo da argolinha, bailados, comdias, fogos de artifcio e outras diverses interessantes.
  Sentada  cabeceira de Anglica, Ninon tagarelava sem cessar, a fim de que sua paciente no fosse tentada a abrir a boca, pois a calma lhe era muito necessria 
para recuperar depressa as cores naturais. Ninon dizia que no lamentava desconhecer Versalhes, onde sua reputao lhe interditava ser recebida. Seu domnio era 
em outro lugar, naquela pequena manso do bairro do Marais, onde era verdadeiramente rainha e no seguidora. Bastava-lhe saber que, a propsito deste ou daquele 
incidente de alcova ou da corte, o rei perguntava, s vezes: "Que disse a respeito a bela Ninon?"
  - Quando for acolhida em Versalhes, voc me esquecer, minha amiga? - perguntou ela.
  Com um sinal, Anglica, sob os emplastros, respondeu que no.
  
  CAPTULO-XXIX
  
  Anglica diante do rei
  
  A 21 de junho de 1666, a Marquesa du Plessis-Bellire dirigiu-se a Versalhes. No tinha convite, mas possua, em compensao, a maior audcia deste mundo.
  Seu coche, guarnecido de veludo verde por dentro e por fora, com franjas e gales de ouro, a carroceria e as rodas inteiramente douradas, era puxado por dois grandes 
cavalos malhados.
  Anglica usava um vestido de brocado verde-cinza, com grandes flores de prata, e, por jia, um esplndido colar de prolas de vrias voltas.
  Seus cabelos, penteados por Binet, estavam igualmente ornados de prolas e guarnecidos por duas plumas leves e imaculadas como um adereo de neve. Seu rosto, maquilado 
cuidadosamente, mas sem exagero, no mais mostrava traos das violncias de que ela fora vtima alguns dias antes. S restava uma marca azul na tmpora, a qual Ninon 
havia dissimulado com uma mosca de tafet em forma de corao. Com outra mosca, menor, ao canto do lbio, Anglica estava perfeita.
  Ela enfiou as luvas de Vendme, abriu o leque pintado  mo e, inclinando-se  portinhola da carruagem, gritou:
  -        Para Versalhes, cocheiro!
  Sua inquietude e alegria faziam-na to nervosa que ela trouxera Javotte, para ter com quem pairar durante o trajeto.
  - Ns vamos a Versalhes, Javotte! -"repetia ela  pequena, que se tinha sentado diante dela, com touca de musselina e avental bordado.
  - Oh! Eu j estive l, senhora. Com o barco de Saint-Cloud, no domingo... para ver o rei jantar.
  -        No  a mesma coisa, Javotte. Voc no pode compreender.
  A viagem pareceu-lhe interminvel. A estrada era pssima, sulcada de rodeiras profundas pelas duas mil carroas que, diariamente, a percorriam nos dois sentidos, 
transportando pedras e gesso para a construo do castelo, bem como embrechados, canos de chumbo e esttuas para os jardins.
  Carreteiros e cocheiros trocavam injrias copiosamente.
  - No deveramos passar por aqui, senhora - dizia Javotte -, mas por Saint-Cloud.
  - No;  muito longo o trajeto.
  A cada momento, Anglica punha a cabea pela portinhola, com risco de destruir o artstico trabalho de Binet e de fazer-se salpicar de lama.
  -        Depressa, cocheiro, com os demnios! Seus cavalos so umas lesmas!
  Mas j via erguer-se no horizonte uma alta escarpa rosa e cintilante, que parecia irradiar todo o sol da manh primaveril.
  - Que  aquilo, cocheiro?
  -  Versalhes, senhora.
  Uma alia de rvores plantadas recentemente sombreava a extremidade da avenida. Nas vizinhanas do primeiro porto, a carruagem de Anglica teve de parar, a fim 
de deixar passar um coche que, pela estrada de Saint-Cloud, se aproximava a toda a velocidade. A carruagem vermelha, puxada por seis cavalos baios, era escoltada 
por cavaleiros. Era de Monsieur. O coche de Madame a seguia, com seis cavalos brancos.
  Anglica fez sua carruagem acompanh-los. No mais acreditava nos maus encontros, nos malefcios. Uma certeza mais forte que todos os receios assegurava-lhe que 
a hora de seu triunfo estava prxima.
  Esperou, entretanto, que a agitao causada pela chegada das duas grandes personagens se acalmasse um pouco. Depois desceu da viatura e ganhou o ptio de mrmore, 
pelos degraus que lhe davam acesso.
  Flipot, de libr, sustentava a cauda do seu manto de vestido.
  - No assoe o nariz na manga - disse-lhe ela. - No esquea que estamos em Versalhes.
  - Sim, senhora - suspirou o antigo pivete do Ptio dos Milagres, que olhava em torno, boquiaberto de admirao.
  Versalhes ainda no tinha a esmagadora majestade que lhe deviam conferir as duas alas brancas acrescentadas por Mansart no fim do reinado de Lus XIV. Era um palcio 
ferico, que se erguia sobre uma estreita colina, com sua arquitetura alegre cor de papoula e rosa, seus balces de ferro lavrado, suas altas chamins claras. Os 
pinculos e mascares eram inteiramente folheados a ouro e brilhavam como jias a ornarem um precioso cobre. A ardsia nova tinha, conforme os ngulos que refletiam 
a sombra ou a luz, a profundeza do veludo negro ou a cintilao da prata.
  Uma grande agitao reinava nas proximidades do castelo, pois as librs multicores dos criados e dos lacaios misturavam-se s blusas escuras dos trabalhadores 
que se movimentavam com seus carrinhos de mo e suas ferramentas. O rudo cantante dos cinzis que martelavam a pedra respondia aos tamborins e aos pfanos de uma 
companhia de mosqueteiros que desfilava ao centro do grande ptio.
  Anglica, olhando em volta de si, no mais viu fisionomias conhecidas. Entrou, finalmente, no castelo por uma porta da ala esquerda, onde a movimentao parecia 
intensa. Por uma vasta escada de mrmores de cor dirigiu-se a um grande salo onde se comprimia um ajuntamento de pessoas modestamente vestidas, que a olharam com 
espanto. Ela pediu informaes. Disseram-lhe que se achava na sala dos guardas. Todas as segundas-feiras, os postulantes ali vinham apresentar seus requerimentos 
ou buscar a resposta a suas peties anteriores. Ao fundo da pea, por cima da chamin, uma nave de ouro e de prata dourada representava a pessoa do rei, mas esperava-se 
que Sua Majestade aparecesse em pessoa, como s vezes fazia.
  Anglica, com suas plumas e seu pajem, sentiu-se deslocada entre aqueles velhos militares, aquelas vivas e rfos. Ia retirar-se quando viu a Sra. Scarron. Saltou-lhe 
ao pescoo, feliz de afinal encontrar uma pessoa conhecida.
  - Estou procurando a corte - disse-lhe. - Meu marido deve estar assistindo ao despertar do rei, e quero juntar-me a ele.
  A Sra. Scarron, mais pobre e modesta que nunca, parecia pouco indicada para inform-la. Mas, desde que frequentava as antecmaras reais, em busca de uma penso, 
a jovem viva se achava mais a par do programa detalhado da corte que o prprio noticiarista Loret, encarregado de registrar,-hora por hora, os acontecimentos.
  Muito obsequiosamente, a Sra. Scarron levou Anglica para outra porta, que dava para uma espcie de vasto balco, alm do qual se avistavam os jardins.
  -        Creio que o despertar do rei terminou - disse ela. - Ele acaba de passar ao seu gabinete, onde vai conversar alguns instantes com as princesas de sangue. 
Depois, descer aos jardins, a menos que venha at aqui. De qualquer modo, o melhor para voc ser seguir esta galeria aberta. No fim,  sua direita, encontrar 
a antecmara que conduz ao gabinete do rei. Todos se amontoam ali a esta hora. Voc encontrar sem dificuldade o seu esposo.
  Anglica lanou um olhar ao balco, onde no via seno alguns guardas suos.
  - Eu morro de medo - disse ela. - Voc no vem comigo?
  - Oh! Minha querida, como poderia faz-lo? - assustou-se Francisca, lanando uma olhada confusa ao seu pobre vestido.
  Anglica notou somente o contraste entre suas vestes.
  - Por que est aqui como solicitante? Ainda tem preocupaes de dinheiro?
  - Mais que nunca, ai de mim! Com a morte da rainha-me, fiquei sem a minha penso. Tenho vindo na esperana de fazer que a restabeleam. O Sr. d'Albret prometeu-me 
seu apoio.
  - Desejo que o consiga. Estou verdadeiramente desolada.
  A Sra. Scarron sorriu muito gentilmente e acariciou-lhe a face.
  -        No fique triste. Seria lamentvel. Voc parece to feliz! Alm disso, voc bem merece sua felicidade, minha cara. Regozijo-me de v-la to bela. O rei 
 muito sensvel  beleza. No duvido de que ele fique encantado com voc.
  "Comeo a ter minhas dvidas", pensou Anglica, cujo corao se ps a bater de maneira desordenada. A esplndida decorao de Versalhes encorajava-a a levar at 
o fim sua audcia. Com toda a certeza, ela estava louca. Mas no tinha importncia! No iria agir como o corredor que baqueia a poucos passos do final...
  Depois de um sorriso  Sra. Scarron, ela se lanou atravs da galeria, andando to depressa que Flipot se esbofava atrs dela. Quando estava a meio caminho, um 
grupo surgiu na outra extremidade, parecendo vir ao seu encontro. Mesmo quela distncia, Anglica no teve qualquer dificuldade em reconhecer, entre os cortesos, 
a figura majestosa do rei.
  Tornado mais alto por seus taces vermelhos e sua opulenta peruca, Lus XIV distinguia-se dos outros por uma admirvel arte de caminhar. Alm disso, ningum melhor 
que ele sabia servir-se  das altas bengalas, cuja moda ele lanara e que, at ento, pareciam ter sido reservadas somente aos velhos ou aos invlidos. Ele fazia 
delas um instrumento de segurana, de bela postura e mesmo, em seu caso, de seduo.
  Ele avanava apoiado em sua bengala de bano com casto de ouro, trocando palavras alegres com-as duas princesas que o ladeavam: Henriqueta da Inglaterra e a jovem 
Duquesa d'Enghien. Naquele dia, a favorita titular, Lusa de La Vallire, no tomava parte no passeio. Sua Majestade no estava descontente. A pobre jovem tornava-se 
cada vez menos atrativa. O encontr-la na intimidade ainda tinha alguma doura. Mas, para aquelas belas manhs, em que desabrochavam os esplendores de Versalhes, 
a palidez e a magreza da Srta. de La Vallire pareciam acentuar-se. Tanto assim que ela permanecia em seu retiro, onde ele iria v-la em breve e informar-se de sua 
sade...
  A manh estava verdadeiramente esplndida, e Versalhes, maravilhosa. Mas... no era a prpria deusa Primavera que vinha para o monarca na pessoa daquela mulher 
desconhecida?... O sol lhe punha uma aurola, e suas jias desciam-lhe at a cintura como prolas de orvalho...
  Anglica compreendera logo que, se voltasse, se cobriria de ridculo. Continuou, pois, a avanar, mas cada vez mais lentamente, com aquela estranha sensao de 
impotncia e de fatalidade que s vezes se tem em sonho. Na nvoa que a envolvia, ela distinguia somente o rei, e olhava-o fixamente, como atrada por um m. Gostaria 
de baixar os olhos, mas era incapaz de faz-lo. Estava agora to perto dele como outrora, no aposento escuro do Louvre, onde o tinha enfrentado, e tudo se extinguia 
para ela, afora essa lembrana terrvel.
  No tinha, mesmo, conscincia do espetculo que oferecia, sozinha ao centro daquela galeria banhada de luz, com seus atavios magnficos, sua beleza desbordante 
e clida, sua expresso fascinada.
  Lus XIV havia parado, e os cortesos atrs dele. Lauzun, que reconhecera Anglica, mordeu os lbios e escondeu-se atrs dos outros, rejubilando. Iriam assistir 
a qualquer coisa de surpreendente!
  Muito corts, o rei tirou o chapu ornado de plumas cor de fogo. Impressionava-se facilmente com a beleza das mulheres, e a ousadia tranquila com que aquela o 
olhava com seus olhos de esmeralda, longe de contrari-lo, encantava-o sobremaneira. Quem era ela?... Como ainda no a tinha notado?...
  Obedecendo a uma reao inconsciente, Anglica fez uma profunda reverncia. Agora, meio ajoelhada, ela gostaria de nunca mais se levantar. No entanto, reergueu-se, 
os olhos irresistivelmente atrados pelo rosto do rei. Olhava-o, malgrado seu, de maneira provocante.
  O rei spantou-se. Havia qualquer coisa de inusitado na atitude daquela desconhecida e tambm no silncio e na surpresa dos cortesos. Ele lanou um olhar em volta 
de si e franziu levemente os superclios.
  Anglica pensou que ia desmaiar. Suas mos puseram-se a tremer nas dobras do vestido. Estava sem foras, estava perdida.
  Foi ento que uns dedos apertaram fortemente os seus, enquanto a voz de Filipe dizia, muito calma:
  - Sire, que Vossa Majestade me conceda a honra de apresentar-lhe minha mulher, a Marquesa du Plessis-Bellire.
  - Sua mulher, marqus? - disse o rei. - A notcia  surpreendente. Eu j tinha ouvido dizer qualquer coisa a respeito, mas esperava que o senhor mesmo viesse participar-me 
o seu matrimnio.
  - Sire, no me pareceu necessrio informar Vossa Majestade de semelhante bagatela.
  - Bagatela? Um casamento?! Cuidado, marqus, que o Sr. Bossuet no o oua!... E tambm essas damas! Por So Lus, desde quando o conheo, pergunto a mim mesmo, 
s vezes, de que estofo  feito. Sabe que sua discrio para comigo  quase uma insolncia?...
  - Sire, aflige-me saber que Vossa Majestade interprete assim o meu silncio. A coisa tinha to pouca importncia!
  - Cale-se, senhor. Sua inconscincia ultrapassa os limites, e eu no lhe concederei cinco minutos mais para fazer to maus discursos diante dessa encantadora criatura, 
sua mulher. Palavra que vocno passa de um soldado. Senhora, que pensa de seu esposo?
  - Tratarei de acomodar-me - respondeu Anglica, que, durante esse dilogo, havia recuperado alguma cor.
  -  uma mulher razovel. E, alm disso, muito bela. Os dois no combinam muito! Marqus, eu o perdoo por causa de sua bela escolha... e de seus belos olhos. Olhos 
verdes.Uma cor rara, que no tenho tido ocasio de admirar frequentemente. As mulheres que tm olhos verdes so...
  Ele se interrompeu, pensou um instante, sempre examinando com ateno o rosto de Anglica. Depois seu sorriso esvaeceu-se e toda a pessoa do monarca paralisou-se 
como se ele tivesse sido tocado por um raio. Sob os olhos dos cortesos, de incio perplexos, depois assustados, Lus XIV comeou a empalidecer. A ningum escapou 
o fenmeno, pois o rei era de carnao sangunea, e seu cirurgio tinha de sangr-lo frequentemente. Ora, em alguns segundos ele se tornou to branco como os bofes 
de sua camisa, embora nenhum de seus traos se movesse.
  Anglica, perturbada, olhava-o de novo e, malgrado seu, de maneira provocante, como certas crianas culpadas'olham aquele por quem esperam ser castigadas.
  - No  originria do Sul, senhora? - perguntou o rei subitamente. - De Toulouse?
  - No, sire, minha mulher  originria do Poitou - disse imediatamente Filipe. - Seu pai  o Baro de Sanc de Monteloup, cujas terras se acham nos irredores de 
Niort.
  - Oh! Sire, confundir uma natural do Poitou com um dama do Sul! - exclamou Atenas de Montespan, soltando uma gargalhada. - O senhor, sire!...
  A bela Atenas j se sentia bastante segura no valimento do monarca, para no recuar diante de uma audcia desse gnero. O constrangimento logo se dissipou. O 
rei recuperou sua carnao normal. Sempre senhor de si, lanou uma olhada divertida sobre Atenas.
  -  verdade que as filhas do Poitou tm muitos encantos - suspirou ele. - Mas, cuidado, senhora, que o Sr. de Montespan no seja obrigado a medir-se com todos 
os gasces de Versalhes. Estes poderiam querer vingar o insulto feito s suas mulheres.
  - Houve insulto, sire? Teria sido contra a minha inteno. Eu queria dizer somente que, se os encantos das duas raas so iguais em qualidade, todavia no se confundem. 
Que Vossa Majestade perdoe minha humilde observao.
  O sorriso dos grandes olhos azuis mostrava-se contrito, mas era certamente irresistvel.
  -        Eu conheo a Sra. du Plessis h muitos anos - continuou a Sra. de Montespan. - Fomos criadas juntas.-Sua famlia  aparentada com a minha...
  Anglica prometeu a si mesma jamais esquecer o que devia  Sra. de Montespan. Qualquer que fosse o mvel a que tinha obedecido a bela Atenas, esta no tinha deixado 
de salvar sua amiga.
  O rei inclinou-se de novo, com um sorriso apaziguado, diante de Anglica du Plessis.
  -        Muito bem... Versalhes regozija-se de acolh-la, senhora. Seja bem-vinda.
  E acrescentou, mais baixo:
  -        Estamos felizes de tornar a v-la.
  Anglica compreendeu ento que ele a reconhecera, mas que a recebia e queria apagar o passado.
  Pela ltima vez as labaredas de uma fogueira pareciam erguer-se entre eles. Prostrada em uma profunda reverncia, a jovem sentiu uma torrente de lgrimas intumescer-lhe 
as plpebras.
  Graas a Deus, o rei se havia posto em marcha. Ela pde levantar-se, enxugar furtivamente os olhos e lanar um olhar um pouco constrangido na direo d esposo.
  - Como agradecer-lhe, Filipe?...
  - Agradecer-me! - rangeu ele a meia voz, as maxilas cerradas de clera. - Mas era o meu nome que eu tinha a defender do ridculo e da desgraa!... Voc  minha 
mulher, ora essa! Peo-lhe que se lembre disso doravante... Chegar assim a Versalhes! Sem convite! Sem apresentao!... E voc olhava o rei com uma insolncia!... 
Nada pode ento abater seu infernal topete? Devia t-la matado naquela noite.
  - Oh! Eu lhe peo, Filipe, no me estrague este belo dia!
  Seguindo os outros cortesos, eles tinham chegado aos jardins. O azul do cu, misturado ao cristalino dos repuxos, e o brilho do sol refletido na superfcie lisa 
dos dois grandes lagos do primeiro terrao deslumbraram Anglica.
  Ela acreditava caminhar no seio de um paraso, onde tudo era leve e ordenado como no Olimpo.
  Do alto dos degraus que dominavam um lago, em pirmide redonda, ela podia ver o desenho admirvel das grandes rvores em quincunces cercadas pela farndola das 
brancas esttuas de mrmore. Os tabuleiros dos jardins estendiam em derredor, e at o horizonte, suas tapearias cintilantes.
  Anglica, com as mos juntas diante dos lbios, em um gesto de fervor infantil, permaneceu imvel, tomada de um xtase em que o entusiasmo de seus sonhos se confundia 
com uma admirao sincera.
  Ao p dos degraus acabava de parar o coche do rei. Mas, quando este j ia subir para a carruagem, voltou sobre seus passos e
  I  galgou de novo os degraus. Anglica viu-o subitamente ao seu lado. Estava sozinho junto dela, pois, com gesto imperceptvel, ha-i afastado as pessoas que o 
cercavam.
  -        Est admirando Versalhes, senhora? - perguntou ele.
Anglica fez uma reverncia  respondeu com muita graa:
  -        Sire, agradeo a Vossa Majestade o.ter posto tanta beleza sob os olhos de seus sditos. A histria" lhe ser reconhecida por isso.
  Lus XIV permaneceu silencioso um momento, no porque ficasse perturbado pelos louvores, aos quais estava acostumado, mas porque no conseguia, naquele instante, 
exprimir seu pensamento.
  -        Voc  feliz? - perguntou ele, afinal.
  Anglica desviou os olhos e, ao sol e ao vento, pareceu subitamente mais moa, como uma jovem que no houvesse conhecido nem dores nem aflies.
  - Como pode algum no ser feliz em Versalhes? - murmurou ela.
  - Ento no chore majs - disse,o rei. - E d-me o prazer de acompanhar-me no meu passeio. Quero mostrar-lhe o parque.
  Anglica ps sua mo na de Lus XIV. Com ele, desceu os de graus do lago de Latona. Os cortesos inclinavam-se  sua passagem.
  Quando ela se sentou perto de Atenas de Montespan, diante das duas princesas e de Sua Majestade, entreviu o rosto de seu marido.
  Filipe a olhava com uma expresso enigmtica, que no era destituda de sbito interesse. Ele comeava a compreender que havia desposado um verdadeiro fenmeno.
  Anglica teria podido voar, to leve se sentia. O futuro, a seus olhos, era to azul como o horizonte. Ela dizia consigo mesma que seus filhos nunca mais conheceriam 
a misria. Seriam educados na Academia de Montparnasse e tornar-se-iam gentis-homens. Ela prpria seria uma das mulheres mais festejadas da corte.
  E, j que o rei havia expressado esse desejo, ela tentaria apagar de seu corao qualquer trao de amargura. No fundo de si mesma, Anglica bem sabia que o fogo 
do amolem que ela fora consumida, aquele temvel fogo que tambm consumira seu amor, no se extinguiria jamais. Duraria toda a sua vida. La Voisin o tinha dito.
  Mas o destino, que no  injusto, queria que Anglica descansasse, por algum tempo, sobre a colina encantada, a fim de ali recuperar as foras na embriaguez de 
seu xito e no triunfo de sua beleza.
  Amanh ela retomaria o caminho de sua aventurosa existncia. Mas hoje nada mais temia. Estava em Versalhes!
  Anglica tinha motivos de sobra para sentir-se vitoriosa. O casamento com o belssimo primo Filipe du Plessis-Bellire fora a melhor maneira de coroar com uma 
respeitvel posio social afortuna imensa que j possua.
  A entrada triunfal em Versalhes e o consentimento do rei eram a melhor recompensa para tantos anos de trabalho e sacrifcios. Agora ela era a Marquesa du Plessis-Bellire, 
seus filhos voltavam a ter  um nome e nunca mais passariam fome novamente.
  Mas a doce menina dos campos de Monteloup  sabia que ainda teria de enfrentar o rancor do marido. Filipe e a um homem de corao de gelo, de uma brutalidade sem 
igual. Ele no mediria recursos para vingar-se do casamento que a jovem o obrigara a contrair. 
  No entanto, no era o prprio Filipe que considerava sua bela mulher um " fenmeno "? Em Anglica e as Perfdias da Corte, a nossa Marquesa dos Anjos contar com 
um aliado poderoso: o rei em pessoa!
  ANNE E SRGEGOLON
  
  
  OS AUTORES:
  ANNE E SERGE GOLON
  Serge Golonbikoff nasceu em Bukhara (URSS) em 1903 e Simone (Anne) Changeuse, em Toulon (Fiana), em 1928. onheceiam-se e casaram-se na frica, para onde Arme, 
com o dinheiro de um prmio literrio, viajara como jornalista. Serge era uma celebridade na poca: formado em geologia, mineralogia e qumica, cruzara o misterioso 
continente em busca de ouro e diamantes, acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). Atrada por sua fama, Anne resolveu entrevist-lo.
  De volta  Frana, em 1952, j casados, tiveram a idia de escrever uma novela histrica ambientada no sculo XVII: Serge colhendo as informaes no Arquivo de 
Versalhes e Anne exercitando um talento para as letras manifestado j na infncia.
  O sucesso de Anglica, Marquesa dos Anjos, lanado em 1959, foi imediato, animando os autores a produzirem novos volumes. Estes, traduzidos para vrios idiomas 
e transpostos para o cinema, fizeram da herona uma das personagens mais famosas do mundo.
  



1
